A “VERDADE DA TRADIÇÃO” SOBRE O MODO DE RECEBER A COMUNHÃO

A “VERDADE DA TRADIÇÃO” SOBRE O MODO DE RECEBER A COMUNHÃO

Associação dos Liturgistas do Brasil

Segundo a tradicional praxe eclesial, o fiel aproxima-se normalmente da Eucaristia em forma processional, e comunga de pé, com devoção, ou então de joelhos, como estabelecer a Conferência episcopal, recebendo o sacramento na boca ou, onde for permitido, nas mãos, como preferir (Francisco, 2018, p. 70; cf. IGMR, 160-161). Nesse sentido, quanto ao modo de receber a comunhão eucarística, é importante saber que o problema não está em torno da opção do fiel de comungar nas mãos ou na boca. Isso é claro para toda a Igreja e, segundo todos os documentos precedentes, é sempre decisão do fiel. A livre escolha é do comungante. O presidente da celebração, nem qualquer outro ministro, pode obrigar o fiel a receber a comunhão na boca nem forçá-lo a receber na mão. O problema real consiste na decisão da Conferência Episcopal em estabelecer a forma de receber a comunhão: ajoelhados ou de pé (cf. IGMR 390; 160). A CNBB nunca legislou sobre esse modo, deixando a proposta do Missal Romano de que o fiel aproxime-se de forma processional para receber a comunhão eucarística: "Levanta-te e come! Levanta-te e come! Ainda tens um caminho longo a percorrer" (I Re 19,7).

Um tradicionalismo bem recente, perdendo a sua relação com os significados eclesiais do sublime sacramento, tem acentuado devocionalismos centrados no indivíduo e na subjetividade, desvalorizando a relação entre rito e fé. As preocupações em torno do modo de receber a comunhão têm raiz no entendimento da Eucaristia como ato do sujeito, devoção pessoal, independentemente do ato ritual e eclesial. Não conhecendo às Fontes da liturgia alguns tornam-se usurpadores do verdadeiro sentido da Eucaristia para a comunidade eclesial. A tendência de comungar na boca está ligada a uma imagem de comunhão eu-e-Deus, sem passar pela comunhão da comunidade, dos irmãos batizados e membros do mesmo corpo eclesial de Cristo. Tais gestos indicam que eu recebo o corpo de Cristo não para tornar-me corpo de Cristo. Ajoelha-se para expressar mais individualmente a devoção privada. “Os gestos e as palavras devem expressar, com simplicidade e fé, a disponibilidade em acolher o Senhor Jesus, deixando que Ele entre em nossa vida e faça de todos um só Corpo” (Bucciol, 2018, p. 156). Exatamente porque as ações litúrgicas nunca podem ser privadas, mas celebrações da Igreja em unidade, comunhão e direção dos Bispos (cf. SC 26). 

“A Eucaristia reúne a todos num único banquete. E este é o autêntico significado da Sagrada Comunhão: que os comungantes tornem-se entre si uma coisa só, por meio da uniformização a Cristo” (Ratzinger, 2016). O pão eucarístico realiza a unidade dos membros entre si, significando-a. Os fiéis formam um único corpo na escuta da Palavra, tomando parte das orações e nos cantos, na oblação comum do sacrifício e na comum participação da mesa do Senhor (cf. IGMR 96). Fazer da Igreja o corpo verdadeiro de Cristo é o principal efeito do sacramento recebido (cf. LG 11). Os cristãos vivem unidos na fração do pão (cf. At 2,42). Alimentando-nos com o corpo e do sangue do vosso Filho, repletos do Espírito Santo, nos tornemos em Cristo um só corpo e um só espírito (cf. OE III).  Unidos para formar um único corpo e não para dividir. Dessa forma, “a Liturgia não nos deixa sós na busca individual de um suposto conhecimento do mistério de Deus, mas toma-nos pela mão, juntos, como assembleia, para nos conduzir para dentro do mistério que a Palavra e os sinais sacramentais nos revelam” (DD 19). 

A procissão para a comunhão é um ato da assembleia e não uma “fila” qualquer. A procissão para receber a Eucaristia possui uma índole comunitária, sobretudo, expressando no canto a alegria dos corações e a união espiritual dos comungantes (cf. IGMR 86). Por isso, essa procissão é marcada por um ritmo adequado que depende do corpo, do canto e do olhar. Ela é toda ritual, gestual e afetiva. Essa deve evocar a participação num banquete e não a fila indiana de um self-service individual ou uma espécie de drive-thru pessoal. Na dinâmica de comungar em procissão, receber a eucaristia de “joelhos” cria dificuldades de ordem prática e espiritual. Aquele que ajoelha dificulta o aproximar-se do outro fiel e aumenta a demora, sobretudo em caso de número elevado de comungantes. É preciso compreender e viver o bem o sentido, muito expressivo, de formar a procissão (cf. Bucciol, 2018, p. 154.158). Se os gestos comunitários não existem, se a arte da celebração é inadequada e o canto é impróprio, o ato de comunhão se perderá numa devoção privada, individualista e sem sentido. Ademais, se os ministros entregam a Eucaristia sem respeito ao mistério da assembleia reunida ou com uma pressa fora do compasso litúrgico, tudo se reduz à distribuição e não ao fazer comunhão (cf. Marques, 2023, p. 154). 

O significado primário da comunhão não é o encontro do indivíduo com seu Deus - para isso haveria outras meios -, mas exatamente a fusão dos indivíduos entre si por meio de Cristo. Pela sua própria natureza, a comunhão é o sacramento da fraternidade cristã. Deveríamos saber claramente que o catolicismo não se afirma unicamente numa relação vertical, do indivíduo com Cristo e com o Pai, mas essencialmente, a natureza do catolicismo, também é uma ligação horizontal, o vínculo dos comungantes e das comunidades eucarísticas entre si. Hoje, precisamos retornar à consciência de que a Igreja não é um partido ideológico e nem um sistema político, mas é a comunidade do Corpo do Senhor (cf. Ratzinger, 2016).

Ainda é preciso descobrir a comunhão como parte integrante e essencial da ação eucarística. A pouca consciência sobre a comunhão se reflete por tantas outras ações irrelevantes: a possibilidade de receber a comunhão fora da missa, a desconsideração da fração do pão por parte dos ministros, a ausência da comunhão sob duas espécies (cf. IGMR 281, 284), a recomendação de receber a comunhão com hóstias consagradas na própria missa (cf. IGMR 85), a dificuldade de compreender a comunhão como ato eclesial e não simplesmente como distribuição aos singulares fiéis das partículas consagradas. Este conjunto de coisas não corresponde exatamente ao sentido originário do sacramento. Na verdade, estas e outras práticas, são formas refinadas, mais cruéis de se transmitir uma eclesiologia que em tudo nega as reflexões gestadas pelo Concílio Vaticano II.

Para que o altar fosse o centro de toda a Eucaristia (cf. IGMR 73), a reforma litúrgica desconsiderou a grade que separava o altar da assembleia, a conhecida “mesa de comunhão”. A tentativa real era favorecer a funcionalidade e a eclesialidade da participação na comunhão e desaparecer as normas que estavam em desacordo com a reforma da liturgia (cf. SC 128), sobretudo, todas aquelas que foram introduzidas com o decorrer do tempo que tornam hoje menos clara a natureza e o fim dos sacramentos (cf. SC 62). De tal forma, após a reforma litúrgica, torna-se preocupante e contraditória a indicação de que os fiéis comunguem apenas de joelhos. A mesa da comunhão é o altar e o genuflexório nem formato de mesa tem. Ele não serve para a comunhão e impossibilita a eclesialidade da ação litúrgica. Dessa forma, toda tentativa de colocá-lo nas igrejas é um gesto contrário à liturgia da “missa pós-conciliar”, o retorno ao tradicionalismo de um tempo e um abuso à verdade da Tradição de sempre. O altar é a única mesa de comunhão. Ele é a mesa do Senhor, o centro da ação de graças e onde torna-se presente o sacrifício da cruz (cf. IGMR 296). "Levanta-te e come! Levanta-te e come! Ainda tens um caminho longo a percorrer" (I Re 19,7). 

Além do mais, o “amém”, ação ritual bonita e concreta prevista na hora de receber a comunhão, ou seja, a confirmação da fé na presença real de Cristo na Eucaristia (cf. IGMR 161, 249, 286, 287), a partir da preocupação de se ajoelharem, receber nas mãos ou na boca, acaba sendo desconsiderado. Dizemos “amém” ao corpo santíssimo de Jesus nascido de Maria e morto por nós, mas também dizemos “amém”, ao corpo místico que é a Igreja e que são, certamente, os irmãos que estão junto de nós na vida e na mesa eucarística (cf. Cantalamessa, 1993, p. 51). Com o nosso amém reconhecemos a graça e assumimos o compromisso de tornarmo-nos corpo de Cristo (cf. Francisco, 2018, p. 69). Também, além do individualismo da comunhão e da ausência da confirmação da fé no presença eucarística, existe ainda um gesto pior, mais horrível e nada piedoso, aquele de colocar as mãos para trás como gesto de resistência. É um gesto tão violento, cheio de egoísmo e muito vaidoso para a hora da participação na comunhão. A comunhão na mão também tem sua razão de ser, conforme a verdade da Tradição nos orienta. Receber a comunhão na mão manifesta a atitude de quem acolhe um dom, uma ação responsável e de humilde confiança. A Eucaristia é sempre um presente do Senhor (cf. Bucciol, 2018, p. 156).

Para celebrar bem, pietismo e devocionismo não são suficientes; faz-se necessário inteligência e consciência do que se está fazendo e do porquê se faz. A participação consciente é a primeira fora real e desejada de participação (cf. SC 11). Para redescobrir a beleza da Liturgia precisamos fugir do esteticismo ritual que se compraz na escrupulosa observância rubrical e na formalidade exterior do rito (cf. DD 22). O zelo sem a cabeça cria danos a fé e à própria ação litúrgica. Da mesma forma, uma ação litúrgica por demais racional compromete à celebração da Igreja e impossibilita a unidade da comunhão. A crise de fé é grave exatamente porque revela-se através da crise da unidade e na divisão. A ação celebrativa não pertence ao indivíduo mas a Cristo-Igreja, à totalidade dos fiéis unidos em Cristo. A Liturgia nunca diz “eu” mas “nós” e qualquer limitação à amplitude deste “nós” é sempre demoníaca (cf. DD 19). Nesse sentido, o cuidado e o zelo com a Eucaristia passam pela consciência da teologia litúrgica, pela compreensão da ação simbólica-ritual e pelo entendimento de que a celebração do Memorial da nossa salvação nunca pode ser uma ação privada e isolada. 

A verdade da Tradição

Entre os séculos I e VIII, a decisão sobre a forma da comunhão eucarística ficava por conta da autonomia dos comungantes. Podia-se receber o pão consagrado nas mãos, o vinho consagrado diretamente do cálice e de pé. Tais práticas são supostas, por exemplo, por Tertuliano, Cipriano e Cirilo de Jerusalém. Este último assim afirma: “quando te aproximares para receber o Senhor não o faças com os braços soltos e com os dedos abertos, mas faça da tua mão esquerda o Trono para a sua mão direita, pois nesta receberás o Rei, e na alma recebes o Corpo de Cristo, dizendo: Amém”. Do mesmo modo, se expressa Teodoro de Mopsuestia: “se estende a mão direita para receber a oblação que será dada, mas abaixo dessa se coloca a mão esquerda e, com isso, demostre uma grande reverência”. Somente a partir do período medieval, entre os séculos IX-X, deu-se início uma nova práxis: a comunhão na boca. O Ordo Romanus IX,42 diz que o bispo deve dar a comunhão nas mãos para os presbíteros; o Ordo Romanus X, 59, 60, também para os diáconos, mas para os subdiáconos na boca. A partir daqui conclui-se que a forma se deveria estender para todos os fiéis (cf. Raffa, 2003, p. 566). 

No primeiro milênio a Igreja mais vivenciava a comunhão do que debatia sobre o sacramento da Eucaristia, no entanto, no segundo milênio, os debates, as diversas controvérsias suscitaram teólogos e influenciaram fundadores, santos, místicos, devotos e hereges. O mundo ocidental conheceu, durante os sécs. IX e XIII, abundantes comentários à liturgia dos sacramentos e assistiu debates sem precedentes em torno ao mistério da Eucaristia. As principais questões moviam-se no plano teórico e no prático. Na teologia se discutiu sobre a real presença e a dignidade do ministro; na prática pastoral se procurou aproximar as pessoas do sacramento do altar e renovar a liturgia. Durante a Idade Média, o debate teológico concentrou-se cada vez mais no mistério da presença do Senhor no sacramento e, consequentemente, começou a perguntar sobre qual era a realidade sacramental. Assim, o sec. XII elaborou novas categorias para o sacramento eucarístico e o sec. XIII consagrou de forma definitiva algumas dessas teorias. Tais debates mudaram a forma de vivenciar o sacramento do altar. 

Os séculos XI, XII e XIII presenciam o florescimento e a explosão das mais variadas manifestações devocionais para com o corpo e o sangue de Jesus. Na origem da devoção à Eucaristia está não somente a concepção fisicista, mas também a devoção à humanidade de Cristo, através das suas chagas e da cruz. Não faltam, porém, elementos da piedade que sublinham o realismo eucarístico. Muito se valorizou os milagres eucarísticos em que as hóstias miraculosas foram consideradas como relíquias, atraiam multidões de peregrinos e constituíam provas a opor à heresia que negava a permanência da presença de Cristo no pão e no vinho consagrados. Contata-se que hóstias eram roubadas a fim de serem usadas para produzir boas colheitas (cf. Macy, 2007, p. 231-235). 

Em outras circunstâncias usava-se da hóstia consagrada para fazer adivinhações e os enamorados se valiam do poder milagroso da hóstia consagrada para assegurar a fidelidade do ser amado. E se não bastassem os furtos de hóstias consagradas verificava-se também o furto dos objetos diretamente ligados à celebração eucarística: vasos sagrados, cálices, patenas e até as alfaias, como corporais e sanguíneos. Todos estes objetos tocavam diretamente o corpo e o sangue de Cristo, por isso se lhes atribuía um valor mágico também. Por exemplo: beber água no cálice usado pelo sacerdote poderia curar uma grave enfermidade; colocar o sanguíneo usado na missa numa ferida, poderia curar, e assim por diante. E as histórias populares sobre os sangramentos, milagres e eficácia da hóstia consagrada se multiplicavam entre o povo (cf. Lima, 2014, p. 47). 

Além dos fatos citados, existe um dado central: a maioria dos fiéis não comungavam com frequência, recebendo o corpo de Cristo, nem menos uma vez ao ano, e na maioria das vezes, fora da missa. Com a possibilidade da comunhão espiritual, a adoração ocupou o lugar da comunhão: a hóstia consagrada deixa de ser alimento para se tornar relíquia, amuleto. As disposições do IV Concílio Lateranense (1215) de comungar ao menos uma vez por ano, por ocasião da Páscoa, confirmam esse afastamento dos fiéis, deixando aberto o caminho para a comunhão espiritual. Os próprios diretores espirituais desencorajavam a prática da comunhão frequente. A devoção à Eucaristia era uma viva alternativa à celebração eucarística. A teologia eucarística se tornou a teologia da presença de Cristo e ofuscou importantes aspectos, como a perspectiva histórico-salvífica e a dimensão eclesial. A comunhão passou a ser considerada mais em si mesma do que em sua finalidade.  

O afastamento da comunhão acontecia pelo fato, sem dúvida, verdadeiro, da presença de Deus, diante do qual todos deveriam ajoelhar-se em ato de adoração. O reconhecimento da fascinante presença de Deus foi consolidando outras práticas diante do sacramento, além da comunhão na boca e de joelhos, apareceu as pequeníssimas hóstias afim de não criar qualquer mínimo fragmento e perde-lo; o aparecimento da “patena” de comunhão para o comungantes; a toalha posta sobre a balaústra, pois somente o sacerdote podia tocar no pão consagrado e com os dedos nada podia tocar antes da ablução; as meticulosas normas em relação as eventuais quedas das espécies consagradas; a recomendação de lavar a boca após a comunhão para prevenir o contato com comidas e a rejeição das sagradas espécies através da tosse ou do espirro. 

Ligadas à essas práticas se afirmam o uso particular da comunhão fora da missa, apareceram os grandes ostensórios, os tronos, a importância da exposição, procissões, benções, genuflexões, o altar é colocado na ábside, a elevação da hóstia na hora da missa, a dramatização da liturgia eucarística... Tudo era pensado para que o fiel pudesse exprimir todos os sentimentos e toda devoção ao corpo de Cristo. Diante dessas perspectivas, o devocionalismo fez aumentar os escrúpulos, ao ponto de o padre ser praticamente o único comungante das missas assistidas pelo povo. A missa se tornou a oferta do padre e os fiéis estavam convencidos de serem demasiados indignos para se aproximarem do sacramento.

A responsabilidade da Igreja

Não podemos considerar a comunhão sacramental simplesmente como uma oração privada, onde o indivíduo encontra seu Deus, por mais que ele deva fazer também isso. A comunhão sacramental é mais: é o selo de pertença mútua dos cristãos entre si, através de sua ligação comum com Cristo. É por isso que esta é uma parte essencial da missa, em que celebramos esta nossa união como irmãos, por meio de nosso irmão, Jesus Cristo (cf. Ratzinger, 2016). A consequência de sermos alimentados do pão de céu é nos tornarmos pão a fim de alimentar a vida de tantos outros que, ao nosso redor, sentem fome de vida e de eternidade. Ao comermos o pão do céu, o Corpo de Cristo, tornamo-nos o Corpo de Cristo na vida quotidiana, nas praças, nas cidades, nos trabalhos e na caminhada e somos capazes da comunhão eclesial. 

A Eucaristia é a maior responsabilidade da Igreja na história. A Igreja é responsável por muitas coisas: em conservar a sã doutrina da salvação, pela humanidade e em oferecer o perdão ao homem pecador, pela cultura, pela arte e por alguns bens. Mas, todas essas responsabilidades são pouca coisa a par da que ela tem diante do corpo e do sangue do salvador, o preço do nosso resgaste, o bem mais precioso que a Igreja conserva. Não podemos diminuir tão grande mistério com discussões irreais, com opiniões paralelas e com gestos individuais que ferem a unidade da fé. Celebrando a Eucaristia, na qual se torna presente o triunfo e a vitória da morte de Cristo, damos graças a Deus pelo Seu dom inefável (cf. SC 6). Pela Eucaristia, corre sobre nós, como de sua fonte, a graça por meio da qual os homens se santificam e glorificam a Deus, e, se ordena, como a seu fim, todas as outras obras da Igreja (cf. SC 9).

No momento que a comunhão retorna a ser vivenciada como parte integrante do “rito da missa”, que requer a participação por parte de todo o povo, o significado da Eucaristia implica – ainda uma vez – uma experiência que supera as noções polarizadas e ideológicas. Toda essa divisão ritualista não nos permitem uma adequada inteligência do mistério. Diante disso, os fiéis vivem como meros expectadores, estranhos e mudos. Não participando de forma consciente, consequentemente, não entram no mistério celebrado e não colhem os efeitos do sacramento (cf. SC 47). É a beleza e a nobre simplicidade do rito que deve brilhar para que todos experimentem a potência do mistério e não os gestos individuais, vaidosos e arrogantes de fiéis que podem ter toda boa intenção, mas lhes falta o necessário: a comunhão e a unidade, o vínculo da caridade. Uma inteligência dos sacramentos que não assuma a ação ritual-eclesial como aspecto central termina em afirmações abstratas, equivocadas, pouco reais, nada tradicional e verdadeira.  

 

Referências 

BUCCIOL, A. Sinais e símbolos. Gestos e palavras na liturgia. Para compreender e viver a liturgia. Brasília: CNBB, 2018. 

CANTALAMESSA, R. O mistério da ceia. São Paulo: Loyola, 1993. 

FRANCISCO. A santa missa. São Paulo: Paulus, 2018. 

LIMA, J. O Corpo do Senhor: um estudo sobre a compreensão da Eucaristia em Francisco de Assis a partir de seus escritos. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2014, p.47. 

MACY, G. A eucaristia no ocidente de 1000 a 1300, in BROUARD, M. (ORG.), Enciclopédia da Eucaristia. São Paulo: Paulus, 2007, p. 225-248.

MARQUES, L. A mistagogia da missa. Petrópolis: Vozes, 2023.

RAFFA, V. Liturgia eucaristica. Mistagogia della messa dalla storia e dalla teologia alla pastorale pratica. Roma: CLV, 2003. 

RATZINGER, J. A Eucaristia existe para ser recebida, in L’insegnamento del Concilio (Trad. Pierluca Azzaro). Vol. 7/1, Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2016.

 

 
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