Benedic, Domine a oração sobre o povo do II Domingo da Quaresma
A Oração sobre o povo do II Domingo da Quaresma vem do Missal Parisiense de 1738, n 3141 (MP). Tratava-se da Oração sobre as oferendas (Secreta) do formulário destinado à festa da Transfiguração do Senhor (Die VI [augusti], in Transfiguratione). Apresentamos imediatamente a sinopse entre o texto fonte (MP), a forma como aparece no Missal Romano, edição típica latina (MR2002/8), a tradução para o Missal Romano brasileiro (MR2023) e uma tradução nossa para estudo:
MP | MR2002/8 | MR2023 | Estudo |
Celebrantes hoc sacrificio Unigeniti transfigurati mysterium, da nos, Deus, ipsius Evangelio sic adhaerere, ut ad illam gloriam, cuius in se speciem Apostolis ostendit, et suspirare iugiter et feliciterpervenire valeamus[1]. | Benedic, Domine, fideles tuos benedictione perpetua, et fac eos unigeniti tui evangelio sic adhaerere, ut ad illam gloriam, cuius in se speciem apostolis ostendit, et suspirare iugiter et felicitervaleant pervenire[2].
| Abençoai generosamente, Senhor, os vossos fiéis e fazei-os aderir ao Evangelho do vosso Filho; possam desejar sempre e, um dia, felizes alcançar a mesma glória que ele revelou aos Apóstolos[3].
| Abençoa, Senhor, os teus fiéis com uma bênção perpétua, e faze-os aderir ao Evangelho do teu Unigênito (Filho), de tal maneira que possam continuamente suspirar e alegremente alcançar aquela glória, cuja forma ele mostrou em si mesmo aos Apóstolos. |
A fonte
Com a Bula Quo primum tempore (Desde o primeiro momento), em 14 de julho de 1570, o papa Pio V promulgava o Missal Romano (MR1570), em consonância com quanto havia determinado o Concílio de Trento (1545-1563), tornou-se de uso obrigatório em toda a Igreja Latina[4]. Tratava-se de uma política de padronização das “cerimônias”, política desejada pelos Padre conciliares tridentinos, tendo como objetivos gerais garantir a identidade do culto católico e dirimir uma série de intempéries provocadas pelo avanço da então recente Reforma Protestante. No entanto, fez-se exceções apenas para aqueles lugares onde outro rito era celebrado há mais de duzentos anos[5], desejando, todavia, que em futuro breve, cedessem ao uso do Missal apenas publicado[6].
Na maioria das dioceses da França, o MR1570 foi adotado, embora muitas delas pudessem ter feito uso do direito de preservar os seus livros em uso nas tradições locais, que remontavam a mais de dois séculos. Optaram por não exercer o seu direito em favor do MR1570 e em prol da padronização. Além disso, de acordo com o disposto pela Bula que promulgara o Missal, a Igreja local, uma vez renunciado ao seu direito, não poderia então retomar os livros anteriores.
Certas dioceses da França, incluindo a diocese de Paris, antes de aceitarem o MR [im]proposto, optaram por este caso excepcional. Sob a liderança de Monsenhor Charles-Gaspard de Vintimille du Lac, Arcebispo de Paris (1729 a 1746), a sua Arquidiocese utilizou durante as celebrações, um Missal Próprio, denominado Missal Parisiense de 1738. A partir da primeira edição do Missal de 1738, ocorreram outras reedições, mantendo o mesmo conteúdo, com pouquíssimas modificações[7]. O ano de 1841 marca o fim da edição do Missal de Paris. De fato, a partir de 1840, uma após outra, as dioceses de França aceitaram os “convites” cada vez mais incisivos da Santa Sé para regressar à uniformidade litúrgica em torno dos livros romanos.
O MP e o MR2002/8
Em 1994, Anthony Ward publicou um artigo apresentando uma série de 74 orações e prefácios do MP presentes de alguma forma no MR1970/1975[8]. Das 74 orações, 4 são tomadas na íntegra e mantidas idênticas[9], 26 são textualmente muito próximas, a tal ponto que, sem a devida atenção, não se percebe a diferença entre elas, 24 que são textualmente próximas, 18 com semelhanças textuais distantes, e 4 inspiradas nos vocábulos, ou nos “temas”. O nosso autor, infelizmente, fez um inventário, não um estudo analítico, não desenvolvendo demonstrando os debates ocorridos durante os trabalhos da reforma litúrgica para a escolha das orações do MP assumidas no MR1970/1975. A terceira edição típica do MR acolheu mais 11 orações vindas do MP: 3 Coletas, 3 Sobre as oferendas, 2 Depois da comunhão e 3 Sobre o povo, uma das quais para o II Dom da Quaresma, objeto do nosso estudo[10].
Comentário ao texto
Como já evidenciado acima, a Benedic, Domine, que originariamente era uma Oração sobre as oferendas, foi acolhida no MR2002/8 sendo transformada numa Oração sobre o povo. Para tanto os receptores tiveram que adapta-la, antes de tudo substituindo o incipit “Celebrantes hoc sacrificio Unigeniti transfigurati mysterium, da nos, Deus, ipsius Evangelio” (Celebrando com este sacrifício o mistério do teu unigênito transfigurado, dá-nos o Deus, aderir [assim] ao seu Evangelho...) pelo recém-recriado incipit “Benedic, Domine, fideles tuos benedictione perpetua” (Abençoa, Senhor, os teus fiéis com uma bênção perpétua). Esse último não parece ter nenhuma fonte litúrgica propriamente dita, contudo percebe-se uma reminiscência generalizada do “idioma bíblico” e possivelmente de algum texto litúrgico do passado, como, por exemplo, a bênção do leitor para a primeira leitura do Ofício das Leituras pré-conciliar: “Benedictione perpetua benedicat nos Pater aeternus” (Que o Pai eterno nos abençoe com uma bênção perpétua). O verbo valere (ser capaz) passou da I pessoa plural (valeamus: sermos capazes) para a III (valeant: sejam capazes), para se adequar estilisticamente à índole própria de uma Oração sobre o povo.
Estrutura e teologia
A Benedic, Domine, dirigida a Deus Pai, é desprovida de uma parte anamnética. A parte epiclética implora quatro “dádivas”, três delas adjetivadas: bênção perpétua/generosa/abundante; adesão ao Evangelho; desejo/aspiração contínuo da glória e capacidade de alcança-la alegremente. Identificamos três núcleos centrais que dialogam com o contexto próximo (o Formulário da missa e o Lecionário) e o remoto (o Tempo da Quaresma): a bênção, a adesão ao Evangelho e a glória.
A Bênção
Porventura poderia o Pai, que nos deu o seu próprio Filho rejeitar-nos alguma coisa (cf. Rm 8, 32)? Nele o Pai nos deu tudo, e não nos falta, por graça, nenhum dom (cf. 1Cor 1, 7) e com Abraão, o crente e nosso pai na fé (cf. Gl 3,9.14) somos “abençoados com todo Sorte de bênçãos espirituais” (Ef 1,3). Nele damos graças ao Pai pelos seus dons (cf. Rm 1,8; Ef 5,20; Cl 3,17). Os dois movimentos da bênção, a graça que desce e a “ação de graças” que sobe, estão recapitulados em Jesus Cristo. Não há nada além desta bênção, e a multidão dos eleitos, reunida diante do trono e diante do Cordeiro para cantar seu triunfo final, proclama a Deus: “Bênção, glória, sabedoria, ação de graças... pelos séculos dos séculos!” (Ap 7,12).
O Formulário da Missa apresenta de várias formas essa bênção qualificada como perpétua/generosa/abundante: o Senhor que não desvia a face e que se lembra sempre de agir com misericórdia e amor libertando os seus de todas as angústias (Ants da Ent: cf. Sl 26,8-9; 24,6.2.22); o Senhor que fala, alimenta, purifica e dá alegria aos seus pela transfiguração do Filho (Coleta + Ant. da Com [Mt 17,5]); que perdoa e santifica o corpo e a mente dos seus (Sobre as oferendas) e faz comungar do mistério da sua glória, experimentando, já na terra os bens celestes (Depois da Comunhão).
O Lecionário apresenta essa bênção na promessa feita a Abraão, onde encontramos o verbo abençoar com características verdadeiramente abundante e duradoura “Eu te abençoarei e tornarei tão numerosa tua descendência como as estrelas do céu e como as areias da praia do mar. Teus descendentes conquistarão as cidades dos inimigos. Por tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porque me obedeceste” (I Leitura Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18 [17-18]). A resposta do Salmo Responsorial (Sl 115[116B],10.15.16-17.18-19), “Andarei na presença de Deus, junto a ele na terra dos vivos”, aponta a ideia de perenidade. A Segunda Leitura (Rm 8,31b-34) assegura a bênção como inigualável proteção. Finalmente, o Evangelho (Mc 9,2-10) apresenta a bênção como a beata visão.
A adesão ao Evangelho
A adesão ao Evangelho não vem acompanhada de um qualitativo. O Evangelho vem especificado como sendo do Filho. Ele é a boa nova que o Filho veio trazer ao mundo. A adesão à mensagem de Jesus Cristo nasce da escuta, tema já presente na Coleta, que ressoa na Ant. da Comunhão: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-o!”. A revelação bíblica é essencialmente palavra de Deus ao homem. Enquanto para os mistérios gregos e a gnose oriental a relação do homem com Deus se fundava sobretudo sobre a visão, de acordo com a Escritura “a fé nasce da escuta da Palavra de Deus” (cf. Rm 10.17). Ora, segundo o sentido judaico, o verbo escutar, acolher a palavra de Deus, não significa apenas ouvi-la com atenção, mas significa abrir-lhe o coração (cf. At 16,14), colocá-la em prática (Mt 7,24-26), obedecer. Esta é a obediência da fé exigida pela pregação ouvida (Rm 1,5). Essa forma de escuta, sobretudo, obediente, é ela mesma obediência sem demora e que empenha a vida, como o foi a de Abraão (I Leit.); obediência mesmo nas horas mais graves quando se chega a declarações extremas, como a do salmista – “É demais o sofrimento em minha vida!” (Sl. Resp). Uma obediência que se presta mesmo sem entender completamente o projeto (conclusão do Evan.). Aderir ao Evangelho é “escutar”. Escutar é um ato de fé, como o de Abraão e “A obra de Deus é que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6,29).
Aderir ao Evangelho é também passar do crer à imitação. Para Paulo, seguir Cristo significa conformar-se com Ele no seu mistério de morte e ressurreição. Esta conformidade, à qual Deus nos predestinou desde toda a eternidade (cf. Rm 8,29), é inaugurada no batismo (cf. Rm 6,3-6) e deve ser aprofundada com a imitação (1Cor 11,1), com a união voluntária no sofrimento, no meio do qual se manifesta o poder da ressurreição (cf. 2Cor 4,10-14; 13,4; Fl 3,10-14; Pd 2,21).
Para João, seguir Cristo significa dar-lhe a própria fé, uma fé inteira, fundada apenas na sua palavra e não em sinais externos (cf. Jo 4, 42), fé que supera as hesitações da sabedoria humana (Jo 6,2.66-69), significa seguir a luz do mundo tomando-a como guia (Jo 8,12); significa ocupar um lugar entre as ovelhas que o único pastor reúne num só rebanho (Jo 10,1-16). Finalmente, o crente que segue os apóstolos (cf. At 13,43) começa assim a seguir Cristo “por onde quer que vá” (cf. Ap 14,4), esperando penetrar com Ele “além do véu, onde ele entrou como precursor” (Hb 6, 20). Então se cumprirá a promessa de Jesus: “quem me serve deverá seguir-me, e onde eu estiver aí estará também o meu servo” (Jo 12,26).
A glória
A certeza do cristão de ser admitido na intimidade de Deus não se baseia numa dedução; o raciocínio pode explicitá-lo: “Aquele que sacrificou o seu Filho único, como pode não nos dar tudo?” (Rm 8, 32), mas a sua força não provém da nossa lógica, mas da revelação absoluta constituída para nós, homens que vivemos na carne, pela presença do Verbo vivo na carne. Em Cristo manifestou-se verdadeiramente o amor de Deus pelo homem (cf. Tt 3, 4). Aquele que “ninguém jamais viu” (Jo 1,18), Jesus não só o descreveu, não nos deu apenas uma ideia correta dele. “O esplendor da glória de Deus, a expressão da sua substância” (Hb 1, 3), o Verbo eterno tornou-a visível para nós ao tornar-se visível: “quem me viu, viu o Pai” (Jo 14, 9). Não se trata apenas de uma reprodução, mesmo perfeita, de uma duplicata idêntica do original. Sendo Filho único, estando no Pai e possuindo em si o Pai (cf. Jo 14,40), Jesus não pode dizer uma palavra, realizar um ato, sem se voltar para o Pai, sem receber dele o seu impulso e dirigir a ele toda a sua ação. (Jo 5,19-20). Como não pode fazer nada sem olhar para o Pai, não pode dizer o que é sem se referir ao Pai (cf. Mt 11, 27). Na fonte de tudo o que ele faz, de tudo o que ele é, está a presença e o amor do seu Pai; aqui está o segredo da sua personalidade, da glória que brilha no seu rosto (2Cor 4,6) e marca todos os seus atos. Assim na Transfiguração. “O Pai, sem dúvida alguma, diz Santo Ambrósio, estava presente no Filho e, naquela luz que o Senhor havia mostrado moderadamente aos discípulos, a essência daquele que gera não estava separada do Unigênito gerado, mas, para destacar a propriedade de cada pessoa, a voz que saía da nuvem anunciava o Pai aos ouvidos, assim como o esplendor difundido pelo corpo revelava aos olhos o Filho” (Sermão 38,5).
A Benedic, Domine pede a Deus para nós a graça de continuamente suspirar, desejar essa glória. Essa premura se manifesta já na primeira proposta de Ant. da Entr.: “Meu coração vos disse: Busquei a vossa face, é vossa face, Senhor, que eu procuro.
Não desvieis de mim o vosso rosto!”. Essa glória corresponde à alegria do prêmio celeste daqueles que tiveram o olhar purificado (Coleta)[11]. É identificada com a experiência pascal (Sobre as oferendas), já vivenciada na manducação do pão eucarístico, identificada como “comunhão no mistério da sua glória” (Depois da comunhão). Essa glória foi revelada a Abraão em figura que ele viu de “um carneiro preso num espinheiro pelos chifres” (I Leit), na libertação dos grilhões da escravidão da morte (cf. Segunda opção de Ant. da Entr. e Sl. Resp.) e, finalmente, de modo desvelado, em Jesus Cristo, na experiência tabórica (Evan.)
A prece pede ainda a graça de alcançar essa glória num estado de gozo (feliciter). O tema da alegria é muito recorrente nesse domingo, encontrando um paralelo simétrico comutável entre prece e a Coleta, onde a visão é já uma forma de possuir, “de ainda na terra, participar dos bens do céu” (Depois da comunhão):
Coleta | nos alegremos (laetemur) | com a visão da vossa | glória |
Benedic | alegremente (feliciter) | sejam capazes de alcançar aquela | glória |
Um tema particular “esquecido”
Comparando a tradução típica do MR2023 com a nossa finalizada a esse estudo podemos observar que aquela leva em pouco consideração o tema do “lugar da manifestação” da gloria. Observemos de perto:
MR2002/8 | MR2023 | Estudo |
ut ad illam gloriam, cuius in se speciem Apostolis ostendit | a mesma glória que ele revelou aos Apóstolos.
| aquela glória, cuja forma ele mostrou em si mesmo aos Apóstolos. |
O texto latino fala que a glória tem uma forma, um figura, um aspecto, um rosto (speciem) e que na transfiguração Jesus não mostrou (ostendit), no sentido de indicar, mas fez com que ela fosse vista no seu corpo, em si mesmo (in se). Esse é um tema muito caro à teologia oriental e muito reverberante nesse “domingo da transfiguração”. Como já indicado acima, o desejo ver essa glória manifesta “formalmente”, abre toda a celebração desse domingo com a Ant. da Entrada: “É vossa face, Senhor, que eu procuro”.
Embora Deus não seja um homem (cf. Nm 23,19) e nenhuma criatura possa ter uma ideia da sua glória, entenda-se, aparência (cf. Is 40,18), ele, no entanto, tem, como os homens, planos e intenções, ele quer entrar em comunicação com os humens; portanto, ele também tem um “rosto”. De vez em quando ele pode demonstrá-lo na sua benevolência (cf. Sl 4,6) e escondê-lo na sua ira (cf. Is 54,8).
Todavia, o rosto de Deus é mortalmente temível para o homem (cf. Jz 13,22; Ex 33,20) por causa do seu pecado (cf. Is 6,5); e ainda assim é a vida e a salvação do homem. Excepcionalmente e como metáfora “O Senhor conversava com Moisés face a face, como um homem conversa com seu amigo” (Ex 33,11). Mas quando Moisés pede para ver a sua glória, ele o vê somente por trás (cf. Ex 33,18-23). No rosto de Cristo, no entanto, Deus fez com que o seu rosto respondesse para nós. De fato, sobre este rosto resplandeceu a glória de Deus (2Cor 4,6); a glória da transfiguração (Ant. da com). É o sinal de que, em Jesus, o próprio Deus se deu um rosto (cf. Ap 1,16) e que nele se viu o rosto que “ninguém jamais viu” (Jo 1,18). Tendo visto a glória deste rosto, o cristão, através do Espírito Santo que nele habita, permanece permanentemente iluminado e transformado, não com uma manifestação fugaz como o rosto de Moisés (cf. 2Cor 3,7-10), mas com um brilho de vida e salvação: “Mas todos nós temos o rosto descoberto, refletimos como num espelho a glória do Senhor e nos vemos transformados nessa mesma imagem, sempre mais resplandecentes, pela ação do Espírito do Senhor” (2Cor 3,18).
Interessante seria se a tradução levasse em consideração esse dado.
Considerações conclusivas
Ao nos depararmos com uma determinada oração do MR2002/8 – MR2023, alguns se admiram da profundidade do pensamento, da cultura bíblica e a precisão da expressão dos liturgistas que trabalharam incansavelmente na renovação da eucologia romana. Contudo, na extra grande maioria das vezes, não se trata de uma criação, mas de uma restauração ou recomposição de um texto que caiu em desuso. Dotados de grande probidade intelectual, capacidade linguo-estilística indubitável, os especialistas do Consilium preferiram a fadiga da fidelidade à tradição e da recuperação da catolicidade da oração litúrgica. O estudo da eucologia demonstra que o critério fundamental que guiou a mão da reforma litúrgica não foi o da arqueologia, mas o da linguagem litúrgica. Essa linguagem tem em vista os elementos compositivos dos Formulários, tematicamente reordenados, e o Lecionário, pastoralmente restaurado.
Pode-se constatar que o melhor do MR restaurado pelo Concílio Vaticano II provém de fontes variadas, que conseguem abarcar as liturgias francesas do século XVIII, das quais o missal parisiense publicado pelo Arcebispo Charles de Ventimiglia em 1738 é a principal testemunha.
Para além do estudo das fontes, observamos no nosso pequeno percurso o quanto essa Oração sobre o povo foi sapientemente escolhida. À cruzar o limiar ritual, retornando ao cotidiano, a Santa Mãe Igreja, reza ao Pai para que os seus filhos, a exemplo dos Apóstolos façam a experiência da sequela Christi, que vai além da cruz, encontrando o seu termo no túmulo vazio e no esplendor da manhã de Páscoa.
[1] Missale Parisiense anno 1738 publici iuris factum, ed. C. Johnson – A. Ward, CLV-Edizioni Liturgiche, Roma 1993, 612.
[2] Missale Romanum ex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum Ioannis Pauli PP. II cura recogitum, editio typica tertia emendata. Città del Vaticano: Typis Polyglottis Vaticanis 2008, 219.
[3] Missal Romano reformado por decreto do Concílio Ecumênico Vaticano II e promulgado por autoridade de S. S. o Papa Paulo VI e revisto por S. S. o Papa João Paulo II. Tradução portuguesa da terceira edição típica realizada e publicada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica, CNBB, Brasília 2023, 179.
[4] “Para que todos em todos os lugares adotem e observem as tradições da santa Igreja Romana, Mãe e Mestra das outras Igrejas, ordenamos que nas igrejas de todas as Províncias do mundo cristão: - nos Patriarcais, Catedrais, Colegiados e Paroquiais igrejas do clero secular, como nas dos Regulares de qualquer Ordem e Mosteiro, masculinos e femininos, bem como nas das Ordens militares, em capelas privadas ou - onde por lei ou por costume se celebra segundo o rito da Igreja Romana, no futuro e sem limite de tempo, a Missa, quer a Missa Conventual seja cantada na presença do coro ou simplesmente lida em voz baixa, não pode ser cantada ou recitada de outra forma que não a prescrita pelo ordem do Missal por Nós publicada” (QP, IV: Missale Romanum ex decreto SS. Concilii tridentini restitutum summorum pontificum cura recognitum, editio typica 1962, ed. M. Sodi – A. Toniolo, LEV, Città del Vaticano 2007, V – Tradução nossa).
[5] “No entanto, não pretendemos, de forma alguma, privar da sua ordem aquelas das referidas Igrejas que, quer desde o momento da sua instituição, aprovada pela Sé Apostólica, quer por força de um costume, possam demonstrar rito próprio observado ininterruptamente por mais de duzentos anos” (QP, V)
[6] “Enquanto com a presente Nossa Constituição, para ser válida em perpetuidade, privamos todas as Igrejas acima mencionadas do uso de seus Missais, que repudiamos completa e absolutamente, estabelecemos e ordenamos, sob pena de Nossa indignação, que este Nosso Missal, publicado recentemente, nada poderá ser adicionado, deduzido ou alterado. Portanto, ordenamos a todos e a cada um dos Patriarcas e Administradores das referidas Igrejas, e a todos os eclesiásticos, investidos de qualquer dignidade, posição e preeminência, não excluindo os Cardeais da Santa Igreja Romana, tornando-se sua severa obrigação em virtude da santa obediência, que, no futuro, abandonem total e completamente todas as outras ordenanças e ritos, sem qualquer exceção, contidos nos outros Missais, por mais antigos que sejam e até agora acostumados a serem usados, e cantem e leia a Missa segundo o rito, a forma e a norma que prescrevemos neste Missal; e, portanto, não tenha a audácia de acrescentar outras cerimônias ou recitar outras orações além daquelas contidas neste” (QP, VI).
[7] Cf. J. Evenou,« Le Missel de Paris dans son évolution historique en guise de conclusion au Corpus Orationum », Sacris Erudiri 48 (2009), 465-539; G. FONTAINE, « Les Missels français du XVIIe au XIXe siècle », LMD 141 (1980), 97- 166; P. Jounel, «Les liturgies diocésaines de France de 1685 à 1875», in Liturgie aux multiples visages: Mélanges, ed. P. Jounel, CLV-Edizioni Liturgiche, Roma 1993, 201-209; Id., « Les Missels diocésains français du XVIIIe siècle», LMD 141 (1980) 91-96; Id., «Les sources françaises du Missel de Paul VI», QL 52 (1971)305-316.
[8] A. Ward, «Il Missale Parisiense (1738) ed il Missale Romanum (1970). Nuovo riassunto dei loro rapporti», Not 30, (1994) 487-497.
[9] São elas: Depois da Comunhão XXVI Dom. TC; Coleta São Martinho I, Papa e Mártir (13 de abril), Memória facultativa; Coleta São Sisto II, Papa, e Companheiros, Mártires (7 de agosto), Memória facultativa e Depois da Comunhão, Transfiguração do Senhor.
[10] As outras duas estão destinadas respectivamente à segunda-feira e ao sábado da V semana da Quaresma.
[11] Para aprofundar melhor esse tema, ver: https://www.asli.com.br/artigos/um-caminho-quaresmal-por-meio-das-preces-a-oracao-coleta-do-ii-domingo-da-quaresma