O DIREITO LITÚRGICO A SERVIÇO DA RITUALIDADE
A SIMBOLOGIA DO ACENDIMENTO DAS VELAS
“Que faça-se a luz e seja vista por todos. Deixe-me ver a luz, pois a luz é boa!”
José Saulo Farias de Sousa
INTRODUÇÃO
A luz é a obra prima de Deus, é boa e nos alcança. Há alguns anos fui tocado pela simplicidade da luz! A irmã luz chegou até o meu interior durante uma celebração e, tendo entrado pela visão, acendeu a luz dos outros sentidos. O venerável hino “Veni Creátor”, em seu elegante texto apresentado na Liturgia Das Horas , traz dois versos que talvez exprimam o que senti: “Accénde lumen sénsibus, infunde amórem córdibus”, ou seja, é Deus que vem ao nosso encontro, por ser sempre dele a iniciativa e por meio dos sinais sensíveis, dos quais a liturgia está repleta, nos toca, acende as luzes da alma, criando um ambiente interior, capaz de gerar um movimento lúcido, de dentro para fora, uma plenitude de amor que está sempre nos predispondo a celebrar. Cabe colocar nesse texto, como princípio norteador, o que Domingos Sartore conceitua como sinal sensível, uma vez que ao longo do texto essa expressão vai aparecendo e dominando a busca que se propõe: “chama-se sinal uma realidade sensível que revela em si mesma uma carência e remete a outra realidade ausente ou não presente de igual modo”. Ao meditar sobre uma recente experiência com o sinal sensível da luz, comecei a perceber que todo o meu ser participava da celebração. Levando em conta que “a liturgia é obra da Santíssima Trindade” e que também é “obra do povo” fiquei convencido de que é determinante o modo como se realizam as pequenas coisas, pois a medida em que agimos, Deus vai agindo em nós e vai fazendo acontecer o que nos assegura a Sacrossanctum Concilium (SC),: “Dia após dia, a liturgia vai nos transformando interiormente em templos santos do Senhor e morada espiritual de Deus, até a plenitude de Cristo, de tal forma que nos dá a força necessária para pregar Cristo e mostrar ao mundo o que é a Igreja...”.
Por onde passo, procuro promover a mesma experiência aos irmãos e irmãs. Meus olhos viram uma vela sendo acesa com tanta inteireza que produziu uma participação intensa na liturgia! Durante as Semanas de Liturgia, promovidas pelo Centro de Liturgia Dom Clemente Isnard e durante os encontros nacionais da Rede Celebra , ao participar do Ofício Divino e outras Celebrações, fui sempre acompanhando a inteireza com a qual era feito o acendimento das velas. Nas comunidades, ao longo dos anos, fui instruindo as pessoas a esse respeito, por meio de catequeses e vivências , tendo por finalidade a contemplação do mistério da luz. Durante a 31° Assembléia Anual da ASLI , em Manaus (Janeiro de 2020), fui mais uma vez alcançado pelo mistério da luz, durante um acendimento feito com inteireza, antes de iniciar uma celebração e decidi registrar e divulgar a experiência, seguida de reflexões e sugestões, acompanhadas por pesquisas que parecem ajudar a explicitar o assunto.
O registro das práticas celebrativas é muito importante e a busca de um aprofundamento, para fazer a Ciência Litúrgica crescer é de igual importância! Para adentrar na reflexão, podemos começar nos perguntando: Como estamos nos relacionando com os sinais sensíveis que são próprios de nossa liturgia? Integram a nossa espiritualidade ou somos dualistas ao ponto de os tratarmos como “mero enfeite”? O que poderíamos fazer para melhorar nosso relacionamento com as "coisas" santas e termos uma celebração plena? Como garantir que o povo tenha direito a uma celebração autêntica como muito bem recomendou o Concílio Vaticano II, na qual possa cumprir também seus deveres cristãos? Como realizar o acendimento das velas de modo a despertar os sentidos para uma participação mais profunda nos santos mistérios?
Nesse artigo, a ênfase será dada na reflexão sobre a sensibilidade que se requer para o acendimento das velas nas celebrações litúrgicas em nossas igrejas e nos mais diversos lugares de culto, embora, para tal, iremos tocar em aspectos que incidem na prática e em aspectos que não diretamente ligados ao tema, talvez nos ajudem, analogicamente a compreendê-lo. Falar da sensibilidade é tocar o campo dos cinco sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato) e interessa-nos de tal modo que convém colocar como base dos cinco, a visão. O Cardeal José Tolentino Mendonça, ao aprofundar os cinco sentidos, interpreta o texto de Lc 11, 34-36, aprofundando essa perspectiva do olhar:
“Para Jesus, o olhar é de uma extraordinária importância, e ele dedicou-lhe numerosos ensinamentos...o modo como vemos decide a qualidade do nosso viver. Não podemos fantasiar que vamos recuperar o olhar dos outros quando a transparência do nosso precisa ser reinventada. Um olhar perturbado é uma fonte de obscuridade. Examinar a qualidade da luz que trazemos é o desafio que Jesus nos faz”.
Michel Scouarnec, apresenta a luz em tríplice abordagem: científica, simbólica e religiosa. Interessa-nos, principalmente a abordagem simbólica, da qual é possível perceber a ênfase dessa pesquisa sobre o acendimento das velas, embora as outras dimensões não estejam descartadas, pois são intrínsecas ao conteúdo. Ele nos ajuda dizendo que,
“para todo ser humano, a luz não é apenas um fenômeno, mas também um símbolo. Sua preocupação primordial não é explicá-la, mas associá-la às experiências vividas, às significações que dá à sua existência. Para o homem, a luz está ligada a realidades diversas: o dia e a noite, a luz e a escuridão...o ciclo das estações...;
[interessa-nos principalmente a realidade seguinte]
...A luz e o corpo: a visão. A luz é associada a um dos cinco sentidos: a visão. A luz torna todas as coisas visíveis. O olho não a vê, mas vê graças a ela. Simultaneamente à experiência do “ver”, fazemos a do “não-ver”. Somos ora cegos, ora videntes. Ora observamos e reconhecemos as pessoas e as coisas, ora passamos sem vê-las nem reconhece-las”.
Esse tema, até onde me consta, tem sido pouco explorado. Portanto, quero dedicar tempo a um tema que, ao meu ver, contém profunda relevância espiritual, dadas suas raízes na Revelação, na Tradição judeo-cristã e assumida até hoje pelas comunidades que conservaram esse patrimônio tão rico, de modo que o Magistério hoje nos assegura sua vitalidade oficialmente nos livros legitimamente aprovados. Considero, num primeiro momento e em todo o texto, que a Tradição Litúrgica nos ensina, mesmo que seja por analogia, que o acendimento de uma vela deve ser feito sempre com outra vela (menor) já acesa, uma vela serviçal, em silêncio ou enquanto se canta um refrão ou se proclama uma bênção, mas não desconsidero que hajam nas muitas comunidades, possibilidades de “enculturação e adaptação”, realidades das quais, por enquanto, também não aprofundarei. Ainda há muita insegurança em nossas equipes de celebração para as coisas mais simples. Ainda se vê que o sinal da luz não tem o “trato” que deveria ter. Queremos responder, aos poucos, com coragem, a esses desafios. Será abordada a temática, não simplesmente em seus aspectos “mecânicos”, de como fazer um acendimento, mas especialmente as suas relações com o sentido da visão e o que toca demais áreas do conhecimento: bíblico, canônico, litúrgico, espiritual, etc.
1. NAS SAGRADAS ESCRITURAS
Não basta acender uma vela com outra, mas acender de modo que todos vejam a luz, afinal, "não se acende uma lâmpada para deixar escondida..."(Mt 5,15) . Na prática, a pessoa viria pela lateral do altar e de modo que todos vejam a luz sendo trazida, realiza o acendimento. Seria uma falta de delicadeza, privar as pessoas do direito que tem de participar com todos os sentidos, e, nesse caso, com a visão. Mas porque essa preocupação as vezes é interpretada como desnecessária? O simbolismo da luz vem carregado de uma universalidade, ou seja, em toda parte do mundo é considerado importante, embora com significação múltipla. Mesmo na Bíblia seria um tema inesgotável. Importando mais aqui, a relação da luz com o sentido da visão, parece importante considerar a luz como primícias da criação: (Gn 1, 3: "faça-se a luz"). Além disso, há inúmeros momentos da História da Salvação em que o sinal da luz foi uma esperança para o povo, como em Ex 13, 21: “e o Senhor ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem, para lhes mostrar o caminho, e de noite numa coluna de fogo para os iluminar, a fim de que pudessem caminhar de dia e de noite”; Salmo 19,9: “o mandamento do Senhor é claro, ilumina os olhos”;
No ponto alto da História da Salvação, Deus continua se revelando por meio de sinais luminosos. O nascimento de Jesus Cristo se dá num momento histórico de escuridão na vida do povo e em resposta ao cenário de travas sociais, politicas e religiosas, desponta a luz no meio da noite, como se lê com encanto o anúncio da chegada da luz [àqueles que mais a esperavam] em Lc 2: “na mesma região havia uns pastores que estavam nos campos e que durante as vigílias da noite montavam guarda a seu rebanho. O Anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor envolveu-os de luz”; enquanto no nascimento a luz ilumina a noite, na ressurreição a luz se expande, confundindo-se com o próprio amanhecer, a passagem da noite para o clarão do dia em Lc 24,1ss: “no primeiro dia da semana, muito cedo ainda, elas foram ao sepulcro, levando os aromas que tinham preparado. Encontraram a pedra do túmulo removida...”; esses textos do nascimento e ressurreição nos levam ao ambiente primordial da criação, nos seus simbolismos de trevas e luz, noite e dia que foram recolhidos e explicitados pelos escritos joaninos, Jo 1,5: “e a luz brilha nas trevas, mas as trevas não a compreenderam”.
No entendimento do biblista John L. Mckenzie encontra-se uma afirmação que parece recolher o amplexo sentido desse conjunto de textos bíblicos aqui apresentados:
“A luz, com menor frequência, apresenta-se como símbolo da revelação; esta parece estar expressa na luz da Bíblia (conhecimento) e na luz da glória de Deus (2Cor 4,4.6). a revelação também é provavelmente expressa pela iluminação dos olhos do coração ou inteligência da verdade revelada. A luz é testemunho da bondade da vida (Jo 3,20)”.
Vale recordar que esse gesto de acender as velas com outra vela, remonta uma antiga tradição do judaísmo que, nascida nas Escrituras, se prolonga, de modo saudável até nossos dias, seja nas sinagogas, seja nas casas, ao acender o candelabro no início do shabat ou a cada noite, na festa da luz (Chanucá). Segundo Ronaldo Wrobel,
"em casa, a cada noite de Chanucá é feita uma brachá e acesas a Chanuquiá. A Chanuquiá é um candelabro especial no qual cabem nove velas. Uma vela, a mais alta de todas, chama-se shamash, que significa 'serviçal' em hebraico. Ela é usada para acender as outras oito."
Talvez fosse interessante também chamarmos de 'serviçal' a vela que nos auxilia no acendimento das demais. Não convém a nós fazer uma imitação estéril da liturgia judaica como se tem visto em grupos de “cristãos” que depois de tanto tempo, agora que estão descobrindo as raízes do cristianismo na cultura judaica. É lamentável essa imitação, usando elementos: vestes, símbolos, etc, ridicularizando-os e canalizando-os para finalidades um tanto cavilosas. Assim, corre-se o risco de agredirmos nossos primeiros irmãos na fé. Quem participa da liturgia católica, se participar bem, certamente notará o enraizamento judaico não ofensivo. Na tradição judaica, o sinal da luz está intimamente relacionado com o sentido da visão. Diz Antônio Rocha Fadista ao discorrer sobre o shabat:
“Considerando que o shabat começa ao anoitecer de sexta-feira, eles também insistiam em permanecer no escuro durante a noite, baseados na interpretação do Ex. XXXV, 3: “não acendereis fogo em vossas casas no dia de sábado”. Por outro lado, a lei rabínica ordena o acendimento das velas antes do início do shabat e impõe à dona de casa o dever de iniciar a comemoração do shabat, com a bênção do acendimento das velas”.
Será muito válido acessar o site Conteúdo Judaico e assistir o vídeo Velas de Shabat: ritual, bênção e kavaná. Durante o acendimento, normalmente feito pelas mulheres, mas também por homens, assim que é feito o acendimento, as mãos são colocadas como que um “tampão” sobre os olhos durante um tempo e depois, ao abrir os olhos, a luz parece que está sendo vista pela primeira vez.
2. NO DIREITO CANÔNICO
Se buscarmos entre os cânones não encontraremos nenhuma menção normativa sobre o acendimento das velas, no entanto, ao falar de direito do povo a uma liturgia bem celebrada, não se pode esquecer da legitimidade que o Código de Direito Canônico dá aos livros litúrgicos onde poderemos encontrar a satisfação para nossa busca. Como se pode perceber, a Tradição Canônica da Igreja não é divorciada da Tradição Litúrgica, pelo contrário, se complementam e legitimam e constituem uma única Tradição da Igreja, por essa razão, vale sempre considerar uma e outra, não como imposições, mas como uma grande reserva jurídico-espiritual que nos garante legalidade e segurança na vivência dos direitos e deveres litúrgicos. Quando num livro litúrgico não se encontra uma norma, parece importante não desprezar a possibilidade de ver como a Igreja costuma fazer determinado rito nos demais rituais. Chama-se essa prática de analogia sacramental: “princípio que reconhece as semelhanças e diferenças entre as celebrações litúrgicas”. Aqui, especificamente, buscamos, o modo como a Tradição catalisou as vivências das primeiras comunidades que de modo tão simples foram assimilando os mistérios e deixando como num testamento, o patrimônio a ser hoje redescoberto e reproposto.
O Cânon 940 da legislação canônica atual normatiza que “Diante do tabernáculo em que se conserva a santíssima Eucaristia, brilhe continuamente uma lâmpada especial, com a qual se indique e se reverencie a presença de Cristo”. Para quem possa achar a lei uma expressão rígida, cheia de “securas”, seria importante uma exegese dessa norma, a qual não será feita aqui, de modo amplo, mas não se pode deixar de comentar as expressões fortes que aparecem: o brilho contínuo, lâmpada, presença. Esse cânon tem como fundamento toda a tradição bíblica que sinaliza o mistério da luz que deve brilhar para que todos vejam; o sinal da lâmpada nos recorda as lamparinas acesas como sinal de prudência e vigilância; a presença evoca o mistério de Cristo que assume a luz de tal modo que a identifica consigo mesmo. Como se percebe, o cânon não pormenoriza o como deve ser essa lâmpada.
Em nossos tempos nos inclinamos a pensar numa lâmpada elétrica, mas em outros tempos poderíamos pensar nas lâmpadas alimentadas pelo azeite. Uma e outra não estão proibidas ou recomendadas, mas um justo discernimento pode ser feito, não tanto levando em conta a praticidade, mas o princípio litúrgico da verdade dos sinais. Celebramos a Verdade Revelada e os sinais empregados para servir a essa verdade devem ser verdadeiros e não tão distantes de sua originalidade, nos fazendo plastificar a sacralidade dos sinais que Deus mesmo foi querendo se servir para comunicar-Se a nós. Para falar dessa verdade da luz, certamente é bem original que se dê preferência ao azeite e a cera, por exemplo. Esses elementos evocam a luz em sua força simbólica de sacrifício que se consome constantemente para garantir que a chama da vida permaneça acesa.
A codificação Pio-Beneditina parecia mais criteriosa nesse sentido, recomendando o uso do azeite ou cera de abelhas, para assegurar a luz nas igrejas, podendo ser trocadas por outras de matéria parecida, mas nada muito estranho à matéria original para não vir a ofuscar o mistério contido no sinal. Vejamos a norma:
Cân. 1271: “Ante el sagrario donde está reservado el Santísimo Sacramento debe arder continuamente, de dia y de noche, por lo menos uma lámpara, que se há de alimentar con aceite de olivas o com cera de abejas; mas em los lugares donde no pueda conseguirse aceite de olivas, se autoriza al Ordinario local para que, según su prudência, lo sustituya por otros aceites, a ser posible vegetales”.
A lâmpada acesa diante do tabernáculo nos sinaliza a presença de Deus que nos convida à oração. Quer nos dizer de modo silencioso que a festa da luz pascal se prolonga nos corações contemplativos. A luz acesa enquanto o povo está reunido indica a festa em ato e após a reunião o seu prolongamento. Sinaliza também uma continuidade com a tradição das sinagogas que costumam deixar uma lamparina diante da Torá.
NO DIREITO LITÚRGICO
Antes mesmo de qualquer coisa, parece importante sabermos responder com as palavras de Armando Cuva, o que é o Direito Litúrgico?:
“É o complexo de normas que regulam a liturgia; são litúrgicas em sentido estrito as normas que se referem diretamente à realização das ações litúrgicas, ou seja, dos ritos, como diz o cân. 2 do novo CIC de 1983 (normas mais rituais do que disciplinares);...O direito litúrgico é obrigatório como o direito canônico de que faz parte, quer se refira a exigências de direito divino, quer se refira a exigências de direito puramente eclesiástico”.
No rito de dedicação de uma Igreja, após a incensação, vem o rito de "iluminação do altar e da Igreja", do qual podemos tirar a inspiração (analogia) para o acendimento em todas as celebrações e outros momentos de oração. Seguem as rubricas e um fragmento eucológico extraídos de lá:
. “69. Terminada a incensação, alguns ministros limpam com panos a mesa do altar e, se for esse o caso, estendem a toalha impermeável; em seguida, cobrem o altar com uma toalha e, se parecer oportuno, adornam-no com flores; colocam, de forma conveniente, os castiçais com as velas, requeridas para a celebração da Missa, e, se for esse o caso, a cruz.. 70. Depois, o diácono aproxima-se do Bispo, que, de pé, lhe entrega [uma pequena vela acesa], dizendo em voz alta:
"A luz de Cristo resplandeça na Igreja,
para que todos os povos
cheguem à plenitude da verdade."
[Depois, o Bispo senta-se. O diácono aproxima-se do altar e acende as velas para a celebração da Eucaristia] . 71. Faz-se então uma iluminação festiva: acendem-se todos os círios, as velas postas nos lugares onde foram feitas as unções e as restantes lâmpadas da igreja, em sinal de alegria”.
Podemos notar que, se por um lado, falta uma uma norma pormenorizada sobre o acendimento das velas antes das celebrações, buscando na tradição litúrgica, encontramos essa intuição primordial que fundamenta e satisfaz nossa busca, em termos de direito litúrgico. A partir da descoberta, se pode partir para outros ritos, como, por exemplo, na Vigília Pascal, quando o círio é aceso com o fogo novo e as nossas velas com a luz da grande vela. As vezes estamos tão corroídos pela falsa praticidade e pela cultura do descarte que corremos o risco [...como se vê por aí...] de levar nossos acendedores (fósforo, isqueiro...) para a igreja, para que antes mesmo da luz do círio chegar, acendamos nossa vela pessoal. É a pressa e o sentimento de individualismo que podem estar alimentando essas práticas. Não recebo a luz dada a todos, mas providencio minha própria luz...!
Nessa solene liturgia é feita toda uma ritualidade em torno do círio pascal, na primeira parte que é chamada de Celebração da Luz. Vale destacar o conteúdo que traz o texto da Proclamação da Páscoa, hino que dá grande ênfase no mistério da luz, como se fosse um duelo entre trevas e luz, no qual a luz vence soberanamente. É muito válido ler todo o texto, prestando atenção na capacidade que a Igreja teve de recolher o sentido das Escrituras e das primeiras comunidades, que reunidas na escuridão das catacumbas, não fizeram desse sinal um simples auxílio para garantir a claridade, mas deram sentido e plenitude ao aplica-lo à Cristo, luz do mundo. Destaco algumas estrofes que parecem ser as mais insistentes na relação do mistério da luz, contido no círio pascal, nas pequenas velas das nossas mãos e nas outras luzes cósmicas acendidas por Deus na liturgia da criação:
Na graça desta noite o vosso povo
Acende um sacrifício de louvor;
Acolhei, ó Pai Santo, o fogo novo:
Não perde, ao dividir-se, o seu fulgor.
Cera virgem de abelha generosa
Ao Cristo ressurgido trouxe a luz:
Eis de novo a coluna luminosa,
Que o vosso povo para o céu conduz.
-O círio que acendeu as nossas velas
Possa esta noite toda fulgurar;
Misture sua luz à das estrelas,
Cintile quando o dia despontar.
Que ele possa agradar-vos como o Filho,
Que triunfou da morte e vence o mal:
Deus, que a todos acende no seu brilho
E um dia voltará, sol triunfal.
Também na Instrução Geral do Missal Romano (IGMR) podemos encontrar muitas referências de Direito Litúrgico, inclusive sobre as velas. No número 117 se formaliza a quantidade de velas a serem usadas na celebração: “...coloquem-se, em qualquer celebração, ao menos dois castiçais com velas acesas ou então quatro ou seis, sobretudo quando se trata de Missa dominical ou festiva de preceito ou, quando celebrar o Bispo diocesano, colocam-se sete”. No n. 120, ao apresentar a sequência de ministros na procissão de entrada, se diz na letra C: “os ministros que portam as velas acesas, e entre eles, o acólito ou outro ministro com a cruz”. A norma parece taxativa quando se refere às velas, pois diz que estas devem estar acesas. Mais adiante, na instrução, n. 122 diz que “os castiçais são colocados sobre o altar ou junto dele”. A luz é colocada sobre o “altar”, ou seja, “sobre o lugar mais alto” para que todos vejam e se deixem iluminar e entrem no clima festivo da Páscoa de Jesus. O n. 274, quando diz que “os ministros que levam a cruz processional e as velas, em vez de genuflexão, fazem inclinação da cabeça”.
Para todos é pedido que façam genuflexão diante do Santíssimo Sacramento, mas pelo fato de estarem trazendo a cruz e as velas, lhes é facultada a genuflexão e pedido que apenas inclinem a cabeça. Daí se pode deduzir que esses sinais tem seu valor e força próprios, assim como outros que aparecem no cenário celebrativo. No n. 307, ao mesmo tempo que dá a norma se explicita o seu sentido: “os castiçais requeridos pelas ações litúrgicas para manifestarem a reverência e o caráter festivo da celebração (cf. n. 117) sejam colocados, como parecer melhor, sobre o altar ou junto dele, levando em conta as proporções do altar e do presbitério, de modo a formarem um conjunto harmonioso e que não impeça os fiéis de verem aquilo que se realiza ou se coloca sobre o altar”. Ao mesmo tempo que se coloca a luz para ser vista, esta não poderá tomar a cena e impossibilitar a visão de outros sinais sagrados, principalmente do pão e do vinho.
Se vê, nos últimos anos, que algumas comunidades no Brasil, profundamente enraizadas na Tradição, ao acender o círio pascal ou outras velas, assim como a coroa do advento e outros candelabros, fazem uma oração na qual se bendiz a Deus pela luz. Foram, certamente buscar, com muita sabedoria na liturgia judaica, quando a cada noite se faz uma ‘bracá’, ou seja, uma oração de bênção. Vejamos alguns exemplos:
Advento: “Bendito seja, Deus da vida, pela luz do Cristo, estrela da manhã, a quem esperamos com toda a ternura do coração”.
Natal: “Bendito sejas, Deus da vida, porque fizeste nascer hoje para nós o sol do Oriente, Jesus Cristo, nossa salvação”.
Páscoa: “Bendito sejas, Deus da vida, pela ressurreição de Jesus Cristo, e por esta luz radiante”.
Tempo Comum: “Bendito sejas, Deus da vida, pela santa ressurreição de Jesus, teu filho amado, nosso Senhor!”.
Ou: “Graças te damos, ó Pai, por teu filho Jesus Cristo, nosso Senhor, por quem nos tiraste das trevas e nos chamaste para a tua luz. Terminamos este dia e chegamos ao começo da noite. Fomos saciados pela luz do dia, que criaste para alegria nossa. E agora, enquanto não nos falta a luz da tarde, cantamos tua santidade e tua glória, por teu filho amado, Jesus Cristo, Senhor nosso”.
É um rito profundo que traz ao nosso interior a força de Deus que faz da luz sua obra prima. O rito é bem mais desenvolvido, trazendo refrãos, antes ou depois da oração de bênção e nessa última, para o tempo comum, a sugestão de cantar o hino “Luz radiante...” ou o Salmo 139: “Tu és a luz, Senhor...” Sugiro uma visita aos textos. No Ofício Divino Das Comunidades, uma versão inculturada do Oficio Divino romano, o rito de abertura do ofício de vigília, proposto para o sábado a noite, primeira véspera solene do domingo, traz um lucernário bastante desenvolvido em torno do sinal sensível da luz. Enquanto acende-se o círio pascal e as outras velas, inclusive as que estão nas mãos das pessoas, a pessoa que preside canta os versículos que são interiorizados e repetidos por todos:
- “Para ti, Senhor, toda noite é dia, (bis)
A escuridão mais densa logo se alumia. (bis)
- És a luz do mundo, és a luz da vida, (bis)
Cristo Jesus resplende, és nossa alegria! (bis)”
No Oficio Divino, no ofício vespertino há todo um louvor da luz, não tanto positivado nas rubricas, mas expresso em sua eucologia e nas normas gerais. Diz-nos a Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas:
“e para que nossa esperança se focalize afinal naquela luz que não conhece ocaso, “oramos e pedimos que a luz venha de novo a nós, rogamos pela vinda gloriosa de Cristo, o qual nos trará a graça da luz eterna”(S. Cipriano). Finalmente, nesta hora fazemos nossos os sentimentos das Igrejas Orientais, invocando a “Luz radiante, da santa glória do eterno Pai celeste, Jesus Cristo. Chegados ao fim do dia, e contemplando a luz da tarde, cantamos o Pai e o Filho e o Espírito Santo de Deus...”
É quase infindável o número de vezes em que se faz menção à luz, seja nos ofícios da manhã (laudes), seja nos da tarde (vésperas). O amanhecer e anoitecer é um sinal sensível muito importante na liturgia da Igreja, pois associamos o entardecer ao mistério da paixão e morte e o amanhecer à ressurreição. Não se trata de mera convenção feita pela Igreja, mas de verdadeira vivência do Mistério Pascal, prolongado no hoje, nas horas do dia. Sobre o simbolismo da luz,
“cada vez mais é frequente ver que as comunidades mantêm o círio pascal em lugar de honra e o acendem durante todo o ano. No Ofício das Comunidades, é previsto para cada sábado o rito do lucernário ou do louvor da ressurreição do Cristo enquanto se acende o círio ou as velas. É um costume diário das Igrejas Orientais que, em nossas comunidades, começamos a praticar, ao menos nos domigos. No catolicismo popular, as pessoas devotas acendem velas para pagar promessa e não rezam ou celebram sem velas acesas”.
Nunca se deveria esquecer do catolicismo popular que conserva muitos elementos sensíveis da liturgia, embora carentes de aperfeiçoamento com a liturgia mais oficial.
Quando formos acender nossas velas, nas igrejas, tenhamos a consciência de que as pessoas tem o direito à luz e não podem ser privadas de ver a luz da vela brilhar e lhes acender as luzes da mente, fazendo-lhes recordar que Deus é a luz que precede eternamente qualquer luz. Se privamos alguém da luz, estamos sendo muito diferentes de Jesus Cristo que ao ver um cego, toma-o pela mão e toca duas vezes em seus olhos, para garantir que a luz do dia seja vista plenamente (Mc 8,22-26). É esse o sentido da luz ser vista por todos que a tradição litúrgica quer salvaguardar e nos garantir. Na Vigília Pascal, mãe de todas as vigílias , o ministro, enquanto acende o círio com o fogo abençoado, diz “A luz de Cristo que ressuscita resplandecente dissipe as trevas de nosso coração e nossa mente”. Claramente há um esforço de colocar em destaque o sentido do mistério da luz, realizando esse solene acendimento diante de todos. Nas celebrações, antes de qualquer coisa, acendemos a luz para sinalizar a presença anterior e eterna de Deus. Também acendemos para dar um clima festivo, pois Cristo, luz do mundo é a festa da Igreja. Parece que nem sempre é necessário fazer essas orações de bênçãos, pelo fato de não estarem positivadas, mas não se pode negar que enriquecem e dão ritualidade ao acendimento. É mais um exemplo de analogia litúrgica a ser interpretado a partir da liturgia da luz na Vigília Pascal, onde, antes de acender o círio, se faz uma oração de bênção sobre o fogo. Ione Buyst interpreta com muita profundidade esse cenário de trevas e luz, quando em sua obra, quase poeticamente, diz que:
“Bebemos com nossos olhos e nossos ouvidos, sentimos com nossas mãos, com todo o nosso corpo, a fogueira ardendo, a cruz e os outros sinais que vão sendo traçados na vela, a chama erguida na noite escura, os cantos ecoando em nosso coração, a nuvem de incenso nos acompanhando e nos penetrando com seu perfume, a luz brilhando na escuridão. Enquanto se realiza tudo isso, algo profundo vai acontecendo: por um processo que podemos chamar de “simbolização”, essa grande vela traz presente, re-presenta, aos olhos de nossa fé, o Cristo Ressuscitado. No sinal sensível do círio aceso (envolvido com palavras, cantos, incenso, gestos...), aparece a realidade significada”.
O direito a ver a luz é requerido pela natureza da liturgia e pela natureza do ser humano. A liturgia tem sinais sensíveis, externos, que alcançam a interioridade humana que, por sua vez ao captar as realidades externas, tendem a transcendê-las. Santo Tomás de Aquino nos ajuda a compreender essa relação ao comentar os ‘preceitos cerimoniais’:
“como já foi dito, chamam-se preceitos cerimoniais os que se ordenam ao culto. O culto de Deus é duplo: interior, exterior. Uma vez que o homem é composto de alma e corpo, um e outro devem ser aplicados a cultuar a Deus, a saber, que a alma cultue por um culto interior, e o corpo por um exterior; donde se diz no livro dos salmos: “Meu coração e minha carne exultam no Deus vivo”. E como o corpo se ordena a Deus por intermédio da alma, assim o corpo se ordena ao culto interior. O culto interior consiste em que a alma se uma a Deus pela inteligência e pelo afeto. E assim segundo diversamente o intelecto e o afeto de quem cultua a Deus se unem retamente a Deus, segundo isso, diversamente, aplicam-se ao culto de Deus os atos exteriores do homem. ...no estado da presente vida, não podemos intuir a verdade divina em si mesma, mas é necessário que o raio da verdade divina nos ilumine sob algumas figuras sensíveis.
No rito do Batismo , por exemplo, a vela entregue à pessoa batizada é acesa no círio pascal. Deveríamos, em nossas reuniões de preparação para este sacramento, deixar de lado as falácias, as verborragias e gastar tempo aprofundando a natureza dos sinais sensíveis, pois esses sim são capazes de nos alcançar no corpo e na alma. Essas observações não querem ser uma ação preconceituosa para com as comunidades que ainda não fazem como aqui proposto, pelo contrário, insisto aqui para que não deixemos que o mundanismo espiritual entre em nossas liturgias. A "plasticidade" tem penetrado nossas vivências e deixado graves ideologias na mentalidade de nossas assembléias. Na Sacrossanctum Concilium, (SC), afirma-se que "a espiritualidade primeira e indispensável da vida cristã é a liturgia"! Não descuidemos do direito que temos de ter uma liturgia bem celebrada. Direito a celebrar bem exige um dever de não apenas cumprir o que está estabelecido nas rubricas, mas sem descumpri-las, ir além, ou seja, fazer com inteireza, de modo que essa espiritualidade resplandeça e chegue na vida concretamente, afinal, já dizia Matias Augé que “o rito não deve ser tomado como um elemento de consumo, com resultado automático, mas antes como um esboço que deve ser interpretado com uma realização inteligente e flexível”. E nos acrescenta Romano Guardini: “aquele que se entrega realmente á liturgia, que possui a experiência dela, perceberá logo a grande significação dos gestos do corpo, dos atos e coisas exteriores.”
A SC, nos recorda que participar de maneira consciente e ativa se constitui "direito e dever do povo cristão, em virtude do batismo". Para se chegar a esse nível de participação e ao justo equilíbrio entre direitos e deveres, parece importante investir numa formação litúrgica que vise não apenas a transmissão de tudo que se deve fazer, mas realizar experiências que levem as equipes a mergulhar no sentido espiritual dos ritos. Há um "segredo" a ser (re)descoberto na ritualidade. Pe. Thiago Faccini Paro, a esse respeito nos ensina que é preciso
“redescobrir a ritualidade e a arte de celebrar: só assim a liturgia, com sua linguagem ritual, expressará simbolicamente as ações de Deus realizadas na história, comunicar-se-á de maneira eficaz e revelará o seu sentido e significado preservado e repetido ao longo da história e que nos permite “voltar” até esses acontecimentos e deles participar, deixando que transformem a nossa vida. Assim, fundamenta-se a busca de uma iniciação cristã, que eduque para uma sensibilidade simbólico-ritual, que prepare os catequizandos, catecúmenos e neófitos para celebrar, a partir da própria celebração”.
Devemos afastar-nos das agressividades ideológicas que enfraquecem o patrimônio litúrgico que temos. Liturgia é vida cristã! Em muitas tradições também o sinal da luz, do fogo, tem bastante relevância! Entre os indígenas, por exemplo, em algumas tribos, mantém-se uma espécie de tocha acesa, no lugar das danças rituais; nas festas populares em nosso país, principalmente no nordeste, a festa se inicia com o acendimento da fogueira: ex. nas festas de São Sebastião, S. Antônio, S. João Batista e S. Pedro; na piedade popular, o acendimento de velas é acompanhado por um sentido de experiência com a luz de Deus que não se apaga.
Daí se vê nos santuários e em muitas Igrejas e cemitérios, muitas pessoas que acendem velas com os mais variados interesses espirituais, mas predominando sempre a sacralidade que advém da luz; Não se trata de uma lei, mas de uma consciência espiritual, de uma inteireza naquilo que se faz. É lamentável que pouco a pouco vá se perdendo a sensibilidade, trocando-se a verdade dos sinais pela fantasia. Se pode ver as chamadas "velas virtuais" nas tvs "católicas" sendo usadas com finalidades financeiras. Lamenta-se também que é cada vez mais raro encontrar na capela do Santíssimo as lamparinas que se mantinham acesas com o azeite; Argumenta-se em tudo isso que os tempos se modernizaram e a Igreja precisaria acompanhar as tendências, mas em vez de se pensar na modernidade, talvez fosse mais saudável pensar no sentido pleno da Liturgia.
3. NOS DIVERSOS AUTORES
Para fundamentar um pouco mais, vale observar o que dizem alguns autores, seja sobre o acendimento da vela ou sobre o olhar, a visão, os símbolos e outros aspectos que poderão contribuir para maiores esclarecimentos. Alexandre Henrique Gruszynski, em sua obra, abre uma sequência de artigos com um sobre o “Acender as velas”, o qual, devo reconhecer, foi o que mais explicitamente, tentou criar uma sequência ritual para esse momento, certamente a partir de sua experiência pessoal. Diz o autor:
“O ministro que for acender as velas, como de resto todos os ministros que atuarão na celebração, começará, pois, por estar adequadamente trajado, preferencialmente com a veste litúrgica, mas pelo menos vestido com sobriedade, e em consonância com o traje que, na comunidade, se usa para uma festa. Pois toda celebração litúrgica é uma festa, uma comemoração festiva. A sua ida até o altar sobre o qual (ou junto ao qual) estão colocadas as velas a serem acesas haverá de ocorrer, então, com a consciência de que está ali para uma missão litúrgica, portanto sem paradas para uma conversinha, sem trajetos confusos, sem trejeitos. Achegar-se-á ao altar pela frente, ou seja, pelo lado da nave e, próximo a ele, fará a reverência adequada (inclinação profunda em regra, mas, se no presbitério estiver a reserva eucarística, genuflexão) e passará a acender as velas...acesas todas, faz de novo reverência ao altar e retorna à sacristia ou a outro lugar onde habitualmente ficará”.
O autor fundamenta o acendimento na centralidade de Cristo que é luz que ilumina a todos os que jazem nas trevas (Lc 1,79). Sugere que, observadas as disposições de cada espaço litúrgico, comece o acendimento sempre a partir dele, Crucificado ou Ressuscitado: “É possível que a adoção do sistema tenha um sentido simbólico: a luz se expande a partir do Cristo e termina no Cristo (referência à imagem do crucificado). É na mesma visão que, no tempo pascal, antes de se começar a acender as velas do altar acende-se o Círio Pascal, que será extinto após apagadas todas as velas do altar”.
E, continando, indica o uso de uma mecha ou pavio, que é uma possibilidade muito interessante:
“para acender as velas usa-se convenientemente uma mecha ou pavio, e não diretamente um isqueiro ou fósforo. O pavio em geral está colocado na extremidade de uma cana ou haste e integrado com um apagador em forma de cone, sendo o conjunto chamado, em muitos ambientes, de ‘nariz de judas’. ...Sempre que possível o pavio será inflamado ainda antes de o ministro sair da sacristia, e apagado só depois do retorno à sacristia, ou então, mas discretamente, após a reverência, antes de se retirar do entorno do altar” .
Ampliando as possibilidades, relata que “em algumas igrejas (catedrais, paroquiais, de comunidades religiosas), o acendimento das velas do altar, no início da celebração das vésperas, é feito de modo solene. O próprio celebrante, recebendo o acendedor, já inflamado, de um acólito, acende as velas na ordem acima descrita, enquanto a comunidade canta o tradicional Hino “Lumen hilare” . O hino mencionado pelo autor, no Brasil é conhecido por “Luz radiante, luz da alegria...” e pode ser encontrado em muitos hinários. Indico aqui a versão do Ofício Divino Das Comunidades já mencionado anteriormente. Aqui o autor parte de sua experiência, na qual usa um acendedor que serve também para apagar, normalmente usado nas igrejas antigas que tem os castiçais colocados nos ‘altares-mor’, mais elevados. Penso, principalmente nas comunidades pequenas, onde a realidade é ter velas para realizar o acendimento.
Nos recomenda Alberto Aranda que “é muito importante aprofundar-se no conceito do sinal litúrgico, nas leis que o regem, em suas implicações e em seus diversos tipos”. A liturgia se faz não apenas pensando em Deus, mas realizando uma ação. O corpo está sempre em jogo quando se leva em conta que a liturgia é um “agir”. Nesse artigo muito se destacou a importância dos olhos, da visão como participante das ações litúrgicas, e, especificamente dos ritos que trazem alguma relação com a luz. David Cohen, ao fazer uma análise sobre A Linguagem do Corpo, sinaliza, enquanto discorre sobre o olhar: “quando nos sentimos atraídos por alguém, nossos olhos mudam de tamanho e as pupilas se dilatam. Não é consciente, mas essas mudanças tornam o contato ocular “um ato de comunicação carregado de energia e emoção”” . A liturgia parece ir muito por esse caminho da atração. Há beleza nas ações litúrgicas e é muito próprio da natureza humana tender para o belo.
Ione Buyst, em sua preciosa obra O Segredo Dos Ritos, na qual parece recolher todo o fruto maduro de seu trabalho litúrgico, vai desenvolver a liturgia a partir da visão holística do ser humano e colocar as velas acesas no quadro dos sinais sensíveis:
“a respeito dos sinais com os quais se realiza a liturgia, SC 7 afirma três coisas: são sinais sensíveis, significativos e eficazes. São sinais sensíveis, ou seja, atingem nossa sensibilidade, a partir da corporeidade. São coisas que podemos ver ou ouvir, apalpar, cheirar, degustar...: pão e vinho, água, óleo, incenso, velas acesas..., espaço para celebrar, altar, estante da Palavra..., mãos nos tocando, ungindo, pessoas reunidas, se cumprimentando, abraçando, cantando, atuando em conjunto...Daí a necessidade de cuidar da maneira de celebrar, de cultivar a forma das ações litúrgicas (cf. SC 47)”.
Complementará de modo valioso a leitura integral do quinto capítulo do livro Símbolos Na Liturgia também da Ione Buyst, no qual a autora aprofunda em diversos aspectos o sinal do “fogo” que na liturgia poderá aparecer relacionado com “chama, brasa, sol, luz, círio pascal, vela, lamparina, tocha”. É importante apenas salientar algumas considerações feitas por ela sobre as velas:
A) “velas acesas em praticamente todas as celebrações, sinal de alegria e de festa, expressando a fé, a devoção, a vigilância da comunidade, simbolizando a vida nova da ressurreição; colocadas em cima ou ao lado do altar, levadas na procissão de entrada, na procissão ao ambão para a proclamação do Evangelho; acesas diante dos ícones e imagens sagradas; acesas junto dos defuntos, nos velórios e nas exéquias, também nos túmulos...
B) onde falta a luz, a vida corre perigo (nas prisões, nos porões das ditaduras...). Principalmente as pessoas idosas e enfermas anseiam pela luz do dia e temem a chegada do crepúsculo. Em muitas tradições religiosas, a luz é atributo da divindade. Para que os mortos encontrem o caminho, é preciso acender velas; em algumas regiões é costume colocar uma vela acesa na mão do moribundo. As velas ou tochas acesas em procissões expressam nossa busca de proximidade de Deus e de acertar o caminho”.
O corpo inteiro celebra os santos mistérios. É a festa dos sentidos que tendo sido criados por Deus, a ele tendem de modo perfeito. Alessandro Rocha, ao falar sobre a visão como primeiro sentido e interpretando o texto de Mt 6,22-23, nos recorda:
“nossos olhos são as janelas pelas quais tomamos contato com a realidade. Do ponto de vista biológico podemos explicar como é que captamos pelo olhar a realidade que nos cerca. Todos aqueles que gozam de saúde nos órgãos ligados à visão já nascem com essa espetacular capacidade. Porém, o que Jesus estava dizendo sobre os olhos serem bons ou maus, não pode ser compreendido no nível biológico. A capacidade de ver o mundo e as pessoas, inclusive a si mesmo, de forma positiva ou negativa, não pode ser localizada em um de nossos órgãos; ela não é natural em nós, mas aprendida”.
Dentre tantas enfermidades que Jesus curou, a cegueira parece ter sido uma das preferenciais, pois são marcantes os textos em que a visão é devolvida, como em Mc 8, 22-26 que Jesus tendo tocado uma vez nos olhos e o cego ainda não tendo recuperado a vista totalmente, Jesus toca seus olhos novamente. Para Santo Tomás de Aquino há uma relação entre sentidos externos e internos e com relação ao sentido da visão, considera que,
“A vista que está livre de modificação natural do órgão e do objeto, é o mais espiritual e, entre os sentidos, o mais perfeito e o mais universal. Depois dela vem a audição, e em seguida o olfato, os quais supõem modificação natural da parte do objeto”.
4. CONCLUSÃO
Levando em conta tudo quanto foi apresentado, sugiro uma mudança de costume, que não seja meramente externa, mas de dentro pra fora, saída das entranhas da alma: comecemos a acender nossas velas com outra vela acesa, de frente para as pessoas, aparecendo, discretamente na assembleia, com uma velinha menor já acesa e espalhando o clarão da luz de Cristo que, assumindo a autenticidade desse sinal, disse: Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, nunca andará em trevas, mas terá a luz da vida" (Jo 8,12). Considero o texto apenas como início de uma pesquisa sobre o assunto, para a qual, peço a colaboração de todos quantos venham a ler e queiram completar o mesmo com alguma sugestão.
Antes de começar as celebrações, tenhamos esse cuidado de gerar espiritualidade e não pânico! O fósforo talvez não tenha sido feito pensando na liturgia. No texto, a insistência gravita nessa forma de acender as velas, de tal modo que, sendo a expressão de um desejo de mais espiritualidade, chega a ser repetitiva como um refrão e talvez agressiva aos que ainda não consideram esse tema como prioridade. Uma pequena vela que acende a outra: Eis uma “pequena” conquista a ser celebrada! Nessa ritualidade, além de se levar em conta toda a carga espiritual que por si mesma contém, se poderia tirar proveito para a vida cristã, ensinando a todos que quando alguém acende uma vela à vista de todos, a luz deixa de ser pessoal e a todos é dado o direito de contemplá-la.
Resta-nos continuar aprofundando o assunto e partilhá-lo com todos; resta-nos também continuar promovendo experiências rituais e delas nos servir na evangelização para que todos possamos bendizer a Deus, Criador da luz que nos chama a participar de sua glória eterna. Há uma lista que pode ser consultada e aprofundada. Me coloco sempre numa perspectiva de busca e abertura às descobertas sobre o assunto, uma vez que, enxergo o tema não apenas como partilha de uma experiência, mas como uma realidade que desafia as comunidades, pois, por mais simples que pareça, em muitos momentos, percebo ainda uma carência de espiritualidade nesse sentido. Aos que aceitarem boas sugestões, certamente esta é uma reflexão válida.
Rezemos: Deus, todo-poderoso, que nos arrancastes do Egito, do pecado e nos fizestes nascer de novo pela água e pelo Espírito Santo, convertendo-nos em raça escolhida, sacerdócio real, nação santa e povo que vos pertence. Concedei a todos que fomos chamados a sair das trevas e a entrar em vossa luz maravilhosa, proclamar vossas maravilhas nesta vida e cantar vossos louvores com todos os eleitos pelos séculos dos séculos. Amém.
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