A VIRGEM MARIA DO MONTE CARMELO NA LITURGIA
Frei Davi Maria Santos, O.Carm
A memória de Maria permanece tão fresca,ao logo dos séculos, quanto no primeiro dia
Introdução
Na celebração do ano litúrgico não encontramos um “ciclo mariano”, proposto a comunidade sacerdotal de forma paralela ao ciclo cristológico, antes, a partir de Jesus Cristo, nossa Páscoa, procuramos celebrar a Bem-Aventurada e sempre Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa. Deste modo, a celebração da Mãe do Senhor imersa no Mistério de Seu Filho, se torna um dom divino para melhor celebrar o Cristo Ressuscitado como comunidade de fé e corpo místico d’Ele. Por isso, conosco, Maria, se faz peregrina na esperança de nossa bem-aventurança.
As festas litúrgicas da Mãe de Deus, são para a comunidade cristã um momento propício e fértil, para se crescer no amor ao Senhor. Estas celebrações acompanham a Igreja desde os primeiros séculos, quando, os primeiros cristãos já começam a reconhecer em Maria, a Nova Eva e a Mulher toda cheia de Deus, como Aquela que aponta as vias que conduzem ao Senhor. Cada festa mariana, desde aquelas que remontam aos primeiros séculos, até as mais novas, aprovadas pela Igreja, procuram anunciar um aspecto da participação de Maria no Mistério de Cristo, do contrário, não é uma festa mariana e nem eclesial, isso pelo fato de que, Ela sempre nos pede para realizar o que Jesus, Seu Filho, nos disser (cf. Jo 2, 5).
A memória litúrgica da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, celebrada no Brasil em grau de festa, apresenta Maria Santíssima como intercessora junto ao seu Filho Jesus Cristo. O escapulário do Carmo, tão querido e procurado pelo povo de Deus, em especial nos dias do novenário do Carmo, é um gesto da ternura da Virgem Mãe que acompanha os filhos e os conduz ao seu Filho Jesus. Assim, Maria, com seu escapulário é o Auxílio dos cristãos; o Socorro dos pobres; a Alegria dos tristes; a Esperança dos que não tem esperança e sobretudo, é a Virgem plena do Espírito Santo que O comunica a todos os que d’Ela se aproximam.
A eucologia litúrgica das Missas da Bem-Aventurada Virgem Maria, é para o povo de Deus um verdadeiro dom que o ajuda na celebração do Mistério Pascal do Senhor. Com palavras breves e simples, estas preces litúrgicas guiam a assembleia no autêntico espírito orante da Liturgia, apresentando a verdadeira face de Maria, ou seja, a Mulher que é Mãe de Deus; Aquela que é plena da graça; a Virgem que com a comunidade apostólica, persevera em oração e ainda, a Virgem Mãe que é também canal da Misericórdia e do Amor do Pai. A eucologia da Missa da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, é também um desses dons que ajuda o povo de Deus a melhor rezar e a viver a ritualidade da Liturgia, como momento histórico em que a salvação vem ao encontro nosso encontro (cf. Costa, 2005).
Neste sentido, Maria, na Liturgia é como uma sábia mistagoga que experienciando plenamente a graça de Deus Pai, agora guia seus filhos ao Mistério do Ressuscitado, Jesus Cristo. Olhar Maria, como uma mistagoga e se permitir ser formado por Ela, como também Jesus o foi, é percorrer um caminho seguro, certos de alcançar o destino desejado, se assim formos abertos e dóceis à suas inspirações, que na verdade, são as inspirações da própria Trindade, visto que, Maria, possui uma única vontade: a glorificação de Deus.
1- A Virgem Maria no Ano Litúrgico
O ano litúrgico celebra de maneira ordenada os Mistérios da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, partindo sempre de sua Páscoa. Maria está inserida por meio de sua maternidade e abertura, à vontade de Deus Pai. Por isso, todas as celebrações marianas, no decorrer do ano litúrgico são expressões da Páscoa do Senhor. Visto que, está, “a Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, indissoluvelmente unida à obra salvífica do seu Filho” (Sacrosanctum Concilium, n. 103).
O ano litúrgico, pode ser considerado como um “sacramento”, ou seja, um sinal sensível da graça de Deus na vida e caminhada eclesial. Assim sendo, as celebrações marianas, em especial, a da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo é um “sacramental” para o povo santo de Deus, que aponta e conduz diretamente para o “sacramento” que celebra seus Mistérios a partir da Paixão, Morte, Ressurreição, Ascenção do Senhor e Pentecostes.
Várias são as celebrações marianas que o ano litúrgico custodia em si, desde aquelas que pertencem aos primeiros séculos, que chamamos de festas estáticas, até as festas dinâmicas que foram sendo introduzidas no segundo milênio da Igreja (cf. Santos, 2024). Em todas elas, Maria, Mãe de Deus, deve ser celebrada a partir de sua comunhão pascal com o Ressuscitado. Maria, é então no ano litúrgico, como uma sábia mistagoga que conduz a assembleia sacerdotal, profética e régia ao encontro com Aquele que é o fundamento e razão da fé cristã, Jesus Cristo.
As festas marianas de caráter estático, estão sempre associadas a uma realidade cristológica, como é o caso da Maternidade Divina de Maria; a Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria aos céus e sua Conceição Imaculada que, mesmo sendo dogmas do segundo milênio – as duas últimas – possuem raízes litúrgicas nos primeiros séculos. Essas, entre outras festas, estão intimamente ligadas a alguma realidade da vida de Jesus Cristo.
Já as festas de caráter dinâmico, nascem da piedade popular ou de alguma visão particular que foi devidamente aprovada pela Igreja, estas, mesmo não possuindo um caráter fortemente cristológico, como as anteriores, celebram Maria como Aquela que intercede ao Filho, assim como fez outrora em Caná (cf. Jo 2 ss). Deste modo, as festas dinâmicas da Virgem Maria, revelam, que, “o amor redentor de Deus encontra em Maria o desejo da redenção de toda a humanidade” (Schillebeeckx, 1968, p. 53). Eis a justificativa, para as festas marianas de caráter dinâmico.
A presença de Maria, na celebração dos Mistérios de Jesus Cristo, revela também sua comunhão com o projeto salvífico de Deus Pai e o discipulado dócil e fiel ao Filho Jesus. Assim, Maria, não aponta para si mesma e sim, para Aquele de quem Ela é Mãe e discípula perfeita. Deste modo, “a presença de Maria na Liturgia da Igreja indica uma realidade de fato, isto é, a presença do nome, da pessoa da Mãe de Deus na variedade de expressões litúrgicas” (Castellano, 2008, p. 265). Este dado, revela um perfil que foi sendo desenvolvido à sobra da Ação Sacerdotal do Senhor, ou seja, da Liturgia.
A Mariologia, no magistério atual da Igreja, se desenvolve num contexto de reforma conciliar, que propõem a “redescoberta” dos Padres dos primeiros séculos e se fundamenta em dois frondosos ramos da teologia: a Cristologia e a Liturgia (cf. Healy, O.Carm, 2003). Celebrar Maria, inserida no Mistério Pascal do Senhor, é restituir-lhe seu devido e merecido espaço, na obra salvífica de Pai. Neste sentido, Maria se torna para a comunidade eclesial o modelo daquela que sabe ouvir, a Virgem dada à oração, a Virgem-Mãe e Oferente (cf. Marialis Cultus, 2014).
A Liturgia da Igreja, é, pois, como uma mistagoga que nos educa e forma interiormente e espiritualmente para amar de forma autêntica e verdadeira à Mãe de Deus e nossa. As celebrações litúrgicas/marianas nos apontam os passos a serem dados em direção do Senhor, pois, “celebra-se o Mistério Pascal na memória de Maria” (Guedes, 2019, p. 231). A Igreja, portanto, reconhecendo o valor espiritual da Virgem Maria em sua Liturgia, no decorrer do ano litúrgico, além de solenidades, festas e memórias marianas, apresenta o sábado como um dia mariano, tal ato, deseja ser para a comunidade eclesial como uma preparação e formação para a Páscoa semanal, ou seja, o Domingo, dia do Senhor.
2-A Festa da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo
As celebrações litúrgicas estão subdivididas em graus: memórias obrigatórias e facultativas, festas e solenidades, que é o maior grau de uma Liturgia. As celebrações da Mãe de Deus, também se enquadram nesta subdivisão, para uma melhor celebração. No Brasil, na Espanha, no Chile, como também, na Guarda Nacional Brasileira e em alguns outros países a memória litúrgica da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo é celebrada em grau de festa ou solenidade, acentuando, deste modo, uma maior importância em sua celebração, tanto na Liturgia Eucarística como na Liturgia das Horas.
Para melhor se compreender esta memória litúrgica é necessário que nos recordemos de que esta festa nasce no seio da Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo e que esta Ordem Mariana teve uma Liturgia própria por vários séculos, que é a Liturgia da Ressurreição. Nesta Liturgia, assim como nos dias de hoje, o centro do ano litúrgico é sempre Jesus Cristo Ressuscitado dos mortos. A celebração da Ressurreição do Senhor formou não apenas na Liturgia, como também na vida, várias gerações que frequentavam Igrejas custodiadas por Frades Carmelitas.
Todo o desenvolver histórico desta celebração litúrgica começa ainda na Montanha Santa do Carmelo, lugar onde os primeiros Carmelitas dedicam uma Capela à Mãe de Deus que passaram a chamar de a, “Domina Loci”, ou seja, a Senhora do Lugar, conservando ainda um valioso ícone da Virgem Santíssima, chamado originalmente de, “La Bruna”, que significa “nossa morena”, deste modo, os primeiros Carmelitas trataram de formar as futuras gerações numa íntima familiaridade com a Mãe de Deus. Esse gesto e a proximidade familiar com Maria naquela pequena Capela é como um transbordamento de amor da Ordem dos Carmelitas para com a Mãe de Deus, que, não se restringe apenas a Igrejas e Conventos Carmelitas e nem mesmo aos claustros da Ordem, mas, que é um tesouro e dom eclesial.
Reunir-se na Capela, rezar a Eucaristia e a Liturgia das Horas, assim como, tudo realizar em nome do Senhor (cf. RC, n. 19), e sobre o olhar de Maria, Mãe, Irmã e Mestra, foi algo que ficou intrinsecamente marcado em toda a vida do Carmelo. Segundo, Jesus Castellano, OCD, isso acontece pelo fato de que, “a Liturgia é objetivamente o lugar onde Maria se aproxima de nós no Mistério de Cristo” (1989, p. 169), de maneira especial.
A festa da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, foi sendo desenvolvida e tomando forma com o decorrer dos anos e acontecimentos. Inicialmente, não havia um dia e nem festa principal na Ordem, como possuímos hoje. Havia, sim, cinco festas, podendo cada Província escolher uma, para celebrar a Mãe de Deus. As festas eram as seguintes: Imaculada Conceição; Apresentação do Senhor; Anunciação; Assunção e Natividade de Maria (cf. Forcadell, 2003). Tais festas possuem um forte caráter cristológico, dado que estas memórias da Mãe de Deus estão intimamente ligadas a algum Mistério da vida do Senhor e eram celebradas sempre a partir de sua Ressurreição. Estas festas são de caráter estático.
No século XIV, em memória do II Concílio de Lyon, que faz referência a Ordem, foi fixada a festa da Virgem do Carmo para o dia 17 de julho, em comemoração à famosa defesa do nome da Ordem (Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo), contra os Dominicanos, em Cambridge, em 1374, esse dia ficou conhecido na Ordem como o “patronatum” (patrocínio) de Maria à Sua Ordem, por isso, muitos conventos passaram a celebrar sua padroeira principal neste dia. Em 1481, em Veneza, aparece um Breviário com a festa celebrada no dia 16 de julho (cf. Forcadell, 2003).
Na segunda metade do século XVII, a festa da Virgem Maria do Monte Carmelo, já havia sido propagada em muitos lugares, isso acontece também, devido a mensagem da visão de Nossa Senhora que São Simão Stock teve, que segundo a tradição se deu no dia 16 de julho. Por isso, o Papa Clemente X, em 1674, na Espanha, aprova a festa para esse dia. Em 1675, a Hungria, a Bohemia, a Dalmácia e a Croácia, entre outros lugares, aderem também ao dia 16 de julho. Sobre o pontificado do Papa Inocêncio XI, Portugal (1679); Génova (1682); Parma e Placência (1683) e Polônia (1704), assim como, por concessão do Papa Clemente X, o Rito Moçárabe e o Rito Ambrosiano, em 1685, fixam em seus calendários o dia 16 de julho, como a festa da Virgem Maria do Monte Carmelo.
O Papa Bento XIII, em 1725, estende a toda a Igreja universal a festa do Carmo (cf. Xiberta, 1987), o Concílio de Trento confirma a mesma data e em 1974, na “Marialis Cultus”, o Papa Paulo VI, afirma,
Se é verdade que o Calendário Romano põe em realce sobretudo as celebrações acima recordadas [...] outras originalmente celebradas por Famílias religiosas particulares, mas que hoje em dia dada a difusão que obtiveram, podem dizer-se verdadeiramente eclesiais (16 de julho – Nossa Senhora do Monte Carmelo) (n. 8).
A Virgem Maria é celebrada no Carmelo a partir do Mistério de Sua união com Seu Filho, Jesus Cristo e Sua Ressurreição. Uma característica bem simples disso encontramos nas antigas imagens de Nossa Senhora do Carmo que, estão sempre com anjos em seus pés, aludindo assim à Ressurreição de Seu Filho, que Ela já participa e que nós, pela fé, esperamos participar um dia. Compreender e celebrar esta festa litúrgica da Virgem Maria, a partir da Ressurreição de Nosso Senhor é redescobrir o verdadeiro lugar de Maria Santíssima no plano da Salvação e dentro da Liturgia, que é Ação Sagrada do Sacerdócio do Ressuscitado.
3-Fontes, Eucologia e comentários da Festa
Os textos litúrgicos desta festa acenam para a presença de Maria na história de seus filhos, por isso, eles, ao se dirigirem ao Pai, pedem-lhe que venha em seu auxílio a proteção de Maria, isso acontece pelo fato de que, na subida do Monte que é Cristo, Maria, é o mais perfeito modelo. A presença da Virgem Santa na Liturgia, revela também a ternura de Deus para com seus filhos adotivos. As fontes da eucologia desta festa litúrgica, são variadas. As encontramos desde livros litúrgicos antigos, até os mais novos. Os textos eucológicos se baseiam nos antigos Missais da Ordem dos Carmelitas. Nestes livros, a Virgem Maria é apresentada como Mãe, Irmã e Mestra, aludindo assim também ao nome oficial da Ordem.
Nós participamos da Maternidade divina de Maria por vontade do próprio Cristo Senhor, que no momento culminante de sua crucificação, como encontramos no evangelho segundo João, capítulo 19, nos entrega a Ela como filhos e Ela a nós como Mãe. Esta boa Mãe, nos convida suavemente a subir o Monte da perfeição, que é o próprio Senhor, “vinde, filhos, escutai-me: vou ensinar-vos o temor do Senhor. Vinde, subamos à montanha do Senhor e seguiremos os seus caminhos” (Sl. 33; Is. 2, 3), ou seja, Maria, nos educa ao discipulado de Seu Filho Jesus Cristo.
É nossa Irmã, pois é filha da Igreja como nós também o somos, muito embora seja a Filha mais Perfeita da Igreja, em quem, a comunidade dos batizados ao se aproximar, contempla n’Ela “como em perfeita imagem, com alegria [...] realizado o que desejamos e esperamos ser na Igreja” (Missal Carmelita, 1987, p. 131). É ainda Irmã porque, em íntima familiaridade conosco se fez peregrina na fé, faz a vontade do Pai (cf. Mt 12, 46-50) e guarda tudo em Seu Coração (cf. Lc 2, 51). Por isso,
Olhando para Ela e vivendo em familiaridade de vida espiritual com Ela, aprendemos a estar diante de Deus e juntos como irmãos do Senhor. Maria, de fato, vive no meio de nós como Mãe e Irmã, atenta às nossas necessidades, e junto a nós aguarda e espera, sofre e alegra-se (Const.: O.Carm, n. 27).
Maria, é ainda, mestra na vida espiritual, pois, conservando todas as coisas em Seu Coração (cf. Lc 2, 19. 51), com seu exemplo de fé e seguimento ao Senhor é a mais protótipa imagem do discipulado Pascal do Ressuscitado. Olhando para Maria, mãe e mestra (cf. Missas da Virgem Santa Maria, 2014) e deixando-se guiar por seu Sagrado Coração de Mãe, a comunidade eclesial chegará as alegrias da Páscoa, visto que, a Virgem Santíssima não nos conduz a outro caminho que não seja Jesus Cristo.
Eis algumas fontes eucológicas da celebração litúrgica da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo:
• Les Oracions du Missel Romain. (1952), página, 322.
• Missal Carmelita: (1), página,; (1987), página, 128.
• Missal Romano: (1884), página, 547; (1962), página 3066; (1972), página, 624; (1975), página, 578; (1992), página, 616; (2023), página, 750.
• Missas da Virgem Santa Maria: (2014), página, 159 ss.
Antífona de Entrada (cf. Sl 65, 12)
Todos vós que a Deus temeis, vinde escutar: vou contar-vos todo o bem que ele me fez!
Coleta
Senhor, nós vos pedimos: venha em nosso auxílio a venerável intercessão da gloriosa Virgem Maria, para que, por sua proteção, possamos chegar ao Monte que é Cristo, nosso Senhor. Ele, que é Deus e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.
A oração coleta é dirigida a Deus Pai, a quem a comunidade sacerdotal suplica que venha em seu auxílio a intercessão da Virgem Maria, deste modo, a Igreja reunida em oração, recorda que Maria Santíssima ajuda na caminhada de peregrinação da fé e na subida a Montanha Santa, que segundo a eucologia desta coleta é o próprio Cristo Jesus. Na espiritualidade Carmelita, o Monte Carmelo possui uma forte simbologia. Este, é um lugar de encontro transformante com o Senhor. Sua subida é pedagógica, pois, nos forma no discipulado do Ressuscitado. Afirmar que o Cristo Senhor é o próprio Monte da perfeição é reconhecer que Ele, é o fundamento da vida cristã e consequentemente da Liturgia, que é ação Sua em Seu corpo místico.
Sobre as oferendas
Acolhei, Senhor, as orações e oferendas dos vossos fiéis, que vos apresentamos na festa da Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus; que elas vos sejam agradáveis e nos tragam o auxílio da vossa misericórdia. Por Cristo, nosso Senhor.
A prece sobre as oferendas é realizada com o pedido de que sejam acolhidas por Deus Pai, o pão e o vinho e que lhes sendo agradável, tragam o auxílio da misericórdia divina para a comunidade eclesial que apresenta. Esta oração litúrgica, acontece como uma introdução a Oração Eucarística. Se antes, a comunidade apresenta pão e vinho, o Senhor recebendo-os lhes devolve o grande dom de seu amor, seu próprio Filho Jesus Cristo, cujo Mistério Pascal celebramos em toda a Liturgia.
Prefácio da Bem-Aventurada Virgem Maria I ou II.
Antífona de Comunhão (cf. Lc 1, 48-49) Desde agora as gerações hão de chamar-me de bendita. O Poderoso fez em mim maravilhas e Santo é o seu nome!
Depois da comunhão
Senhor, vós nos fizestes participantes dos frutos da redenção eterna; concedei-nos a nós, que celebramos a festa da Mãe do vosso Filho, que nos gloriemos da plenitude da vossa graça e que sintamos crescer sempre mais a salvação. Por Cristo, nosso Senhor.
O pós comunhão põem a celebração pascal de Maria como via para se receber a plenitude da graça divina. A participação da Virgem Maria, não se limita apenas à sua presença nos Mistérios de Cristo celebrados na Liturgia, antes, estende-se ao longo de todo o tempo da Igreja que abraça a realização histórica da humanidade para lhe anunciar Jesus Cristo. Aqui podemos contemplar concretizado a afirmação de Cromácio de Aquileia, que o Papa Paulo VI, relembra na “Marialis Cultus”: “não podemos, portanto, falar da Igreja, se Maria, a Mãe do Senhor, não estiver presente com seus irmãos” (MC, n. 28), deste modo, a Liturgia desta festa Mariana celebra a presença Materna de Maria no Mistério do Ressuscitado.
Os textos eucológicos desta festa litúrgica nos ajudam ainda a perceber a imagem de Maria, a reciprocidade de sua maternidade e a nossa filiação para com tão boa Mãe (cf. Castellano, 1989).
a) A imagem de Maria:
(coleta, sobre as oferendas e pós comunhão)
- Gloriosa Virgem;
- Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus;
- Santa Maria;
- Mãe do vosso Filho.
(prefácio)
- Virgem que custodia a Palavra;
- Virgem da oração unânime com os discípulos;
- Associada ao Mistério da Salvação;
- Mãe solícita dos irmãos de Seu Filho;
- Esperança de Consolação;
- Imagem realizada e ideal da Igreja;
- Mãe espiritual da Igreja;
- Modelo e Mãe da vida segundo o seguimento de Cristo;
- Modelo de contemplação e de amor aos irmãos.
b) A reciprocidade materna e a filiação:
- Ela nos ajuda com sua materna intercessão;
- Nos encoraja a seguir suas virtudes;
- Reúne sua família e continua a encorajar-nos a viver uma vida de perfeição e caridade;
Celebrando sua memória sentimo-nos encorajados a:
- Subir a Montanha da Perfeição: Jesus Cristo;
- Colaborar na obra da Redenção;
- Ser fiéis a Cristo e a tão boa Mãe;
- Anunciar as maravilhas do Senhor;
- Ser peregrinos da esperança;
- Na graça e na responsabilidade manifestar sua presença e imagem no mundo, para atrair todos a Cristo Jesus;
- Uma vida de contemplação do Verbo Divino;
- Manifestar os Mistérios de Jesus Cristo.
A eucologia desta memória pascal/mariana, forma-nos através de Maria, no verdadeiro discipulado do Senhor. A natureza exemplar de Maria manifesta-se em toda a Sua vida e na profunda proximidade que teve e tem com Seu Divino Filho, Jesus Cristo. As memórias marianas dentre tantas finalidades que possuem, podemos elencar duas: a perfeição evangélica e a glória definitiva de Deus, desejam formar Cristo em nós, por isso, “Maria, nos atrai e nos guia, como Mãe e Irmã” (Castellano, 1989, p. 183), na caminhada de subida ao Monte que é Jesus, o Ressuscitado, deste modo, o Carmelo e toda a Igreja, encontra na Virgem Maria um Modelo para se viver em obsequio de Jesus Cristo (cf. RC, n. 2) e assim concretizar sua vocação: manifestar ao mundo os Mistérios do Senhor.
4- Guiados pela liturgia da Palavra
As memórias litúrgicas da Bem-Aventurada Virgem Maria, são um meio propício para se crescer interiormente na comunhão com o Senhor. Nestas memórias, em especial, na festa da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, somos formados espiritualmente na fé, por meio da eucologia, que com palavras eclesiais simples e profundas nos ajudam a melhor rezar, como também, por meio da liturgia da Palavra. A liturgia da Palavra é o próprio Deus que fala conosco, por ela, Ele nos instrui e ilumina os passos a serem dados em Sua direção. Sem uma intima comunhão de escuta orante com a Palavra, não podemos compreender verdadeiramente a Virgem Mãe que celebramos no Mistério Pascal de seu Filho, Jesus Cristo. Visto que, esta Palavra,
Proclamada na celebração dos divinos Mistérios, não só se refere às circunstâncias atuais, mas também olha para o passado e penetra o futuro, e nos faz ver quão desejáveis são as coisas que esperamos, para que, no meio das vicissitudes do mundo, nossos corações estejam firmemente postos onde está a verdadeira alegria (ILM, 2023, p. 142-143).
Olhando para a Virgem Maria, aprendemos com Ela, a viver verdadeiramente, não obstante nossas fraquezas e limitações, a Palavra de Nosso Senhor. É bem verdade que Maria a viveu de forma plena e por graça de Deus, em previsão também da Redenção do Senhor que Ela por primeiro foi agraciada, contudo, nós, comunidade de batizados, ajudados pelo auxílio desta terna intercessora e animados por seu testemunho de discípula fiel, podemos crescer dia a dia, na comunhão transformante com a Palavra de Deus.
Não podemos celebrar a Virgem Maria do Monte Carmelo, por excelência a Mulher Pascal, de forma separada da Palavra divina. Maria, é Aquela que cumpre fielmente a vontade de Deus, Seu Senhor. Por isso, as solenidades, festas e memórias marianas são como um Dom da Trindade que nos ajudam a escutar e vivenciar a Palavra de Deus, deste modo, estaremos rezando na Liturgia a nossa vida e vivendo a Liturgia que celebramos.
Podemos, ainda, contemplar os versículos 10 ao 14, do salmo 65, que é hino de ação de graças após um ano fértil de colheitas abundantes, a partir das celebrações marianas. A presença de Maria, é como um tempo fértil, não a parte, ao lado, mas, inserido no decorrer celebrativo do ano litúrgico. Ela como boa Mãe, prepara o terreno interior do nosso coração, amolecendo-o com sua intercessão, para ser fecundo para próprio Espírito Santo que faz nascer em nós o amor a Jesus Cristo. Reza o salmista,
Preparas a terra assim: regando-lhes os sulcos, aplanando seus torrões, amolecendo-a com chuviscos, abençoando-lhe os brotos. Coroas o ano com benefícios e tuas trilhas gotejam fartura; as pastagens do deserto gotejam, e as colinas cingem-se de júbilo; os campos cobrem-se de rebanhos, e os vales se vestem de espigas, clama-se, cantam-se hinos (Sl 65).
As leituras abaixo, da festa Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, se encontram no Lecionário III (1997, p. 129), para as memórias da Mãe de Deus e dos santos do calendário romano.
• Primeira leitura:
Zc 2, 14-17.
N. 11, p. 257.
• Salmo responsorial:
Lc 1, 46-47.48-49.50-51.52-53.54-55.
N. 5, p. 261.
• Aclamação ao Evangelho:
Lc 11,28.
N. 4, p. 265.
• Evangelho:
Mt 12, 46-50.
N. 3, p. 261.
Celebrar a Virgem Maria do Monte Carmelo na Liturgia, rezando as preces litúrgicas, sendo guiados pelos ritos e formados pela Palavra de Deus, é um meio excelente de se permanecer na escola de tão boa Mãe, para que, Ela, como Mestra, porque primeiro viveu, nos forme e eduque na fé, que é encontro com Jesus Cristo.
5- “Flos Carmeli”: a Sequência da Missa
A Liturgia da Ressurreição marca fortemente a vida espiritual daqueles que a celebravam, levando a Ressurreição do Senhor a não ficar apenas num caráter litúrgico-ritual, mas, antes, ser levada para a vivência diária. É neste contexto espiritual que se encontra a celebração da Bem-Aventurada Virgem Maria totalmente imersa no Mistério Pascal do Senhor. O hino litúrgico/mariano “Flos Carmeli”, Flor do Carmelo, (Liturgia delle Ore, 2004, p. 477), que é a sequência da Missa, é resultado de uma Liturgia centrada no Mistério Ressurrecional do Senhor. Neste hino, Maria é a raiz de Jessé, a vinha florida, o consolo sábio e sólido, é Aquela que nos conduz ao céu e que nos aponta o caminho de Jesus Cristo.
O texto desta sequência é encontrado num Breviário e Missal Carmelita, datado entre 1375 e 1393, junto à eucologia da celebração do Mistério da Assunção da Virgem Maria, (Cf. Kallenberg, 2007). A solenidade da Assunção era celebrada pelos antigos carmelitas como uma continuação da Ressurreição do Senhor. Assim sendo, esta Liturgia da Bem-Aventurada Virgem Maria possui fortemente características escatológicas.
A sequência desta Missa é uma verdadeira riqueza poética, oracional, secular e histórica que testemunha a ternura de Maria (cf. Boyce, 2008). Sua origem é atribuída a São Simão Stock (cf. Martínez, 1996), que foi prior geral da Ordem num momento conturbado e doloroso. Simão, rezando à Virgem Maria, pedia-lhe seu auxílio e socorro para a Ordem a Ela consagrada. É nesse contexto histórico que acontece a visão com a qual São Simão Stock recebe da Virgem Maria o escapulário, sinal de sua aliança e proteção.
Composta em oito estrofes, a sequência “Flos Carmeli”, canta os louvores de Maria e pede-lhe que nos obtenha a glória do céu, ou seja, a vida eterna e em Deus. Na primeira, encontramos quatro títulos da Virgem Maria: Flor do Carmelo, Videira Florescente, Esplendor do Céu, Virgem Fecunda e Singular. O último verso, faz alusão ao profeta Isaías quando anuncia que uma Virgem conceberia (cf. Is 7, 14). Esta Virgem é Singular porque permanece Virgem também durante e depois do parto, deste modo, pode-se contemplar aqui o Dogma da Virgindade Perpétua de Maria. Na segunda estrofe, Maria é chamada de doce Mãe e a Ela é pedido que venha em socorro dos carmelitas, aqui compreendidos como todos aqueles que portam o seu escapulário, que são suas vestes. Na terceira, Maria é a raiz florescente de Jessé (cf. Is 11, 1), ou seja, a videira florida (1 estrofe), donde brota um novo rebento, assim, o hino faz alusão à antiga profecia do Primeiro Testamento de que brotaria uma cepa e dela um ramo com uma flor e um fruto que lido a partir de Maria é Jesus Cristo. Já na quarta estrofe a Virgem Maria é apresentada como um lírio viçoso e florido e a Ela é pedido que guie nosso ânimo, pois, é Ela a Mãe tutelar.
Adiante, Maria é aquela que “desponta como a aurora, bela como a lua, fulgurante como esquadrão com bandeiras desfraldadas” (Ct 6, 10), que com o Seu escapulário está pronta para defender aqueles que a Ela se confiam. Na sexta estrofe Maria é como o conselho sábio e consolo sólido para os necessitados de Seu Filho, a Sua sabedoria e solidez vem de Jesus Cristo, por isso, o povo recorre a Maria. Na sétima, Maria é a Mãe da doçura no Carmelo, Ela que é a Senhora do Lugar, tudo orienta para o Filho, por isso, também é a felicidade do povo em júbilo exultante. O hino atinge seu ápice na oitava estrofe na qual a Virgem é chamada de chave do céu, prudente guia, pórtico seguro e ainda é realizado um último pedido, que Ela venha nos coroar de glória, isto é, que esta doce e terna Mãe nos comunique a verdadeira glória, que é Jesus Cristo.
I. Flos Carmeli, vitis florigera, splendor coeli, Virgo puerpera, singularis.
Flor do Carmelo
Vinha florida,
esplendor do Céu,
Virgem fecunda,
E singular.
II. Mater mitis, sed viri nescia, Carmelitis esto propitia, Stella maris.
Doce e bendita,
Ó Mãe puríssima,
aos carmelitas,
sê Tu Propícia,
Estrela do Mar.
III. Radix Jesse germinans flosculum, nos adesse
tecum in saeculum patiaris.
Raiz de Jessé,
de brotos floridos,
queiras, feliz, ao céu pelos séculos
nos elevar.
IV. Inter spinas quae crescis lilium, serva puras mentes fragilium, tutelaris.
Entre os abrolhos,
viçoso lírio,
guarda de escolhos,
o frágil ânimo,
Mãe tutelar.
V. Armatura fortis pugnantium furunt bela, tende praesidium scapularis.
Forte armadura
Frente o adversário,
Na guerra dura,
o escapulário
vem nos guardar.
VI. Per incenta prudens consilium, per adversa iuge solatium largiaris.
Nas incertezas,
conselho sábio;
nas asperezas,
consolo sólido
queira nos dar.
VII. Mater dulcis Carmeli domina, plebem tuam reple Laetitia qua bearis.
Mãe da doçura,
do Carmelo Senhora;
sê a ventura,
que o povo, em júbilo,
faz exultar.
VIII. Paradisi calvis et ianua, fac nos duci quo, Mater, gloria coronaris. Amen.
Do paraíso,
és chave, és pórtico;
prudente guia,
a nós, de glória,
vem coroar. Amém.
Portanto, percebe-se que a oração poética “Flos Carmeli”, revela o perfil Mariano da Ordem dos Carmelitas dentro da Liturgia. Para o Carmelo, Maria é a Nova Mulher, é aquela que experiencia em Sua vida a graça de ser tocada pela Graça de Deus Pai. Todas as preces dirigidas a Maria, que estão contidas nesta oração, mostram em suas entrelinhas que nos dirigimos a Maria por ser Ela uma Mulher Pascal e inteiramente tocada pela Ressurreição de Seu Filho Jesus Cristo.
6- A Mistagogia nas Festas Litúrgicas da Mãe de Deus
A palavra mistagogia, de origem grega (mystérion) ou (mysterium) em latim, pertence, inicialmente as antigas religiões de cultos mistéricos. “O mystérion seria o segredo divino revelado, por meio de um mediador, aos homens” (Finelon, 2021, p. 196). Mistagogo, é, portanto, alguém que nos introduz/conduz ao mistério. Nos séculos III e IV, estando os Padres da Igreja presente em ambientes em que se faziam atuantes os cultos mistéricos, começaram a trazer o conceito para o “mundo” cristão e aplicá-lo a partir de Jesus Cristo, visto que, “para esses Padres da Igreja, a vida inteira de Jesus, desde o seu nascimento até sua ascensão, foi uma iniciação ao mistério de Deus” (Finelon, 2021, p. 196).
É a partir da Liturgia que os Padres começaram a atividade mistagógica na Igreja. Neste viés, a vida litúrgica é o mais perfeito campo fértil para uma verdadeira, autêntica e necessária mistagogia que deseja formar em Cristo o povo sacerdotal, profético e régio. Contudo, é necessário que nos recordemos que, “é o Ressuscitado, na força do Espírito Santo, que se torna mistagogo e abre nossa mente para compreender a Liturgia” (Boselli, 2019, p. 22), que é ação Sua em Seu corpo místico.
Totalmente unida, por graça divina ao Mistério da Encarnação e consequentemente da Ressurreição, a Bem-Aventurada Virgem Maria, se torna mistagoga da vida cristã por estar continuamente associada e estreitamente unida ao Seu Filho Jesus Cristo. Olhar para Maria, numa perspectiva litúrgica e tê-la como mistagoga é se permitir é ser educado por Ela como outrora Jesus o foi (cf. Lc 2, 51-52), deste modo, as celebrações marianas são meios propícios para se crescer na comunhão com o Mistério Pascal do Senhor. A eucologia das celebrações da Virgem Maria a colocam sempre como Àquela que é canal da misericórdia de Deus e como a Virgem que sabe ouvir, praticar e ensinar a vontade do Pai. Assim, as orações litúrgicas reconhecem o devido lugar de Maria na ação sagrada de Jesus Cristo, por isso, as celebrações da Santíssima Mãe de Deus e nossa, são como “locus mystagogiae”, isto é, “lugares” de experiência mistagógica.
As festas da Bem-Aventurada Virgem Maria, em especial, a da Virgem Maria do Monte Carmelo, é uma via fértil para a atividade mistagógica, para o encontro com o Ressuscitado. A celebração da Virgem Mãe, nos Mistérios de Jesus Cristo Seu Filho, deve nos conduzir a uma participação ativa, frutuosa e consciente (cf. SC) da ação sagrada, visto que, “a participação plena nos possibilita o mergulho no Mistério” (Costa, 2005, p. 83). A comemoração desta festa, por meio de sua eucologia nos conduz a não apenas contemplar Maria como Rainha, mas, antes, e sobretudo, a senti-la como Mãe, Irmã e Mestra na vida espiritual e aqueduto da graça divina, como Aquela que perseverando em oração com os Apóstolos (cf. At 1), se torna por seu exemplo o modelo perfeito e fiel de oração e escuta ao Senhor.
A celebração desta memória litúrgica é um dom para toda a Igreja, em especial para aqueles lugares que a celebram em grau de solenidade, como é o caso de onde Ela é padroeira e da Ordem dos Carmelitas – Antiga Observância e Descalços – como nos lugares que a celebram em grau de festa, como é o caso do Brasil e de outros países. Por isso, uma adequada celebração segundo Jesus Castellano, OCD, é:
Pastoralmente válida e envolvente, deve ser mistagógica em pleno sentido; deve transmitir o Mistério através de uma celebração digna, bem-preparada e plenamente participada. Ao lado dos textos litúrgicos renovados deve haver também um estilo renovado de celebração da festa, na riqueza de possibilidades que a nossa atual situação litúrgica oferece. Um pouco de “criatividade” e entusiasmo podem transformar uma celebração cansativa e ritualística numa celebração “viva” (1989, p. 186).
A Liturgia da celebração Pascal da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, concretiza-se em seu caráter mistagógico, quando há a união dos ritos celebrados, dos louvores entoados, das preces rezadas com a vivência diária do que foi crido no ato litúrgico, assim como, quando a Liturgia desta festa é posta em diálogo com a devoção popular. A Liturgia, é a fonte da vida espiritual e educadora da piedade popular, esta última, por meio da fé, muitas vezes simples e sem muita instrução do povo de Deus, traz vida e ânimo aos ritos celebrados, levando-os, em união com o Espírito Santo que tudo conduz, a serem ritos alegres e que transmitem a vida divina.
Por isso, a festa da Mãe de Deus e do Carmelo, é um momento propício para uma boa catequese litúrgica, que forme e conduza a comunidade a celebrar bem a ação sagrada de Jesus Cristo. Como também, é o momento certo para formar o povo sacerdotal a respeito do escapulário da Virgem do Carmo, sinal devocional tão querido e amado pelo povo de Deus. Este escapulário, é meio para se viver plenamente as promessas do batismo e nossa consagração trinitária, realizada quando fomos mergulhados nas águas santas. Portar o escapulário e viver constantemente sobre a proteção de Maria e debaixo de seu olhar e amor de Mãe é procurar constantemente conformar a vida e os atos aos de Nosso Senhor Jesus Cristo e aprender com Ela a adorar verdadeiramente a Deus. Deste modo, a devoção mariana torna-se um dom de Deus na vida da Igreja, visto que,
A devoção a Maria é uma ajuda à adoração a Deus – afirma Bartolomeu Xiberta, O.Carm – Maria é a criatura na qual melhor resplandece a grandeza de Deus. É também o máximo dom da Divina Bondade. Por outro lado, Ela não significa perigo que possa afastar-nos de Deus, pois a Ele está unida indissoluvelmente. Maria ocupa, portanto, o primeiro lugar entre os meios que o Senhor nos deu para fortalecer aqueles sentimentos internos próprios da adoração (2003, p. 241).
É preciso ainda um permanente cuidado para não reduzir a mistagogia a uma simples instrução litúrgica, esta, até nos faz bem, entretanto, apenas a mistagogia vivida “per ritos et preces”, pelos ritos e pelas preces, (cf. SC), poderá nos fazer penetrar no interior do Mistério, que pela fé celebramos. Conduzir, pela fé, o povo de Deus ao Mistério de Jesus Cristo Ressuscitado por meio dos atos litúrgicos é guiar este mesmo povo, por uma via segura e que possui destino certo.
Uma última palavra sobre a mistagogia. A mistagogia, pode ser compreendida como encontro com o Senhor. Quem se encontra com Jesus Cristo, deve possuir um olhar diferente e um sentido aguçado, isto é, deve estar atento as necessidades daqueles que estão abandonados e necessitados. Nos recordemos que Liturgia e vida nunca se separam, jamais. Nossa vida é um campo fértil onde a Liturgia pode florescer e a Liturgia é este dom de Deus Pai, que no Espírito Santo nos entrega Seu Filho, Jesus. Assim, quem se deixa guiar pela Liturgia deve procurar o bem do outro e a caridade, sempre, do contrário, estaremos apenas falando palavras lindas, porém, que não possuem vida e nem brilho.
A caridade posta em prática, revela ao outro a fé que professamos e o amor que temos enquanto comunidade eclesial, assim como também, nos faz perceber que somos todos filhos de tão boa Mãe e deste modo, sendo todos irmãos, não é uma atitude cristã não socorrer aqueles que precisam de nossa ajuda. Não esqueçamos que o Senhor, Sua Mãe e São José um dia também foram peregrinos neste mundo.
Conclusão
A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, como um sopro do Espírito Santo, para uma melhor celebração e crescimento espiritual da Igreja, reposicionou as celebrações marianas a partir do Mistério da Ressurreição do Senhor, por isso, as festas da Virgem Maria, estão sempre unidas a algum aspecto teológico da vida de Jesus Cristo, tanto aqueles que são pertinentes à sua Maternidade, como aqueles aspectos que envolvem sua intercessão perene e auxílio materno.
Assim, festas da Mãe de Deus, não possuem um fim em si mesmas, antes, apontam para o Mistério Pascal, neste sentido, a celebração de tão boa e santa Mãe, possui um caráter fortemente cristológico/comunicativo, nos levando de Páscoa em Páscoa, ou seja, de celebração em celebração, até a Páscoa eterna, no Céu. Maria, nunca anuncia a si mesma, mas, sempre a Jesus Cristo, pois, bem sabe Ela que separados de Seu Filho nós não conseguimos nada. Apenas, n’Ele, nossa vida possui aquele sopro de vida divina, que Ela tão bem experienciou.
Por conseguinte, a devoção popular, encontra nas celebrações marianas um meio seguro de caminhar até Jesus Cristo, assim, a memória da Virgem Santa, aclamada pelo de povo de Deus, como sua Senhora, de tantos nomes, cores, belezas, roupas e nacionalidades, permanece atual e é um sinal firme, assim como Ela o foi para a comunidade apostólica, de que Deus Pai não despreza aqueles que são filhos d’Ele.