A Oração sobre o povo na III edição típica do Missal Romano: recuperação da sã Tradição e legítimo progresso

A Oração sobre o povo na III edição típica do Missal Romano: recuperação da sã Tradição e legítimo progresso

 

A publicação da terceira edição típica do Missal Romano (MR) indica uma atuação prática dos princípios basilares do Concílio Vaticano II, tanto de continuidade ininterrupta da tradição orante da Igreja, quanto no que se refere a oferecer a essa mesma Igreja a possibilidade de uma sempre renovada compreensão do mistério eucarístico (cf. SC n. 231), feita a partir dos conteúdos teológico-eclesiais e litúrgico-ritual-celebrativos, que sublinham sempre mais a lex orandi como a fonte primeira da profissão de fé do povo de Deus e o substrato essencial para a espiritualidade e o viver cotidiano. 

Entre as muitas consideráveis “novidades” do “novo” MR se encontram as chamadas “orações sobre o povo”, ou melhor dizendo, as “orações de bênçãos sobre o povo”. Essas orações aparecem assinaladas para cada formulário de missa, dominical e ferial, do Tempo da Quaresma, precedidas da rubrica “Para a despedida, o sacerdote voltado para o povo, com as mãos estendidas sobre ele, diz a seguinte oração”2. Trata-se, propriamente falando, não de uma novidade, no sentido de uma coisa que nunca existiu, mas da recuperação de um elemento eucológico e ritual antigo, sempre presente nas edições do Missal Romano anteriores a 1970 e que resulta em um enriquecimento positivo em vista de uma maior compreensão da Quaresma enquanto caminho de conversão na direção da Páscoa. 

Não que o MR restaurado pelo Concílio Vaticano II tenha deixado de lado ou esquecido esse precioso tesouro. Essas orações se encontram, em número reduzido, até o presente momento, numa sessão à parte do MR intitulada exatamente “Orações sobre o povo” (p. 531-534). O que há de realmente “novo” é a sua reinserção nos formulários quaresmais. O fato de se encontrarem num “apêndice” do Ordinário da Missa do MR e não estarem ligadas a uma determinada celebração ou tempo particular fez, sim, com que o seu uso se tornasse muito raro. Além disso, essa disposição não favoreceu a compreensão do seu significado e, sobretudo, da sua função dentro da celebração3.


“Ó beleza, tão antiga e tão nova” 

A inserção das Orações sobre o povo nos formulários do Tempo da Quaresma é uma retomada daquilo que já era presente no Missal Tridentino como elemento dos ritos de conclusão que caracterizavam os dias feriais da Quaresma. A sua história funda as suas raízes nos primeiros séculos da formação dos ritos cristãos. 


Uma forma de despedida da assembleia litúrgica é uma exigência de tipo sociológico e também psicológico, além de assinalar formalmente a relação temporal do rito. Já Tertuliano († 220c.) o atesta, as Constituições Apostólicas ( séc. IV) fazem o diácono dizer “Ide em paz” e a peregrina Egéria (IV séc.) nota frequentemente que, no fim das celebrações litúrgicas, o bispo abençoava os fiéis e se tinha uma despedida. Nesse mesmo período, alguns concílios na Gália proibiam que os fiéis saíssem da igreja antes da bênção dada pelo bispo. As Constituições Apostólicas apresentam a forma e a fórmula ritual para tal ocasião: depois da comunhão se prevê uma oração que se conclui com o “amém” da assembleia. O diácono diz: “Inclinai-vos a Deus, pelo seu Cristo, e recebei a bênção” e o bispo recita uma longa oração que diz, entre outras coisas: “Deus onipotente, abençoai aqueles que têm a cabeça inclinada diante de vós; realizai as aspirações dos seus corações... fazei que ninguém seja excluído do vosso reino; santifica-os, guarda-os, protege-os, ajuda-lhes, livra-os do adversário, de todo inimigo; conserva as suas casas, guarda a sua saída e a sua entrada”4


Também em Roma, no primeiro milênio, a celebração terminava com uma bênção em forma de oração, na qual o presidente pedia a Deus para a assembleia os benefícios liga- dos à Eucaristia, além de ajuda e proteção. Tratava-se de uma prece de bênção que se dava como despedida, com a qual a Igreja saudava os seus membros que voltavam às suas ocupações cotidianas. O testemunho mais antigo dessas Orações sobre o povo o encontramos no Sacramentário Veronense (Ve – séc. VI), no qual elas parecem fazer parte essencial da estrutura ordinária da missa, tanto do temporal quanto do santoral5. Aqui elas não recebem nenhum título e são identificadas por causa de sua colocação, segunda oração depois dos prefácios, e por causa da sua estrutura. O Sacramentário Gelasiano Vetus (GeV – séc. VII) as apresenta, para o tempo do Natal e da Epifania e, também, para os domingos da Quaresma e outras ocasiões, com o título “para o povo” (Ad populum, Ad plebem) e “sobre o povo” (Super populum. n. 1273-1287). O Sacramentário Gregoriano (GrH – VIII séc.), por sua vez, as apresenta somente para os dias feriais da Quaresma, chamando-as unicamente de “sobre o povo”. Por esse motivo o conteúdo dessas orações estava diretamente ligado ao tema próprio desse tempo: penitência e conversão. Do Sacramentário Gregoriano as orações sobre o povo passaram para o Missal tridentino até a edição de 1962. Por que se passou de um uso abundante dessas orações (Ve) a um número restrito e concentrado num único tempo litúrgico (Gr)? Talvez por causa de uma tradição própria da liturgia de reservar os textos mais antigos para os tempos litúrgicos mais fortes e significativos, nesse caso, a Quaresma. 


As edições do MR post-Vaticano II, de 1970 e 1975, as tinham eliminado como texto orgânico colocado no fim de cada formulário ferial da Quaresma e, como já dito, 26 delas estavam colocadas em um apêndice do Ordinário da Missa, 9 das quais recolhidas do Ve, 11 do GeV, 4 do GrH e 2 do MR anterior à reforma. O único formulário no qual essa forma de oração aparecia como parte integrante era o da Sexta-Feira Santa. Com res- peito à rubrica que as precede, ela sublinha o seu uso multiforme: “As seguintes orações podem ser usadas, à vontade do sacerdote, no fim da Missa, da Liturgia da Palavra, da Liturgia das Horas ou dos Sacramentos” (MR, p. 531). Com a edição típica terceira do MR (2002-2008) são reintroduzidas, mudadas e apresentadas como fórmulas facultativas de bênçãos finais para todos os dias feriais, da Quarta-Feira de Cinzas até a quarta-feira da Semana Santa. Diferentemente do GrH e do MR precedente, a terceira edição típica do MR as propõe como obrigatórias também para os domingos quaresmais, tirando o acento unicamente penitencial que essas orações poderiam ter anteriormente. 


Estrutura e conteúdo 

Diferentemente das outras orações que compõem o universo das eucologias menores da missa (Oração do dia, Sobre as oferendas e Depois da comunhão), nas quais o presidente da celebração, ao formular o pedido em nome de toda a assembleia reunida, se inclui, usando sempre a primeira pessoa do plural (nós, a nós, nossa...), nas Orações sobre o povo, aquele que preside não se inclui, mas se dirige a Deus em favor da comunidade, como um verdadeiro mediador entre Deus e o seu povo (vós, a vós, vossos...). A única exceção se encontra na oração assinalada na edição típica do MR para a quinta-feira da III semana da Quaresma: “Senhor, confiantes na vossa misericórdia, imploramos a vossa clemência, e assim como temos recebido de vós o ser, assim a vossa graça nos conceda procurar sempre o bem e praticá-lo cotidianamente6


Essa regra estilística constitui o paradigma para a identificação e diferenciação das Orações sobre o povo das outras orações da missa. Esses textos, cheios de referências da Sagrada Escritura, pressupõem uma espiritualidade bíblica potente. Como toda forma de bênção, têm a seguinte estrutura: 1) exclamação/aclamação; 2) motivo/anamnese; 3) pedido/intercessão; e 4) doxologia. Assim, no exemplo abaixo: 


Olhai [3], ó Deus [1], esta vossa família, pela qual nosso Senhor Jesus Cristo não hesitou em entregar-se às mãos dos malfeitores e sofrer o suplício da cruz [2]. Por Cristo, Senhor nosso [4]


A finalidade da oração é implorar a bênção divina sobre a assembleia. O presidente invoca a proteção e ajuda de Deus para aqueles que participaram na celebração litúrgica e estão trilhando o caminho espiritual da Quaresma. 

Nessa forma de oração, a Igreja, a beneficiária das preces, é denominada com os apelativos de família, vossos fiéis, vossos servos, Igreja, povo fiel e vosso povo. O termo mais usado é povo, a ponto de dar nome às Orações. Com esse termo se entende toda a comunidade cristã e especificamente a assembleia reunida em oração. O objetivo da oração é implorar bênçãos sobre a comunidade, por isso o substantivo usado com mais frequência é bênção e o verbo é abençoar. Tal objetivo tem como fim último colocar toda a comunidade sob a proteção do Altíssimo, por isso os termos mais comuns são proteger, vigiar, defender, tutelar, guardar, olhar. 


Alguns termos presentes nessas orações, tais como: sempre, continuamente, ininterruptamente, em todo o tempo, agora e sempre, perpétua... sublinham a perenidade da bênção implorada. Estando essa prece exatamente na conclusão da celebração, tais termos indicam o estender-se dessa bênção no viver cristão, no curso diário da sua vida que está para começar com o final da assembleia litúrgica. 


As orações apresentam constantemente as disposições interiores e as atitudes práticas dos que recebem as bênçãos. Dessa forma, estes imploram, suplicam, inclinam-se, submetem-se com todo o coração ou com toda a mente. Além disso, elas insistem em pedir a intervenção divina sobre o povo que se prepara para as festividades da Páscoa e procuram a sua eficácia para alcançar e permear toda a vida quotidiana do crente. Finalmente, as bênçãos invocadas apresentam-se como propícias e necessárias para os fiéis viverem segundo a mentalidade do Evangelho e para caminharem direcionados sem distrações na direção dos bens futuros. Elas imploram: purificação da alma, remissão das faltas, renúncia ao pecado, exercício das boas obras, prática das virtudes, progresso na vida espiritual, perseverança final. 


A presença das Orações sobre o povo no MR do Concílio Vaticano II 

A Instrução Geral do Missal Romano atualmente ainda em uso no Brasil (IGMR 1970-1975)faz duas vezes brevíssima referência às Orações sobre o povo. A primeira vez no capitulo II, dentro do contexto da estrutura, dos elementos e das partes constitutivas da missa, no número 57a, tratando dos ritos de conclusão, especificamente da bênção do sacerdote, sublinha “que em certos dias [essa bênção] é enriquecida e expressa pela oração sobre o povo” .Nessa mesma linha, tratando do desenvolvimento da missa com o povo, e explicando o modo e sublinhando as palavras da bênção, a IGMR n 124 afirma que, “em certos dias e ocasiões, esta fórmula de bênção é precedida, conforme as rubricas, por outra mais solene ou por uma oração sobre o povo”. Logo, o MR, nas suas duas primeiras edições, fez questão de manter as Orações sobre o povo como elementos dos ritos de conclusão, ligados à bênção final, infelizmente entendi- dos como uma espécie de “enriquecimento” da própria bênção. 


Como nas edições precedentes, a “nova” IGMR (2002-2008)10 traz as duas menções da Oração sobre o povo, presentes nos nú- meros 90a (antigo 75a) e 167 (antigo 124), com textos idênticos. Somente o texto do parágrafo 167 aparece ligeiramente modificado, sublinhando a função de enriquecimento à bênção final da Oração sobre o povo: “Em certos dias e ocasiões, esta bênção é enriquecida e expressa, conforme as rubricas, pela oração sobre o povo ou outra fórmula mais solene”11. Quando trata da “Missa com diácono”, no número 185 da “nova” IGMR faz outra referência à Oração sobre o povo, precisando que: “Se for usada a oração sobre o povo ou a fórmula da bênção solene, o diácono diz: Inclinai-vos para receber a bênção”.12 Aqui, a IGMR testemunha um elemento não verbal também pertencente à Tradição, como já referido. A rubrica que introduz o apêndice do atual Missal em uso no Brasil coloca em evidência essa sequência ritual verbal e não verbal: “O diácono ou, na falta dele, o próprio sacerdote poderá dizer este invitatório ou outro semelhante: Inclinai-vos para receber a bênção. Em seguida, o sacerdote estende as mãos sobre o povo, reza a oração e, ao terminar, todos aclamam: Amém” (MR, p. 531).13 


Dois gestos devem ser colocados em evidência, além daqueles estreitamente ligados à palavra (rezar e aclamar): o inclinar-se da assembleia e o estender as mãos do sacerdote. Antes de tudo, convém assinalar o que recorda a “nova” IGMR, no número 42: “Os gestos e posições do corpo tanto do sacerdote, do diácono e dos ministros, como do povo devem contribuir para que toda a celebração resplandeça pelo decoro e nobre simplicidade... e favoreça a participação de todos”. Infelizmente, essa inclinação da assembleia é completamente ignorada pelo número 75 da mesma IGMR, que se ocupa, exatamente, desse gesto. 


O ato de inclinar-se em si mesmo expressa, em si mesmo, benevolência, escuta, reverência e honra, disponibilidade e atenção. Nesse sentido, o primeiro a se curvar não é o homem, mas Deus: ele se inclina para ver, ouvir, ajudar, em atitude de amor, misericórdia, perdão e serviço (cf. Sl 13,2; 114,2). Também o ser humano é chamado a curvar-se para expressar escuta atenta e vontade reverente, amor confiante, humildade, e, finalmente, para manifestar arrependimento. Também o gesto da mão estendida para abençoar é bíblico (cf. 2Tm 1,6) e pertence a toda a Tradição iconográfica da Igreja do Oriente e do Ocidente. 


Colocação e fontes na edição típica terceira do MR 

Certamente, a inclusão da Oração sobre o povo nos formulários do tempo da Quaresma na III edição típica do MR recupera, de modo muito expressivo e significativo, um elemento da tradição litúrgica romana, colocando-o de novo no tempo litúrgico em que tinha sido preservado até ao Concílio Vaticano II. Além disso, essa inserção lhe dá um maior destaque como elemento “novo” no “novo” Missal, enriquecendo abundantemente o número dessas orações no Ordinário da Missa. 


É uma novidade importante que nos per- mite, por um lado, dar uma ênfase particular à época da Quaresma e, por outro, manter um elemento próprio da liturgia romana na sua localização original. Nesse sentido, estes são textos que podem acompanhar significativamente a Igreja no seu peregrinar num tempo tão importante e intenso como o da Quaresma14


São 43 as Orações sobre o povo introduzi- das nos formulários quaresmais: 22 tiradas do Ve, 7 do GeV, 8 do GrH, 2 do Missal de Paris de1738,3 do MR de1962 e 1 é de nova composição. Algumas delas, na verdade, são fusões de vários textos. 


Uma atenção mereceriam as Orações sobre o povo que foram designadas para os domingos da Quaresma. No aguardo da tradução para o Brasil, podemos, a partir do texto latino, identificar uma relação estreita entre essas orações e o Lecionário desses domingos no seu percurso catequético mistagógico. Nos dois primeiros domingos são colocados em evidência os temas da tentação e da glória, do mesmo modo que os Evangelhos apresentam esses temas falando do deserto de Jesus (tentação – I Domingo) e da sua transfiguração (glória – II Domingo). 


No I Domingo, a Oração sobre o povo implora o crescimento da “esperança no tempo da provação”, o firme “vigor” para suportar a tentação e se invoca “salvação eterna”. 


No II Domingo, quando se lê o Evangelho da transfiguração, a Oração sobre o povo invoca o desejo de chegar “à glória manifestada aos Apóstolos em toda a sua beleza”. 


No III Domingo se pede ao Senhor para guiar os corações dos seus fiéis, para que permaneçam no seu amor e na caridade fraterna, como plenitude dos mandamentos divinos. 


No IV Domingo o pedido é para que o Senhor vivifique com a sua luz “os que caminham nas trevas do mundo”, fazendo uma clara referência ao Evangelho joanino do cego de nascença. Por fim, no V domingo, aproximando-se a Páscoa, se pede que o Senhor leve a bom termo os desejos do seu povo. 


Finalmente, se deve sublinhar uma dimensão fundamental das orações de bênçãos que é abundante nas Orações sobre o povo: a ascendência. Assim, a dimensão ascendente é fortemente marcada, mas sempre em “resposta” à dimensão descendente, como recorda Santo Agostinho: 


Bendiga nossa alma ao Senhor e Deus nos abençoe. Quando Deus nos abençoa, nós crescemos, e quando bendizemos ao Senhor, também crescemos; ambas as coisas são para nosso proveito. Ele nada ganha quando o bendizemos, nem diminui por nossas maldições. Quem maldiz ao Senhor, ele próprio diminui; quem bendiz ao Senhor, cresce. A bênção do Senhor vem-nos em primeiro lugar, e por consequência também nós bendizemos ao Senhor. A primeira é a chuva, e esta é o fruto. Por isso, estamos entregando a Deus, o agricultor, que nos manda a chuva e nos cultiva, o fruto que produzimos15


O louvor a Deus é uma constância (dimensão ascendente). Ele é invocado como Deus; Deus onipotente; Pai; fonte e doador de toda bênção, de toda graça e de bondade; revela- dor do caminho para a vida eterna; luz que não conhece ocaso; misericordioso; o que se deixa contemplar; o que opera grandes obras; o protetor, guarda e defensor do seu povo; o socorro do seu povo; o que ilumina com o seu esplendor; o Senhor que dá os mandamentos; refrigério na dor; clemente; purificador; sábio; benevolente; médico do corpo e da alma; o que sabe escutar; mestre e guia do povo; o que volta o seu olhar para o seu povo; vivificador; doador da luz; renovador; lento à ira e grande no amor... 


Concluindo 

Estas breves observações sobre as Orações sobre o povo podem nos servir para abrir estrada para uma série de estudos em torno do tema da eucologia. A sua recuperação e ampliação revelam uma superabundante riqueza do MR desejado pelo Concílio Vaticano II, único reconhecido como expressão da lex orandi da Igreja (Tradtiones Custodes 1) e se coloca na linha do número 50 de Sacrosanctum Concilium, que prevê a recuperação, “segundo a antiga tradição dos Santos Padres”, de “alguns elementos, que com o passar do tempo foram perdidos”. 


Os temas tratados nessas orações são significativos e podem constituir material valioso para a compreensão da longa caminhada quaresmal, também do ponto de vista pastoral. Sobretudo quando se valoriza em primeiro lugar o tema da bênção. Invocar a bênção de Deus significa confessar que esperamos dele tudo de bom e que o reconhecemos como a fonte da nossa vida. Essa confissão de fé feita no período quaresmal, tem uma importância muito especial. Com ela se afirma que os que celebraram a Eucaristia reconhecem que a fonte que pode tornar fecundo o seu caminho rumo à Páscoa é apenas o Senhor e a sua Palavra, e não simplesmente a pessoal “observância” das práticas quaresmais, que também conservam o seu valor fundamental. 


As Orações sobre o povo colocadas no tempo santo da Quaresma também apontam a penitência e a conversão, não como uma conquista do crente, mas como um dom que Deus concede em virtude da sua grandeza da sua bondade e do seu amor paterno. Essa bondade se manifesta, sobretudo, no perdão. O acento se desloca do pecado e do pecador para o perdão e o doador de toda vida: Deus, o Pai. 


Uma particularidade dessas bênçãos é o constante pedido para que o senhor inspire a oração do seu povo. Que o Senhor inspire e dê perseverança. Por fim, impera, nas Orações sobre o povo, o tema da caridade. Perseverar na oração é o correspondente à sinceridade na caridade, sendo esse um modo para sublinhar o laço indissolúvel existente entre o amor de Deus e o amor ao próximo. Essas preces de bênçãos são uma boa oportunidade de catequese para o povo de Deus, especialmente no período da Quaresma, uma época de “luta espiritual mais intensa”16 na qual se deve sempre mais recorrer ao auxílio que vem do alto. 

Dom Jerônimo Pereira, osb - Mosteiro de São Bento de Olinda 

 


CONSTITUIÇÃO Sacrosanctum Concilium – SC. In: COMPÊNDIO do Vaticano II: constituições, decretos, declarações. 29. ed. Petrópolis: Vozes, 2000.

MISSALE Romanum ex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum Ioannis Pauli PP. II cura recogitum: editio typica tertia reimpressio emendata. Città del Vaticano: Typis Vaticanis, 2008. p. 200. Tradução livre do autor. 

Cf. FERRARI, M. Le orationes super populum per il tempo di quaresima. RL, Camaldoli, n. 107, p. 362, 2020. 

Cf. METZGER, M. (ed.). Les Constitutions apostolique. Paris: Cerf, 1987. v. III (SCh 336). p. 213-215, n. 15, 6-10. 

Cf. BaRBa, m. Il messale romano: tradizione e progresso nella terza edizione tipica. Città del Vaticano: LEV, 2004. p. 118. 

6 MISSALE, op. cit., p. 235..

DOMINGO de Ramos: Oração sobre o povo. In: MISSALE ROMANUM, op. cit., n. 17.

INSTRUÇÃO geral do Missal Romano. In: MISSAL Romano reformado por decreto do Concílio Ecuménico Vaticano II e promulgado por autoridade de s. s. o papa Paulo VI. Tradução para o Brasil da edição típica de 1970. São Paulo paulus 1992.

INSTRUÇÃO, op. cit, n. 57ª

10 INSTRUÇÃO Geral do Missal Romano. In: MISSALE ROMANUM, op. cit.

11 MISSAL, op. cit, grifo nosso

12 Ibid

13 MISSAL, op. cit, p. 531.

14 Cf. FERRARI, loc. cit.

15 SANTO AGOSTINHO. Salmo 66: Sermão ao povo. In: Comentário aos salmos (Enarrationes in psalmos 51-100). São Paulo: Paulus 2019. p. 207, n. 1.

16 Cf. QUARTA-FEIRA de Cinzas: Oração do dia. In: MISSAL, op. cit., p.175. 

 

 
Indique a um amigo