A “PALAVRA” QUE ALIMENTA

A “PALAVRA” QUE ALIMENTA

Ensaio exegético-teológico sobre a Coleta do II Domingo da Quaresma

 

Prof. Me. João Paulo Veloso[1]

 

            A coleta deste II Domingo da Quaresma possui os elementos nucleares de toda a celebração, apresentando-se como uma síntese temática:

 

Ó Deus, que nos mandastes ouvir o vosso Filho amado, 

alimentai-nos com a vossa palavra,

para que, purificado o olhar de nossa fé,

nos alegremos com a visão da vossa glória.

 

Esta é a tradução da 3ª edição do Missal Romano em português do Brasil (2023). Antes de extrairmos a sua teologia dentro do contexto litúrgico-quaresmal, façamos cinco análises da oração original, em latim:

 

Deus, qui nobis diléctum Fílium tuum audíre præcepísti,

verbo tuo intérius nos páscere dignéris,

ut, spiritáli purificáto intúitu,

glóriæ tuæ lætémur aspéctu.

 

1) Análise filológica clássica

 

A oração segue o estilo romano tradicional (nobre, simples e sóbrio), invocando Deus e ampliando o seu conceito com uma proposição relativa (“que nos mandastes ouvir…”), seguido de um pedido de graça (“alimentai-nos…”) com uma consequência (“nos alegremos…”).

O advérbio interius, que significa “interiormente”, aparece em todo o Missal Romano apenas duas vezes (também na oração sobre as ofertas da quinta-feira da II semana da Quaresma). Infelizmente, este advérbio, que de fato modifica o sentido da oração, foi omitido na tradução para o português. O pedido da oração não é simplesmente que Deus nos alimente, mas que o faça “interiormente”. 

O substantivo intuitus, aqui no caso ablativo, significa “olhar” e igualmente aparece apenas duas vezes no Missal Romano (a outra ocorrência é na oração pós-comunhão da Epifania). Acompanhado do adjetivo spiritalis, significa “olhar espiritual”, mas foi traduzido como “olhar da nossa fé”.

Por fim, o substantivo aspectus, também no caso ablativo, é um hápax, ou seja, aparece uma única vez em todo o Missal Romano, e foi convenientemente traduzido como “visão”.

 

2) Análise filológica semasiológica

 

Se procurarmos o substantivo verbum (“palavra, verbo”) em outras orações coleta do contexto quaresmal, o encontraremos também na quarta-feira da III semana[2] (A) e no IV domingo[3] (B). Na coleta que estamos analisando, verbum se encontra no campo semântico de “alimento espiritual”, assim como na coleta A. Já na coleta B, está no campo semântico de “salvação”, por se identificar diretamente com Jesus Cristo.

Os verbos ligados a este vocábulo, nas três coletas (alimentar, nutrir e realizar), acompanham diversos outros substantivos nas mais variadas orações dentro do Missal Romano, dentro dos mesmos campos semânticos: sacramento, alimento, pão e água (todos em orações pós-comunhão); Espírito, Unigênito e Filho (todos em orações coleta). 

Com este método de análise, o vocábulo verbum poderia também ser traduzido como “comida” ou “pão”, no sentido de pedir a Deus que nos alimente com essas coisas materiais. No entanto, por aproximação, tanto pelo pedido realizado a Deus quanto pelo próprio tipo de oração (coleta), seria mais justo entender este vocábulo como “Unigênito” ou “Filho”, de modo que verbum não é uma “palavra qualquer”, mas “a Palavra” ou “o Verbo” por excelência, isto é, a Segunda Pessoa da Trindade. Portanto, a “palavra” (o pão, o alimento) com o qual Deus nos alimenta é o seu próprio Filho.

 

3) Análise semântica 

 

A coleta tem um duplo movimento da parte de Deus: Ele alimenta o homem com Sua palavra (e esta pode ser entendida tanto como palavra sagrada quanto como Seu próprio Filho) e, ao mesmo tempo, purifica o olhar humano para que ele seja capaz de ver Sua glória. Assim, para ver a glória divina, o homem deve submeter-se à ação de Deus que purifica o seu olhar e o alimenta com a “Palavra”. 

Nesta oração, as oposições (fome x alimento espiritual; cegueira x visão de glória; surdez x palavras do Filho) destacam o protagonismo divino em relação à passividade humana: é Deus que deseja que o homem O veja, depois de tê-lo alimentado com a Sua palavra.

 

4) Análise literária

 

A fonte primária desta coleta é a própria Bíblia. Por se tratar de uma nova composição para este domingo (essa oração não existe nos antigos sacramentários ou mesmo no Missal de Trento), o autor tomou como fonte original os textos evangélicos que narram a Transfiguração de Jesus (Mc 9,2-9; Mt 17,1-9; Lc 9,28-36), que é o Evangelho proclamado neste domingo. Além disso,  utilizou em forma de alusões, alguns outros trechos das Sagradas Escrituras:

·      “que nos mandastes ouvir o vosso Filho amado” (Mt 17,5; Mc 9,6; Lc 9,35).

·      “alimentai-nos com a vossa palavra” (Mt 4,4; Ez 34,15).

·      “para que, purificado o olhar de nossa fé” (Cl 1,9)

·      “nos alegremos com a visão da vossa glória” (Sl 33,6; Mt 28,3)

Como fonte material, parece que esta oração seja uma adaptação livre da Inlatio da sexta-feira da II semana da Quaresma do Sacramentário Moçarábico (oração n. 385)[4]. Como fonte remota, os conceitos apresentados nesta coleta estão presentes nos escritos dos Padres da Igreja, como Gregório Magno[5], Agostinho[6] e João Cassiano[7].

 

5) Análise do contexto celebrativo

 

O estudo de uma coleta deve sempre levar em conta a totalidade da celebração de determinada festa ou ocorrência litúrgica. Neste caso, estamos no contexto da Quaresma, utilizando o Missal Romano em sua 3ª edição. 

Esta oração é a mesma utilizada no II Domingo da Quaresma nos três anos litúrgicos, e sua hermenêutica considera os acentos próprios de cada um desses anos: no ano A, a ênfase é o caminho batismal dos catecúmenos; no ano B essa ênfase permanece, acrescentando referências à Hora de Jesus; no ano C, a ênfase é a Reconciliação em relação com o Batismo.

Também as demais orações do formulário, o prefácio, as leituras e os textos da Liturgia das Horas precisam ser levados em consideração, como veremos a seguir.

 

Exegese e Teologia

 

Esta oração, uma nova composição para o Missal reformado pelo Concílio Vaticano II, tem como fonte principal a própria Liturgia da Palavra em que é proferida. De fato, a primeira frase vem do mandamento de escutar o Filho, que se encontra no final dos Evangelhos em todos os ciclos anuais (A, B e C). Os outros versos da oração vêm, como alusões, de outras passagens da Sagrada Escritura, especialmente as que se referem ao ato de Deus em alimentar o homem com Sua palavra e ao tema de Deus como pastor, que alimenta Suas ovelhas. 

O tema da purificação do olhar, próprio da Quaresma em contexto batismal e penitencial, no qual esta oração está inserida, acrescenta-se a ela como conditio sine qua non para obter o resultado da súplica, isto é, para desfrutar da visão da glória divina. 

Embora seja uma oração nova, a busca de fontes materiais nos levou à antiga liturgia moçárabe, na qual uma Inlatio do tempo quaresmal desenvolve na forma de um poema os temas resumidos na oração em questão. Isso denota a escolha do compositor de valorizar todo o patrimônio litúrgico ocidental, para além da tradição romana. Essa é uma característica de universalidade (= katholikós) que a reforma litúrgica quis imprimir ao Missal Romano.

A partir da relação com o ofício divino do II Domingo da Quaresma[8], o sentido de purificação se fortalece e confirma que a visão desejada é verdadeiramente a cena gloriosa de Jesus à direita do Pai, ou seja, a felicidade do Céu, que pode ser acessada após um processo de santificação que inclui, além da purificação do olhar, o alimentar as profundezas da alma com a própria Palavra de Deus,  isto é, com Filho unigênito: a “palavra” que alimenta o homem é o próprio Filho de Deus; Ele é o Verbo encarnado com o qual Deus Pai realiza esta ação e, ao mesmo tempo, o Pai purifica o olhar humano para que ele seja capaz de ver a Sua glória. 

Trata-se do primado da Graça que, no contexto quaresmal, destaca que as obras de penitência do homem são apenas um suporte que permite que a alma possa ser mais profundamente tocada pela graça divina, ou seja, não são as obras de penitência que são protagonistas da vida espiritual, mas o próprio Deus.

Encerro este ensaio com duas propostas de reformulação da oração, levando em consideração todos os elementos analisados até aqui. 

A primeira mais longa e autoexplicativa: 

 

Ó Deus, já que nos recomendastes que ouvíssemos o Vosso amado Filho,

a Palavra eterna com a qual alimentais as profundezas das nossas almas,

purificai a nossa compreensão das coisas espirituais,

para que possamos desfrutar da Vossa manifestação nos sacramentos.

 

A segunda mais próxima da sobriedade clássica romana:  

 

Ó Deus, que nos alimentais com a Vossa Palavra eterna,

o Vosso Filho amado, que nos recomendastes ouvir,

purificai a nossa compreensão das coisas espirituais,

para sermos capazes de nos alegrar com a Vossa glória no Céu.

 

 



[1] Presbítero da Arquidiocese de Palmas-TO, Mestre em Sagrada Liturgia pelo Pontifício Instituto Litúrgico de Roma. Instagram: @padreveloso

[2] Præsta, quæsumus, Domine, ut, per quadragesimalem observantiam eruditi et tuo verbo nutriti, sancta continentia tibi simus toto corde devoti, et in oratione tua semper efficiamur concordes.

[3] Deus, qui per Verbum tuum humani generis reconciliationem mirabiliter operaris, præsta, quæsumus, ut populus christianus prompta devotione et alacri fide ad ventura sollemnia valeat festinare.

[4] Liber mozarabicus sacramentorum et les manuscrits mozarabes, ed M. Férotin (Monumenta Ecclesiae Liturgica, vol. VI), Firmin-Didot et cie., Paris 1912, 176-177: Dignum et iustum est, equum uere ac salutare est, nos tibi gratias agere, omnipotens Pater, et Ihesu Christo Filio tuo Domino nostro, in quo ieiunantium fides alitur, spes prouehitur, ebaritas roboratur. Ipse est enim panis uiuus et uerus, qui est et substantia eternitatis et esca uirtutis. Verbum enim tuum est, per quod facta sunt omnia: qui non solum humanarum mentium, sed ipsorum quoque panis est Angelorum. Huius panis alimento Moyses famulus tuus quadraginta diebus ac noctibus legem suscipiens ieiunauit, et carnalibus cibis ut tue suauitatis capacior esset abstinuit: de uerbo tuo uiuens et ualens, cuius et dulcedinem bibebat in spiritu et lucem accipiebat in uultu. Inde nec famem sensit, et terrenarum est oblitus escarum: quia et illum glorie tue glorificabat adspectus, io et influente Spiritu Sancto sermo pascebat interius. Hune etiam nobis panem ministrare non desinis, et ut eum indeficienter esuriamus hortaris. Cuius carne dum pascimur roboramur, et sanguinem dum potamus eluimur.

[5] Gregorius Magnus - Homiliae in Hiezechihelem prophetam (CPL 1710): Stans ergo propheta uisionem spiritalem uidit et cecidit; cadens uero iam monitionis uerbum suscepit ut surgeret, surgens autem praeceptum audiuit ut praedicaret.

[6] Augustinus Hipponensis - De opere monachorum (CPL 0305): quid enim prodest manducare spiritaliter, id est pasci uerbo dei, si non inde operatur aliorum aedificationem?; Quaestionum in heptateuchum libri septem (CPL 0270): facies eum socium gloriae tuae; non autem res huius modi quasi partiliter diuisae minuuntur, sed totae sunt omnibus, totae singulis qui earum habent societatem.

[7] Iohannes Cassianus - Conlationes xxiiii (CPL 0512) : ut ita paulatim ad contemplationem dei ac spiritales intuitus incipiat sublimari.

[8] Sobretudo as antífonas, o hino do Ofício das Leituras e a homilia de São Leão Magno.

 
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