A IMERSÃO QUE GERA VIDA

A IMERSÃO QUE GERA VIDA

 

A liturgia do tempo quaresmal obtém uma profundidade nesta total identificação a Cristo quando faz memória do sentido do batismo para todo o cristão. Com isso, as leituras da Samaritana (Jo 4,1-42), do cego de nascença (Jo 9,1-41) e até mesmo da ressurreição de Lázaro (Jo 11,1-44), revelam o itinerário catecumenal e chega à realização plena do mistério pascal, ao passar da antiga culpa a libertação, visto que, “pelo batismo nós fomos sepultados com Ele na morte para que, como Cristo foi Ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova (Rm 6, 4)”.   

A discussão sobre a gênese humana nos remete ao ato criacional de Deus, conferindo ao homem à sua imagem e sua semelhança (Gn 1,26), mas como é descrito no relato sobre a queda (Gn 3), o homem como que se afasta de Deus ingerindo o fruto da morte, e o “funesto veneno tinha produzido seus efeitos contra a vida humana, tornando esta imagem da natureza divina”,[i], semelhante à vaidade. Mas, por pura benevolência de Deus, o Verbo, que antes de tudo já existia e tudo foi criado por meio d’Ele (Jo 1,2-3), ao se Encarnar, “torna-se semelhante aos homens, reconhecendo-se em seu aspecto como um homem” (Fl 2,7), e sendo sacramento vivo do Pai, institui o sacramento do batismo como meio para renovar a natureza humana corrompida.

Sabendo que “Deus não pode comunicar-nos a sua vida sem nos purificar de tudo aquilo que em nós lhe desagrada ou que constituia obstáculo à amizade e à comunhão de vida que Ele deseja instaurar em nós”,[ii], as águas batismais tornaram-se para nós causa de morte em vista de um novo nascimento (Jo 12,24).

 

Fostes imersos três vezes na água e em seguida emergiste (...). E no mesmo instante, morreste e nasceste, e aquela água de salvação tornou-se para vós, ao mesmo tempo sepulcro e mãe (...). Um só tempo produziu ambos os efeitos e o vosso nascimento ocorrem com vossa morte.[iii]

O poder que traz esta água é de tudo dissolver, e de fazer toda forma desintegrar, toda a história de pecado ser abolida. Nada do que existe antes subsiste depois de uma imersão na água, nem perfil, nem sinal, nenhum acontecimento. Portanto, a imersão na água equivale, no plano humano, à morte. Desintegrando todas as formas e abolindo toda a história, as águas possuem o poder de purificar, de regenerar e de fazer renascer.[iv]

Ainda pode ser comparada às águas batismais com as águas do dilúvio que desfaz todos os pecados e onde somente são ressuscitados o espírito e a graça do justo. Desta forma, o dilúvio seria o meio pelo qual o justo é preservado para semear a justiça e fazer morrer o pecado.[v]

Ademais, ser batizado implica para o fiel ser imerso na vida de Jesus Cristo. Ou seja, ele morre com Cristo para com Cristo ressuscitar. Daí inicia-se um itinerário espiritual, pautado no encontro pessoal do batizado com Deus. Da parte do homem, o batismo é um ato livre. À sua regeneração espiritual, diferentemente do seu primeiro nascimento pela necessidade e pela ignorância, ele precisa dar consentimento livre e consciente.[vi]

Após ter aderido à fé livremente e ser batizado, entrando no processo de purificação, o sacramento batismal constitui ontologicamente no homem uma identidade crística,[vii] nos fazendo incorporados em Cristo, assumindo a sua feição como nossa. Destarte o batismo sela o cristão com um sinal espiritual indelével (character) de sua pertença a Cristo.[viii] É um começo absoluto, que nos faz nascer de novo (Jo 3,3-7). O nosso primeiro nascimento dá-nos a vida dos homens. O segundo nascimento dá-nos a vida a Deus.[ix]

Todos os que são batizados, enxertados nele por morte semelhante à de Cristo, juntamente com ele sepultados na morte, são convivificados e conressuscitados com ele. O batismo recorda e realiza o mistério pascal, uma vez que por ele as pessoas passam da morte do pecado para a vida.[x]

Este segundo nascimento confere a pessoa cristã uma dignidade irrevogável, isto é, porque nasceram de Deus, são chamados de filhos de Deus (1 Jo 5,1-2). Assim sendo a graça batismal seria de introduzir o cristão na vida do Filho de Deus. E por meio do Filho unigênito de Deus, nos tornamos filhos por participação (filiii in Filio). Haja vista, “a filiação adotiva não pode ser equiparada à filiação natural do Filho, que é única; ele é o Filho de pleno direito, por natureza; o batizado o é por adoção, por graça”.[xi]

Aqueles que nasceram desta forma são mais filhos de Deus do que seus próprios pais, pois não só foi concedida a graça de ser uma criatura, cujas características são de seu Criador, mas pela Encarnação do Verbo – Filho de Deus – aderindo ao projeto de vida que foi anunciado, sendo batizado, é-lhe comunicada a deidade de Deus. A sua Divina Humanidade é a cifra e o depósito de nossa humanidade divinizada.

O processo de identificação a Cristo se inicia no sacramento do batismo, sendo que por meio deste sacramento o homem recupera a sua amizade com seu Criador.  Deste modo, ao reconhecer-se diante de seu Criador, ao pecador não só é concedido o perdão dos pecados, a reconciliação por Cristo, mas este mesmo sacramento faz emergir de dentro homem a sua verdade essencial, encontrando na Humanidade de Cristo a epifania do novo Adão, onde não mais existe dicotomia entre o Pai e o filho (criatura), pois o Filho deu a conhecer o Pai e fez com que todos se tornassem participantes desta unidade, assim como Ele e o Verbo, Filho Unigênito de Deus, são Um (Jo 17,11).

Contudo, esse processo de identificação a Cristo foi iniciado no sacramento do batismo, atua de forma progressiva e continua na vida do cristão tão somente através do sacramento da reconciliação, que surge como o segundo batismo para o fiel.

A identidade cristã jamais é perdida, mesmo quando se torna uma identidade traída. O perdão que Deus continua a doar ao Cristão não age no vazio, mas na estrutura fundamental da hipóstase que lhe foi dada pelo Batismo e que funciona como base estável sobre a qual ele constrói a sua vida espiritual com os seus ímpetos e suas queda; uma relação, essa, que Deus mesmo busca manter, prometendo distribuir o grande perdão batismal em numerosos atos de indulgência, sempre que o cristão cair no pecado. Justamente por isso, o Batismo não pode ser repetido e a Reconciliação não representa uma sua duplificação.[xii] Aliás, “a penitência reaviva o Batismo; é uma renovada aliança vital com Deus”.[xiii]

Á guisa de conclusão, podemos afirmar que o batismo se manifesta para todo homem como um sacramento da nova e eterna aliança. A antiga aliança que Deus fez com toda a humanidade foi rompida pelo pecado, mas agora, está nova e eterna aliança é realizada através das águas batismais, que emergido três vez nestas águas, é absorvido das inúmeras faltas da vida passada, configurando-se a Pessoa de Cristo. Assim o sacerdote ao exorcizar a criatura que é água, faz-se a invocação e a prece para que a fonte fique santificada e daí esteja à presença da Trindade eterna.[xiv] A partir disso que dizemos que a criatura humana não só simplesmente se batiza na água, mas na Vida Trinitária, sendo que o Verbo tomando a feição de homem conduz toda a humanidade a estas águas. 

Fr. Adailton Borges OFMConv.

 

 

 

 

 

 

 



[i] GREGORIO DE NISSA. A criação do homem; A alma e a ressurreição; A grande catequese. São Paulo-SP: Paulus, 2011, p. 116.  

[ii] SESBOÜE, Bernard. Pensar e viver a fé no terceiro milênio. Convite aos homens e mulheres do nosso tempo.Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1999. Pg.91.

[iii] http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/catequeses_mistagogicas.html

[iv] Sesboüe em seu livro “pensar e viver a fé no terceiro milênio” (Pg.68) traz no capítulo terceiro de seu livro, isto é, sobre “o batismo, fundamento da identidade cristã”, uma citação de Micea Eliade no que diz respeito ao poder que traz água. E eu fiz certa modificação em seu significado, ELIADE, M. Traité d’histoire des religions. Paris: Payot, 1949, p.173.

[v] AMBRÓSIO DE MILÃO. Explicação do símbolo; sobre os sacramentos; sobre os mistérios; sobre a penitência. São Paulo: Paulus, 1996, p. 39.

[vi] OÑATIBIA, IgnacioBatismo e confirmação: Sacramento de iniciação. São Paulo: Paulinas, 2007, p.205.

[vii] Aquele que age segundo os ensinamentos de Jesus Cristo.

[viii] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, & 1272.

[ix] SESBOÜE, 1999, p.65.

[x] Retirado do Sacramentário.

[xi] OÑATIBIA, 2007, p. 228.

[xii] BUSCA, M. A Reconciliação, Irmã do Batismo. Brasília: CNBB, 2009, p.75.

[xiii] CLÍMACO, J. A Escola do paraíso, p.46.

[xiv] Cf. AMBRÓSIO DE MILÃO, 1996, p.35-36.

 

 
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