A PORTA SANTA DO CONFESSIONÁRIO
Frei Luis Felipe Marques, OFMConv.
Segundo uma antiga Tradição, o Papa proclama de vinte e cinco em vinte e cinco anos um ano jubilar. O Jubileu afirma-se como um tempo de paragem exigida pela nossa necessidade de ritualização dos tempos. O homem é, na sua essência, um ser esquecido, que por isso anseia e necessita de um referencial da memória. Só a paragem permite o enraizamento social, cultural e religioso, a busca da memória que falta à sociedade e à Igreja. Só a paragem permite a uma e outra o reencontro e a reafirmação da respectiva identidade. O Jubileu aponta para a salvação, na medida em que salva o homem da letárgica mecanicidade dos seus dias ininterruptos e das suas atividades repetitivas e faz entrever, na comunhão dos irmãos, a plenitude da comunhão com Deus (cf. Correia, 2000, p. 36). Sendo assim, o Ano Santo da graça do Senhor, tempo de conversão e de reconciliação, é uma importante ocasião para renovar a fé, viver a esperança e aperfeiçoar o vínculo da caridade.
A Palavra de Deus ajuda-nos a encontrar as razões para essa renovação. A esperança nasce do amor e funda-se na fé que professamos na vitória pascal do Senhor ressuscitado. É a sua vida que nos salva: “Se, de fato, quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com Ele pela morte de seu Filho, com muito mais razão, uma vez reconciliados, havemos de ser salvos pela sua vida” (Rm 5,10). Contudo, a indulgência redentora de Deus articula-se em figurações históricas, constituídas por símbolos e rituais concretos, correspondentes à identidade histórico-temporal do ser humano.
Ritos, símbolos e preces do Ano Jubilar
É potente a ação ritual-simbólica do ano jubilar. O Ano Santo não tem a intenção de fazer uma manifestação triunfalista da Igreja ou uma revelação individualista da fé, mas tem a intenção da conversão do coração e da renovação da Igreja. A conversão do coração e a renovação da Igreja encontra o real sentido na celebração litúrgica. A liturgia, em todo do tempo, mas como uma força especial nos jubileus, é a meta para a qual se encaminha a ação eclesial e a fonte de onde promana toda a força do povo de Deus em caminho (cf. Sacrosanctum Concilium, n.13). Na ação litúrgica da Igreja está presente a ação divina que impele os fiéis, saciados pelos mistérios pascais, a viverem unidos no amor e na fé (cf. Sacrosanctum Concilium, n. 9). Sendo assim, no Ano Santo, as expressões litúrgicas manifestam a peregrinação do Povo de Deus em direção ao Reino.
É na celebração eucarística, presidida pelo bispo diocesano na igreja catedral, mãe de todas as igrejas da diocese, que acontece a solene abertura do Ano Jubilar. Nesse contexto comunitário, a peregrinação, conduzida pelo pastor local, revela uma igreja em caminho, diante dos divinos mistérios (cf. Textos Litúrgicos para o Jubileu 2025, n. 4). Essa caminhada é potencialmente simbólica. Todos os batizados seguem o mesmo caminho e vivem a mesma intenção.
As ações rituais-simbólicas são muitas, em particular, a elevação da Cruz, pois “foi do lado de Cristo adormecido na cruz que nasceu o sacramento admirável de toda a Igreja” (Sacrosanctum Concilium, n. 5); a condução do Evangeliário, arca do tesouro da Palavra viva do Ressuscitado, que, como a coluna de fogo do Êxodo (cf. Ex 13,21- 22), caminha diante do seu povo, luz e guia dos seus discípulos; a parada na Fonte Batismal, local do primeiro sacramento da nova Aliança, pelo qual os homens, seguindo a Cristo na fé e recebendo o Espírito de adoção de filhos, são chamados e são, de fato, filhos de Deus; a passagem pela Porta Santa, que no Jubileu Extraordinário da Misericórdia (2015-2016) foram abertas em várias igrejas no mundo e que, no próximo Ano Santo (2024-2025), serão abertas apenas nas quatro Basílicas Papais, localizadas em Roma.
Os símbolos, as preces e os ritos jubilares servem como prelúdio para uma rica experiência de graça, de misericórdia e de perdão. Toda essa ritualidade torna-se significante na recepção das indulgências. Embora sendo uma práxis extrassacramental, tem sua origem e significado na Celebração Sacramental da Penitência, na mais perfeita participação na Eucaristia e na oração nas intenções do Papa.
Olhando para o Crucificado e sustentados pela sua Palavra de vida, paramos diante da Fonte batismal, porta da vida e do Reino, para fazemos a memória do batismo, primeiro sacramento da nova Lei, que Cristo instituiu para que todos possam alcançar a vida eterna (cf. Jo 3,5). O batismo recorda e realiza o mistério pascal, uma vez que por ele as pessoas passam da morte do pecado para a vida. Assim, lavados pela água batismal somos participantes da natureza divina e da adoção de filhos. O batismo é, pois, o banho da regeneração e do nascimento dos filhos de Deus (cf. Ritual do Batismo de crianças, n.3-5). Entretanto, para que os fiéis, tendo caído em pecado após o batismo, retornem à graça, além da água do batismo, a Igreja possui as lágrimas da penitência (cf. Ritual da Penitência, n.2). Se no primeiro batismo fomos lavados da antiga culpa; no segundo batismo, pelo percurso laborioso da penitência, somos lavados das culpas atuais e reconciliados com a Igreja, para participarmos dignamente dos santos mistérios no memorial da ceia do Senhor.
Da Fonte batismal à Porta do perdão
A partir da memória batismal devemos fazer a memória da misericórdia eterna de Deus. No sacramento da penitência, o Deus de bondade e misericórdia incondicional cura as feridas dos nossos corações dilacerados, solta as correntes que nos mantêm escravos do pecado e prisioneiros do ódio e concede-nos a alegria do Espírito, para que caminhemos com renovada esperança em direção à meta desejada. A confissão serve para curar-nos e nos dá mais saúde espiritual. Nela passamos da miséria à misericórdia, pois no centro da confissão não estão os pecados que dizemos, mas o amor divino que recebemos e do qual sempre precisamos. O centro da confissão é Jesus que nos espera, nos ouve e nos perdoa (cf. Papa Francisco).
Tendo a possibilidade e a coragem de passar pela porta santa do confessionário, espaço de encontro vivo e verdadeiro com Cristo Misericordioso, a nossa vivência batismal-eclesial é restaurada, nos tornamos livres do pecado e descobrimos o sentido da vida. A procura pelo sacramento do perdão é uma autêntica peregrinação até a misericórdia de Deus, em que se aprende, se descobre e se vive sobre a própria pele a grandeza do amor incondicional e gratuito de Deus, que tira do nosso coração o peso do pecado e nos oferece a alegria do Evangelho. O perdão de Deus modifica o nosso futuro e nos ajuda a viver de forma diferente, sem rancor, ódio e vingança. O futuro iluminado pelo perdão permite ler o passado com olhos diversos, mais serenos, mesmo que ainda banhados pelas lágrimas do arrependimento e da penitência.
Passando pela porta santa do perdão, vamos encontrar a misericórdia de Deus e da Igreja na realidade tocável de um homem, também pecador. A misericórdia, não sendo um conceito racional ou um espiritualismo abstrato que contradiz a própria natureza do homem, torna-se oferta real e concreta nos ministros da Igreja. Por isso, o ministro-confessor exerce a função do juiz que absolve da culpa; mostra-se como um pai que ensina e acolhe; manifesta-se como um médico que cura; apresenta-se como um amigo que compreende as limitações por, talvez e repetidas vezes, vivenciar situações mais graves e frágeis.
O ministro-confessor precisa ser, não obstante a gravidade do pecado, testemunha da ternura paterna, solícito em ajudar a refletir sobre o mal cometido, claro ao apresentar os princípios morais, disponível para acompanhar os fiéis no caminho penitencial respeitando com paciência o seu passo, clarividente no discernimento de cada um dos casos, generoso na concessão do perdão de Deus (cf. Misericordia et misera, n. 10). Dessa forma, a capacidade de “misericordiar” deve ser o princípio de idoneidade para o ministério do confessor, porque um sacerdote que não é misericordioso faz muito mal no confessionário.
O confessionário não é uma sala de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor, que nos incentiva a praticar o bem possível (cf. Evangelii Gaudium, n. 44). A confissão não é o interrogatório de um juiz instrutor e curioso. Da mesma forma, o confessionário não é uma lavanderia que lava os pecados e nem a operação administrativa da consciência enferma. O pecado não é apenas uma mancha, que basta ir à lavanderia para que ela seja lavada e tudo volta a ser como antes. É preciso aproximar-se do Sacramento sem truques, sem hipocrisia e sem falsas-verdades. É preciso ter a consciência de que no confessionário existe algo maior que o julgamento, pois nele existe a presença de uma pessoa que indica o encontro com a misericórdia (cf. Papa Francisco).
Do perdão às indulgências
Não há modo melhor de conhecer a Deus do que deixar-se reconciliar por Ele (cf. 2Cor 5, 20), saboreando o seu perdão. O Senhor Jesus continua a perdoar-nos, a curar-nos, a salvar-nos com a potência dos seus sacramentos. Eu sou o Nicodemos e a Samaritana, o endemoninhado de Cafarnaum e o paralítico na casa de Pedro, a pecadora perdoada e a hemorroíssa, a filha de Jairo e o cego de Jericó, Zaqueu e Lázaro, o ladrão e Pedro perdoados. Em todos os sacramentos nos é dada a graça de ser alcançados pela potência da Páscoa (cf. Desiderio Desideravi, n.11).
Somos conscientes do perdão ilimitado de Deus, Ele nunca se cansa de perdoar, no entanto, não podemos confundir o “perdão dos pecados” com a “remissão da pena”. O perdão não é ainda a remissão da pena e a cessação das consequências intoxicantes e dolorosas do pecado. Por isso, as indulgências são muito relevantes, uma vez que a misericórdia de Deus se torna indulgência do Pai que, através da Esposa de Cristo, ministra da redenção, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado (cf. Misericordiae vultus, n.22). O dom da indulgência permite-nos descobrir a plenitude do perdão de Deus, que não conhece limites (cf. Spes non confundit, n.23). Para viver e obter a indulgência os fiéis são chamados a realizar uma “peregrinação” até à Porta Santa do confessionário, como sinal do profundo desejo de verdadeira conversão, e caminhar processionalmente até a mesa da Eucaristia para fazer comunhão com toda a Igreja.
É claro que a graça de Deus não pode estar subordinada a uma obra humana, mas interpretando bem o sentido da tradição penitencial e o primado da misericórdia, entendemos que o perdão generoso de Deus deve encontrar com a livre resposta humana. Quem salva o ser humano é a indulgência de Deus - ou melhor, o Deus indulgente, no excesso do seu amor - e não as obras expiatórias que cada pessoa ou mesmo a comunidade dos crentes possa realizar. Todavia, admitir a relevância da penitência entre os elementos essenciais do sacramento da reconciliação é hoje uma passagem obrigatória para não “banalizar” o sacramento, “vulgarizar” o perdão ou “coisificar” a indulgência. A penitência não é um gesto para agradar a Deus ou aplacar a sua ira, mas uma resposta humana de conversão. A penitência passa a ser, assim, a articulação histórico-temporal, corpórea, do nosso acolhimento do perdão. A ação humana do redimido é uma ação que participa da ação divina do Redentor. Como tal, terá que ser também dom gratuito e total de si mesmo. Esse dom passa por uma atitude indulgente, tal como o Pai do céu é indulgente.
O sacramento da reconciliação contém e exige no seu interior a penitência. Portanto, no sacramento, não é central simplesmente a oferta da graça, mas também a capacidade de responder adequadamente àquela graça (cf. Grillo, 2016, p. 40-60). Por isso, a indulgência não substitui o difícil trabalho do amor e não é o cancelamento mais fácil das penas. Ela é justamente a ajuda da Igreja no difícil trabalho do amor (cf. Rahner, 1992, p. 268). A finalidade da penitência não é o resgate jurídico do débito, mas a restauração do ser humano para que ele possa assumir novamente a imagem do Filho.
As indulgências não podem ser tratadas como ritos mágicos superados, num mundo marcado pelo vazio, mas pode ser sinal de redescoberta, por ocasião de um ano jubilar, de novas possibilidades de vivência e mesmo reflexão sobre o próprio mistério da redenção. Elas constituem, para resumir, a forma de remissão de todas as consequências das nossas faltas, não apenas nem sobretudo por mérito próprio e individual da nossa atividade expiatória, mas por dom do próprio Deus, em e pela Igreja, enquanto comunidade dos Santos. Como tal, esse processo não constitui uma transferência automática, mediante determinado rito exterior, de méritos do tesouro da Igreja para os seus membros mais débeis. A permuta de bens espirituais é sempre uma permuta real-simbólica, que engloba profundamente quem dá e quem recebe, numa sinergia constante das respectivas ações. E é essa ação que nos redime, na sacramentalidade da própria Igreja (cf. Duque, 2000, p. 101-102).
Nesse sentido, ao menos durante o ano jubilar, não renunciemos ao sacramento da confissão, passemos pela Porta Santa da Misericórdia, o confessionário, e descubramos a beleza do sacramento da cura e da alegria, a beleza do perdão dos pecados. As marcas interiores e exteriores do pecado, ou seja, os seus efeitos residuais, são tiradas pela indulgência, a remissão das penas, mas sempre por graça de Cristo, que é o Sacramento do Pai, a nossa original Indulgência, a única Esperança e a verdadeira Porta da Misericórdia.
Referências bibliográficas
CATELLA, A.-GRILLO, A. Indulgência, história e significado. Brasília: CNBB, 2016.
CONCÍLIO ECUMENICO VATICANO II. Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium. Brasília: CNBB, 2017.
DICASTÉRIO PARA A EVANGELIZAÇÃO. Textos litúrgicos do Jubileu 2025. Brasília: CNBB, 2024.
DUQUE, J. O sentido das indulgências. Revista Theologica, v. 35, 2000, p. 97-117.
CORREIA, J. O jubileu no Antigo Testamento. Revista Theologica, v. 35, 2000, p. 17-37.
FRANCISCO. Encíclica Evangelii Gaudium. Brasília: CNBB, 2013.
FRANCISCO. Bula de proclamação do Jubileu Misericordiae vultus. Brasília: CNBB, 2015.
FRANCISCO. Carta Apostólica Misericordia et misera. Brasília: CNBB, 2016.
FRANCISCO. Carta Apostólica Desiderio Desideravi. Brasília: CNBB, 2022.
FRANCISCO. Bula de proclamação do Jubileu Spes non confundit. Brasília: CNBB, 2024.
RAHNER, K. Sulla dottrina ufficiale odierna dell’indulgenza, in Id., La penitenza della Chiesa. Saggi teologici e storici. Brescia: Morcelliana, 1975, p.231-270.
RITUAL DA PENITÊNCIA. São Paulo: Paulus, 1999.
RITUAL DO BATISMO DE CRIANÇAS. São Paulo: Paulus, 1999.