A musicalidade do indivíduo: construtora da expressão no culto

A musicalidade do indivíduo: construtora da expressão no culto

Anderson Cata Prêta

andersoncatapreta@yahoo.com.br

 

 

INTRODUÇÃO

A proposta desse texto é provocar no leitor a necessidade de refletir como estamos utilizando a música em nossos espaços religiosos, o que possibilita e favorece a musicalidade do ser humano e sua cultura (SC 119). Iniciando com a compreensão essencial da música no indivíduo, que observe pontos importantes e que indicam a influência da música na pessoa, passaremos por uma breve e pontuada contextualização para o tempo presente à luz do Concílio Vaticano II e a interpretação do Papa Francisco. Depois teremos a problemática questão de encontrar relação em aspectos de decisão do indivíduo, quando ele escolhe comparecer a missa. Por fim, buscaremos na Sagrada Escritura, a lâmpada para nossos pés e luz para nossos caminhos, ao perceber se tal relação enfatiza uma solução. Tal dinâmica trará a necessidade de observar as tipologias do espaço, do corpo, da cultura, da música, do rito, da sagrada escritura e do texto litúrgico, que convergem para a metodologia da diatipologospraxia (CATA PRÊTA, 2022ª). Com a verificação desses apontamentos, teremos ao menos um ponto de partida considerável para analisar os métodos pelos quais são propostos os repertórios para as realidades brasileiras, como também as metodologias formativas.

1. A MÚSICA E O INDIVÍDUO

Nossa reflexão pleita, como primeiro passo, compreender ou, ao menos, codificar o significado de musicalidade. Existem diversas interpretações sobre o assunto, porém são convergentes no objeto de encontro: o indivíduo em relação e a sua expressão estimulada através das propriedades da música “procura reproduzir através dos sons o quadro completo da vida”. (ABBAGNANO, 1989, p. 267). Pois bem, a partir disso pontuemos um fator que deve ser considerado, que o simples ato de ouvir música ativa as estruturas subcorticais, córtex auditivos de ambos os lados do cérebro e centro da memória (LEVITIN, 2021, p.88). Evidentemente que está relacionado todo processo cognitivo e processual do ser humano, assim como os seus sensoriais e sua exposição a música.

Criados a imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-28), e embora distintos entre nós, todavia congênere de corpo, alma e espírito (ITs 5,23), o ser humano que é relacional e processual, possui evidências e comprovações científicas no que se refere ao liame com a música. A relação indivíduo e música é contemplada em todas as culturas, religiões (inclusive na nossa religião católica (ALDAZÁBAL, 2007, p.60) e períodos históricos da humanidade. É a linguagem universal, mãe de todas as artes, comunicação dos povos e entre nações (ABBAGNANO, 1989, p.266). A música é um fator congregacional indispensável. 

Nós possuímos uma identidade sonora, que é formada por tudo aquilo que está a nossa volta, na nossa existência e temos a oportunidade de acesso (ZIMBALDO, 2015, p. 217). Dado também teologicamente que a observação do objeto estético necessita verificação primária no indivíduo por sua experiência sensorial, para conseguinte justificação social ou cultural (TAMAYO, 2009, p.190).

Essa música de que nos alimentamos é a música com que vamos nos expressar. É a maneira como vamos propor relação, uma vez que a música não passa sem deixar a sua marca e modifica algo em nós. E esta relação que a música faz na construção da identidade e relações do indivíduo se assemelha com o que acontece na vivência ritual: “os rituais desempenham também uma clara função de comunicação entre os participantes da celebração e de todos eles com a sociedade na qual vivem” (TAMAYO, 2009, p.140).

Todavia, o perigoso terreno do gosto pessoal, justificado como arte e beleza, a partir do ponto de vista singular, contrasta quando dialoga no espaço da beleza divina. Logo, se faz a pretensão de um esclarecimento que

somente a fé possibilita e, por conseguinte, trata-se de exercício estritamente teológico. É, então, somente pela fé que se poderá verificar essa iluminação, realmente estética, do Cristo crucificado e glorificado, e dos demais seres humanos, enquanto participantes da graça cristã” (TAMAYO, 2009, p.194).

Destarte que, a escolha de um repertório se faz necessária com envolvimento e apontamento de forma coletiva, ao menos para diminuir o risco de subjetividade.

2. A ABERTURA E FOCO DA PARTICIPAÇÃO PÓS CONCÍLIO VATICANO II

Celebrar, principalmente quando falamos na liturgia nas últimas seis décadas (ALDAZABAL, 2007, p.64), reivindica envolvimento de pessoas, possui conotação de constância e frequência em perspectiva festiva, em concordância e constante movimento de encontro comunitário com sentido específico de “Cristo, que é a cabeça, e o seu corpo, que são ministros e os cristãos leigos e leigas [...] não há uma concentração de poder que leve a comunhão, mas o encontro-comunhão origina-se do serviço ministerial da fé dos irmãos e à vida da comunidade” (MARQUES, 2022 p. 92).  É no Concílio que temos o cume do processo que supera o superficial da sociedade líquida e alcança soluções substanciais.

Voltemos as origens: viver em comunidade, no início do cristianismo acontece como convivência oracional. Na comunidade dos primeiros cristãos se constitui as orações, termo que no plural se refere as liturgias de tradição judaica, que também pelo uso da música desde os salmos, hinos e cânticos espirituais, colaboram para a formação da comunidade “genuinamente cristã” (TAMAYO, 2009, p.84).

Papa Francisco traduz em nosso hodierno período de que a música precisa estar em comunicação do que há de atual:

é necessário fazer com que a música sacra e o canto litúrgico sejam plenamente inculturados nas linguagens artísticas e musicais da atualidade; ou que saibam encarnar e traduzir a Palavra de Deus em cânticos, sons e harmonias que façam vibrar o coração dos nossos contemporâneos, criando inclusive um oportuno clima emotivo, que predisponha para a fé e suscite o acolhimento e a plena participação no Mistério que se celebra (FRANCISCO, 2017).

No pontificado de Francisco, a liturgia tem o foco na participação do povo de Deus (MARQUES, 2023). E isso não se trata de uma novidade, mas um resgate de identidade: os cristãos na busca da vivência do que se propôs o Concílio, apelam para o ideal da Igreja primitiva. A reforma litúrgica provoca essa vivência: “a comunidade tem liturgia própria, quer dizer, celebra com ritmo semanal a eucaristia ou, na ausência de presbítero, a palavra e o ágape” (TAMAYO, 2009, p.85-86). 

3. A MÚSICA, A RELIGIÃO, O CULTO E OS BATIZADOS.

Que música é parte integrante e necessária (SC 112), nem deveria ser necessário descortinar, considerando ser algo já compreendido pelo leitor. Todavia, devo ressaltar que a expressão da participação da assembleia, ordena do Concílio, possui significação teológica a fim de evitar meros espectadores (SC 48). É estimulada com música, conforme encontramos na Instrução Geral do Missal Romano: “deve se zelar para que não falte o canto dos ministros e do povo nas celebrações de domingo”. Dado que “o canto fomenta a unidade e exprime os sentimentos comunitários: pode-se dizer que o canto faz comunidade.” (ALDAZÁBAL, 2007, p.60). Porém, infelizmente ainda encontramos algumas falas considerando a música como simples adorno e, portanto, facilmente suprida e poucas ações para a vivência desta orientação.

Esse, entretanto, não é o único desafio manifesto em nossas igrejas. Percebemos um conflito sobe o sentido de celebrar, se reunir, cultuar. Ao considerar o culto como evento relacional, necessitamos observar que os elementos utilizados serão equalizados por uma linguagem específica:

O homem que aceita e crê na Palavra de Deus exprime necessariamente sua fé numa linguagem, que é muito mais do que uma simples língua: é uma mentalidade, uma cultura, uma sensibilidade e uma perspectiva e, no fim, uma síntese unitária e uma teologia (BIFFI, 2022, p.60)

Temos então um conflito que possui tensões adicionais com o convívio de diversas gerações, o processo evolutivo de linguagem e o cuidado para não deixar as referências constituídas de toda uma história milenar com o discurso que agora é tudo novo. Diante de uma realidade crítica das religiões, em seu aspecto mais visível, se é entendida apenas por obrigação por muitos cristãos, se faz necessária a observação do sentido pelo qual nos reunimos. Partimos da significação fundamental: “a experiência profunda que se expressa no ritual eucarístico. E essa experiência não é outra senão a união das pessoas no amor” (TAMAYO, 2009, p.204). 

O culto, aquilo que se venera e cultiva, se dá por excelência com o caráter festivo, e, com essa primícia, questiono o leitor: Como pode existir uma festa sem música? Até poderia acontecer, mas a reprovação dos presentes, assim como a diminuição do interesse de envolvimento gerando a vontade de se retirar do local, seria inevitável. Todavia, não está o indivíduo como centro na celebração da missa, mas deve se orientar para que a relação com o sagrado promova a interação dos indivíduos:

As grandes culturas que atravessaram os séculos formam mais que uma antropologia; elas foram também uma teologia, que estabilizava sua “grande e complexa parceria”, através das ondas culturais que o movimentaram a história desses povos. É adequado e necessário à nossa natureza que o princípio de transcendência, concretizado em uma religião de consistência, contextualize a maturação de nossas vidas pessoais, bem como ajude a integridade do tecido social, direcione a cultura e a cidadania (XAVIER JÚNIOR, 2004, p.170).

Tal apontamento, do saudoso monsenhor, é claramente percebido como experiências comunitárias dos cristãos nos Atos dos Apóstolos. Como também é um ponto claro e evidente desde a filosofia antiga em Platão, passando pela religiosidade como busca da relação com Deus em Bach e Beethoven e tanto outros.

Portanto, unificar os quatro elementos citados no subtítulo não é um absurdo, mas exige o resgate e um olhar atencioso para a realidade com a intenção de promover a musicalidade local e não a suprir com uma imposição que com subterfúgio se propõe com agrupamentos de repertório feitos por perspectivas e experiências totalmente distintas. Tal prática, de promover a musicalidade, não é distante de nossa natureza, e sim algo palpável e possível, pois “em quase todo o mundo, e ao longo da maior parte da história humana, fazer música é uma atividade tão natural quanto respirar e caminhar, da qual todos participam” (LEVITIN, 2021, p.12).

4. O PERIGO DA IMPOSIÇÃO MUSICAL – SALMO 137 (136)

Devemos elencar argumentos precisos e diretos para que a crítica não se esbarre em um achismo ou gosto pessoal. Como sabemos “as comunidades cristãs não são iguais. Existem modelos eclesiais diferentes [...] colocar-se em relevo a primazia da experiência” (TAMAYO, 2009, p.86) que presume recordar e avaliar “a pluralidade dos níveis ou das exigências das comunidades” (BIFFI, 2022, p. 59). 

Assim, chegamos à tipologia Bíblica, e tomaremos por material de pesquisa o salmo citado no subtítulo deste capítulo. Como bem podemos encontrar em diversos comentários, manuais e análises, temos o salmo dividido em três situações (BORTOLINI, 2000, p. 566). E todas elas, são riquíssimas para verificarmos a ação musical na história do indivíduo, na solidificação do grupo e na sua reação impulsionada por sua musicalidade. Caminhemos!

Nos primeiros versículos a contextualização da situação do exílio, e a evidência da importância da localidade, sinal de identidade: “como cantar os cânticos do Senhor em terra estrangeira?” (Sl 137,4). Entendemos que na realidade e na convivência além da musicalidade, existe convivência, relacionamento, história e comunhão. 

Na segunda parte, a razão e o que acontece também quando as músicas são postas como outras identidades relacionais: mutilação das relações e incapacidade da expressão. E por fim a terceira parte da expressão, “em vez de cantar um hino de Sião em terra estrangeira, os exilados cantam maldições contra Babilônia” (BORTOLINI, 2000, p.567). Não são mais os louvores que saem de nossa boca, mas as dores presentes em uma assembleia muda que se esforça para competir com a usurpação da participação em torno do microfone.

Desta maneira a imposição velada na desculpa pastoralista de subsidiar ou amenizar possíveis situações desconfortáveis na celebração, é um impedimento a ação saudável que a música causa nos indivíduos. Sendo natural o movimento de fazer música, estimulá-lo como também ter a música de linguagem própria, sendo cantada e tocada, que já foi um obstáculo quando não tínhamos essa abertura de inculturação para participação, é “mobilizar todas as áreas do cérebro até hoje identificadas, envolvendo quase todos os subsistemas neurais” (LEVITIN, 2021, p.15). Assim sendo, uma questão de saúde e cuidado!

 CONCLUSÃO

A presente reflexão, provocada pelo aumento significativo de atividades que concentram em um grupo pequeno a musicalidade de localidades diversas e com distâncias quilométricas, seja por aplicativos, sites, folhetos ou outros meios de comunicação, verifica o quanto se perde como identidade, autenticidade e objetivo nas celebrações quando não se desenvolve a musicalidade dos indivíduos que compõe a comunidade, os dialogantes do culto. Sem considerar as possibilidades de iatrogenia, que podem ser inúmeras.

Urge a necessidade de um olhar além da rubrica para as ações litúrgicas. O diálogo entre as tipologias do espaço litúrgico, do rito, bíblica, do corpo, da cultura, do texto e da música que resultam em uma diatipologospraxia, é imprescindível quando se tem objetivo de celebrar bem. Isso se dará com a cultura do formar pela liturgia e para a liturgia (DAVI MARIA, 2023).  

Cantemos, celebremos na linguagem comum de famílias que se encontram, se expressam, compartilham a vida e se comunicam em um relacionamento profícuo por Cristo, com Cristo e em Cristo.

 

 

 

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ABBAGNANO, Nicola. A sabedoria da vida: cada dia à procura da felicidade. 12a. ed. Rio de Janeiro: Petrópolis, 1989.

ALDAZÁBAL, José. Dicionário Elementar de Liturgia. 1a. Ed. São Paulo: Paulinas, 2007.

BÍBLIA. Português. In: Bíblia Sagrada: antigo e novo testamento. Tradução: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. São Paulo: Paulus, 2001.

BIFFI, Inos. Liturgia, sacramentos e festas. 1. Ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2022.  

BORTOLINI, José. Conhecer e rezar os salmos: comentário popular para nossos dias. São Paulo: Paulus, 2000.

CATA PRETA, Anderson. A existência do diálogo com música no rito romano celebrado no Brasil. Formação Caminho, 2022a. Disponível em: https://formacaocaminho.com.br/a-existencia-do-dialogo-com-musica-no-rito-catolico-romano-celebrado-no-brasil/>. Acesso em 19 de Maio de 2023.

______. Estão calando a voz do povo: o uso exacerbado do microfone na liturgia. Formação Caminho, 2022b. Disponível em: < https://formacaocaminho.com.br/estao-calando-a-voz-do-povo-o-uso-exacerbado-do-microfone-na-liturgia/>. Acesso em: 19 de Maio de 2023.

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Constituição SACROSSACTUM CONCILIUM sobre a liturgia. São Paulo: Paulinas, 2002.

FRANCISCO, Papa. Discurso do Papa Francisco aos participantes no congresso internacional de música sacra. Vatican, 2023. Disponível em: < https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2017/march/documents/papa-francesco_20170304_convegno-musica-sacra.html>. Acesso em: 19 de Maio de 2023.

LEVITIN, Daniel J. A música no seu cérebro: A ciência de uma obsessão humana. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2021.

MARIA, Davi. Formados pela liturgia e para a liturgia. ASLI, 2023. Disponível em: < https://www.asli.com.br/artigos/formados-pela-liturgia-e-para-a-liturgia>. Acesso em: 19 de Maio de 2023.

MARQUES, Luís Felipe. Atualização Litúrgica 5. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2022.

______. O espírito da liturgia em Papa Francisco. ASLI, 2023. Disponível em: < https://www.asli.com.br/artigos/o-espirito-da-liturgia-em-papa-francisco>. Acesso em: 19 de Maio de 2023.

TAMAYO, Juan José. Novo Dicionário de Teologia. 1a. ed. São Paulo: Paulus, 2009.

XAVIER JÚNIOR, Joaquim Ferreira. A psicogenética: demarcando os processos da vida. 1. Ed. Tremembé: VespeR Editora, 2004.

ZIMBALDO, Ariel. Musicoterapia: Perspectivas Teóricas. Buenos Aires: Paídós, 2015.

 

Musicoterapeuta, especialista em práticas musicais para espaços religiosos, psicopedagogo e licenciado em música.

 
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