ANO LITÚRGICO: ESCOLA DE FÉ PASCAL
Frei Davi Maria, O.Carm.
Redescobrindo um tesouro
A descoberta ou redescoberta de tesouro muda completamente a vida de alguém, desde que este tenha consciência da preciosidade daquilo que está diante de seus olhos, tanto um tesouro humano, como espiritual. Na vida eclesial possuímos um grande tesouro de espiritualidades nas mais diversas famílias religiosas que, cada uma de acordo com o que lhe revelou o Espírito Santo a seu fundador vive na Igreja o seguimento a Nosso Senhor.
O Cardeal José Tolentino, nos traz a espiritualidade sob o ponto de vista de que a mesma é o ato de acender nossos sentidos, de nos despertar para uma riqueza interior que todos possuímos, por isso a espiritualidade é um grande e valioso tesouro interior que faz parte de toda a nossa vida e não apenas uma gaveta que abrimos quando desejamos ou temos necessidade, toda espiritualidade que se fundamenta em Jesus Cristo abraça o todo da vida humana, pois, quando o Senhor se encarna em nossa humanidade, ele a abraça por inteiro, deste modo, “precisamos olhar para a espiritualidade como uma arte integral do ser” (MENDONÇA, 2016, p. 26).
Espiritualidade não se aprende simplesmente nos livros, não é como seguir um mapa e chegar no lugar desejado, espiritualidade é caminho e caminho exigente, que nos desafia a sair de nós mesmos e irmos ao encontro daquilo que desejamos. A espiritualidade não se ensina, aprende-se e experimenta-se. À pergunta dos discípulos ‘onde moras?’ Jesus responde: Vinde e vede” (CORDEIRO, 2014, p. 91).
Inserindo-se na vida dos homens e no tempo do cronos, o ano litúrgico, constitui um imenso e incomensurável tesouro a ser sempre redescoberto pelos fiéis, corpo místico do Senhor. De forma pedagógica o ano litúrgico nos educa e forma para caminharmos sempre para a Páscoa, esta, é o núcleo central do ano litúrgico, e a fonte de todo o tesouro da fé cristã. Por isso é preciso que redescubramos o ano litúrgico como fonte perene de espiritualidade porque ele o é, isso pelo fato de que o ano litúrgico além de cristocêntrico e Pascal é também bíblico e sacramental. Cristo, Verbo de Deus, é o sacramento do nosso encontro com o Pai e tal encontro acontece porque antes aconteceu a Páscoa do Senhor, “a Páscoa nova não é só a Páscoa de Cristo, mas é o próprio Cristo” (MARSILI, 2010, p. 698).
Ano litúrgico: escola de fé pascal
O ano litúrgico constitui uma grande escola de vivência da fé pascal do povo de Deus, peregrino rumo ao céu. Nele temos distribuído todos os mistérios Pascais, desde a anunciação ao nascimento, passando por sua apresentação no templo, por sua ida ao deserto, pelo seu batismo, pelo início de sua pregação com o chamado a conversão, chegando a sua paixão e morte, até o ponto central e culminante que é a Páscoa.
Dentro dos mistérios do Senhor encontramos também as festas marianas que, com um caráter profundamente cristológico nos apontam para o Cristo Jesus e nos ajudam a melhor compreender seu mistério revelado ao mundo: o amor de Deus Pai pelo homem, encontramos também as festas dos santos, desde os mártires, as virgens, os pastores, os santos homens e santas mulheres, até aqueles que se dedicaram a educação, e quando lembramos dos nossos falecidos, recordamos deles por meio do Senhor Ressuscitado que nos garantiu a vida junto d’Ele. Em todos esses momentos dentro do ano litúrgico vive-se o mistério da Páscoa do Senhor.
Juan Javier Flores afirma que “a finalidade do movimento litúrgico, sem dúvida, teve parte importante na recuperação do genuíno sentido da Páscoa” (FLORES, 2006, p. 397). O mistério Pascal é a bússola que direciona todas as atividades do movimento litúrgico. Não compreendido por alguns e deturpado por outros, o movimento litúrgico foi composto por homens sedentos de uma liturgia pura, que se aproxima-se do modo de celebrar dos nossos primeiros irmãos na fé. O trabalho daqueles que pertenceram a este movimento, entre tantos, Lambert Beaudiun, Emanuele Caronti, Romano Guardini e Odo Casel, foi por assim dizer um serviço de lapidação no grande tesouro litúrgico da Igreja, lapidação esta que foi guiada pelos Padres da Igreja tendo como desejo a redescoberta da Páscoa do Senhor.
Do mesmo modo como os sacramentos são sinais visíveis da graça de Deus, o ano litúrgico pode e deve ser também visto como um sinal visível da graça da Deus, pois, o mesmo constitui uma grande liturgia e esta por sua vez é ação do Senhor por excelência, no seu corpo místico,
“O Ano Litúrgico deve ser considerado como uma autêntica liturgia, ou seja, o conjunto dos momentos salvíficos, celebrados ritualmente pela Igreja, mediante a Eucaristia que é memorial dos acontecimentos do Mistério da Salvação realizados na história. O seu fundamento bíblico-teológico radica na celebração e atualização do Mistério no tempo” (CORDEIRO, 2014, p. 102).
Mais que um calendário bem elaborado e com datas devidamente postas o ano litúrgico é antes de tudo “o exercício da função sacerdotal de Cristo” (SC 7), isso porque quem age nele é Jesus Cristo. Afirma o Papa Francisco que, “o sujeito que age na Liturgia é sempre e somente Cristo-Igreja, o Corpo místico de Cristo” (DD 15), ação esta que acontece de modo tão misterioso e ao mesmo tempo terno que, abraça não apenas os que estão ao redor do altar, mas se expande a todos chamando-os a comunhão dos filhos,
A Liturgia edifica cada dia os que estão na Igreja para fazer deles um templo santo do Senhor, uma habitação de Deus no Espírito, até a medida de Cristo na sua plenitude, e ao mesmo tempo robustece do modo admirável as suas energias para pregar Cristo, e assim mostra a Igreja aos que estão fora, como sinal erguido entre as nações, para congregar na unidade à sua sombra os filhos de Deus dispersos (SC 2).
O ano litúrgico é uma via a ser percorrida com fé e amor. Diz Matias Augé que, “o ano litúrgico é um itinerário de fé e de vida das pessoas e da comunidade em uma interação recíproca e fecunda” (AUGÉ, 2019, p. 356), todavia para que se perceba o ano litúrgico como fonte de espiritualidade é necessário “considerar a natureza da liturgia” (MARSILI, 2010, p. 687), o culto interior que se externaliza na vivência cristã, e ainda,
Esta, com efeito, não é um complexo de cerimônias e de atos exteriores, mas é a atuação e a continuação da obra sacerdotal de Cristo por meio de sinais sagrados significantes e eficazes (MARSILI, 2010, p. 687).
Embora tenhamos que concordar que nem sempre a liturgia e consequentemente o ano litúrgico não eram vistos como fonte de espiritualidade, mas antes as devoções e práticas religiosas, dando assim amplo espaço para um maior distanciamento da liturgia com o povo, de forma misteriosa o Espírito Santo guiou a Igreja e de acordo com sua vontade suscitou homens e mulheres de fé que apontaram para a liturgia como caminho de vida espiritual e não com um entre tanto caminhos, tais como a mística carmelita e santa, Maria Madalena de Pazzi e em nossos dias Cláudio Pastro que faz da liturgia sua arte e aponta para ela como encontro com Jesus Cristo.
É preciso ainda o zelo santo pela liturgia para que esta não venha a se torna aquilo que de certo modo foi no passado para alguns: apenas um conjunto de regras que precisam ser devidamente cumpridas. Quem é o agente por excelência da liturgia é o Senhor, é ele quem age nela e tudo realiza, as rubricas existem para nos ensinar que quem deve aparecer no momento santo da liturgia é Jesus, pois,
O ano litúrgico celebra o Mistério de Deus em Cristo, porquanto está radicado sobre aquela série de eventos mediante os quais Deus entrou na história e na vida do homem. O fundamento bíblico-teológico do ano litúrgico é a História da Salvação, o próprio facto de Deus que entra na história. o tempo está carregado de eternidade, onde Deus manifesta o Seu plano salvífico, ou seja, o Seu Mistério (CORDEIRO, 2014, p. 105)
Domingo: coração da Páscoa semanal
O Domingo faz parte do tempo, e dentro do calendário civil, ele é apenas um dia como qualquer outro da semana, mas, em matéria de fé, o Domingo acaba se tornando quase como que um oitavo sacramento, pelo fato de que a partir deste dia a Igreja, esposa sem mancha, do Cordeiro sem pecado se une aos anjos e santos, para cantar que Deus Pai, em Jesus, pela ação do Espírito Santo é três vezes Santo e com isso indicar a grandiosidade da Santidade de Deus.
O coração da Páscoa semanal é o Domingo, dia do Senhor, o Domingo é a grande porta aberta para os todos os mistérios que são celebrados no ano litúrgico inteiro, nele tocamos por graça divina aquilo que por méritos humanos nunca conseguiríamos, no Domingo e a partir dele vivemos semanalmente o mistério de Ressurreição do Senhor, pois,
Neste dia devem os fiéis reunir-se para que, ouvindo a Palavra de Deus e participando na Eucaristia, celebrem a memória da Paixão, Ressurreição e glória do Senhor Jesus e deem graças a Deus que ‘os fez renascer para uma esperança viva pela Ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos’ (1 Ped 1, 3). Por isso o Domingo é o principal dia de festa que se deve propor e inculcar na piedade dos fiéis (SC 106).
No Domingo o corpo místico do Senhor que é formado por todos os batizados é chamado a se reunir em torno de um único altar, mas com duas mesas. Formados interiormente pela palavra de Deus, por meio da escuta atenta e dócil da mesma e pela instrução por meio da pregação, a comunidade agora se aproxima do altar para receber o Corpo Santo do Senhor que se dá a nós na Eucaristia. É nestas duas mesas que toda celebração litúrgica se fundamenta, na palavra e na eucaristia, uma não existe sem a outra e é a partir delas que o mistério Pascal se faz presente fazendo assim com que o Domingo seja o dia mais importante para aqueles que tem fé.
Ano Litúrgico: itinerário espiritual
O ano litúrgico é um itinerário espiritual não apenas pelo fato de nele conter todas as celebrações dos mistérios da vida do Senhor, partindo evidentemente de sua Páscoa, mais também porque nele quem age é o próprio Jesus, o ano litúrgico é uma das grandes ações do Senhor para nossa Salvação, pois, nele se “celebra o mistério de Cristo como acontecimento salvífico que se torna presente no tempo... na escuta da Palavra de Deus e na participação dos sacramentos” (AUGÉ, 2019, p. 352).
Para se reconhecer o ano litúrgico como itinerário espiritual se faz preciso “nossa abertura ao transcendente, a Deus” (DD 44), porque a liturgia é lugar por excelência de encontro com Cristo, é ele quem nos move mediante nossa abertura, e no que diz respeito a liturgia já o sabemos que é o Senhor quem nela age. Por isso podemos dizer também que o ano litúrgico é um itinerário de encontro, que como diz o Papa Francisco, “na Eucaristia e em todos os sacramentos, é garantida a nós a possibilidades de encontrarmos o Senhor Jesus e de sermos alcançados pelo poder da sua Páscoa” (DD11).
Se faz necessário recordar que encontrar-se com o Senhor é também encontrar-se consigo mesmo e consequentemente com os irmãos, pois a fé não nos deixa alienados, o que nos aliena é o modo errado como a vivemos. Uma autêntica vida litúrgica, não apenas espera o momento sagrado da celebração, mas, faz de seus atos uma antecipação da ação de graças que é a liturgia, por isso deveríamos fazer do ano litúrgico o guia de nossas vidas, um tempo para amar, para assim todos os dias nascermos com o Senhor (Advento/Natal), nos convertermos a Ele (Quaresma) e ressuscitarmos com Ele (Páscoa), e assim sermos formados no discipulado do Senhor (Tempo Comum).
Quando procuramos e unimos o que celebramos no ano litúrgico, os mistérios de Cristo com nossa vida, fazendo assim da liturgia nossa vida e de nossa vida uma liturgia, “a santificação não é senão a comunhão pessoal com Cristo... com sua vida com seu mistério, com seu Espírito. A graça é Alguém, e não simplesmente ‘algo’; devemos, portanto, acentuar o personalismo da santificação” (CASTELLANO, 2008, p. 173). Tal santificação não se dá apenas pelo ato de celebrar os mistérios do Senhor, também, mas, antes de tudo tal santificação acontece pela união do interior com o exterior, isto é, pela vivência da fé que celebramos.
Nossa união com Cristo é sempre com ele, que padeceu e foi glorificado. A vida cristã, alimentada pelas diversas manifestações da presença do Kyrios, não é senão a comunhão constante em todas as dimensões: é uma vida unida tanto à morte como à ressurreição de Jesus (CASTELLANO, 2008, p. 174).
É preciso também recordar que no que diz respeito a vida espiritual que não se deve separar humano de divino, os dois caminham juntos. Constitui uma grande ruina para a fé, quando espiritualmente separamos liturgia e vida, nenhuma vida espiritual se sustenta com essa dicotomia,
O mistério ‘acreditado’ e ‘celebrado’ possui em si um dinamismo que faz dele princípio de vida nova em nós e forma da existência cristã. A separação entre liturgia e vida conduz inevitavelmente ao empobrecimento de ambas. A liturgia que não assume a existência para transformá-la, cai no formalismo da cerimônia. O empenho na vida sem a celebração torna-se uma obra da pessoa humana que não é aberta ao mistério e se reduz, portanto, a uma pretensão privada de fundamento (AUGÉ, 2019. p. 354)
Podemos dizer que o ano litúrgico é como a alma de toda vida espiritual, nele quem Age é Jesus Cristo que é seu o fundamento, a celebração da Páscoa do Senhor é a grande e maior graça do ano litúrgico, por ela o ano litúrgico ganha sentido e razão de ser, por isso aqueles que desejarem se unir ao Senhor encontram no ano litúrgico um caminho de perfeição que mediante a abertura de coração e da mente, e a união do interior com o exterior por que, “a liturgia quer aqui exprimir o que se passa no interior da humanidade cristã; a vida de Deus em Cristo, pelo Espírito Santo, assumindo a criatura” (GUARDINI, 2018, p. 81).
Por fim, o ano litúrgico é como um grande poema, onde os versos ganham rima em nossas vidas e atos. Quanto mais nos abrimos ao Espírito Santo e nos permitimos viver a vida divina mais entramos dessa dança divina, mais nos tornamos as rimas do poema do Divino poeta, Jesus Cristo.
Referências
AUGÉ, Matias. ANO LITÚRGICO: é o próprio Cristo presente na sua Igreja. São Paulo: Paulinas, 2019
CASTELLANO, Jesus. LITURGIA E VIDA ESPIRITUAL. Teologia, Celebração, Experiência. São Paulo: Paulinas, 2008
CONSTITUIÇÃO Sacrosanctum Concilium – SC. In: ENQUIRÍDIO DOS DOCUMENTOS DA REFORMA LITÚRGICA. Secretariado Nacional de Liturgia de Portugal. Fátima, 2014
Carta Apostólica DESIDERIO DESIDERAVI. Vaticano: Paulinas, 2022
MENDONÇA, José Tolentino. A MÍSTICA DO INSTANTE: O Tempo e a Promessa. São Paulo: Paulinas, 2016
CORDEIRO, José Manuel. CORAÇÕES AO ALTO. Introdução à Liturgia da Igreja. Lisboa: PAULUS, 2014
FLORES, Juan Javier. INTRODUÇÃO À TEOLOGIA LITÚRGICA. São Paulo: Paulinas, 2006
GUARDINI, Romano. O ESPÍRITO DA LITURGIA. São Paulo: Cultor de Livros, 2018
MARSILI, Salvatore. SINAIS DO MISTÉRIO DE CRISTO. Teologia Litúrgica dos Sacramentos, Espiritualidade e Ano Litúrgico. São Paulo: Paulinas, 2009