A SEQUÊNCIA DE PENTECOSTES: O CANTO DOS BATIZADOS

A SEQUÊNCIA DE PENTECOSTES: O CANTO DOS BATIZADOS


Aline Roberta de Souza Bonato

Anderson Cata Prêta 

Juliana Mara da Silva Matos 


Introdução

Este artigo pretende introduzir uma reflexão sobre a ação ritual da Sequência na liturgia romana celebrada no Brasil, expandindo o nosso conhecimento a partir do texto: história, contexto, melodia e estrutura. Abordando os aspectos das tipologias Textual, Bíblica, Ritual e Musical, nos será possível entender e percorrer uma trilha de referências bibliográficas da tradição da igreja, do magistério, da patrística e demais pesquisadores das áreas da música, literatura, história da Igreja e, principalmente, da Sagrada Escritura. Tudo para glorificação a Deus e santificação dos homens (SC 5). Este texto predispõe uma nova ótica aos elementos que envolvem o texto, a estrutura e a melodia da Sequência. 


1. Sequência: características rituais e breve contextualização histórica

A Sequência é um hino litúrgico que ocorre nas festas e solenidades (BUCCIOL, 2020, p. 187). Trata-se de um rito, acontece antes do Aleluia, após a reforma atual, sendo obrigatório no primeiro domingo de Páscoa e em Pentecostes.

É um texto, do qual é necessária a compreensão de gênero e demais características, colocado no rito litúrgico com orientações específicas estabelecidas pela Igreja. Possui simbiose com o rito, enquanto sua finalidade: a glorificação a Deus e santificação dos homens na obra realizada em Cristo para a sua Igreja. E está inserida no momento ritual da Liturgia da Palavra. 

Tais características estão unidas ao elemento expressivo indicado para a Sequência: música. Esta arte que, deve ao menos ser inspirada na Sagrada Escritura, busca sempre a glória de Deus. Trata-se, portanto, de um canto (ALDAZÁBAL, 2007, p. 82). 

A Sequência surgiu “no culto formal da missa, proporcionando uma nova inspiração aos poetas clericais e resultando em um corpo de versos sagrados de crescente influência” (MESSENGER, 2017, p. 19), em um período de transição da liturgia romana pura para a relação e apropriação de elementos do mundo franco-germânico, que já nos aponta a aproximação a elementos populares, com clara variante cultural de um contexto extra-romano (NEUNHEUSER, 2007, p. 123-126).

A melodia originou-se, “inteiramente dentro da liturgia da missa” (MESSENGER, 2017, p. 45), do alongamento do “A” final da palavra aleluia (FONSECA, 2005, p. 28), em uma longa melodia chamada “iubilus” ou “canto de alegria”. O iubilus foi dividido em frases musicais por conta de sua extensão e por causa da respiração ao cantar.  


2. O Texto da sequência de Pentecostes

A seguir, o texto da Sequência de Pentecostes em língua portuguesa, tradução autorizada no Brasil pela CNBB:


Espírito de Deus,

enviai dos céus

um raio de luz!


Vinde, Pai dos pobres,

dai aos corações

vossos sete dons.


Consolo que acalma,

hóspede da alma,

doce alívio, vinde!


No labor descanso,

na aflição remanso,

no calor aragem.


Enchei, luz bendita,

chama que crepita,

o íntimo de nós!


Sem a luz que acode,

nada o homem pode,

nenhum bem há nele.


Ao sujo lavai,

ao seco regai,

curai o doente.


Dobrai o que é duro,

guiai no escuro,

o frio aquecei.


Dai à vossa Igreja,

que espera e deseja,

vossos sete dons


Dai em prêmio ao forte

uma santa morte,

alegria eterna! Amém.

Esse texto contém 10 estrofes, ou 5 estrofes duplas, com rimas fixas, presentes, na maior parte, nos dois primeiros versos. Cada estrofe se completa e é constituída de 3 versos cada, o que nos leva ao pressuposto de que o destinatário é a Santíssima Trindade, mais especificamente a terceira pessoa - O Espírito Santo.

As dez estrofes permitem várias hipóteses: O número 10 (dez) na Bíblia, de acordo com Fragoso (2010), está ligado não somente aos dez mandamentos, mas a provação, resistência e avaliação, expressa o completo, a inteireza, o todo. No decálogo aprendemos a assumir uma postura fiel e perfeita. É considerado o número da perfeição humana. O ser humano passa por provações, porém, Deus sempre manifesta o seu amor apresentando o seu caminho que é Cristo (Jo 14,6), verdade revelada pelo Espírito de Deus (I Tm 3, 14-16).


3. A Música e o texto (música silábica)

Nos é necessário compreender a relação entre a tipologia da música e as tipologias textual, bíblica e ritual. A bíblica, enquanto um movimento de louvor a Deus, e a ritual, com suas características celebrativas, trazem fundamentada a Sequência como um rito.

Expondo o pensamento de Agostinho, vemos uma íntima relação da música com a gramática (AGOSTINHO, 2021, p. 27), e percebemos um entendimento técnico de música através dos elementos da métrica grega e latina: a unidade rítmica. É verificada de a quantidade de unidades de cada palavra e suas possibilidades musicais. Estudando as possibilidades como unidades silábicas é possível esmiuçar a tipologia textual, que é o movimento que Agostinho faz. 

A forma poética é um bom caminho para a composição musical, pois a letra e a musicalidade se encontram dentro da métrica rítmica das frases sobrepostas que formam o texto. Características próprias de métrica e forma, pulsação rítmica de leitura dos versos, promovem uma musicalidade natural, que, ornamentada, se tornará uma obra musical.

Essa construção criativa de música e poesia pode ser caracterizada pela forma lírica (texto em verso). Os textos apresentam uma métrica rítmica natural silábica e podem ser cantados facilmente. Este ritmo poético, em grande parte, se dá pela métrica e pela fonética. Cada palavra é lida, declamada ou cantada silabicamente. A música silábica significa, portanto, uma sílaba por nota, “palavras e música trabalham juntas, linha por linha, estrofe por estrofe” (NEUNHEUSER, 2007, p.136).


4. Melodia na Sequência de Pentecostes 

Considerando o caráter dialogal, o desenvolvimento melódico será dissemelhante entre os versos: com a condição de um tropário, uma vez que a melodia oriental é um aspecto real na história da Sequência e a música é uma ferramenta que promove o encontro e realização da atividade do outro indivíduo (ARISTÓTELES, 2009, p.278).

Propositalmente a melodia foi pensada para 50 compassos (faz uso de ritornelo), a tonalidade em mi maior (terceira nota natural) e cada frase sendo desenvolvida em sete compassos. Nada que seja obrigatório, porém estruturalmente coerente com o serviço da música para com a letra.

A primeira frase é um movimento ascendente motivando a súplica inicial de quem propõe o diálogo, um proponente para ação, culminando com leve motivo descendente como ilustração e evidência da certeza de que a súplica é um ato de fé e certeza da ação divina. Essa dinâmica relacional, de onde vem a ação divinal para conosco, é vista na segunda frase: a palavra vinde com notas agudas, ou seja, em cima na pauta e os pobres nas notas graves.

Outra situação importante é perceber que uma nota aguda vinculada ao “vinde”, favorece um grito de súplica. Propositalmente, as palavras corações e dons possuem um motivo ascendente, alusão ao tempo pascal: Jesus desceu a mansão dos mortos e nos resgatou.

 

Os versos das próximas seis estrofes, conforme vimos sobre a estrutura textual, possuem similaridades em estrofes duplas e isso contribui para que possuam a mesma melodia, favorecendo a relação dialogal na música. Percebe-se uma melodia em uma região média com menor variação melódica que invoca o enredo em um todo. A mudança está na formação de acorde e nas possibilidades de arranjos vocais permitindo explorar a arte e continuamente valorizar o sentido de elogios ao Espírito Santo.

Por fim, temos nas últimas estrofes uma certa elevação da região melódica. Propositalmente pois, após a sequência, vamos nos levantar e aclamar o Evangelho. As notas contínuas na mesma região vão indicar a continuidade na vida. E o Amém, prolongado em três compassos evidenciará um querer e um ato de fé comunitário e permanente. As últimas notas valorizam a pluralidade de todos que dialogaram, ou seja, todos os celebrantes, cada qual na sua região de tessitura vocal.


5. A diatipologospraxia no texto das Sequências

Percebemos que ao ter as tipologias ritual, bíblica, textual e musical como referência, conseguiremos atribuir mais valores artísticos e musicais para a celebração. Os critérios a serem observados proporcionam um trajeto mais seguro, que instruem a sua execução, sendo uma experiência que vai além da boa música (BUYST, 2003. p. 36). 

O tropário é a dinâmica mais convidativa da Sequência e vai ajudar a explorar os conceitos propostos, uma vez que contempla três protagonistas: solista, coral e assembleia. Essa divisão pode ser explorada, contendo um solista e dois coros realizados pela assembleia, seja pela disposição do espaço litúrgico, seja por outra classificação, que colabore com a organização. 

O uso de duas ou mais possibilidades para cada verso será indicado com uma barra, que não exige necessariamente o uso das duas ou mais possibilidades, mas ao menos uma. Duração de notas, armadura de clave, fórmulas de compassos e a amplitude da polifonia, exigem especificações que cabem à realidade celebrada.  

Uma melodia que estimule a repetição de versos para comportar um clichê harmônico é totalmente indevida, prejudica o diálogo, uma repetição inútil, além de impedir a clareza da intenção textual quanto a relação trinitária e a terceira pessoa da Trindade. Logo, a prática preservada pela Igreja por séculos é desconsiderada pelo desconhecimento da estrutura da própria celebração (PIO X, 1903, §9).  

Mesmo com os desafios das línguas em organizar e traduzir um texto que esteja ligado a ação ritual, os demais elementos e tipologias necessitam dessa clareza e simbiose. Assim vemos como possibilidade prática a escolha de um gênero e um dialogante por verso ou estrofe, com cuidado de não variar muito os movimentos melódicos.

Sequência de Pentecostes Gênero Dialogantes Movimento melódico


Espírito de Deus,          ME/U A/C MD/MR

enviai dos céus          ME/U A/C MD/MR

um raio de luz!        ME/U A/C MD/MR


Vinde, Pai dos pobres,        U/ME C/A MD

dai aos corações        U/ME C/A MD

vossos sete dons.        U/ME C/A MD/MR

Consolo que acalma      R/ME/U B/A/C MD

hóspede da alma,      R/ME/U B/A/C MR

doce alívio, vinde!              R/ME/U B/A/C MR


No labor descanso,              R/U/ME B/C/A MR/MD

na aflição remanso,              R/U/ME B/C/A MR/MD

no calor aragem.      R/U/ME B/C/A MR


Enchei, luz bendita,              U/ME C/A MD/MR

chama que crepita,              U/ME C/A MA

o íntimo de nós!      U/ME C/A MD


Sem a luz que acode,       ME A MR

nada o homem pode,       ME A MR

nenhum bem há nele.       ME A MR


Ao sujo lavai,              U/ME C/A MD

ao seco regai,              U/ME C/A MD

curai o doente.      U/ME C/A MR/MD


Dobrai o que é duro,       ME/U A/C MD

guiai no escuro,       ME/U A/C MD/MR

o frio aquecei.       ME/U A/C MR/MA




Dai à vossa Igreja,                   U C MD/MDI

que espera e deseja,           U C MD/MR/MDI

vossos sete dons           U C MA/MD/MR/MDI


Dai em prêmio ao forte        ME/R A/B MA/MD/MR/MDI

uma santa morte,        ME/R A/B MA/MD/MR/MDI

alegria eterna!                ME/R A/B MA/MD/MR/MDI

Amém!                   U C MA/MD/MR/MDI


Legenda

ME – meditativo U - uníssono MA – movimentos ascendentes

R - Responsório A – solista MD – movimentos descendentes

B – coro ou coral MR – movimentos repetidos, conjuctos

C – assembleia ou segundo coro MDI – movimento de disjunção


Conclusão

A Sequência é um hino litúrgico, entoado antes da aclamação ao Evangelho como um elemento preparatório na liturgia. É entonado com sua própria melodia que, de acordo com sua origem, a cada estrofe, ou par de estrofes, deve ser diferente, pois é construído em um plano singular. Percorrendo o caminho de forma direta por quatro tipologias: Textual, Bíblica, Ritual e Musical, nos foi permitido avançar para bem celebrarmos esse canto dos batizados. 

Existe uma lacuna na compreensão humana em relação ao diálogo com aquilo que se celebra. Existe a possibilidade de a cultura ser um novo caminho para esse diálogo e, principalmente no Brasil por sua amplitude cultural, ao invés de afastar, se unir para viabilizar o processo de sacralização por meio da inculturação. Um bom caminho a ser seguido é o que nos apresenta o Papa Francisco (2021): “inculturar a fé e evangelizar a cultura”. Propomos uma inserção litúrgica da comunidade celebrante, na pessoa daqueles que organizam e lideram a comunidade, que estejam devidamente preparados para esse ofício e ajudem a comunidade nos âmbitos da liturgia, do texto e da música. 

Essa investigação pode contribuir para a abertura de novos caminhos para pesquisas em todo o âmbito litúrgico, pois permite dialogar com conceitos de linguagem textual, bíblica e musical. Ela não se esgota aqui, pode ser um estímulo para as realidades fomentarem a expressão de batizados, em seu espaço, com sua voz, sua cultura e entendimento, vivenciando o mandamento de Deus. Sugerimos que mais investigações sejam realizadas focando a reflexão sobre a Sequência e demais contextos litúrgicos, sendo tudo para a glória de Deus e santificação dos homens.







Referências Bibliográficas


AGOSTINHO, Santo (2021). A música. São Paulo: Paulus

ALBUQUERQUE, Amaro Cavalcanti de et al. (2005). Música brasileira na liturgia. São Paulo: Paulus.

ALDAZABAL, José (2007). Dicionário Elementar de Liturgia. São Paulo: Paulinas.

ARISTÓTELES (2009). A ética a Nicômaco. Porto Alegre: Artmed.


BÍBLIA. Português. In: Bíblia Sagrada: antigo e novo testamento. Tradução: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. São Paulo, Brasil. Paulus, 2001.


BUCCIOL, Dom Armando (2020). Sinais e símbolos, gestos e palavras na Liturgia: para compreender e viver a Liturgia. 1. Ed. Brasília: Edições CNBB.


BUYST, Ione (2003). Pesquisa em liturgia: Relato e análise de uma experiência. 2. ed. São Paulo: Paulus.


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______ (1992). Missal Romano. 2. ed. São Paulo: Paulus.


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FRAGOSO, Raquel. WEB artigos. 2010. Disponível em  https://www.webartigos.com/artigos/o-numero-10-na-biblia-refere-se-a-provacao-humana/32903


MESSENGER, Ruth Ellis. The Medieval Latin Hymn. Washington, D.C.: Capital Press, 2017. Disponível em: . Acesso em 06/04/2022


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PIO X, Papa (1903). Tra le sollicitude: motu proprio sobre a música sacra. Disponível em Acesso em 27 mai 2022.


STEVENS, John. Words and Music in the Middle Ages: Song, Narrative, Dance and Drama, 1050-1350. New York, Cambridge University Press, 1986.



Aline Roberta de Souza Bonato

Mestre e Educação pela UFTM (2021). Graduada em Música (UNIS), Pedagogia (CUML) e Letras Português/ Espanhol (FAVENI). Pós- graduada em Ciências das Religiões (FIJ) e Música Popular (UNIS). Membro do grupo de Pesquisa - Formação de Professores, Cultura Digital e Aprendizagem do PPGE/UFTM.  Regente e especialista em Música Sacra-litúrgica.


Anderson Cata Prêta

Licenciado em Música (2019) e Pedagogia (2020) pela Universidade Metropolitana de Santos. Especialista em prática musicais para espaços religiosos brasileiros pela FACEC (2022), pós-graduação em psicopedagogia pela Universidade Metropolitana de Santos (2021) e Musicoterapeuta pela Censupeg (2023)


Juliana Mara da Silva Matos 

Mestranda em Economia, Práticas Culturais e Indústrias Criativas (UFRGS). Musicoterapeuta (Censupeg 2023). Especialista em Arranjo Musical (Faculdade Unileya 2022). Licenciada em Música (Faculdade Claretiano 2019) Especialista em Gestão de Pessoas (Uniderp 2014). Licenciada em Letras (Universidade de Taubaté 2007).


 
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