Por Romolo Picoli Ronchetti*
A arte e a arquitetura situam-se no horizonte humano como formas de linguagem, um meio de expressão. Como uma língua possui uma dinâmica própria com signos, significados, palavras e gramática, também a arte e a arquitetura possuem suas próprias formas de expressão, cores e disposições do espaço que também são capazes de “falar”, ainda que silenciosamente.
A liturgia cristã, como evento comunitário, também possui uma gramática própria, com suas noções e significados, buscando invariavelmente comunicar um conteúdo. Neste sentido, tudo aquilo que é sensível na liturgia (pintura, arquitetura, luz, vestes, música, gestos…) precisa “falar” a língua da própria liturgia, que expressa não apenas um culto religioso, ao qual se assiste como espectador, mas sim, um modo de existência, do qual se participa entrando ativamente em sua performance.
Os primeiros cristãos não se concebiam como mais uma religião no mundo tardo antigo, para expressarem a realidade de sua existência, autodefiniram-se como ekklesia. A este respeito argumenta Yannarás:
“os primeiros cristãos não se representavam na história como uma nova religião: para se autodefinirem escolheram o termo ekklesia, igreja, um termo que, no âmbito linguístico grego, havia já em si um conteúdo real, ousarei dizer ontológico. A ekklesia dos cidadãos não era a assembleia dos cidadãos da Polis, reunidos – não tanto para tomarem decisões práticas em mérito dos negócios da cidade - mas para realizar e manifestar, em primeira instância, a realidade da Polis. E a realidade da cidade é a realidade do nosso modo de coexistência” (YANNARÁS, 2012, p. 206-207).
No contexto grego, a ekklesia é uma reunião que manifesta um modo de existência inspirado no Kosmos, na totalidade da coexistência harmônica de todos os seres, que em sua existência particular são marcados pela efemeridade, mas o modo relacional como se dá sua existência com os outros seres não possui mudança, “é um modo da eternidade” (YANNARÁS, 2012, p.206).
Os cristãos, assumindo o termo ekklesia, trazem também para si toda a sua carga conceitual (é uma assembleia que realiza um modo de existência que supera a sucessão temporal e suas consequências) mudando apenas o referencial de seu modo de existência: enquanto a ekklesia grega inspira-se no realizar-se harmônico do Kosmos, a ekklesia cristã inspira-se na causa do Kosmos, ou seja, em seu Logos: o modo de existência de Deus, que é comunhão de Três pessoas. Neste sentido, a Liturgia é o evento privilegiado da manifestação do Ser da Igreja, um evento de comunhão entre os irmãos, como imagem da comunhão trinitária.
Dentre as expressões teológicas que tratam da imagem da Igreja, uma das mais expressivas e que fala mais diretamente de sua realidade de comunhão (dos homens entre si e dos homens com Deus) é da Igreja como Corpo de Cristo. É justamente da compreensão profunda do que seja o Corpo de Cristo, ou seja, da lógica da Encarnação do Verbo de Deus, é que brotará a essência da verdadeira arte e arquitetura para a Liturgia, a superação do ego individual para ser expressão de uma relação de comunhão, de Amor.
O edifício cristão, lugar da celebração da Liturgia, é também uma imagem do Corpo de Cristo. O (a) arquiteto (a) e o (a) artista que se propõem trabalhar em sua configuração, são aqueles (as) que trabalham a matéria dos primeiros dias da Criação, não em vista daquele que é o coroamento da obra de Deus no Sexto dia , que recebe em suas narinas o sopro da vida ( o homem) , mas em vista daquele que recria em si tudo novamente no Oitavo Dia: o Cristo glorioso é a manifestação evidente da união entre a matéria deste mundo, assumida em sua Encarnação, e a vida divina; nele vemos o corruptível revestido de incorruptibilidade, o estado final de todo o Criado na plenitude de sua perfeição.
No processo de concepção do edifício para a Liturgia, o trabalho da (o) arquiteta (o) e da (o) artista configura-se como um autêntico ministério, pois ele exige um envolvimento profundo e comprometido que ultrapassa os limites de conhecimentos técnicos, das práticas éticas e legais, chegando a ser uma inversão quase que paradoxal do que habitualmente se verifica nos processos de construção arquitetônica e elaboração de obras de arte, pois uma igreja se constrói de cima para baixo (cf. MICHELIS, apud YANNARÁS, 2012, p. 2019), exatamente como o movimento da Encarnação, e arte é realizada de dentro para fora, virando a matéria do avesso, mostrando o que ela tem de mais profundo em seu ser, a razão última de sua Criação.
No livro “La fede secondo le icone”, o Cardeal Spidlik e o Pe Marko Ivan Rupnik, narram uma tradição interessante de uma escola de arte sacra no Monte Athos, que situava a cena da Transfiguração do Senhor como eixo central na vida daqueles que desejam realizar obras para a Liturgia:
“Sobre o Monte Athos havia uma escola para os pintores sacros que previa, não apenas instruções técnicas e artísticas, mas também o estudo da teologia e da liturgia, unido a uma prática de oração. No final do ensinamento, o discípulo deveria passar por um exame que consistia em pintar um ícone com um tema constante: a Transfiguração sobre o Monte Tabor. Por que exatamente este ícone? Aquilo que os apóstolos viram sobre o monte foi – segundo a explicação dos Padres – uma antecipação do mundo futuro depois da ressurreição dos mortos, a visão do mundo transfigurado, que chegou na sua definitiva perfeição.” (SPIDLIK & RUPNIK, 2011, p. 41)
Uma leitura atenta e orante desse episódio narrado por São Lucas (9, 28-36), será possível perceber que o ministério da arquitetura e da arte para a Liturgia, possuem seu fundamento nessa Teofania.
“Mais ou menos oito dias depois…” (v. 28)
A experiência da contemplação do Senhor é necessária a todos aqueles que desejam trabalhar na configuração do Espaço Litúrgico, pois ali se abre uma fresta na história, por onde é possível vislumbrar a Eternidade. O Cristo Transfigurado manifesta aos seus discípulos uma antecipação de seu corpo glorioso, ressuscitado da Morte. Nele é visível a realidade do Oitavo dia - a Criação que passa pela Recriação tornando-se redimida (cf. Ef 1,3 - 14) – do qual a Liturgia tira toda a sua inspiração e razão última de seu Ser: comunicar a Vida Nova, reunindo os filhos de Deus que estavam dispersos (cf. Jo 11, 52), no Corpo Vivificante de Cristo (cf. Cl 1, 18).
“Tomando consigo Pedro, Tiago e João...” (v.28)
O primeiro passo a ser dado no ministério da arquitetura e da arte para a Liturgia é o discipulado, pois a linguagem de todo o espaço eclesial é simbólico e, como para o símbolo não há um caminho racional (de explicação), apenas a iniciação é capaz de introduzir na dinâmica simbólica.
O caminho do discipulado é aquele da vida eclesial, no qual Cristo prossegue na História manifestando o Reino de Deus e doando a verdadeira Vida nos Sacramentos. Essa via do discipulado, não se impõe inicialmente como um processo de formação intelectual, pois a Vida de Deus não é uma ideia; os primeiros passos nesta via são de iniciação em um novo modo de existência, que abraça o ser humano de todos os lados sem deixar nada escapar. É um mergulho, com todos os sentidos, sentimentos, pensamentos, esperanças, frustrações e traumas, na vida litúrgica da Igreja, para superar o individualismo e alcançar o modo de existência pessoal, pautado pela relação.
“Subiu à montanha para orar” (v. 28)
A subida à montanha, lugar privilegiado nas Sagradas Escrituras para o encontro com Deus, representa o esforço humano em colocar-se diante do Mistério. É um afastar-se da cotidianidade e toda a sua superficialidade, e um aproximar-se de Deus e de sua pedagogia, para adentrar em sua sublime profundidade.
O caminho da subida do ministério da Arte e da Arquitetura para a Liturgia, é uma ascese dos sentidos, um purificar-se do individualismo e suas pretensões “autorais”, incapazes de comunicar a vida eclesial, e um abrir-se à ação do Espírito Santo, força vivificante do Corpo de Cristo que gera toda a comunhão, “Senhor que dá a vida” (credo niceno-constantinopolitano) e único capaz de tornar Visível aquilo que é Invisível.
Este caminho de ascese deve ser feito para despertar aquele que São Paulo chama “homem interior” (cf. 2Cor 4,16; Rm 7,22) e que Orígenes especifica haver uma concordância com os órgãos dos sentidos do “homem exterior”:
Ora, como ao homem exterior corresponde com idêntico nome ao homem interior, assim se pode dizer que cada membro do homem exterior encontra-se, sob idêntico nome, no homem interior. O homem exterior tem olhos, mas também o homem interior se diz ter olhos (…). O homem exterior tem ouvidos, mas também o homem interior se diz ter ouvidos (Orígenes, Diálogo com Eraclide, apud RUPNIK, 2011, p. 107).
As (os) ministras (os) da Arquitetura e da Arte para a Liturgia, para promover um espaço e uma arte espiritual, ajudando a comunidade em seu caminho de despertar do “ser interior”, deve primeiro ser capaz de abrir seus olhos e ouvidos interiores. O espiritual aqui, não é sinônimo de imaterial ou supra sensível, significa algo mais profundo, que inclui a matéria da Criação: “Por espiritual a nossa Igreja entendo tudo aquilo que na ação do Espírito Santo nos fala de Deus, nos comunica Deus, nos orienta e nos une a Ele, tornando-nos sempre mais símiles a Cristo, também na nossa carne, na nossa humanidade” (RUPNIK, 2011, p.111).
Neste sentido, o melhor lugar para a purificação dos sentidos e o exercício dos sentidos interiores, é a participação na Liturgia. Nele os sentidos precisam lidar com os dois registros constantemente: ouve-se a proclamação da Palavra que é o próprio Cristo que fala; o catecúmeno é imerso nas águas batismais, e é do Espírito Santo que seus pulmões se enchem quando retorna à superfície.
Ao lado da Liturgia colocam-se também como vias para a purificação dos sentidos, a oração e o jejum. A oração é o caminho pessoal da comunhão com Deus, pelo qual coloca-se diante Dele reconhecendo a própria pequenez e abrindo-se à sua ação que vivifica os “os ossos ressequidos” (Ez 37,1-14), não deixa permanecer um “coração de pedra” (cf. Ez 36,26) e exalta os humildes (cf. Lc 1,52).
O jejum, seguindo nesta mesma direção, é a oração do corpo, é o privar-se dos prazeres dos alimentos, das imagens, das palavras, das músicas, educando o corpo a perceber o sentido espiritual da carne do mundo e despertar o espírito na vivência de uma experiência de amor que renuncia algo prazeroso (ou até essencial à vida, como os alimentos) para perceber o quanto o Amor de Deus se manifesta em tantas circunstâncias.
Este caminho de “subida” introduz o ministério da Arquitetura e da Arte para a Liturgia na dinâmica da linguagem simbólica, que torna transparente a matéria deste mundo para que ela manifeste a realidade da Eternidade.
“Enquanto orava, o aspecto de seu rosto se alterou, suas vestes tornaram-se de fulgurante brancura. E eis que dois homens conversavam com ele: eram Moisés e Elias que, aparecendo envoltos em glória, falavam de seu êxodo que se consumaria em Jerusalém” (v. 29-31)
Na literatura bíblica, as vestes são sempre a expressão da identidade mais profunda do ser humano e a nudez, a perda dessa identidade, e em seu grau mais profundo, sinal da Morte (cf. RUPNIK, 2011, p. 146).
Nesta cena da Transfiguração do Senhor, na qual “suas vestes tornaram-se de fulgurante brancura” (v. 29), existe uma referência à cena da Criação do homem e da mulher no Sexto dia, que feitos à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,27), não estão propriamente nus, estão revestidos da glória de Deu. Quando decaem desta condição pelo pecado, experimentam o medo e a vergonha da nudez (cf. Gênesis 3,10) por perderem esta “veste de luz”. A este respeito, Santo Efrém relata de modo claro:
Depois disto, disse: ‘os dois estavam nus e não tinham vergonha’. Se, portanto, não se envergonhavam, não era por que não soubessem o que fosse o pudor… É por causa da glória pela qual estavam envolvidos que não experimentavam a vergonha. Quando esta lhes foi tirada, depois da violação do mandamento, se envergonharam, por que foram despidos, e ambos recorreram às folhas para cobrir nem tanto os seus corpos, mas seus membros vergonhosos” (Efrem il Siro, Commento alla Genese II, apud RUPNIK, 2011, p. 147).
Assumindo nossa Humanidade nascendo da Virgem Maria, Cristo manifesta na Transfiguração a imagem do Novo Homem, não aquele do Sexto dia (revestido da glória de Deus e com Ele convivendo no Paraíso), mas aquele do Oitavo dia, vitorioso sobre a Morte, uma Humanidade assumida por Deus, livre da escravidão de uma “existência separada de Deus, fonte da vida” (RUPNIK, 2011, p. 171).
No meio da noite, no Monte Tabor, os discípulos puderam contemplar aquele estágio da Humanidade, já na Jerusalém Celeste, que não tem Sol nem templo:
“Não vi nenhum templo nela, pois o seu templo é o Senhor, o Deus Todo Poderoso, e o Cordeiro. A cidade não precisa do Sol ou da Lua para a iluminar, pois a glória de Deus a ilumina, e sua lâmpada é o Cordeiro” (Ap 21,22-23).
A Transfiguração (do grego Methamorphosis) não foi exatamente uma mudança na forma, na figura do corpo, se assim fosse, os discípulos não teriam reconhecido o Cristo (cf. RUPNIK, 2011, p. 41). Ela foi a manifestação de uma forma que está para além daquela natural e isto se deu com uma mudança na luz. Essa nova luz não está fora, iluminando a matéria de algum ângulo, mas dentro: “E o que foi feito Nele era a Vida e a Vida era a luz dos homens” (Jo 1,4).
Moisés e Elias, os representantes máximos da Lei e da Profecia de Israel, que desejavam imensamente contemplar a face de Deus em seus diálogos (cf. Êx 33,11; 1Rs 19,9-13), podem vislumbrá-la finalmente na Carne de Cristo, a Humanidade que não é mais revestida da glória de Deus, mas assumida e divinizada.
É contemplando este mistério que os (as) ministros (as) da Arquitetura e da Arte para a Liturgia compreendem a razão de ser de seu serviço à Liturgia: todo o seu trabalho consiste em transfigurar a matéria deste mundo, para que manifeste o Mistério de Cristo, a Humanidade do Oitavo dia, assumida e redimida pela Encarnação e Mistério Pascal de Cristo.
Aqui há de se distinguir a necessária “transfiguração” da matéria requerida pelo Espaço litúrgico em sua Arquitetura e Arte, da “desmaterialização”.
Na Arquitetura, a “transfiguração” do mundo no edifício eclesial, é o uso do material da Criação para manifestar um evento de comunhão. A matéria (o granito, o ferro, a água, a madeira…) é assumida de forma orgânica, são usadas como parte de um corpo vivente. As sua natureza não muda mas precisam ter uma profunda mudança no seu modo de existência: sua “transfiguração” se dá quando amor do (a) arquiteto (a) encontra-se com o amor de Deus presente na Criação e juntos constroem uma via de salvação, o edifício surge como um evento de comunhão, o lugar da manifestação da verdadeira Vida, que não conhece mais a Morte; tudo no edifício é sinal da Eternidade, não possui nenhuma relação com a banalidade do cotidiano e com a linguagem individual; tudo é simbólico, a matéria é tornada “transparente”, de modo a revelar a Vida Nova que ali se manifesta.
A “desmaterialização”, por sua vez, é “a matéria domada pela força do intelecto e da vontade” (YANNARÁS, 2012, p. 215), é a submissão do criado à razão, que ignora a essência daquele material e o submete à força para se alcançar um fim de modo a surpreender aqueles que experimentam o espaço.
Exemplo claro desse evento de “desmaterialização” são algumas construções contemporâneas, sobretudo prédios empresariais, shopping centers e as tentativas falso histórico, nos quais a matéria é submetida inúmeras vezes aos processos racionais (sintéticos) de modo a perder toda a sua densidade ontológica (sem mencionar aqueles materiais que aparentam ser o que não são). Neste processo a matéria é submetida e não redimida. São monumentos que exaltam as capacidades humanas e não o inclinar-se de Deus em Cristo para Salvar.
Na mesma direção segue a Arte para o espaço litúrgico. Sua configuração deve ser essencialmente simbólica, despojada de todos aqueles recursos que prendem o olhar em si e impedem a transparência. Contemplando o Cristo Transfigurado, a (o) ministra (o) da arte litúrgica percebe que a luz não pode estar fora, iluminando com uma angulação de forma a criar uma dramatização e produzindo sombra. Uma arte “transfigurada” vai além da representação da natureza submetida à corrupção e à Morte, ela procura revelar a Vida sem ocaso, na qual a Luz, a Vida de Deus (cf. Jo 1,4) está dentro e não fora.
Assim como na arquitetura, a arte manifesta a possibilidade da matéria de criar uma relação de comunhão. Na representação artística, a essência da matéria é respeitada, mas seu modo de existência é que muda: na arte litúrgica não pode entrar aquelas representações de excessivo realismo pois são portadoras da corrupção e da Morte, é preciso transcender a fenomenicidade efêmera do mundo submetida às leis espaço temporais.
Por outro lado, é preciso advertir que a arte litúrgica não é uma Biblia Pauperum, princípio formulado pelo redator dos Libri Carolingi, o bispo Teodulfo d’Orléans, que nega à imagem a sacralização, ou seja, a possibilidade de ser simbólica, de tornar presente aquele que ali é representado. Essa forma racionalista de pensar a arte para o espaço litúrgico (que se estenderá a toda a Teologia e à Liturgia na Escolástica), determinou a arte ocidental e exerce forte influência ainda hoje. É muito provável que tudo tenha começado com a tradução das Atas do II Concílio de Nicéia (787) enviadas a Carlos Magno, na qual houve uma confusão entre os termos “culto” e “adoração”. A conclusão disso é que nos Libri fica claro: “as imagens devem servir à decoração dos lugares de culto e à instrução dos fiéis iletrados, que não possuem outro modo de conhecer a História da Salvação” (VELMANS, 2009, p. 20)
No espaço eclesial, a arte é essencialmente simbólica (como o é a Liturgia), com uma transparência perene de forma a manifestar uma Presença. Não se representa o mundo como os nossos olhos veem, representa-se o mundo iluminado pela luz do Tabor, a luz do Oitavo dia, o mundo que chegou à sua definitiva perfeição, que não mais conhece a decadência e a Morte. Essa arte não é um adorno, mas a manifestação da própria vida da Igreja.
“E quando iam se afastando, Pedro disse a Jesus: ‘Mestre, é bom estarmos aqui; façamos, pois, três tendas, uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias’, mas sem saber o que dizia” (v. 33)
Neste versículo está expressa a tentação na qual podem aqueles que trabalham com a arquitetura e a arte para a Liturgia: de pensarem que com as próprias mãos (habilidades, inteligência, gosto…) são capazes de construir “as tendas” nas quais poderiam conviver Deus e o Homem. Essa Tenda (que não são três, mas uma única) já existe e foi tecida pela colaboração da Virgem Maria com o Espírito Santo, e esta “armada” diante dos olhos de Pedro. O Corpo de Cristo é a Tenda Perfeita (cf. Jo 2,21; Hb 9,11) na qual a Humanidade é assumida e restaurada e pode enfim conviver com a Divindade. E Orígenes acrescenta: “quando Pedro expressa o desejo de construir ali três tendas, é quando se descobre a imperícia de quem não sabe o que diz. Porque para a Lei, os Profetas e o Evangelho não existem três tendas, mas uma só que é a Igreja de Deus” (ORÍGENES, Homilia VI,2, apud PASSARELLI, 1997, 34).
O ministério da arquitetura e da arte para a Liturgia jamais pode se propor a construir a Igreja, seu serviço consiste em, com o auxílio do Espírito Santo, ajudar a comunidade a reconhecer-se como Igreja no espaço em que celebra.
“Assim falava quando uma nuvem desceu e os cobriu com sua sombra. E ao entrarem eles na nuvem, os discípulos se atemorizaram. Da nuvem, porém, veio uma voz dizendo: ‘Este é o meu Filho, o Eleito; ouvi-o” (v. 34-35)
A nuvem, símbolo da presença de Deus (cf. Êx 13,21; 2Cr 6,1; 7,1-2), causam temor aos discípulos, como causou em Adão e Eva após o Pecado (cf. Gn 3,10). A Humanidade que anseia por redenção, escuta a Palavra (como o fez o Povo de Deus em todo o Primeiro Testamento) e a veem diante de si: a relação que Deus deseja estabelecer com a humanidade é uma relação de amor, de filiação e paternidade. E o que seria a conclusão desta reflexão, torna-se o ponto de partida do ministério da arte e da arquitetura para a Liturgia: para comunicar a Vida da Liturgia, é necessário primeiro tê-la; é preciso fazer a experiência da Filiação Divina que é dada em Cristo. Vivendo como filhos no Filho, renascidos com a vida de Cristo na Fonte Batismal, todo o nosso modo de pensar, agir, sentir, falar, julgar, projetar, pintar, orar, deve ser um reflexo dessa Vida Nova, expressão de uma Humanidade Redimida que encontrou-se com o amor do Pai.
Desta forma, a Palavra (o Verbo) de Deus é o ponto de partida e o de chegada do ministério da Arte e da Arquitetura para a Liturgia, pois ele se insere plenamente na dinâmica ininterrupta da Palavra viva “pronunciada na Criação, ressoada no curso da História da Salvação, que se encarnou e que agora no Espírito vive na Igreja, celebrada no culto, desenhada nos ícones e construída arquitetonicamente” (Paul Evdokimov, apud Natasha GoveKar, “Vedere il logos, ascoltare l’icona”, disponível em www.youtube.com, acessado no dia 27 de fevereiro de 2022).
“Os discípulos mantiveram silêncio” (v. 36)
Referências Bibliográficas
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.
CONVEGNO LITURGICO INTERNAZIONALE. Ars liturgica: l’arte a servizio della liturgia (atti). Magnano: Qiqajon, 2012.
PASSARELLI, Gaetano. O ícone da Transfiguração. São Paulo: Ave Maria edições, 1997.
RUPNIK, Marko Ivan. L’arte della vita. Il quotidiano nella bellezza. Roma: Lipa, 2011.
SPIDLIK, Tomas; RUPNIK, Marko Ivan. La fede secondo le icone. Roma: Lipa, 2000.
VELMAS, Tania. La visione dell’invisibile. L’immagine bizantina o la trasfigurazione del reale. Milano: Jaca Book, 2009.
*Nasceu em Colatina (ES) e transferiu-se para São Paulo (SP) em 2001, quando ingressou no Seminário da Diocese de Santo Amaro, no qual graduou-se em Filosofia e estudou Teologia (sem concluir). Em 2003 frequentou o Curso de Iconografia Oriental na Eparquia Nossa Senhora do Paraíso (melquita), tendo o primeiro contato com a produção da arte cristã. Em 2010 graduou-se em Filosofia pela Universidade São Judas Tadeu (SP). Desde 2004 realiza pesquisas na área de Teologia, Liturgia e Espaço Litúrgico (arquitetura e arte sacra) e desenvolve projetos e obras de arte em Espaços litúrgicos no Brasil e no exterior. Em 2019 colaborou com a publicação do livro “A arte como expressão da vida litúrgica” (Pe Marko Ivan Rupnik – Edições CNBB), realizando a tradução do italiano. Neste ano (2022) concluiu a pós graduação em Espaço Litúrgico – arquitetura e sacra, pela UNISAL em São Paulo. Atualmente ilustra com suas obras a revista Vida Pastoral (Paulus) e realiza a iconografia do Santuário de Santa Rita de Cássia, em Cássia, Diocese de Guaxupé – MG.