A MEMÓRIA DE JESUS CRISTO, SUMO E ETERNO SACERDOTE

A MEMÓRIA DE JESUS CRISTO, SUMO E ETERNO SACERDOTE

 

Frei Davi Maria Santos, O.Carm*

“Temos um sumo sacerdote eminente,
que entrou no céu: Jesus, o Filho de Deus” (Hb 4,14)
 

Introdução

            A máxima ambrosiana, “para manifestar os Mistérios de Cristo”, nos apresenta em poucas palavras o que é a ação litúrgica e a beleza da memória de Jesus Cristo Sumo e Eterno Sacerdote. As celebrações litúrgicas no ato de manifestar os Mistérios do Ressuscitado revelam a centralidade da Páscoa, pois “o ano litúrgico não celebra outra realidade que não seja o Mistério Pascal de Cristo” (Guedes, 2019, p. 237). Neste sentido, todas as celebrações contidas no Missal Romano e nos sacramentários são celebrações Pascais. 

            A Liturgia é a grande manifestação da epifania Pascal do Senhor em toda a Sua Igreja. À luz da Páscoa todas as celebrações ganham vida e movimento. A Liturgia por ser ação sacerdotal de Jesus Cristo é movimento e geradora de vida divina em todos aqueles que a celebram. Assim, Jesus Cristo, como Sumo Sacerdote, na sua Palavra e nos sacramentos, está presente no meio dos seres humanos que formam sua Igreja (cf. Flores, 2006, p. 306). De fato, o ano litúrgico é o próprio Cristo presente e atuante em sua Igreja (MD, n. 17). É o lugar abundante para a formação da comunidade cristã, realiza o Mistério de Jesus Ressuscitado, o divino Sumo e Eterno Sacerdote/Mistagogo e o dá a conhecer “per ritus et preces” (SC, n. 48). 

Na beleza da eucologia e na força da Liturgia da Palavra aprofundamos os mistérios de Cristo durante o ano Litúrgico. Nas orações e na Palavra de Deus podemos sentir, tocar e experimentar o Mistério da Trindade Santa. É Cristo Crucificado-Ressuscitado, vivo e presente, que une a si todo homem, na esfera da sua ação sacerdotal, sacrifical e mediadora, que transcende todo espaço e tempo (cf. Bergamini, 1994, p. 164). Portanto, a eucologia da liturgia eucarística e da Liturgia das Horas, na memória de Jesus Cristo, sumo e eterno sacerdote, são para a Igreja uma graça abundante na vivência da vocação batismal de cada fiel. Essa celebração conduz a Igreja a perceber o Filho de Deus Pai como aquele que serve e a necessidade de que todo o serviço eclesial esteja alicerçado em Jesus Cristo, nas suas ações e na Liturgia.

1.     O Ano Litúrgico

A Liturgia da Igreja desenvolveu-se no decorrer dos séculos. Não é exagero reconhecer que não existe um “século de ouro” para ela, mas que, em todos os tempos a atividade litúrgica da Igreja foi enriquecida pelo poder do Espírito Santo. Percebemos momentos de “outono”, de “inverno”, de “verão” e de “primavera” em sua história. Os diversos fatores históricos puderam contribuir para um aperfeiçoamento pastoral e espiritual do que hoje temos tão bem definido. A prova cabal é o próprio desenvolvimento histórico do ano litúrgico ou, como outrora, o ano da Igreja ou “o ano cristão”. Na aurora do Movimento Litúrgico, o Beneditino Dom Próspero Guéranger, trouxe a nomenclatura “ano litúrgico” que perdura até os dias de hoje. 

Durante a reforma conciliar, o ano litúrgico é ainda enriquecido com um novo tempo: o Tempo Comum, que é como uma grande escola de discipulado. Sendo assim, “o ano litúrgico é também resultado da busca, por parte do povo de Deus, de uma resposta ao mistério de Cristo por meio da conversão e da fé, fruto de um itinerário elaborado pela experiência ao longo dos séculos” (Martín, 2022, p. 334). 

O ano litúrgico, partindo da Páscoa, reúne em si todas as celebrações da fé cristã. Dessa maneira, todas as celebrações encontram sentido, razão de existir e serem celebradas na Pascoa. Ela é o núcleo central e o fundamento celebrativo. Assim, o ano litúrgico é uma abundante escola de vida espiritual e fonte de espiritualidade eclesial. “É para nós a possibilidade de crescer na consciência do Mistério de Cristo, mergulhando a nossa vida no Mistério de sua Páscoa, à espera do seu retorno” (DD, n. 64). Por isso, podemos olhar para o ano litúrgico como uma abundante fonte mistagógica, isto é, como uma porta aberta que nos apresenta o Mistério de Jesus Cristo Ressuscitado. Sendo Cristo o Senhor e o Sacerdote Eterno de Deus Pai, Ele é verdadeiro protagonista e mistagogo de todas as celebrações cristãs que se encontram no calendário eclesial.

Encontramos ainda na celebração do ano litúrgico, memórias e festas cristológicas que são uma verdadeira manifestação dos Mistérios de Jesus Cristo. Essas memórias desejam nos formar no discipulado missionário pascal do Senhor. Por conseguinte, “o Mistério de Cristo celebrado deve se tornar fonte de vida para a Igreja” (Augé, 2019, p. 18), em todos os povos e tempos. Dom José Cordeiro afirma ainda que o ano litúrgico é uma autêntica liturgia pois no conjunto dos momentos salvíficos, celebrados de forma ritual pela Igreja, celebramos o mistério de Deus em Cristo (cf. Cordeiro, 2014, p. 102-105). 

            O ano litúrgico possui ainda quatro pilares: cristocêntrico, bíblico, sacramental e pascal. Tais pilares são fonte para a espiritualidade cristã. É cristocêntrico porque o próprio Cristo é o agente principal; é bíblico porque a Palavra de Deus ilumina o percurso; é sacramental por ser sinal-símbolo da graça de Deus na vida da Igreja; é pascal porque restaura a esperança eterna da caminhada cristã. Esses pilares também são encontrados na Liturgia das Horas, pois a liturgia não celebra o mistério somente na Eucaristia, mas na laus perene (louvor perene) da Igreja. Quando os fiéis se reúnem para celebrar a Liturgia das Horas não apenas estão santificando o tempo, mas também manifestando o mistério da comunhão da Igreja espalhada no mundo inteiro. A Liturgia das Horas prolonga a doxologia. 

2.     As Memórias Litúrgico/Cristológicas

            O Concílio Vaticano II resgata na teologia o tríplice múnus de Cristo Jesus, ou seja, as três dimensões da vocação e missão do Senhor (tria munera): a dimensão Sacerdotal (munus sanctificandi), a dimensão Profética (munus docendi) e a dimensão Real (munus regendi). Todos os batizados participam dessa tríplice cristológica. 

Jesus Cristo é aquele que o Pai ungiu com o Espírito Santo e que constituiu “Sacerdote, Profeta e Rei”. O povo de Deus inteiro participa dessas três funções de Cristo e assume as responsabilidades de missão e de serviço que daí decorrem. Ao entrar no povo de Deus pela fé e pelo Batismo, recebe-se participação na vocação única deste povo, em sua vocação sacerdotal: Cristo Senhor, Pontífice tomado dentre os homens, fez do novo povo um reino e sacerdotes para Deus Pai [...]. O povo santo de Deus participa também da função profética de Cristo. [...]. O povo de Deus participa finalmente da função régia de Cristo. Cristo exerce sua realeza atraindo para si todos por sua morte e ressurreição (CIgC &783ss). 

A temática “tria munera” de Cristo remonta aos Padres da Igreja. Eusébio de Cesareia, nos primeiros séculos do cristianismo, afirma que Jesus, o Senhor é o “verdadeiro Cristo, Verbo divino e celeste, único sumo sacerdote universal e rei único de toda a criação, único chefe dos profetas dentre os profetas do Pai” (Cesareia, 2000, p. 40-41). Fulgêncio de Ruspas afirma que mencionar o Sacerdócio do Senhor é colocar em evidência o Mistério da Encarnação, e que, “Cristo, permanecendo na sua condição divina, é o Unigênito de Deus, a quem oferecemos como ao Pai os sacrifícios; ao tomar a condição de servo, tornou-se Sacerdote” (Ruspas, 2015, p. 1367), em nosso favor. 

A “tria munera” de Jesus Cristo, podemos encontrar não apenas no Batismo como também na celebração litúrgica, em especial, nas celebrações das memórias cristológicas que sempre estão ligadas a algum aspecto da vida do Senhor e deste modo revelam a quem celebra; o Seu Sacerdócio que cuida de cada ovelha, instruindo-a e alimentando-a; o Seu Profetismo, comunicando a Verdade de Deus Pai e a Sua Realeza, nos concedendo o dom para que possamos dela participar. 

Na Terceira edição típica do Missal Romano para o Brasil, dentre as diversas memórias que custodia, encontramos ainda as cristológicas, àquelas memórias votivas que dizem respeito a algum aspecto da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo: 

·      A Misericórdia de Deus; (Cf: MR, p. 1133);
·      Nosso Senhor Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote; (Ibid, p. 1134);
·      O Mistério da Santa Cruz; (Ibid, p. 1135);
·      Santíssima Eucaristia; (Ibid, p. 1137);
·      Santíssimo Nome de Jesus; (Ibid, p. 1138); 
·      Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo; (Ibid, p. 1139);
·      Sagrado Coração de Jesus, (Ibid, p. 1140), dentre outras. 

Tais memórias constituem um belíssimo tesouro para a vida de fé do povo sacerdotal. Elas, assim como toda a Liturgia, formam e educam espiritualmente o povo de Deus, por meio do encontro com o próprio Senhor. Como uma prolongação da Páscoa, sua celebração eclesial conduz ao encontro com o Senhor Ressuscitado. 

Cristo está sempre presente na sua Igreja e, de modo especial, nos atos litúrgicos, para levar a cumprimento essa grande obra da salvação, com a qual se dá a Deus uma glória perfeita e com a qual os homens são santificados [...]. Na Liturgia, a história da salvação atinge o seu escopo final, pois nela o Evangelho não só é anunciado, nas também atuado, porque, através dos sacramentos e principalmente da eucaristia, os homens recebem o dom por excelência, o Espírito de adoção que os torna filhos de Deus (Bergamini, 1994, p. 11).

As memórias cristológicas que se encontram no Missal Romano tornam presente na vida Igreja os Mistérios do Cristo Senhor e estes por sua vez animam todo o ano litúrgico, seja o ciclo litúrgico da celebração Eucarística ou da Liturgia das Horas (IGMR, n. 16). Contudo, estejamos atentos para que não nos aconteça que estas memórias sejam reduzidas “a uma contemplação subjetiva da vida de Cristo, limitando-a a um contato moral e imitativo de sua vida e de seus sentimentos” (Martín, 1996, p. 132). Na Liturgia a presença redentora do Senhor não é um mero pensamento ou desejo, ou ainda de uma ideia ou ideologia, mas sim, uma presença verdadeira, autêntica e real. 

            As memórias cristológicas, em especial a de Jesus Cristo Sumo e Eterno Sacerdote, mesmo que venham a ser facultativas, com exceção dos lugares em que são festas, nos revelam Jesus como o Cristo que é sacramento do encontro com Deus Pai para todo o corpo místico, que é a Igreja. Deste modo, podemos redescobrir a mediação universal do Sacerdócio do Senhor que nos põem novamente em contato com o Pai. Sua celebração nos comunica, assim como toda a Liturgia, dois movimentos, um ascendente e outro descendente. No ascendente, por meio de Jesus Cristo e em união com o Espírito Santo falamos ao Pai e lhe apresentamos pão e vinho; no descendente, o Pai vem ao nosso encontro por meio do Filho, no Espírito Santo e nos entrega em Dom, Seu Filho Jesus presentificado na Eucaristia. Pois, nesta memória, está, segundo o dominicano Edward Schillebeeckx, OP, 

A pessoa de Deus humanizada. Nele, Deus se tornou conhecido e acessível aos homens. Cristo é o rosto do Pai no sentido que nos revela a pessoa, os desejos e os planos de Deus. Seus atos, sua vida são as manifestações do amor divino pelos homens, sinais e causa de salvação (1967, p. 32). 

            A celebração litúrgico/cristológica desta memória, deve levar-nos a crer e compreender verdadeiramente que, temos um Deus-Homem que é o Sacerdote do Pai e nosso (Hb 4,14), que nos une a Ele e que, por seu Amor, nos revela a força divina do amor redentor de Deus. 

3.     A memória de Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote

Na celebração litúrgica das memórias cristológicas possuímos duas “classes” de festas que são as estáticas, por serem de origem patrísticas, e dinâmicas, pois foram introduzidas de acordo com a necessidade e as circunstâncias teológicas e devocionais. 

As festas estáticas remontam ao primeiro milênio do cristianismo, em especial aos Padres da Igreja e celebram os eventos históricos da salvação. Uma característica dessas festas é que possuem raiz bíblica, não que as outras não possuam, contudo, nestas, encontramos a citações bíblicas de forma direta, são elas: a Páscoa (Mt, 28, 16-20; Lc 24,33-53; Jo 20,19-21; o Natal (Lc 2,7), o Pentecostes (At 2,1-4), a Epifania (Mt 2,1-12), o Batismo do Senhor (Mt 3,13-17), a Apresentação (Lc 2,22-40) e a Anunciação do Senhor (Lc 1,26-38), entre outras. 

Já as festas dinâmicas ou temáticas foram instituídas ao decorrer do segundo milênio para celebrar aspectos da vida do Senhor, pensamentos teológicos ou ainda devoções, como por exemplo, Corpus Christi, Sagrado Coração de Jesus e Exaltação da Santa Cruz. As festas da Santíssima Trindade e da Transfiguração do Senhor nascem em períodos de transição epocal. A Santíssima Trindade já era celebrada no século VIII e se torna oficializada no século IX. A festa da Transfiguração do Senhor nasce no século V e se torna oficial no século X. Ambas possuem raízes na Patrísticas e na Sagrada Escritura, como é o caso da Transfiguração do Senhor. 

Em 1925, o Papa Pio XI, institui a festa de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, como parte das “festas dinâmicas” que foram surgindo no decorrer do segundo milênio. O Mistério da Realeza de Jesus Cristo pode ser contemplado em outras celebrações cristológicas como, a Ascensão, a Epifania, o Domingo de Ramos, e na memória de Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote. Em 1935, o mesmo pontífice por meio da Encíclica “Ad Catholici Sacerdotii” (Ao Sacerdócio Católico), instituiu a Missa votiva “De Domino Nostro Iesu Christo Summo et Aeterno Sacerdote” (De Nosso Senhor Jesus Cristo Sumo e Eterno Sacerdote), que poderia ser celebrada nas quintas-feiras, juntamente com a Missa votiva a Santíssima Eucaristia. 

A celebração litúrgica de Jesus Cristo Sumo e Eterno Sacerdote é uma memória votiva, por isso não encontramos na edição do Missal Romano para o Brasil uma data específica para sua comemoração, como temos na Espanha, em que é celebrada em grau de festa na quinta feira depois de Pentecostes. 

A fundamentação bíblica do Sacerdócio de Jesus Cristo se encontra na Carta aos Hebreus. Em nenhum outro escrito do Novo Testamento encontramos a beleza de um sacerdócio lido a partir de Jesus Cristo como nesta Carta. Jesus Cristo é o Pontífice que intermedia a comunicação de Deus Pai com sua criatura. Ele é Pontífice porque em sua missão salvífica é plenamente solidário com o homem, reconciliando este com seu Pai e Criador, visto que n’Ele nós nos tornamos filhos adotivos. Segundo Baroffio, OSB, 

Nessa solidariedade com o destino do homem marcado pela morte e nessa plena comunhão de vida com Deus na sua glória imortal, Cristo realiza a tarefa principal do sacerdócio: a mediação entre Deus e o homem. “Estabelecido eternamente perfeito”, oferecendo-se a si mesmo, Cristo apresenta a Deus um sacrifício único, cumprindo de uma só vez e uma vez por todas (1992, p. 1031).

Além dos textos próprios da eucologia desta memória, em alguns prefácios podemos encontrar afirmações a respeito do Sacerdócio de Cristo como também os serviços que emanam deste ministério:

·       Da Páscoa V: revelando-se ao mesmo tempo, sacerdote, altar e cordeiro (Cf. MR, 2023, p. 470);
·      Da Santíssima Eucaristia I: Ele é o verdadeiro e eterno sacerdote (Ibid, p. 486);
·       Da Solenidade de Cristo Rei: Com o óleo de exultação, consagrastes sacerdote eterno e rei do universo vosso Filho único, Jesus Cristo, Senhor nosso (Ibid, p. 426);
·       Da Missa Crismal: Pela unção do Espírito Santo, constituístes vosso Filho unigênito Pontífice da nova e eterna aliança. [...] enriqueceu a Igreja com um sacerdócio real (Ibid, p. 442);
·      Do Sacramento da Ordem: Do Coração do Vosso Filho Jesus Cristo, eterno sacerdote, servo obediente e pastor dos pastores, brotam todos os ministérios (Ibid, p. 491).

Essa Missa possui eucologia própria, com antífona, oração Coleta, sobre as oferendas, antífona de comunhão e o pós Comunhão. As edições dos Missais anteriores à reforma conciliar trazem também as leituras bíblicas desta Missa: Hebreus 5, 1-11; Lucas 4, 18 (salmo gradual) e Lucas 22, 14-20, tal como podemos encontrar no Missale Romanum de 1942 e no Liber Usualis Missae et Oficci de 1962. O prefácio usado era o da Santa Cruz que faz alusão ao sacrifício de Jesus Cristo na Cruz. A reforma Litúrgica de 1962, apresenta essa memória como a Missa da “Santíssima Eucaristia B”, já a terceira edição típica do Missal Romano, restituiu o antigo nome dessa Missa (Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote), mesmo sendo uma Missa Votiva. 

4.     Eucologia da Liturgia Eucarística

A eucologia litúrgica custodia uma verdadeira riqueza para a vida de fé do povo sacerdotal, régio e profético. Por ela, a comunidade celebrativa encontra as palavras certas para celebrar e manifestar os Mistérios de Nosso Senhor Jesus Cristo. As orações e preces litúrgicas não são palavras “secas” e sem vida, antes, muitas dessas orações são testemunhas seculares e até milenares da celebração da Páscoa de Jesus Cristo. 

A eucologia da memória litúrgica de Nosso Senhor Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, é uma dessas orações eclesiais/pascais que formam e educam o povo de Deus na vida espiritual levando-os a ter sempre na mente e no coração que os bens espirituais que possuímos nos são dons de Deus Pai, concedidos por meio do Filho em união com o Espírito Santo. Tendo essa consciência a celebração dessa memória cristológica deve tornar-nos ainda mais homens e mulheres verdadeiramente pascalizados, numa assembleia pascalizadora, visto que,

A assembleia é a manifestação autêntica da Igreja difundida por todo o mundo, é Igreja no sentido verdadeiro e forte. Não é uma porção, nem simplesmente uma representação, mas é a Igreja de Cristo na sua totalidade, embora reunida em um só lugar e em número reduzido. A Igreja se manifesta e se exprime em cada assembleia litúrgica (Messale Quotidiano, 2001, p. 7-8) 

Encontramos ainda em quatro edições[1] do Missal Romano os textos eucológicos dessa memória. Em ambas, as edições percebemos uma pequena e significativa diferença com o acréscimo de algumas palavras. Cada uma dessas edições enriquece ainda mais essa memória, para uma melhor celebração por parte da assembleia sacerdotal dos batizados, sobretudo, a terceira edição típica do Missal Romano. 

O formulário oracional dessa Missa se concentra no “Mistério de Cristo, mediador e pontífice da Nova Aliança por sua oblação [...], que quis escolher e consagrar alguns fiéis como ministros e dispensadores de seus Mistérios” (Martín, 2022, p.406). Assim, essa memória cristológica é um convite para vivermos “plenamente a ação litúrgica e vivenciar a surpresa com o mistério” (Marques, 2023, p.11), que pela fé e unidade eclesial celebramos e manifestamos em nossas vidas. 

Missale Romanum (1942, p.61-62)

Introitus: Jurávit Dóminus, et nin paenitébit eum: Tu es sacérdos in aetérnum secúdum órdinem Melchísech. (T.P.Allelúja, allelúja.) Ps. Ibid., 1 Dixit Dóminus Dómino meo: Sede a dextris meis. Glória Patri, Jurávit.

Oratio: Deus, qui, ad majestátis tuae glóriam et géneris humáni salútem, Ungénitum tuum summum atque aetérnum constituíste Sacerdótem: presta; ut, quos ministros et mysteriórum suórum dispensatóres elégit, in accépto ministério adimpléndo fidéles inveniántur. Per eúmdem Dóminum. 

Secreta: Haec múnera, Dómine, mediátor, noster Jesus Christus tibi reddat, accépta: et nos, una secum, hóstias tibi gratas exhíbeat: Qui tecum.

Praefacio: Sancta Croce.

Communio Hoc Corpus, quod pro vobis tradétur: hic calix novi testaménti est in meo sánguine, dicit Dóminus: hoc fácite, quotiescúmque súmitis, in meam commemoratiónem (T.P. Allelúja).

Postcommunio: Vivíficet nos, quaésumus, Dómine, divina quam obtúlimus et súmpsimus hóstia; ut, perpétua tibi caritáte conjúncti, frunctum, qui sempre máneat, afferámus. Per Dóminum nostrum. 

Missal Romano (1976, p.912)

Antífona de entrada: “O Senhor jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote sempre segundo a ordem de Melquisedec” (Sl 109, 4). 

Coleta: Ó Deus, que constituístes Cristo sumo e eterno sacerdote para vossa glória e salvação dos homens, dai ao povo resgatado por seu sangue participar do memorial que nos deixou, obter a força de sua cruz e a glória da ressurreição. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. 

Sobre as Oferendas: Concedei-nos, ó Deus, a graça de participar constantemente da Eucaristia, pois todas as vezes que celebramos este sacrifício torna-se presente a nossa redenção. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Prefácio: da Eucaristia (1976, p.455-456).  

Antífona de Comunhão: “Este é o corpo que será entregue por vós, e este é o cálice da nova aliança no meu sangue, diz o Senhor. Todas as vezes que os receberdes, fazei-o em minha memória” (1 Cor. 11, 24-25).

Depois da Comunhão: Ó Deus, pela comunhão neste sacrifício oferecido em memória de vosso Filho, fazei que nos tornemos com ele uma oblação perpétua em vossa honra. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. 

Missal Romano (1992, p.943)

Antífona de entrada: “O Senhor jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote sempre segundo a ordem de Melquisedec” (Sl 109, 4).

Coleta: Ó Deus, que constituístes o Cristo sumo e eterno sacerdote para vossa glória e salvação da humanidade, dai ao povo resgatado por seu sangue participar do memorial que nos deixou, obter a força de sua cruz e a glória da ressurreição. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Sobre as Oferendas: Concedei-nos, ó Deus, a graça de participar constantemente da Eucaristia, pois todas as vezes que celebramos este sacrifício torna-se presente a nossa redenção. Por Cristo, nosso Senhor.

Prefácio: Santíssima Eucaristia (MR, 1992, p. 439-441).

Antífona de Comunhão: “Este é o corpo que será entregue por vós, e este é o cálice da nova aliança no meu sangue, diz o Senhor. Todas as vezes que os receberdes, fazei-o em minha memória” (1 Cor. 11, 24-25).

Depois da Comunhão: Ó Deus, pela comunhão neste sacrifício oferecido em memória de vosso Filho, fazei que nos tornemos com ele uma oblação perpétua em vossa honra. Por Cristo, nosso Senhor.

Missal Romano (2023, p.1134)

Antífona de entrada: “O Senhor jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote sempre segundo a ordem de Melquisedec” (Sl 109, 4).

Coleta: Ó Deus, para vossa glória e salvação do gênero humano, quisestes constituir vosso Filho sumo e eterno sacerdote. Concedei que o povo adquirido com seu sangue receba, pela participação neste memorial, os frutos da sua cruz e ressurreição. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus, e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.

Sobre as Oferendas: Concedei-nos, Senhor, a graça de participar dignamente destes mistérios, pois todas as vezes que celebramos a memória deste sacrifício, realiza-se a obra da nossa redenção. Por Cristo, nosso Senhor.

Prefácio: Santíssima Eucaristia (MR, 2023, p.486-487).

Antífona de Comunhão: “Este é o corpo que será entregue por vós, e este é o cálice da nova aliança no meu sangue, diz o Senhor. Todas as vezes que os receberdes, fazei-o em minha memória” (1 Cor. 11, 24-25).

Depois da Comunhão: Senhor, pela participação neste sacrifício que vosso Filho mandou oferecer em sua memória, fazei que nos tornemos com ele uma oblação eterna em vossa honra. Por Cristo, nosso Senhor.

            Esta memória possui ainda uma tripla dimensão em sua celebração. Ela é trinitária, cristológica e eclesial. Trinitária, porque esse Sumo Sacerdote que cuja memória celebramos é o Filho de Deus Pai e como Ele, é também Deus e revela o Espírito Santo; cristológica, pois, “Ele ora por nós e em nós e é invocado por nós: ora por nós como nosso sacerdote, ora em nós por ser nossa cabeça e é invocado por nós como nosso Deus” (Martín, 2022, p. 205) e eclesial, visto que a eucologia litúrgica é sempre o clamor da esposa do Cristo Senhor e porque formarmos um único corpo cuja cabeça é o Senhor.

5.     Eucologia da Liturgia das Horas 

Algumas vezes pode nos acontecer de que tenhamos em mente que a eucologia litúrgica são apenas são orações rezadas na celebração Eucarística ou em algum outro Sacramento, entretanto, a Liturgia das Horas constitui uma abundantíssima fonte eucológica para toda a Igreja. As eucologias litúrgicas, sejam elas, Eucarística ou das Horas, representam plenamente a lex orandi eclesial que nasce da lex credendi isto é, do encontro com Jesus Cristo Ressuscitado dos mortos e elevados aos céus, e deve encontrar plena sintonia na lex agendi/vivendi de cada batizado. Dessa forma, 

A eucologia litúrgica poderia e deveria tornar-se verdadeiramente educadora da oração dos crentes. A oração litúrgica é expressão segura e altamente perfeita de uma resposta possível e ideal à Palavra de Deus que nos interpela e questiona. [...]. Na oração eucológica, o crente toma consciência da sua vida teologal (Augé, 1992, p. 421).

A Liturgia das Horas é uma oração cristã por excelência, sua fundamentação se encontra na Sagrada Escritura e no tesouro da Tradição da Igreja, como também no magistério vivo que a cada tempo a enriquece com a presença da celebração Pascal de novos santos. Deste modo, a prece eucológica da Liturgia das Horas se torna a oração de todo batizado, visto que é uma oração cristã e é inerentemente a oração de Cristo Jesus que nos revela o Pai e o Espírito, no diálogo conosco, na escuta atenta de Sua Palavra e no silêncio orante. “Portanto, quando os fiéis são chamados à Liturgia das Horas, e se reúnem, unindo seus corações e vozes, manifestam a Igreja que celebra o Mistério de Cristo” (IGLH, n 22), pois, 

Cristo nos faz seus membros, vive em nós mediante seu Espírito precisamente enquanto fez nossa a sua oração, e assim nos introduz no mistério da sua relação pessoal com o Pai. [...] A oração do cristão é a oração de um ser humano que foi elevado à ordem sobrenatural e introduzido na família de Deus: filho do Pai em Jesus Cristo (cf. Gl 4,5). A oração cristã é, portanto, essencialmente trinitária, ‘cristiforme’ e filial. Diálogo de Filho com o Pai, por Cristo, no Espírito Santo (Cera, 2001, p. 14-15). 

            Tendo essa consciência e procurando a oração da Liturgia das Horas como a oração do Senhor, que se revela a cada um daqueles que não lhe colocam obstáculos, esta, se transforma num perfeito caminho de amizade com a Trindade que se deixa encontrar em Jesus Cristo. Consequentemente, esta memória litúrgica de Jesus Cristo Sumo e Eterno Sacerdote deseja nos ajudar a compreender melhor que, quem muito ama põe-se a serviço, assim foi a vida d’Ele e deve ser a nossa, para que seja sempre “uma via de descoberta e encontro com o amor” (Santos; Junior, 2024), e para que “a nossa mente concorde com a nossa voz” (Regra de São Bento, 19, 7). 

A eucologia da Liturgia das Horas dessa memória encontramos nos Livros Litúrgicos da Conferência Episcopal Espanhola que a celebra em grau de festa, conforme a aprovação do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, de 22 de agosto de 1973. Não obstante, no Brasil essa memória seja facultativa e não haver na Liturgia das Horas sua eucologia, podemos rezá-la (de forma pessoal) e assim alimentar o espírito. 

·      Laudes (LH, 2012, p.1521):

Hino I

Cantam tua glória, Cristo sacerdote,
os céus e a terra:
a ti que por amor te fizeste homem
e ao Pai como vítima te ofereces.
 
Teu sacrifício nos abriu as portas,
de par em par, do céu;
ante o trono de Deus, é eloquente
teu holocausto na cruz e o teu silêncio. 
 
Todos os sacrifícios dos homens
foram abolidos: 
todos eram figuras que anunciavam 
ao sacerdote eterno, Jesus Cristo. 
Não te basta o morrer, queres dar-nos
alimento de vida:
 dar-te a nós e oferecer-te
sobre o altar: fazer-te eucaristia.
 

Cravado na cruz, nos olhas, te olhamos,
cresce o amor, a entrega.
Ao Pai, no Espírito, contigo,
eleva nosso canto e nossa oferenda. Amém.
 

Hino II

A ti, Jesus, te louvaram as nações,
que a teu reino nos levas,
 e em ti cobra esperança nossa súplica,
único mediador do céu e da terra.
 

Verbo de Deus, por quem tudo foi feito, 
nascido de Maria;
 Tu, a hóstia pura, santa, imaculada,
 que foi digna de se oferecer a Deus.
 

Ungido pelo Pai, Jesus Cristo,
 eterno sacerdote,
 reconcilias ao céu com a terra,
os homens e os anjos te adorem. 
 

Deus de Deus verdadeiro, igual ao Pai,
por nós te ofereces
em sacrifício, e morres por nós
trocando em vida eterna nossa morte.
 

Cravado na cruz, nos olhas, te olhamos,
cresce o amor, a entrega.
Ao Pai, no Espírito, contigo,
eleva nosso canto e nossa oferenda. Amém.
 

1-    Antífona
O Pai, pelo sangue da cruz de Cristo, estabeleceu a paz com todos os seres do céu e da terra.
Salmo 62, 2-9.
 

 

2-    Antífona
Tudo foi criado por Cristo e para Cristo.
Cântico: Dn 3, 57-88. 56.
 
3-    Antífona
Tudo foi posto debaixo de seus pés, e o deu a Igreja, como cabeça, sobretudo; ela é seu corpo. 
Salmo 149. 
 
Leitura breve.
Hb 10, 5-10.
 
Responsório.
Aqui estou, *Para fazer a tua vontade. Aqui estou.
Trago tua lei nas entranhas. *Para fazer a tua vontade.\
Glória ao Pai. Aqui estou. 
 
Cântico Evangélico. Antífona. 
Pai, que todos sejam um, para que o mundo creia que tu me enviaste. 
 
Preces.
No começo desde dia, louvemos a Jesus Cristo, fonte de salvação eterna para todos os homens, e peçamos-lhe com humildade: Senhor, ouvi-nos.
 
Jesus, Filho do Deus Vivo,
- guia-nos até a luz de tua verdade. 
 
Cristo, Palavra de Deus, que estais junto ao Pai desde sempre e para sempre,
- consagra a tua Igreja na unidade.
 
Jesus, ungido pelo Pai com a força do Espírito Santo, 
- consagra a tua Igreja na santidade.
 
Cristo, sumo sacerdote do Noto Testamento,
- comunica aos presbíteros tua santidade, para a glória do Pai.  
 
Cristo, sabedoria de Deus, paz e reconciliação nossa,
- faz que nos mantenhamos todos unanimes e concordes em tua Igreja. 
 
Cristo, sacerdote eterno, glorificar do Pai, 
- faz que saibamos oferecer-nos contigo, para o louvor da glória eterna. 
 
Pai-nosso...

Oração. 
Oh Deus, que para vossa glória e salvação do género humano constituíste vosso Filho único Sumo e Eterno Sacerdote, concede a quem Ele elegeu para ministro e dispensador de seus Mistérios, a graça de ser fiel no cumprimento do ministério recebido. Por Nosso Senhor Jesus Cristo...
 

·      Tércia

Antífona: Por Cristo todos podemos nos aproximar do Pai com um mesmo Espírito.

Leitura breve.
Hb 7, 26-27.
 
Responsório:
Estais alegres quando cumprirdes os padecimentos de Cristo: 
Para que, quando se manifeste sua glória, recebais o gozo. 
 

·      Sexta

Antífona: Estais edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e profetas, e o mesmo Cristo Jesus é a pedra angular.

Leitura breve.
1P 2, 4-5.
 
Responsório:
Já que haveis aceitado a Cristo Jesus, o Senhor, procedei segundo Ele:
Arraigados n’Ele, deixai construir e edificar na fé.
 

·      Noa

Antífona: A cada um de nós foi dada a graça segundo a medida do dom de Cristo, para a edificação de Seu Corpo, que é a Igreja. 

Leitura breve.
1P 2, 9-10.
 
Responsório:
Que a paz de Cristo atue como arbitro em vosso coração:
A ela haveis sido convocados, em um só corpo. 
 

·      Vésperas:

Hino
A ti, sumo e eterno sacerdote
da nova aliança,
se oferecem nossos votos e se elevam
os corações em ação de graças. 
 
Desde o seio do Pai, descestes
à Virgem Mãe;
te fazes pobre, e assim nos enriqueces;
tua obediência, de escravos faz livres.
 
Tu és o Ungido, Jesus Cristo,
o Sacerdote único;
tem seu fim em Ti a lei antiga,
 por Ti a lei da graça vem ao mundo. 
 
Ao derramar teu sangue por nós,
 teu amor compraz ao Pai;
 sendo hóstia de teu sacrifício, 
filhos de Deus e irmãos tu nos faz.
 
Para alcançar a salvação eterna,
 dia a dia se oferece 
teu sacrifício, ainda, junto ao Pai,
 sem cessar por nós intercedes.
 
A ti, Cristo pontífice, a glória
pelos séculos dos séculos;
tu que vives e reinas e te ofereces
ao Pai no amor do Santo Espírito. Amém. 
 
1-    Antífona
O Senhor jurou e não voltará, “tu és sacerdote eternamente”.
Salmo 109, 1-5.7
 
2-    Antífona
Deus, rico em misericórdia, nos fez viver com Cristo.
Salmo 110. 
 
3-    Antífona
Cristo é a imagem do Deus invisível, primogênito de toda criatura.
Cântico: Col 1, 12-20.
 
Leitura breve.
Hb 10, 19-23.
 
Responsório:
Estamos em paz com Deus, *Por meio de Nosso Senhor Jesus. Estamos...
Nos gloriamos, apoiados na esperança de alcançar a glória de Deus. *Por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Glória ao Pai. Estamos. 
 
Cântico Evangélico, Antífona.
 Pai, te peço por eles, que são teus, e por eles eu me consagro, para que também se consagrem eles na Verdade. 
Preces
 Dirijamo-nos, confiantemente a Cristo, nosso Sumo Sacerdote, e apresentemos-lhe nossos desejos e pedidos, dizendo com humildade: Escuta-nos, Senhor, te suplicamos com fé.
 

Cristo, tu que és a Palavra do Pai, 
- põem em nossos lábios o que vamos pedir.
 
Cristo Sacerdote, tu que és o pão da vida,
- faz que os que tu escolhestes vivam o dom de Seu sacerdócio, consumando em ti sua própria oblação. 
 
Cristo glorioso, que vives sempre para interceder diante do Pai em nosso favor, 
- faz que sejamos fiéis na oração por tua Igreja.
 
Cristo Senhor, que foste enviado pelo Pai,
- faz que todos encontrem em te a vida e o caminho do reino.
 
(intenções livres).
 
Cristo, Filho de Deus Vivo, que com tua morte venceste a morte,
- faz que a oblação final de nossos defuntos os leves ao gozo eterno da glória. 
 

Pai-nosso...

Oração. 
Oh Deus, que para vossa glória e salvação do género humano constituíste vosso Filho único Sumo e Eterno Sacerdote, concede a quem Ele elegeu para ministro e dispensador de seus Mistérios, a graça de ser fiel no cumprimento do ministério recebido. Por Nosso Senhor Jesus Cristo...
 

            A Liturgia das Horas, como uma fonte abundante das mais puras e límpidas águas, é a perfeita harmonia da mente com a voz, do corpo com o espírito, do olhar com o falar, do respirar com o proclamar a Palavra de Deus. Disso são testemunhas, em especial os monges, que fazem da Liturgia da Horas, um espaço de adentramento ao Mistério. Segundo Thomassin, “a oração litúrgica é uma fusão de oração vocal e espiritual, uma introdução a esta ignição contínua da oração cordial por meio da Palavra de Deus” (Grün, 2019, p. 13). Portanto, na oração da Liturgia das Horas, podemos realizar a fusão entre a vida espiritual e contemplativa com a vivência diária do nosso batismo em nossos afazeres. É neste sentido que a Liturgia das Horas deseja ser um meio de santificação para todos aqueles que com fé a celebram. 

6.     Ministério Presbiteral e Sacerdócio dos Fiéis

Em Jesus Cristo, se encontram a fonte e origem da vocação cristã, que de acordo como o Espírito Santo é comunicada a cada fiel Seus dons e vocação(es). Uns são chamados ao ministério presbiteral e outros ao sacerdócio comum dos fiéis, embora seja verdade que, aqueles que se sentem chamados ao ministério ordenado primeiro precisam passar pelo sacerdócio comum, isto é, pela vocação batismal que nos confere a “tria munera” do Cristo Senhor: seu Sacerdócio, sua Profecia e sua Realeza, da mesma forma participam deste sacerdócio comum, todos aqueles que se encontram na vida religiosa, seja monástica ou mendicante, para serem um dom de Deus na vida da Igreja. 

Estas duas vocações se unem mutuamente e podemos até dizer que, uma existe para o serviço de Jesus Cristo na outra, visto que, não tem sentido um ministério presbiteral para si próprio e nem um sacerdócio comum que esteja separado do ministério ordenado e consequentemente da vida eclesial. 

Na vida litúrgica da Igreja, podemos contemplar em perfeita sintonia a união do ministério presbiteral e do sacerdócio comum, ambos reunidos em torno da escuta atenta à Palavra e da Eucaristia. A Sacrosanctum Conciliumafirma que, “com razão se considera a Liturgia como o exercício da função sacerdotal de Cristo” (n. 7), função essa que acontece em Seu corpo místico. O ministério ordenado e o sacerdócio comum dos fiéis são também concedidos por meio uma Liturgia: o Batismo e a Ordenação, visto que, o sujeito da Ação Litúrgica é toda a Igreja. 

            Celebrar a memória litúrgico/cristológica de Jesus Cristo Sumo e Eterno Sacerdote é redescobrir mais uma vez que ambas as vocações nascem do Coração do Senhor. Ele, por Sua Páscoa nos faz renascer para o alto e a celebração desta memória nos ajuda a nascer da Páscoa, como fons (fonte) da vida espiritual e para a Páscoa, como culmen (cume) da vida cristã, assim celebrando como membros do corpo místico, por meio da Eucaristia e todos os demais sacramentos, poderemos descobrir a meta da ação da Igreja (SC, n. 10) e o ponto de chegada da progressiva incorporação a Cristo Jesus que, todos os batizados são chamados. 

Tratando-se, pois, do mesmo e único Sacerdócio de Jesus Cristo, o Filho de Deus Pai, que age na vida eclesial, “embora nesta perspectiva sob uma dupla dimensão, correspondendo à diferente vinculação que os fiéis têm em relação a Jesus Cristo” (Martín, 1996, p. 70). De fato, os fiéis, pela vocação batismal estão unidos a Ele como membros de Seu corpo; já os ministros ordenados, estão pela Sagrada Ordenação (imposição de mãos e prece) especialmente associados à função da Cabeça.  

            Ministério presbiteral e sacerdócio batismal, comum à toda à Igreja, formam e animam mediante a abertura ao Espírito Santo a atividade e missão eclesial. O ministério presbiteral torna presente a economia da salvação, Jesus Cristo, na ação litúrgica e o sacerdócio batismal dos fiéis, forma o corpo místico do Senhor. A economia da salvação, ou seja, os gestos de Cristo Jesus acontecem na Liturgia para o bem e salvação do corpo místico, visto que, “a Liturgia torna-se nossa quando a celebramos [...]. A Liturgia concebe, molda e gera o Corpo de Cristo total” (Corbon, 2017, p. 87) e o mesmo corpo que é agente ativo é chamado a fazer viva as ações do Senhor. Neste ponto, o Concílio Vaticano II, afirma, que, 

O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico ordenam-se um ao outro, embora se diferenciem na essência e não apenas em grau. Pois, ambos participam, cada qual a seu modo, do único sacerdócio de Cristo. Com efeito, o sacerdote ministerial, pelo seu poder sagrado, forma e conduz o povo sacerdotal, realiza o sacrifício eucarístico fazendo as vezes de Cristo e oferece-o a Deus em nome de todo o povo (LG 10).

O ministério presbiteral e o sacerdócio comum dos fiéis, para serem realmente eclesiais e fecundos necessitam estar inseridos na caminhada da Igreja, não apenas num cumprir das obrigações, antes, numa abertura dócil ao Espírito Santo que tudo realiza mediante a abertura interior, por meio da lex orandi eclesial. Esta memória possui, uma forte característica comunicativa para ambas as vocações: presbiteral e laical, revelando à Igreja, pela lex credendi, corpo sacerdotal, profético e régio do Senhor que a vida de todos os batizados deve ser uma epifania da Páscoa, pois, “a Liturgia, como realização do Mistério Pascal de Cristo, encontra a própria razão de ser e o modo de agir como consequência da presença de Cristo nas ações litúrgicas” (Flores, 2006, p. 306), e na lex agendi/vivendi, isto é, na vivência ética do Batismo. 

Conclusão

            A memória cristológica de Jesus Cristo Sumo e Eterno Sacerdote é uma dentre muitas outras riquezas custodiadas pelo Missal Romano que, em sua terceira edição restitui-lhe o nome com a qual foi instituída pelo Papa Pio XI. A Coleta desta Missa nos traz as palavras: Cruz e Ressurreição, para nos mostrar que, o divino Sacerdote Jesus Cristo, conosco passa pela cruz para conduzir Seu rebanho as alegrias da Ressurreição, exercendo deste modo, seu Sacerdócio, gerando vida; sua Profecia, instruindo os Seus e Sua Realeza, conduzindo a Igreja à comunhão eterna. 

            Celebrar Jesus Cristo, como Sumo e Eterno Sacerdote, constitui um caminho seguro para a comunidade sacerdotal (ré)-descobrir-se em Cristo e por Ele, na Trindade, isso pelo fato de que, toda a Liturgia, em especial esta memória, revela o Mistério da Igreja que se dá a acontecer na comunhão do Ressuscitado com o povo eclesial, por isso, a Liturgia que é ação do Senhor é um lugar teológico onde continua a desenvolver-se a história da Salvação que abraça toda a humanidade. 

Esse Sumo e Eterno Sacerdote é quem revela ao mundo a imagem do Pai, e por meio da imersão nas águas batismais somos, todos, inseridos em Seu Mistério para sermos sacerdotes que o louvam e fazem da vida e dos atos umlouvor de glória, profetas que anunciam, mas que antes procuram viver o que pregam e reis, assemelhando-nos a Ele, que sendo Rei procurou ser servo e entregou a vida por todos. 

A Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote a honra e a glória,
pelos séculos dos séculos, amém.
 

Referências 

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AUGÉ, Matias. Ano Litúrgico. É o próprio Cristo presente na sua Igreja. São Paulo: Paulinas, 2019.

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BERGAMINI, Augusto. Cristo, Festa da Igreja. O Ano Litúrgico. São Paulo: Paulinas, 1994.

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CORBON, Jean. A Fonte da Liturgia. Prior Velho, Portugal: Paulinas, 2017.

FLORES, Juan Javier. Introdução à Teologia Litúrgica. Trad: Antonio Efro Feltrin. São Paulo: Paulinas, 2006.

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GUEDES, Monsenhor João Alves. A Centralidade do Mistério Pascal nas Celebrações Litúrgicas. Curitiba: Intersaberes, 2019.

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