ASCENSÃO DO SENHOR: O INÍCIO DE NOSSA MISSÃO

ASCENSÃO DO SENHOR: O INÍCIO DE NOSSA MISSÃO

Pe. Sandro Ferreira*

 

“E enquanto os abençoava, [Jesus] afastou-se deles e foi

 elevado ao céu. Eles o adoraram” (Lc 24, 51-52a).

 

O Tempo Pascal que estamos agora vivendo é marcado por alegria, festa, júbilo, esperança e certeza da Ressurreição de Jesus. Nesse tempo, a liturgia nos apresenta textos bíblicos que ressaltam o túmulo vazio e as diversas situações nas quais o Ressuscitado aparece aos seus discípulos. Depois que os apóstolos e os demais discípulos fazem a experiência da Ressurreição de Jesus, acontece a ascensão do Senhor. 

A palavra ascensão significa subida. Jesus foi rejeitado e condenado à cruz pela justiça dos poderosos, mas agora Deus o faz sentar à sua direita; isto é, Deus lhe dá o poder de julgar e de governar o mundo inteiro. Jesus foi elevado. Era considerado réu, e Deus fez dele o juiz. Tornou-se o Senhor da história.

A Sagrada Escritura relata que: “Depois de ter dito isto, Jesus foi elevado, à vista deles, e uma nuvem o retirou aos seus olhos. Continuavam olhando para o céu, enquanto Jesus subia. Apresentaram-se a eles então dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: ‘Homens da Galileia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu? Esse Jesus que, do meio de vós, foi elevado ao céu, virá assim, do mesmo modo como o vistes partir para o céu’” (At 1,9-11).

Lucas, em seu Evangelho, põe todas as aparições e a ascensão no mesmo dia. No entanto, nos Atos dos Apóstolos, ele fala de quarenta dias de permanência de Jesus com seus discípulos, provavelmente como um modo de indicar que eles haviam recebido a formação necessária para levar adiante a missão (“quarenta dias” com o mestre era o tempo que o discípulo precisava para alcançar uma preparação adequada).

Antes de sua subida ao céu, Jesus permanece com seus discípulos. O evangelista João nos relata que o Mestre soprou sobre os discípulos e disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). Esse mesmo Espírito enviado sobre os discípulos nós o recebemos em nosso Batismo. Portanto, o Espírito habita em nós e nos anima a sermos firmes e corajosos na caminhada cristã.

A festa da ascensão nos faz tomar consciência da nova maneira de Jesus estar presente entre nós: “sentado à direita do Pai”. Depois de sua vitória sobre os poderes da morte – que procuram esmagar a vida, principalmente a dos pequenos e humildes –, Jesus anima a sua Igreja pelo seu Espírito, para que continue sua missão, anunciando e realizando o Reino, colaborando na transformação da sociedade, tornando-a justa, fraterna, pacífica e procurando a comunhão com Deus e com os irmãos.

Celebrar a ascensão de Jesus não significa, para nós cristãos, algo diferente que celebrar sua Ressurreição. São só diferentes nomes para referir-se à mesma realidade: que, ao morrer, tanto Jesus como nós, mergulhamos na Vida de Deus. Pela sua ascensão, Jesus Cristo acolheu tudo quanto é humano e, desta maneira, o redimiu. Ele subiu ao céu porque desceu às profundezas da terra. E assim também nos mostrou o caminho. Não podemos subir ao céu se não estivermos dispostos a descer com Cristo ao nosso húmus, às nossas sombras, à condição terrena, ao inconsciente, à nossa fraqueza humana. Nós subimos a Deus quando descemos à nossa humanidade. Esse é o caminho da liberdade, esse é o caminho do amor e da humildade, da mansidão e da misericórdia; é o caminho de Jesus também para nós. Ao fazer, junto com Jesus Cristo, o caminho da descida, o ser humano vai ao encontro de sua realidade e coloca-se diante de Deus para que Ele transforme em amor tudo quanto existe nele, para que ele seja totalmente perpassado pelo Espírito de Deus.

A fé na ascensão não é aceitar que uma pessoa subiu aos céus. É aceitar que Jesus é o sentido de tudo, a revelação de Deus e do sentido da existência: Ele é o Senhor. A ascensão de Jesus não significa evasão aos céus – Homens da Galileia, por que estais aí a olhar o céu? (At 1,11) – mas imersão na vida. Aquele que vive não escapou do mundo; sua ascensão significa sua extensão e presença no universo inteiro, plenificando tudo em todos. Ele agora assume todos os rostos, identifica-se com toda a humanidade e continua a caminhar pelas Galileias dos excluídos, das periferias, dos pobres. Acampa junto daqueles que vivem às margens. O movimento desencadeado por Aquele que Vive é um movimento que reúne para dar vida, para restaurar vínculos rompidos, libertar as ataduras que escravizam.

Sabemos que Deus nos fala não só através da Bíblia, da Igreja, dos acontecimentos, da Criação... mas também através de nós mesmos, daquilo que nós pensamos e sentimos, através de nosso corpo, de nossos sonhos, e ainda através de nossas feridas e de nossas fraquezas. O subir até Deus passa pelo descer até às profundezas da nossa própria realidade pessoal.

Se, com Cristo, quisermos subir ao Pai, temos primeiro que descer com Ele à terra, afundar os pés na nossa própria condição humana. Quem desce até sua própria realidade, até os abismos do inconsciente, até a escuridão de suas sombras, até a impotência de seus próprios sonhos, quem mergulha em sua condição humana e terrena e se reconcilia com ela, este sim, está subindo para Deus, faz a experiência do encontro com o Deus verdadeiro.

A vida cristã não é subida para fora da realidade, mas descida para o mais profundo dela. Entramos no movimento da ascensão quando amamos, servimos, cuidamos; nós nos elevamos quando lutamos por uma causa, investimos a vida em um projeto. Ao deixar-nos conduzir pelo Espírito, rompemos com nossos lugares estreitos, vivemos a expansão de nós mesmos, tornamo-nos universais.

Essa ascensão não pode ser feita às custas dos outros, mas servindo a todos. Como Jesus, a única maneira de alcançar a plenitude é descendo para o mais profundo. Aquele que mais desceu é Aquele que mais alto subiu.

Descobri-lo dentro de nós e nos outros é muito exigente e comprometedor. É muito mais cômodo continuar olhando para o céu e não nos sentirmos implicados com aquilo que está acontecendo ao nosso redor. Por isso, ascensão é missão; é descer da montanha para as periferias da nossa Galileia (periferias existenciais, sociais, religiosas etc) e ali prolongar a atividade libertadora de Jesus.

A ascensão ocorre toda vez que, vivendo o presente, transcendemos os limites temporais e nos experimentamos ser em Deus. Nesses momentos, nos alcança a plenitude e saboreamos a alegria. Ao mergulhar na realidade, interna e externa, nos esbarramos n’Ele, o Ressuscitado.

O prefácio da missa deste dia nos reforça que “Ele, nossa cabeça e princípio, subiu aos céus, não para afastar-se de nossa humildade, mas para dar-nos a certeza de que nos conduzirá à glória da imortalidade”.

            Por isso, nós, cristãos, não podemos ficar de “braços cruzados” após a Ressurreição e a ascensão de Jesus. Ele volta para junto do Pai, mas nos deixa uma missão: continuar o anúncio do Reino e evangelizar com ardor missionário. A pergunta feita aos discípulos é inquietante: “Por que ficais aqui, parados, olhando para o céu?”. Ainda hoje, há muitos cristãos que ficam somente olhando para o céu à espera do retorno de Jesus. As pessoas que agem dessa forma não compreenderam a mensagem do Senhor. Quantas vezes ficamos aguardando que Deus faça alguma coisa por nós. Mas você já se perguntou sobre o que você está fazendo por Ele? Que tempo você tem dedicado a Deus em sua vida? 

A ascensão nos recorda que devemos aguardar vigilantes a volta de Cristo, dedicando-nos às necessidades da Igreja e da sociedade como verdadeiros discípulos do Ressuscitado, evangelizando. A palavra “discípulo” remete a seguimento. Portanto, como cristãos, somos seguidores de Cristo, o Senhor Ressuscitado. Por isso, o mínimo que devemos fazer para sermos dignos de ser chamados desse nome é nos esforçar a cada dia para agir como Cristo: doando nossa vida em favor do próximo e dando exemplo de serviço e dedicação, pois quem se abaixa (se esvazia de si mesmo) será elevado.

Enfim, após cumprir plenamente sua missão é que Cristo volta para junto do Pai. É aí que inicia nossa missão. Por isso, como rezamos após a comunhão na Missa da ascensão, nós vos pedimos, Senhor: “fazei que nossos corações se voltem para o alto, onde está junto de vós a nossa humanidade”.

 

* Presbítero da Arquidiocese de Maringá-PR, doutor em Teologia Dogmático-Sacramentária pelo Pontifício Ateneo Santo Anselmo (Roma), mestre em Teologia Sistemática pela PUCPR-Campus Curitiba, professor da PUCPR-Campus Londrina. E-mail: pesandroferreira@gmail.com

 

 

 
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