A Oração Coleta do XXXIV Domingo do Tempo Comum

A Oração Coleta do XXXIV Domingo do Tempo Comum

 

     Segundo o Calendário Romano, no XXIV domingo do Tempo Comum (TC) celebramos a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, rei do universo[1], uma das quatro Solenidade do Senhor do TC, com formulário e Lecionário próprios, como é característico de toda solenidade. Todavia, para os dias ferias da XXXIV semana o Missal Romano (MR) apresenta um formulário completo.

     De onde vem a Coleta do formulário para a XXXIV semana do Tempo per annum? Apresentaremos as fontes da Oração Coleta dessa semana fazendo o caminho de pesquisa sobre os livros litúrgicos de modo retroativo. Partiremos da última edição do MR para chegarmos ao primo livro litúrgico onde se encontra tal oração. Procuraremos depois deste percurso tecer um pequeno comentário sobre o possível redator desta oração e do seu contexto litúrgico.

 

O texto

 

     O MR na sua terceira edição típica para o Brasil (2023)[2], que já está presente em todo o território nacional, apresenta a seguinte tradução: 

 

Levantai, Senhor, nós vos pedimos, o ânimo dos vossos fiéis, para que, fazendo frutificar com solicitude a obra da salvação, recebam maiores auxílios de vossa paternal bondade. 

 

O texto latino da coleta no MR editio typica tertia (MR3) 2008[3] se apresenta da seguinte forma:

 

Excita, quaesumus, Domine, tuorum fidelium voluntates, ut, divini operis fructum propensius exsequentes, pietatis tuae remedia maiora percipiant. [MR3 1125]

 

Não tendo passado por nenhuma espécie de reformulação, essa oração se apresenta da mesma forma como foi recebida do MR3 2002 (p. 484); que, por sua vez, tinha sido recebida pelo MR editio typica altera 1975[4] (p. 373); que a recebera do MR editio typica de 1970 (p. 373)[5], do qual foi traduzido para o Brasil da seguinte forma, no MRbr 1973/1993:

 

Levantai, ó Deus, o ânimo dos vossos filhos [e filhas], para que, aproveitando melhor as vossas graças, obtenham de vossa paternal bondade mais poderosos auxílios[6].

 

            Apresentamos, com o escopo de estudo uma tradução mais literal:

 

Suscita (desperta), te pedimos Senhor, a vontade (propósito, intenção) dos teus fieis, para que perseguindo de modo propício o fruto da ação divina, recebam (obtenham) maiores remédios (auxílios) da tua piedade (amor).

 

Fontes

 

A oração se encontra na monumental obra de P. Bruylants, Les Oraisons du Missel Romain 584[7], no Corpus Orationum 2555[8] e Missal Ambrosiano de 1974.

Nos Missais que antecederam a restauração litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II: No MR[9] de 1962 n. 1770 sob o título Dominica XXIV post Pentecosten; No MR de 1570[10] n. 2163 sob o título Dominica XXIV post Pentecostene no MR de 1474[11] n. 1600 sob o mesmo título.

Nos livros litúrgicos anteriores à reforma litúrgica tridentina: No Suplemento do Sacramentarium Tridentinum[12] n. 1151, com o título XXXIIII. Dominica VIII post sancti Angeli; No Suplemento de Bento de Aniane ao Sacramentário Gregoriano[13] n. 1198: XLI. Dominica XXIIII post Pentecosten; No Sacramentário Engolismensis[14] n. 1487: CCLXXXIIII. Ebdomada XXVII post Pentecosten; No Liber Sacramentorum Augustodinensis[15] n. 1023: CCLXX. Ebdomada XXVI post Pentecosten; Nos manuscritos de S. Galo[16] n. 1334: 252. Ebdomada XXVII post Pentecosten; no Sacramentário Gellonense n. 1621: Ebd[omada] XXVI p[ost] Pentecosten; No Sacramentário Gregoriano Adrianeu[17] n. 894: 202. [Incipiunt orationes cottidianas]. Alia; no Sacramentário Paduense n. 784: CLXXXVI. Dominica VIII post sancti Angeli.

 

História

 

Esta oração, como se pode ver, é de proveniência romana antiga, encontrando-se já no Sacramentário Paduense e no Adrianeu, sacramentário de tipo papal, do VIII século. No Paduense, um sacramentário de tipo Gregoriano (papal), adaptado para uso presbiteral em torno de 659-683, a oração já aparece como uma Coleta dominical, enquanto que no Adrianeu, aparece entre as “orações cotidianas”. Alguns estudiosos viram paralelos literários entre essa Coleta e os escritos de São Gregório Magno, o que pode sugerir ser ele o seu autor. A frase inicial “Suscita (desperta) a vontade (propósito, intenção) dos teus fieis (Excita tuorum fidelium voluntates)” foi retirada do tratado “Sobre a predestinação e a graça de Deus”, de Fulgêncio de Ruspe ( 533)[18].

Para além dos sacramentários Gelasianos do VIII século (Gellonense, Engolismense e Augustodinense), esta oração foi acolhida nos livros francos-romanos no curso do século VIII, quando Bento de Aniane ( 821), o compilador da Supplementum ao Sacramentário Gregoriano Adrianeu, trabalhando em torno dos anos 810-815, a adotou, garantindo o seu sucesso e “sobrevivência”. Do Suplemento, ela passou para o depósito eucológico comum da liturgia medieval do Ocidente como Coleta dominical e daí, a partir do primeiro Missal impresso de 1474, para a tradição dos Missais romanos impressos, como Coleta do XXIV domingo depois de Pentecostes, domingo que concluía o Ano Litúrgico, até a edição do MR de 1962. Os que trabalharam na atualização do MR de 1970 a incorporaram de maneira inalterada no chamado “Missal de Paulo VI”.

 

Estilo literário

 

Trata-se de uma das mais breves Coletas do Tempo Comum, 17 palavras (em português, 25), onde, estilisticamente os genitivos (complementos restritivos) precedem os substantivos:   

 

Excita, quaesumus, Domine, tuorum fideliumvoluntates, ut, divini operis fructumpropensius exsequentes, pietatis tuae remediamaiora percipiant.

 

 

Suscita (desperta), te pedimos, Senhor, a vontade (propósito, intenção) dos teus fieis, para que perseguindo de modo propício o fruto da ação divina, recebam (obtenham) maiores remédios[auxílios] da tua piedade (amor).

 

Estrutura literária teológica

 

            A prece, completamente desprovida de uma parte anamnética, começa com um imperativo (excita – Suscita [desperta]), que inclui a invocação simples (Senhor) dentro da primeira epiclese (Suscita [desperta] a vontade [propósito, intenção] dos teus fieis) seguida da cláusula adverbial (ut – para que) estreitamente unida à segunda epiclese (recebam [obtenham] maiores remédios [auxílios] da tua piedade [amor]). Certamente a referência aos “remédios” provindos do amor de Deus, diz respeito aos sacramentos cristãos, expressão particular da terapia sanadora e restauradora do Médico divino, médico nosso do corpo e da alma.

             A presente oração apresenta um forte caráter pragmático à conclusão do Ano Litúrgico, quase como que querendo estimular a Igreja a preparar-se com grande empenho para receber o novo Ano que bate à porta. De fato, o mesmo impulso na direção da fidelidade a Cristo e ao seu Evangelho, encontra-se na Coleta do Primeiro Domingo do Advento, que pode ser lida paralelamente com a Coleta da última semana do Tempo Comum:

 

Suscita (desperta), te pedimos Senhor, a vontade (propósito, intenção) dos teus fieis, para que perseguindo de modo propício o fruto da ação divina, recebam (obtenham) maiores remédios (auxílios) da tua piedade (amor).

 

Concedei a vossos fieis, ó Deus todo-poderoso, o ardente desejo de possuir o reino celeste, para que, acorrendo com as nossas boas obras ao encontro do Cristo que vem, sejamos reunidos à sua direita na comunidade dos justos.

 

            Ambas começando com o imperativo, sem uma evidente seção anamnética, têm um paralelo nas duas epicleses. O que a Igreja pede para os fieis no declinar do Ano Litúrgico, o despertar da vontade, [cor]responde à concessão do “desejo de possuir o reino celeste” do raiar do novo Ano Litúrgico. Em ambas, a Igreja parece pedir ao Senhor que a ajude, quase que por um gesto enérgico, a não deixar-se dominar pelo torpor espiritual, que pode manifestar-se como um abatimento, “natural” depois de uma longa caminhada, ou inércia, próprio de todo “início” de longo caminho. O verbo “perseguir” da Coleta do XXXIV Domingo do TC, encontra o seu “sinônimo” no verbo “acorrer” da Coleta adventícia; o que uma e outra indicam como objeto do empenho cristão é o “fruto da ação divina”, o fruto bendito do seio da Bem-aventurada Virgem Maria (cf. Lc 1,42), Jesus “Cristo que vem”. Finalmente, a segunda epiclese de ambas, fala da salus, da salvação/saúde, que corresponde à presença constante dos fieis diante do justo juiz, que colocará os salvos à sua direita, por causa da sua expressão máxima de sua piedade (cf. Mt 25,31-46).

            O propensius exsequentes poderia também ser traduzido como “colaborando com empenho”, o que coloca o crente como coartífice da salvação, sua e dos outros homens seus irmãos, como indica o Concílio Vaticano II: 

 

 

Todos os fiéis cristãos, onde quer que vivam, têm obrigação de manifestar, pelo exemplo da vida e pelo testemunho da palavra, o homem novo de que se revestiram pelo Batismo, e a virtude do Espírito Santo por quem na Confirmação foram robustecidos, de tal modo que os demais homens, ao verem as suas boas obras, glorifiquem o Pai e compreendam, mais plenamente o sentido genuíno da vida humana e o vínculo universal da comunidade humana (AG 11).

 

Para conseguir estes resultados, têm grandíssima importância e são dignos de um interesse particular os leigos, isto é, os fiéis cristãos que, incorporados em Cristo pelo Batismo, vivem no mundo. A eles pertence, depois de penetrados do Espírito de Cristo, animar interiormente, à maneira de fermento, as realidades temporais e dispô-las para que se realizem sempre segundo Cristo (AG 15).

 

O seu principal dever, homens e mulheres, é o testemunho de Cristo, que eles têm obrigação de dar, pela sua vida e palavras, na família, no grupo social, no âmbito da profissão que exercem (...) no meio social e cultural da sua pátria (...) a fim que a fé em Cristo e a vida da Igreja deixem de ser estranhas à sociedade em que vivem mas comecem a penetrá-la e a transformá-la (...). Esta obrigação impõe-se tanto mais quanto a maior parte dos homens não podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo senão pelos seus vizinhos leigos (AG 21). 

 

 

Referência bibliográfica

 

F. M. ArocenaLas colectas del Misal romano. Domingos y solemnidades del SeñorRoma: CLV 2021, 383-387.

A. Ward. The collects of the weeks XXVII-XXXIV “per annum” in the present Roman MissalEphemerides Liturgicae, 121 (2007) 108-125.

P. Hala. Habeamus gratiam. Commentaire des collectes du Temps ordinaireSolesmes: Editions de Solesmes 2007.

A. Cecchinato. La preghiera della chiesa meditata, predicata, testimoniata: commento liturgico-pastorale alle Collete feriali del Messale Romano, Tempo Ordinario. Padova: Messaggero 2012.

 

 

Dom Jerônimo Pereira, osb



[1] Calendarium romanumex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum, editio typica, 6b. Città del Vaticano: Typis Poliglottis Vaticanis 1969; Normas universais do Ano Litúrgico e Calendário Romano Geral, 46. Brasília: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil 20124, 166.

[2] Missal Romano, reformado por decreto do Concilio Ecumênico Vaticano II e promulgado por autoridade S. S. o papa Paulo VI e revisto por S. S. o papa João Paulo II. Tradução portuguesa da terceira edição típica realizada e publicada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica, Brasília: CNBB 20233.

[3] Missale Romanum ex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum Ioannis Pauli PP. II cura recogitum, editio typica tertia emendata. Città del Vaticano: Typis Polyglottis Vaticanis 2008.

[4] Missale Romanum ex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum Ioannis Pauli PP. II cura recogitum, editio typica altera. Città del Vaticano: Typis Polyglottis Vaticanis 1975.

[5] Missale Romanum ex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum Ioannis Pauli PP. II cura recogitum, editio typica. Città del Vaticano: Typis Polyglottis Vaticanis 1970.

[6] Missal Romano, restaurado por decreto do sagrado Concilio Ecumênico Vaticano Segundo e promulgado pela autoridade do papa Paulo VI. Tradução portuguesa da 2ª edição típica para o Brasil, realizada e publicada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica, São Paulo: Paulus 19922.

[7] P. BruylantsLes Oraisons du Missel Romain, II. Louvain: Abbaye du Mont César 1952 (A referência na forma “Bruy 865” se refere à numeração das orações individuais do antigo missal como encontrado no vol. II deste trabalho).

[8] Corpus Orationum, ed., Bertrand Coppieters ‘t Wallant (CCL 160-). Turnhout: Brepols 1992.

[9] Missale Romanum anno 1962 promulgatum, ed., Cuthbert Johnson – Anthony Ward. Roma: CLV-Ed. Liturgiche 1994.

[10] Missale Romanum, editio princeps (1570): edizione anastatica, introduzione e appendice, ed., Manlio Sodi – Achille Maria Triacca. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana 1998.

[11] Missalis Romani editio princeps Mediolani anno 1474 prelis mandata: reimpressio introductione aliisque elementis aucta, curantibus Cuthbert Johnson osb & Anthony Ward sm, ed., Cuthbert Johnson – Anthony Ward. Roma: CLV-Edizioni Liturgiche 1996.

[12] Sacramentarium Tridentinum, ed., Ferdinando Dell’Oro – Igino Rogger, in Monumenta Liturgica Ecclesiae Tridentinae, saeculo XIII antiquora, II, A: Fontes Liturgici, Libri Sacramentorum. Trento: Società Studi Trentini di Scienze Storiche 1985, 73-310.

[13] Suplemento de Bento de Aniane, in Jean Deshusses, Le sacramentaire Grégorien, I. Suisse: Presses universitaires Fribourg 19923, 349-605.

[14] Liber Sacramentorum Engolismensis: Manuscrit B.N, Lat 816, le Sacramentaire gélasien d’Angoulême, ed. Patrik Saint-Roch (CCL 159C). Turnhout: Brepols 1987.

[15] Liber Sacramentorum Augustodinensis, ed. Odilo Heiming (CCL 159B). Turnhout: Brepols 1984.

[16] Das fränkische Sacramentarium Gelasianum in alamannsicher Überlieferung (Codex Sangall. No. 348, ed. Cunibert Mohlberg. Münster Westfalen: Aschendorff 1938.

[17] Hadrianum, in Jean Deshusses, Le sacramentaire Grégorien, I. Suisse: Presses universitaires Fribourg 19923.

[18] Cf. Fulgentius RuspensisDe praedestinatione et gratia, 1,22, ed. J. Fraipont (CCSL 91A). Turnhout: Brepols 1968, 472: “sive quorumlibet fidelium voluntates excitat

 
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