Benedic, Domine, a oração Sobre o povo do V Domingo da Quaresma

Benedic, Domine, a oração Sobre o povo do V Domingo da Quaresma

 

Dom Jerônimo Pereira, osb

 

 

O V domingo da Quaresma é um domingo que assinala a proximidade da Grande Semana. Duas rubricas abrem o formulário da missa desse domingo. A primeira diz respeito ao costume de velar as cruzes e as imagens da Igreja, “a juízo das Conferências Episcopais. Onde tiver essa prática não obrigatória da velação, a cruz permanecerá velada até o fim da celebração da Paixão do Senhor, na sexta-feira santa e as imagens até o início da Vigília Pascal. Essa rubrica vem está de acordo com a carta publicada pela então Congregação para o Culto Divino, do dia 16 de janeiro de 1988, Paschalis Sollemnitati número 26, que trata da preparação das festas pascais (Notitiae 24 [1988] 81-107). Não se sabe com precisão quando nasceu esse costume, talvez remonte ao século IX como uma forma de “separação” dos penitentes que deveriam ser reintegrados à comunhão com a Igreja na quinta-feira santa. Fato é que a velatio no tempo da paixão não aparece, efetivamente, antes da publicação do Cerimonial dos Bispos de 1600[1]. A segunda rubrica recorda que nesse dia celebra-se o terceiro escrutínio “em preparação ao Batismo dos catecúmenos, que na Vigília Pascal serão admitidos aos sacramentos de Iniciação cristã”. As Igrejas onde terão batismos de adultos na Vigília Pascal usam o formulário destinado ao terceiro escrutínio e o Lecionário indicado para o Ano A. 

            É dentro desse contexto que devemos apresentar a Oração sobre o povo desse domungo.

 

O discurso sobre as fontes

 

Asim se apresenta a Oração sobre o povo Benedic, Domine com a sua tradução:

 

MR2002/8

MR2003

Benedic, Domine plebem tuam, quae múnus tuae miserationis exspectat, et concede, ut, quod, te inspirante, desiderato, te largiente percipiat. Per[2].

Abençoai, Senhor, o vosso povo que espera o dom da vossa bondade e realizai os desejos que foram inspirados pela vossa generosidade. Por[3]

 

As edições impressas do MR anteriores ao Concílio Vaticano II não continham essa oração. Na verdade, ela foi criada por meio de uma amálgama bastante hábil de elementos de três antigas orações super populum, das quais duas do Sacramentário Veronense[4] e uma do Gelasianum Vetus[5].

As duas super populum do Veronense, encontram-se, respectivamente, no formulário XIII.III, VIII calendas iulias. Natale sanctio Iohannis Baptistae, mense iunio, número 246, e no formulário VIII.XLIII, mense aprile, número 168.

 

Ver 246: XIII, Natale sancti lohannis Baptistae, III. Item alia, [Super populum]

 

Essa oração foi assumida pelo Sacramentário Bergomense (número 994) que fora adaptada para a festa dos santos mártires Nabor e Félix (Nat[ale] s[an]c[t]orum Naboris et Felicis, O[ratio] s[uper] p[opulum]), cristãos de Milão presos e, poucos dias depois, decapitados, não querendo negar Cristo a quem entregaram a vida, por volta de 304. O “Bergomense” é um Sacramentário Ambrosiano, da segunda metade do século IX[6]. É dessa fonte que, muito provavelmente, os compiladores a retiraram:

 

Ve. 246

Benedic, quaesumus, domine plebem tuam, et sanctorum tuorum deprecationibus confidenten tribue consegui, quod sperare donasti. Per.

Berg. 994

Benedic, quaesumus, domine plebem tuamet beatissimorum martyrumtuorum Naboris et Felicisdeprecationibus confidenter tribue consegui, quod sperare donasti.

 

Ve 168: [VIII]. XLIII, [mense aprile], Item alia [Super populum]

 

Adsit, domin, quaesumus, propitiatio tua populo supplicanti, ut et quod te inspirante fideliter expetit, tua celeri largitatepercipiat. Per.  

 

Essa segunda oração fez um percurso maior e diferente. Passada do Veronense ao Sacramentario de Trento (Tre. 35: [I]. [Orationes cottidianae cum canonae], Alia)[7], passou ao Sacramentário de Adriano (Had. 908: 102. [Incipiunt orationes cottidianas], Alia)[8] e desse aos Sacramentários Gelasianos do século VIII, permanecendo invariável, sendo destinada, ao terceiro domingo depois da Epifania: Gell. 181: XXVIII (31). Dom[inica] tertia pus Theophania, [Super populum][9]; Eng. 176: XXVIII. Dominica III post Theophania, Ad populum[10]; Aug. 185: XXX. Dominica III post Theophania, Ad populum[11] e SGall. 160: 28. Dominica III post Theophania, Super populum[12].

Como se pode ver, essas duas fontes geraram boa parte da Benedic, Domine do V domingo da Quaresma. A oração 246 forneceu a linha de abertura e a 168 boa parte da petição: 

 

MR2002/8

Ver 246

Ve 168

Benedic, Domine plebem tuam, quae múnus tuae miserationis exspectat, et concede, ut, quod, te inspirante, desiderato, tlargiente percipiat. Per.

Benedic, quaesumus, domine plebem tuam, et sanctorum tuorum deprecationibus confidenten tribue consegui, quod sperare donasti. Per.

Adsit, domin, quaesumus, propitiatio tua populo supplicanti, ut et quod te inspirante fideliter expetit, tua celeri largitate percipiat. Per.  

 

Até agora estamos inteiramente no âmbito da liturgia papal. A contribuição final para essa composição moderna foi a oração que apareceu entre alguns livros da família Gelasiana para a missa de escrutínio ligada ao terceiro domingo da Quaresma:

GeV 199: I, XXVI: [In Quadragesima], Tertia Dominica quae pro scrutiniis electorum celebratur, Ad populum.

 

Supplicite, Domine, sacra familia, munus tuae miserationes expectat, concede, quaesumus, ut quod te iubente desiderat, te largiente percipiat. Per.

 

Essa oração, procedente de um Sacramentário tipicamente presbiteral, passou ilesa para os Sacramentários Gelasianos do século VIII, sempre dentro do contexto dos escrutínios batismais: Gell. 2254: (344). [Ordo baptisterii], Denu<i>nciacio pro scrutinio quod III ebd[omada] in [Quadragesima] III fer[ia] inicantur, Ad populum; Eng. 423: LXX. Oratio ad Missa quae pro scrutinio primo celebratur, Ad populum e Aug. 403: LXX. Incipit Ordo baptisterii, Missa qu[a]e pro scrutinio caelebratur, Ad ppopulum.

 

MR2002/8

Ver 246

Ve 168

GeV 199

Benedic, Domine plebem tuam, quae múnus tuae miserationis exspectat, etconcedeut, quod, te inspirante, desiderato, telargiente percipiat. Per.

Benedic, quaesumus, domine plebem tuam, et sanctorum tuorum deprecationibus confidenten tribue consegui, quod sperare donasti. Per.

Adsit, domine, quaesumus, propitiatio tua populo supplicanti, ut et quod te inspirante fideliter expetit, tua celeri largitate percipiat. Per.  

Supplicite, Domine, sacra familia, munus tuae miserationes expectat, concede, quaesumus, ut quod te iubente desiderat, te largiente percipiat. Per.

 

 

No MR 

 

O resultado geral do trabalho de composição em mosaico é o de uma oração clara e simples, de profundidade indiscutível, que os responsáveis pela atuação da reforma querida pelo Concílio Vaticano II, conseguiram levar a termo. Essa oração foi composta para completar o elenco das Orações sobre o povo que se encontravam no Apéndice do MR1970/75 (p. 508: Ordo Missae Oratio super populum, numero 10). Daqui a Benedic, Domine passou incólume para o MR2002/8. Da sinopse abaixo é possível ver que os tradutores não se contentaram em simplesmente reportar a oração como se encontrava na tradução da segunda edição típica (MR1975) do MR para o Brasil 1993, mas intervieram para melhorando-a para aproximá-la ao texto latino:  

 

MR1993

Abençoai, ó Deus, o vosso povo que confia em vossa misericórdia, e realizai os desejos que vós mesmo lhe inspirastes. Por.

MR2023

Abençoai, Senhor, o vosso povo que espera o dom da vossa bondade e realizai os desejos que foraminspirados pela vossa generosidade. Por.

 

Por ser dirigida ao Pai, que no bojo eucológico da liturgia cristã é sempre invocado diretamente como Deus, o único ponto frágil da nova tradução foi a comutação de Domine por “Senhor”, título que na eucologia litúrgica identifica particularmente o Filho.

Considerações

 

A Oração sobre o povo Benedic, Domine se adequa perfeitamente ao V domingo da Quaresma, tanto pelo que nela se afirma do povo de Deus, quanto pelo que nela se pede.  O povo já pertence a Deus e o que está esperando é o dom da sua bondade, o que significa dentro desse contexto, as celebrações do mistério da Páscoa, para as quais a Igreja, desde o domingo precedente, se encontra num estado de excitação que a faz “correr ao seu encontro” (Coleta IV dom Quaresma). Essa mesma ideia ressoa na Coleta do V domingo, um pouco mais moderada, de fato usa o verbo caminhar, porém não menos afervorada, pois a sua companhia de caminhada é a alegria, que determina o modo de trilhar o caminho. O tema da alegria recorda à Igreja que o que está para se cumprir em Cristo Jesus não é outra coisa senão o triunfo da vida sobre a morte e que a cruz é o estandarte da vitória e não o ferrão da derrota. A estrada a percorrer é a do amor/caridade que é capaz de dar a vida, como fez o Filho unigênito do eterno Pai. Fala de uma oblação constante da Igreja ao Pai para a salvação do mundo. Em síntese, trata-se da cooperação da Igreja para que todas as pessoas se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (1Tm 2,4).

Esse povo, na Oração sobre as oferendas, é reconhecido como povo de fidelidade, porque impregnado da doutrina do Espírito, apreendida dos lábios da Igreja, e que vive da esperança de não perder a participação no corpo de Cristo, que é a Igreja, também essa Eucaristia (Oração depois da comunhão), como assevera Santo Agostinho (Sermão 272)

 

Se queres compreender o mistério do corpo de Cristo, escuta o Apóstolo que diz aos fiéis: Vós sois o corpo de Cristo e os seus membros (1 Cor 12, 27). Se sois, portanto, corpo e membros de Cristo, o vosso mistério está colocado na mesa do Senhor: recebei o vosso mistério. Ao que você é você responde: Amém e ao responder você confirma. Na verdade, eles te dizem: O Corpo de Cristo, e você responde: Amém. Seja membro do corpo de Cristo [...]. Tente entender e se alegrar. Unidade, verdade, piedade, caridade. Um pão: quem é esse pão? Embora sejamos muitos, formamos um só corpo. Lembre-se de que o pão não é feito de apenas um grão de trigo, mas de muitos. Quando os exorcismos foram realizados em você, você estava, por assim dizer, arrasado; quando você foi batizado, você foi, por assim dizer, amassado; quando você recebeu o fogo do Espírito Santo você estava, por assim dizer, cozido. Seja o que você vê e receba o que você é (cf. a terceira opção de Antífona para a Comunhão). 

 

A Igreja tem esse comportamento também porque, com esse domingo, terminam-se os escrutínios e na noite de Páscoa será enriquecida de novos membros.

            O que se pede? Não se pede outra coisa senão o que se pede no Pai nosso: realizar a vontade de Deus. Deus que inspira à Igreja o bom propósito, assiste à Igreja para que ela possa levar a termo o que ele mesmo inspirou.

 



[1] Cærimoniarum EpiscoporumEditio Princeps (1600) Edizione anastatica, ed. A. M. Triacca – M. Sodi, LEV, Città del Vaticano 2000. 

[2] Missale Romanum ex decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum Ioannis Pauli PP. II cura recogitum, editio typica tertia emendata. Città del Vaticano: Typis Polyglottis Vaticanis 2008, 257.

[3] Missal Romano reformado por decreto do Concílio Ecumênico Vaticano II e promulgado por autoridade de S. S. o Papa Paulo VI e revisto por S. S. o Papa João Paulo II. Tradução portuguesa da terceira edição típica realizada e publicada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica, CNBB, Brasília 2023, 206.

[4] Sacramentarium Veronense (Cod. Bibl. Capit. Veron. LXXXV [80]), ed. L. C. Mohlberg ‑ L. Eizenhöfer ‑ P. Siffrin, Herder, Roma 1994.

[5] Liber sacramentorum Romanae Ecclesiae ordinis annic circuli, ed. L. C. Mohlberg, Herder, Roma 19813.

[6] Sacramentarium Bergomense. Manoscritto del secolo IX da Biblioteca di S. Alessandro in Colonna in Bergamo, ed. A. Paredi – G. Fassi, Bergamo, Edizioni Monumenta Bergomensia 1962.

[7] «Il Sacramentario di Trento», in Monumenta liturgica Ecclesiae Tridentinae Saecolo XIII antiquiora, ed. F. Dell’Oro – I. Rogger. Trento: Società Studi Trentini di Scienze Storiche 1985, p. 3 - 416.

[8] Le sacramentaire grégorien. Ses prinicipales formes d’après les plus anciens manuscritsI: Le Sacramentaire, Le supplément d’Aniane, ed. J. Deshusses. Fribourg: Éditions Universitaires Fribourg 1971, p. 83-348.

[9] Liber Sacramentorum Gellonensis, ed. A. Dumas (CCL 159A). Turnholti: Brepols 1981.

[10] Liber sacramentorum Engolismensis, ed. P. Saint-Roch (CCL 159C). Turnhout: Brepols 1987.

[11] Liber Sacramentorum Augustodinensis, ed. Odilo Heiming (CCL 159B). Turnhout: Brepols 1984.

[12] Das fränkische Sacramentarium Gelasianum in alamannsicher Überlieferung (Codex Sangall. No. 348, ed. C. Mohlberg. Münster Westfalen: Aschendorff 1938.

 
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