A PEDAGOGIA MISTAGÓGICA DO ANO LITÚRGICO

A PEDAGOGIA MISTAGÓGICA DO ANO LITÚRGICO

 

Frei Davi Maria Santos, O.Carm* 

 

“O cristão do século XXI será místico ou não será cristão” 

Karl Rahner, SJ

 

Introdução

          Sempre que iniciamos um caminho se faz necessário a consideração dele, para a partir daí começarmos a fazer a mala e a escolher aquilo que levaremos e que nos será útil para aqueles dias, isso levando em conta os imprevistos que podem acontecer, e que talvez nossa mala acabe ficando pesada e cheia de coisas desnecessárias, nos cabe então, o exercício do bom discernimento para os próximos caminhos que tomaremos. 

         Na caminhada eclesial pode acontecer algo parecido, muitas vezes tomamos o caminho com nossas malas as vezes muito cheias de coisas que não usaremos e vazias daquilo que nos seja útil. A mistagogia, por sua vez, que é uma arte de formar, é como um auxílio necessário para organizar a mala. Sabemos que a mistagogia para os Padres da Igreja era um tempo de preparação para a recepção dos sacramentos e depois para os tempos fortes da fé, como por exemplo a Páscoa ou Pentecostes, entre outros, e por isso, mistagogia é um tempo da graça, tempo este em que somos passo a passo formados a partir do interior de nosso espírito onde Deus nos habita. 

O caminho mistagógico dos Padres tinha como principal intenção formar o catecúmeno na fé para que assim ele pudesse de forma plena ser despertado para aquilo que, pelo Batismo ele já se torna, membro do corpo místico, da comunidade eclesial, por meio da participação na mesa eucarística, pela escuta da Palavra e pela comunhão do mesmo Pão e do mesmo Vinho. 

A mistagogia para os Padres, era uma realidade viva e atuante na Igreja, que fazia o coração dos fiéis pulsar em percorrendo aquele caminho, com as coisas necessárias para uma melhor vivência da fé, poderem participar da mesa eucarística, não apenas como conclusão de um caminho, antes, como consciência da fé que abraçavam e das implicações desta, na vida diária. Vale lembrar também que, para os Padres a ideia de mistagogia podia variar, segundo Enrico Mazza, para João Crisóstomo, a mistagogia era aplicada aos sacramentos de iniciação cristã, para Cirilo de Jerusalém, a mistagogia era voltada para a catequese sobre os sacramentos, e para Dionísio, o areopagita, a mistagogia que tem como meta formar para uma teologia fortemente espiritual só seria possível a partir da experiência Litúrgica (Cf. Mazza, 2020). 

         Por conseguinte, mistagogo é aquele que conduz ao mistério, nesse viés, a mistagogia é a arte de formar para o mistério, mistagogia e mistério estão unidos entre si, o desejo é apenas um, levar o catecúmeno a viver e a experienciar o mistério Pascal de Cristo Jesus, levando em conta o tempo cronológico e a cultura, isso podemos ver desde os Padres, cada um, a seu tempo cunhou e trabalhou um modo mistagógico a partir da necessidade de então, o que era comum era o mistério de Cristo.

 

1-   Uma via antiga e sempre nova 

O caminho mistagógico é redescoberto pelo Concílio Vaticano II, que o repropõem como uma via antiga e segura, pois está fundamentada nos primeiros séculos do cristianismo, e sempre nova, pelo fato de que é renovada e animada pelo Espírito Santo, assim sendo, podemos percorrer o caminho mistagógico como uma via pneumatológica, ou seja, como um caminho do Espírito, por isso, podemos nos perguntar, 

O que está em jogo na mistagogia? Nada mais, nada menos que nossa relação com o mistério de Deus e de seu Reino, que é o mistério de nossa própria vida e da história, revelado em Jesus Cristo [...] Porque fé vivida somente é viável com base na experiência da proximidade com Deus [...] trata-se de deixar-se cair no mistério maior de Deus (Buyst, 2011, p. 116).

Os Padres da Igreja compreendem a mistagogia, que é um Kaíros, um tempo da graça, de forma ampla, que vai desde a celebração litúrgica à catequese, portanto da formação à vivência do mistério a partir de uma teologia espiritual e não espiritualista. Para eles a mistagogia se dava por primeiro a partir da Liturgia, ela era a fonte primaria da mistagogia, isso porque na Liturgia se dava o conhecimento e a formação para o Mistério por meio de Jesus Cristo (Cf. Casel, 2009) e para a participação no mesmo por meio dos sacramentos que constituíam o que hoje chamamos de iniciação cristã, tanto que, para os Padres não havia essa “dicotomia”, que depois haverá no segundo milênio entre Liturgia e sacramento, isso porque uma está unida a outra e ambas formam a ação sacerdotal de Jesus Cristo (Cf. SC 7) no seu corpo místico. 

Uma outra forma de compreensão da mistagogia para os Padres, são as catequeses que eram feitas na celebração eucarística ou na oitava da Páscoa, onde se tinha a oportunidade de formar e educar os fiéis na vivência espiritual da fé, no dia a dia, por isso, Bento XVI, afirma,  

Vista a importância essencial desta participação pessoal e consciente, quais poderiam ser os instrumentos de formação mais adequados? Para isso, os padres sinodais indicaram unanimemente a estrada duma catequese de carácter mistagógico. Em concreto e antes de mais, há que afirmar que [...] a finalidade de toda a educação cristã é formar o fiel enquanto “homem novo” para uma fé adulta, que o torne capaz de testemunhar no próprio ambiente a esperança cristã que o anima (Sacramentum Caritatis, n. 64).

Por conseguinte, percebemos uma vez mais que a Liturgia está no centro, isso pelo fato de que para os Padres da Igreja a Ação Sagrada era o meio principal de fazer teologia e de educar na vivência das virtudes teologias. Não havia uma teologia que fosse descolocada da Liturgia, pois, os primeiros cristãos já compreendiam que, “a economia da salvação tornou-se Liturgia” (Corbon, 2017, p. 40). 

Entre tantos Padres que se destacam no campo da mistagogia, Cirilo de Alexandria, é talvez o mais lembrado, levando em conta suas catequeses, e por último, a mistagogia para os Padres se dava também por meio de uma teologia que fosse espiritual, levando em conta que, o ponto central fosse a experiência litúrgica, isto é, a Páscoa, pois, sem a Páscoa, não tem  absolutamente nenhum sentido o início do caminho mistagógico, nem nos Padres e nem em nossos dias o caminho recuperado pelo Concílio Vaticano II.  

         

2-   Ano Litúrgico: fonte mistagógica 

          O Ano Litúrgico constitui uma grande riqueza para a vida de fé dos fiéis, composto por celebrações diversas desde solenidades, festas e memórias do Senhor, da Bem-aventurada Virgem Maria e dos santos, reunindo em si de forma organizada e devidamente distribuída os mistérios da fé católica, desde o nascimento do Senhor até sua Páscoa, núcleo central da fé. Deste modo o Ano Litúrgico se torna uma das principais fontes para a vivência da fé em todos os tempos e um abundante caminho mistagógico inesgotável, apesar de que em alguns tempos isso não era tido de forma clara e objetiva, dando margem a diversos espiritualismos que, mesmo que tivessem boa intenção, não tinham, ligação com o corpo eclesial que é a Igreja, enquanto isso, o Ano Litúrgico não apenas reúne em torno a si, como a partir de si mesmo se encontra o sentido e razão da fé: Cristo Ressuscitado. 

O Ano Litúrgico é Cristo abraçando o tempo, como que desdobrando no tempo de um ano seus Mistérios as diversas sequências de sua vida... A finalidade do Ano Litúrgico não é somente suscitar a admiração e o agradecimento pela obra de Deus, mas também provocar na Igreja e nos fiéis uma resposta de acolhida e fidelidade. O Ano Litúrgico possui também uma finalidade mistagógica e pedagógica (Borobio, 2009, p. 58)

Como a Liturgia por meio do Ano Litúrgico reúne em se todas as celebrações da fé cristã, o Ano Litúrgico acaba por se tornar uma grande escola de mistagogia, isto é, de ensino e aprendizagem, como se fosse um longo discipulado, onde por meio das celebrações, dos ritos, da música e da arquitetura, entre outras coisas, somos formados no seguimento do Senhor, ou melhor dizendo: onde somos formados pedagogicamente no seguimento do Senhor Ressuscitado. 

Assim “a Igreja vai formando seus fiéis em discípulos de Cristo (pedagógico) e ao mesmo tempo os introduz, de modo consciente, a participar ativamente no mistério celebrado (mistagogia)” (Arnoso; Paro, 2021, p. 21), isso podemos perceber nas “divisões” do Ano Litúrgico, Advento e Natal, Quaresma e Páscoa e Tempo Comum. Nestes tempos o que “está em jogo”, por assim dizer, é o seguimento ao Cristo Senhor Ressuscitado, pois, nada caminha e nem encontra sentido fora do seguimento a Jesus Cristo.

Todas as celebrações da Liturgia apontam para Ele, sempre. Vale dizer que sem o Ressuscitado, a vida Litúrgica não passaria de um calendário muito bem-organizado e distribuído, mas que com o passar do tempo as pessoas acabariam por se afastar, porque caiu na rotina, isso não acontece pelo fato de que “o Ano Litúrgico celebra o Mistério de Deus em Cristo, porquanto está radicado sobre aquela série de eventos mediante os quais Deus entrou na história e na vida do homem” (Cordeiro, 2014, p. 105).

           Por isso, os Padres da Igreja, procuravam sempre elementos dentro do Ano Litúrgico para iluminar a vida das pessoas e não apenas de fé, como também o comportamento humano/testemunho de vida, isso pelo fato de que o Ano Litúrgico possui uma grande característica mistagógica, e a Liturgia ensina continuamente que, fé e vida nunca andam separadas, e que a mesma, constitui um caminho pedagógico de ensino e vivência daquilo que se professa no culto e que se deve viver fora dele, neste sentido, encontramos em todo o Ano Litúrgico setas que nos apontam o caminho que deve ser tomado, por isso que o mesmo é meio pedagógico para a vivência espiritual da fé, pois “o Ano Litúrgico é para nós a possibilidade de crescer na consciência do Mistério de Cristo, mergulhando a nossa vida no Mistério da sua Páscoa” (Desiderio Desideravi, n. 64).

 

3-   Movimento Litúrgico: precursor mistagógico do Concílio 

         No primeiro milênio o caminho mistagógico era algo comum, estava presente na vida da Igreja, já no segundo milênio este método acaba caindo em desuso, o que vem a acarretar uma série de consequências para a caminhada espiritual, como por exemplo a separação que foi feita entre Teologia Litúrgica e Teologia Sacramental, enquanto que para o primeiro milênio estas “duas vias” da Teologia estão unidas entre si, e uma não é possível sem a outra, no segundo milênio ou na chamada “era” escolástica acontece a divisão, enquanto que a Teologia Litúrgica se restringirá apenas ao culto, a Teologia Sacramental se deterá na observância canônica dos sacramentos, acarretando assim um olhar minimizado da Liturgia. 

         Se para os Padres da Igreja a Liturgia era o locus teológico, onde a comunidade dos batizados podia experienciar os divinos mistérios, nos anos seguintes aos Padres, até os dias que precederam o Concílio Vaticano II, a Liturgia era apenas um culto, é bem verdade que era um culto bem celebrado e com toda a dignidade que este merecia, no entanto, apenas com a reflexão levada pelo Concílio e já iniciada pelo Movimento Litúrgico é que a Liturgia volta a ser vista como locus teológico, ou seja, uma ciência teológica. 

         Por isso se faz necessário resgatar a reflexão a cerca da Liturgia, não como um conjunto de rubricas, simplesmente, mas, antes como uma ciência divina e por isso mesmo, como um caminho seguro de formação para a Igreja de hoje, assim, é possível pensar “a formação à Liturgia e a formação a partir da Liturgia” (Desiderio Desideravi, n. 34), não que sejam dois modelos, na verdade são apenas um, porém, o movimento é duplo, ao passo que formamos para a Liturgia, formamos a partir dela, visto que, na Liturgia tudo começa, desenvolve e encaminha-se à Páscoa. 

         O Concílio Vaticano II faz o exercício de resgate da mistagogia e apesar de não encontrarmos de forma explícita o nome mistagogia, por exemplo, na Sacrosanctum Concilium, pode se perceber o grande esforço feito pelos padres conciliares para a retomada deste método, agora de um modo diferente da época dos Padres, porém com o mesmo sentido espiritual, formar para o mistério de Jesus Cristo. Caminho esse que fora iniciado antes, já no século XIX, pelo Movimento Litúrgico que desejando uma Liturgia mais fiel e participativa, a exemplo dos primeiros cristãos, o corpo místico reunido em torno do Corpo do Senhor, a Eucaristia, propõem a formação Litúrgica como algo necessário e importante para nossos dias, tanto que, nas Abadias Beneditinas que aderiram ao Movimento Litúrgico era comum a formação de grupos para o estudo da Liturgia. 

 

4-   A mistagogia na Sacrosanctum Concilium

         Na Constituição Conciliar e Litúrgica do Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, podemos encontrar pistas para o caminho mistagógico que o Concílio, “retornando” aos Padres, ou seja, a fonte da vida eclesial, repropõem a Igreja de hoje. O número 12 da SC, exorta que a participação na Liturgia não esgota a vida espiritual da Igreja, isso para os primeiros cristãos era algo muito comum, pois, Liturgia e vida andavam juntas. Aquilo que era celebrado, era também vivido, e o que se vivia era posto no altar, pois na vida o povo vivia o mistério e no altar celebravam a vida. Já o número 21 da mesma Constituição pode que o povo seja instruído quanto aos textos eucológicos e rituais da Missa, isso para que possam participar de forma plena, ativa e sobretudo consciente, pois a consciência é o tabernáculo sagrado do homem, afirmam os Padres conciliares. 

         O número 64 da SC, pede ainda que seja restaurado o catecumenato, isto é, que se olhe com atenção para o processo de iniciação cristã. Quanto a isso temos um caminho seguro e frutuoso iniciado pelos Padres nos primeiros séculos, caminho este que agora com o Concílio acaba sendo retomado, não como saudosismo do passado ou arqueologia espiritual, antes, como reconhecimento da graça de Deus que atuou e que pode ainda atuar neste caminho iniciado pelos Padres. Talvez esteja aqui o ponto mais difícil destes três números. O número 64, exige tempo e paciência, tempo para formar e paciência para que os frutos possam aparecer, por isso que a mistagogia é antes um Kairós, um tempo da graça de Deus, que Ele forma segundo seu desejo, cabendo a nós a abertura e docilidade ao seu Espírito, sem o qual a mistagogia não possui vida.  

         A mistagogia agora vista a partir do viés dos sacramentos de iniciação (Batismo, Crisma e Eucaristia), torna-se a porta de formação pedagógica para os fiéis de hoje, vale lembrar que, também os Padre Capadócios (Basílio de Cesareia, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa) aplicaram aos sacramentos o termo mistagogia (Cf. Mazza, 2020). O centro da vida cristã é a Eucaristia, por ela encontramos a Páscoa do Senhor e por meio da Eucaristia temos a Páscoa d’Ele em nossa Páscoa (Cf. Marsili, 2010), porém, antes de se aproximar da mesa eucarística é necessário banhar-se nas águas do Batismo e perfumar-se do óleo do Espírito, no Crisma, com isso fazemos um caminho que vai formando espiritualmente o coração do fiel para a consciência do ser Igreja por meio da recepção dos sacramentos e da participação ativa.           

 

5-   O exercício mistagógico e sua vivência

         Sabemos que a mistagogia é um tempo da graça de Deus, esta, por sua vez sempre esteve intrinsecamente unida à vida litúrgica da Igreja, tanto como preparação para a recepção dos sacramentos, como para uma continua formação e aperfeiçoamento da fé. A pedagogia presente na atividade mistagógica tem como desejo levar o fiel, o catecúmeno, a mergulhar nos mistérios celebrados a fim de que possam ser vividos de maneira séria e comprometida com a fé, mas também de maneira leve, isto é, sem se tornar um peso ou obrigação para ninguém. 

         O exercício da mistagogia é como uma mestra que conduz o catecúmeno a perceber os sinais da graça de Deus por meio dos símbolos litúrgicos, uma vez que a mistagogia sempre esteve e está ainda hoje unida a Liturgia, como caminho para uma melhor vivência da mesma. Nesse viés, 

Em primeiro lugar, a mistagogia é o exercício de perceber a manifestação de Deus na vida. Ela adquire sentido numa oração pautada pela proclamação da palavra e nos sinais que a visibilizam. Assim proporciona a participação do fiel nos atos de Deus, produzindo a transformação interior” (Núcleo de Catequese Paulinas, 2017, p. 7)

         Não há vivência espiritual da fé separada de uma vivência autêntica e profunda da Liturgia, isso porque nela se celebram os Mistérios da vida do Senhor e a eficácia sacramental encontra na Páscoa o núcleo vital que anima cada sacramento e o faz agir interiormente na vida daqueles que o recebem. A mistagogia nasce dentro da Liturgia como um caminho ou meio para uma melhor vivência da fé, por isso, a mistagogia pode também ser chamada de pedagoga, pois ela educa os fiéis por meio de cada celebração contida no ano litúrgico e em cada sacramento. Recordemos que a espiritualidade que é gerada na Liturgia tem sua fonte na celebração da Páscoa e dos mistérios da vida de Jesus Cristo e consequentemente, nos sacramentos. A mistagogia de maneira catequética vai nos formando e conduzindo ao centro do mistério. 

         A mistagogia de maneira pedagógica procura unir o tripé litúrgico: mistério, celebração e vida, para que assim possa haver uma melhor interação e compreensão da atividade sacramental. Pois, é na celebração litúrgica que os mistérios acontecem e estes exercem força transformadora na vida do corpo místico, isto é, da Igreja. 

“A mistagogia surge como penetração no mistério celebrado e, ainda, como “elo de ligação” entre o que se vive e o que se celebra. Novamente, uma única fonte – a mistagogia – será capaz de unir a fé e a vida, acabando com a dicotomia que gera, do ponto de vista da fé, ora um intelectualismo ora um fideísmo; e, do ponto de vista da oração, um ritualismo supersticioso mágico” (FINELON, 2021, p. 184).

         

Conclusão

Nos pode parecer que a mistagogia seja a solução para todos os problemas da fé em nossos dias, e sabemos que não é, no entanto, esta exerce um papel de grande importância para a vida da Igreja, de certo modo isso já foi relembrado pelo Concílio Vaticano II, quando os padres conciliares pedem a reforma da Liturgia e uma maior participação do povo de Deus, comunidade de batizados. Embora não tenhamos um documento conciliar sobre a mistagogia, em todos os outros documentos podemos encontrar pistas e setas para nossas atividades catequéticas. 

         O interesse maior dos Padres da Igreja pela mistagogia se dar no fato de que essa atividade ajuda a Igreja a formar no coração e na vida dos fiéis, Jesus Cristo. Sem esse desejo ou tendo uma outra intenção que não seja o formar para Cristo Jesus, a atividade mistagógica pode se tornar um fardo pesado, tendo, porém, mudado apenas o contexto, os anos, e a forma de se viver, como também os desafios, a mistagogia em nossos dias deve possuir o mesmo desejo dos Padres: formar os fiéis para Cristo, esta deve ser a razão da catequese. O Ano Litúrgico é uma grande e ampla escola de formação da fé dos batizados. A partir do seu núcleo central, a Páscoa, todas as outras celebrações se encaixam e ganham sentido na vida eclesial. 

         Assim como na “era” dos Padres da Igreja e nos dias do Movimento Litúrgico o resgate do mistério foi possível por meio de uma experiência mistagógica e fez arder os corações de todos aqueles que se aproximavam da Ação Sagrada, também em nossos dias, a mistagogia pode fazer arder em nossos corações os mistérios celebrados no Ano Litúrgico e não apenas, contudo, pode a mistagogia hoje nos fazer viver uma verdadeira ética eucarística, em que celebramos o que vivemos e vivemos o que celebramos, porque “a Liturgia é simultaneamente a meta para qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força” (SC 10). 

 

Referências

ARNOSO, Pe. Rodrigo, CSSR; PAR, Pe. Thiago Faccini. CONHECER O ANO LITÚRGICO QUE VIVENCIAMOS. Petrópolis-RJ, Vozes, 2021.

BOROBIO, Dionisio. CELEBRAR PARA VIVER. Liturgia e sacramentos da Igreja. São Paulo, Edições Loyola, 2009.

BUYST, Yone. O SEGREDO DOS RITOS: RITUALIDADE E SACRAMENTALIDADE DA LITURGIA CRISTÃ. São Paulo: Paulinas, 2011.

Carta Apostólica DESIDERIO DESIDERAVI. Vaticano: Paulinas, 2022.

CONSTITUIÇÃO Sacrosanctum Concilium – SC. In: ENQUIRÍDIO DOS DOCUMENTOS DA REFORMA LITÚRGICA. Secretariado Nacional de Liturgia de Portugal. Fátima, 2014.

CORBON, Jean. A FONTE DA LITURGIA. Prior Velho- Portugal, Paulinas, 2017.

CORDEIRO, José Manuel. CORAÇÕES AO ALTO. Introdução à Liturgia da Igreja. Lisboa: PAULUS, 2014.

CASEL, Odo. O MISTÉRIO DO CULTO NO CRISTIANISMO. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

Exortação pós-sinodal SACRAMENTUM CARITATIS, SCa, In: Enquirídio dos Documentos da Reforma Litúrgica. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2014. 

FINELON, Vitor Gino. A MISTAGOGIA CRISTÃ À LUZ DA CONSTITUIÇÃO SACROSANCTUM CONCILIUM. Petrópolis-RJ: Vozes, 2021.

MARSILI, Salvatore. SINAIS DO MISTÉRIO DE CRISTO. Teologia Litúrgica dos Sacramentos, Espiritualidade e Ano Litúrgico. São Paulo: Paulinas, 2010.

MAZZA, Enrico.  A MISTAGOGIA. As catequeses litúrgicas do fim do século IV e seu método. São Paulo: Edições Loyola, 2020.

Núcleo de Catequese Paulinas. MISTAGOGIA. Do visível ao invisível. São Paulo: Paulinas, 2013.

 

 
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