CELEBRAR BEM A FESTA DA APRESENTAÇÃO DO SENHOR: ASPECTOS LINGUÍSTICOS E NEURORELACIONAIS DA CELEBRAÇÃO

CELEBRAR BEM A FESTA DA APRESENTAÇÃO DO SENHOR: ASPECTOS LINGUÍSTICOS E NEURORELACIONAIS DA CELEBRAÇÃO

 

 

Anderson Cata Prêta

Juliana Mara da Silva Matos

 

 

 

Introdução

 

Ao propor ao povo de Deus uma aproximação ao mistério celebrado, com a metodologia de pesquisa bibliográfica a partir da Terceira Edição Típica do Missal Romano, iremos apontar indicações importante para bem celebrarmos a festa da Apresentação do Senhor que ocorrerá na próxima sexta feira (2). O material a seguir tem por finalidade fomentar a preparação das atividades. Vale ressaltar que, devido as orientações da própria empresa que confecciona o livro do missal, não podemos fornecer nenhuma parte da obra, tal como foto, pdf e similares. Todo os direitos são reservados a CNBB.

Portanto, em formato de artigo, traremos informações para que vocês possam ter acesso ao conteúdo. Assim, possamos promover a reflexão litúrgica e tornar os textos mais próximos do povo de Deus.

O texto se preocupa em provocar a consciência celebrativa da liturgia em questão, passando pelos textos e suas relações, assim como as conexões neurais dos celebrantes.

 

 

O que celebramos nessa data?

 

O primeiro momento de nosso texto é conhecer melhor a festa que celebraremos. Destacamos que não se trata de um artigo para comunicação ou para publicação científica, mas um texto que aproxime o povo de Deus sem ferir os direitos autorais. Deste modo, vamos estimular as pessoas a fazerem um excelente exercício de aprendizagem: a leitura.

Pois bem, a festa que celebramos no dia dois de fevereiro, segundo o texto da terceira edição típica:


“Esta festa da Apresentação de Jesus no Templo (cf. Lc 2,21-35) teve origem no Oriente com nome de ""Hipapante", isto é, "Encontro". No séc. VI, estendeu-se ao Ocidente  com desdobramentos próprios: em Roma, com caráter mais penitencial e, na Gália, com a solene bênção e procissão das velas, que desenvolve o símbolo da luz e deu origem ao termo "Candelária". No sinal visível das velas, a Igreja encontra e acolhe, na fé, aquele que é a "a luz dos homens" e o anuncia a todas as nações. "Evoca-se, ao mesmo tempo, a memória do Filho e de sua Mãe; quer dizer, é a celebração de um mistério da salvação operado por Cristo, em que a Virgem Santisima esteve a ele intimamente unida, como Mae do Servo sofredor e icone do novo Povo de Deus” (cf. Marialis Cultus, 7)” (p. 670)

 

 

Veremos que a herança da celebração na Gália é a que está presente com maior força nas indicações celebrativas. Dado informações históricas, passamos a segunda parte.

 

 

COMO INICIAR A CELEBRAÇÃO?

 

Como bem sabemos “o encontro do povo batizado em uma assembleia é a primeira ação da celebração litúrgica” (MARQUES, 2023, p.31). Portanto, devemos aferir o momento de encontro dos congregados e, nessa celebração, tem um caráter específico. O texto do missal aponta em suas rubricas o início de celebração com uma procissão. Além de indicar a procissão, o texto aponta duas formas. A primeira com mais solenidade e rica em detalhes. Vamos nos atentar a ela. O primeiro passo investigativo que precisamos ter é: por que a celebração inicia no lado de fora da Igreja? Talvez seja uma pergunta interessante para discutirmos com fundamentação dentro do grupo. As vestes indicadas são de cor branca para o sacerdote e os ministros. E uma terceira observação é de que enquanto acende as velas, canta-se uma antífona. Aqui temos um ponto importante: não se tem um ponto referencial para acender as velas. Outro ponto importante é a indicação de uma antífona, que é um texto curto e que exige uma resposta. Obviamente percebemos que se trata de um momento muito breve e que a resposta à antífona, dos fiéis ali presentes, é o ato de acender a sua vela. Não se vê como gesto individualista, mas como a adesão dos filhos de Deus, que no dia do batismo temos, dentro do rito, o sinal da luz.

A antífona é uma afirmação, que podemos dividir, para fins didáticos, em duas partes, sendo:

Parte A: Eis que o Senhor virá com poder

Parte B: para iluminar os olhos de seus servos, aleluia.

Na parte A, temos a declaração que o Senhor virá. A expressão “eis que” possui origem controversa, mas pode ser compreendida como uma expressão que denota “Não se sabe quando, mas acontecerá”. Assim, temos uma declaração de certeza: O Senhor virá.

A preposição “com” confere a “poder” o significado relacional de instrumento ou de posse. O poder do Senhor será o complemento para a parte B: para iluminar os olhos dos seus servos.

Ainda, essas orações estabelecem relação de subordinação, ou seja, a segunda precisa da primeira para ter sentido completo. Temos então que “para iluminar os olhos dos seus servos” é uma oração subordinada adverbial, introduzida pela preposição “para” e que indica a finalidade do que foi exposto na oração principal. Esse lindo conjunto nos traz os elementos: Luz (iluminar) e compõem a linguagem litúrgica que combina texto e vela (luz), como símbolo.                                                        

Essa belíssima assertiva encerra-se com o louvor ao Senhor, proclamado pelo “Aleluia!”

Em seguida, quem preside diz: Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Logo após, como de costume saúda o povo. Interessante é a forma que o missal pede a exortação de quem preside para com os fiéis: a ordem se modifica em relação a Sacrossactum Concilium: agora é ativo e consciente. Por que isso? Simplesmente porque vai exigir uma atitude de movimentação, ou seja, uma procissão. Todavia, como sabemos não é uma coreografia ou um ativismo, mas a participação ativa é o estado relacional, racional e de consciência. Em termos de psicogenética é o estímulo da região pré-frontal do cérebro (XAVIER Jr, 2004). Isso se concatena com a saudação, uma vez que para a teoria neuroespiritual, a ação do Espírito Santo é o ato de estimular a região pré-frontal do cérebro humano. Portanto, uma música com repetição de textos ou que retorna parecendo um aparelho de som com o repeat em funcionamento não pode ser usada nas liturgias, muito menos nessa ação ritual, uma vez que provoca letargia ou modifica a frequência neural exigida (MATOS, 2023).

Vejamos a tipologia textual, o que a exortação nos indica.

 

Irmãos e irmãs, há quarenta dias celebrávamos com alegria o Natal do Senhor. Hoje chegou o dia em que Jesus foi apresentado ao templo por Maria e José. Exteriormente cumpriu a lei, mas na realidade veio ao encontro do seu povo fiel. Impulsionados pelo Espírito Santo, o velho Simeão e a profetisa Ana vieram também ao templo. Iluminados pelo mesmo Espírito, reconheceram o seu Senhor e o anunciaram com júbilo. Assim, também nós, congregados pelo Espírito Santo vamos nos dirigir à casa de Deus, ao encontro de Cristo. Nós o encontraremos e o reconheceremos na fração do pão, enquanto esperamos a sua vinda na glória. (MISSAL ROMANO, p. 671)

 

Se preciso fosse reduzir tal exortação a apenas duas palavras, estas seriam “encontro” e “anúncio”. O riquíssimo texto proposto explica que essa festa, a Apresentação do Senhor, ocorre quarenta dias após o Natal do Senhor. E por que encontro e anúncio seriam nossas palavras-chave? Vejamos:

·      Jesus veio ao encontro de seu povo;

·      O velho Simeão e a profetisa Ana vieram também; reconheceram o Senhor e o anunciaram com júbilo; (o “também é uma anáfora que recupera, aqui, o termo “encontro”, citado anteriormente)

·      Nós também vamos ao encontro.  E encontrando o Cristo, o reconheceremos.

Ora, se Simeão e Ana ao reconhecerem o Senhor o anunciaram, assim também nós, uma vez que o reconhecemos na fração do pão, e enquanto esperamos a sua vinda gloriosa!

 

O próximo passo é a benção das velas. Feito isso, quem preside asperge a assembleia que, em silêncio, corresponde ao rito. Silêncio primordial para o início do rito (CATA PRÊTA, 2023). Terminado, quem preside fala a ekklesia que prontamente responde com essas palavras: Em nome de Cristo. Amém. A pergunta é: o povo que estará na celebração sabe o que tem que responder e por que? Com toda certeza não. Falta muita formação.

 

Para a procissão, nada melhor que o cântico de Simeão (Lc 2, 29-32), que pode ser intercalado com antífonas próprias criando a dinâmica de um responsório. Essa indicação está no Graduale Romanun. Daria inúmeras páginas relacionar com a exegese e com a tipologia musical, e esclarecer o sentido desse texto nesse momento. Todavia, fica um indicativo textual: a ação que o encontro da luz provoca – o encontro com o Pai. Então vamos ao templo cultuar o Pai em Cristo. Nisso está o movimento que “o canto e a procissão se unem e se iluminam” (MARQUES, 2023, p.51). Trocar o texto proposto, tornaria, no mínimo, esdrúxula e medíocre, a forma de celebrar.

 

 

DEMAIS PONTOS IMPORTANTES

 

Dois pontos importantes, podemos destacar na celebração: o primeiro é o hino de louvor e o segundo é o prefácio próprio.

Começamos com o que apontamos primeiramente, salientando o termo “diz se o glória”. E aqui precisamos entender a nossa língua portuguesa. 

Para entender corretamente o que se pede com “dizer o Gloria” nos é necessário ter em mente que as palavras possuem variantes significativas. Para compreender seu significado, portanto, é preciso estar ciente de que a língua portuguesa aqui empregada pertence à linguagem litúrgica. Logo apenas pode ser compreendida e analisada nesse contexto.

Esse “dizer” tem um significado além de simplesmente ler ou recitar um texto. É perfeitamente plausível interpretar o “diz-se o glória” como “canta-se o glória”.  Ainda que a Língua Portuguesa não fosse critério convincente o suficiente para o entendimento de “dizer” como “cantar”, no número 38 da IGMR encontramos o seguinte texto: “as palavras ‘dizer’ ou ‘proferir’ devem aplicar-se tanto ao canto quanto à recitação”. (grifo nosso)

 

Dado o primeiro ponto destacável, vamos para o segundo. O prefácio enfatiza a ação de resposta que a Ekklesiapossui. A naturalidade dos congregados sempre será a resposta. Algumas vezes isso é subtraído com uso de microfone e o estapafúrdio discurso que é preciso responder para a assembleia ou para a transmissão on line. Microfone esse que abafa o canto da assembleia no diálogo que lhe compete. A falta de compreensão de qual texto deve ser dito por cada agente do discurso ritual. E sem falar nas músicas estilo “bloquinho de carnaval” onde músico começam e quem souber vai atrás, justificando que música com refrão faz o povo participar.

 

 

RELAÇÃO TEXTUAL DOS TEXTOS DO MISSAL

 

Os textos dessa festa destacam Deus como Luz. Luz essa que “ilumina os olhos dos servos” (antífona); ilumina para que nos dirijamos ao encontro de Cristo (exortação); “ilumina as nações, para que seguindo o caminho da virtude, possamos chegar à luz que não se apaga, à luz eterna” (benção das velas); a luz que leva à Salvação (antífonas durante a procissão das velas). Por fim, é essa Luz nos conduz alegremente ao encontro, à oblação que, desejamos, agrade a Deus, para que alcancemos, finalmente, à vida eterna.

Com essas cinco ultimas linhas apenas desejamos salientar o caráter de completude dos textos, que não são soltos, aleatórios, mas belamente valem-se de um conjunto lexical que permite elevar nossas preces, enquanto fiéis reunidos, envoltos pela centralidade de Cristo, na ação litúrgica, indicado nessa festa como Luz orientadora que nos conduz a seu encontro.

 

CONCLUSÃO

 

Percebemos que existem textos que não são a linguagem do povo brasileiro e que muitas vezes passam desapercebidos. Logo, não adianta textos novos e belíssimos sem formação. Observamos riquezas interessantes e percebemos que muitas vezes as nossas celebrações são protocolares. 

Se você chegou até aqui, parabéns! Infelizmente nem todos chegarão, pois formação ainda é um desafio no Brasil. Esperamos que tenha gostado da abordagem e a forma de trazer as rubricas e orientações, assim como os textos, sem ferir os direitos autorais impostos.

 

 

Referência Bibliográfica

 

CATA PRÊTA, Anderson. ASLI. O silêncio antes do início da missa: ação motriz da participação consciente e saudável. Disponível em < https://www.asli.com.br/artigos/o-silencio-antes-do-inicio-da-missa--acao-motriz-da-participacao-consciente-e-saudavel> Acesso em 31 jan. 2023.

 

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS/ INSTRUÇÃO GERAL DO MISSAL ROMANO E INTRODUÇÃO AO LECIONÁRIO, Edições CNBB, 2023.

 

MARQUES, Luis Felipe C. A mistagogia da Missa: nos ritos e nas preces. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023.

 

MATOS, Juliana Mara da Silva. ASLI. Vermes de ouvido: usurpadores da participação consciente na liturgia. Disponível em < https://www.asli.com.br/downloads> Acesso em 31 jan. 2023.

 

MISSAL ROMANO. Brasília: Edições CNBB, 2023. (p. 670-675)

 

XAVIER Jr, Joaquim Ferreira. A psicongenética: demarcando os processos da vida. Tremembé, SP: VespeR Editora, 2004.

 

 

 
Indique a um amigo