CELEBRAR O MISTÉRIO DO CORAÇÃO DE JESUS, NA BUSCA POR UMA IGREJA SINODAL
Pe. Rodrigo José Arnoso Santos, CSSR*
A Igreja orante, assembleia do povo de Deus é exortada anualmente, na dinâmica do ano litúrgico a celebrar a solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Da celebração desta solenidade brota o grande convite do Senhor a todos os membros da comunidade cristã, ser com Cristo um único coração e com o salmista cantar: “Eis os pensamentos do seu Coração, que permanecem ao longo das gerações: libertar da morte todos os homens e conservar-lhes a vida em tempo de penúria” (Sl 32,11-19). Sem a pretensão de esgotar o valioso conteúdo desta celebração, dada a extensão deste artigo, o que por ora propomos é percorrer um itinerário que nos ajudará a entender a origem e desenvolvimento desta importante celebração no seio da Igreja. Conhecer o mistério que celebramos nos faz amá-lo e vivê-lo, em nossa vida de fé, com todo o nosso ser.
Um pouco de história
Nas páginas que registram a história da liturgia encontramos que no século XII e XIII desenvolveu-se com muita força entre os cristãos a prática de uma devoção pelo Sagrado Coração de Cristo Crucificado. Na fileira daqueles que alimentaram uma devoção ao coração do Cristo Salvador encontraremos nomes como de São Bernardo, São Boaventura, Santa Lutgarda, Santa Matilde de Magdeburgo, as santas irmãs Matilde e Gertrudes, bem como Santa Catarina de Siena (cf. AUGÉ, 2011, p.234).
No final do século XIII esta devoção passará por um processo de transformação, o qual será testemunhado por uma nova iconografia, que não mais recorrerá ao símbolo do crucificado, mas retratará o Cristo com o coração brotando do peito aberto pela lança no alto da cruz. Com o advento da devotio moderna, a partir da metade o século XV e com o auxílio, no século XVI dos Jesuítas e dos Oratorianos que assumem esta devoção, como própria destas duas famílias religiosas, o culto ao Sagrado Coração de Jesus tomará um novo impulso.
Em 1672 São João Eudes, outrora oratoriano e depois fundador da Congregação de Jesus e Maria, conhecidos hoje como os padres eudistas, com autorização do bispo de Rennes, celebrará com a sua comunidade religiosa, pela primeira vez uma festa em honra ao Sagrado Coração de Jesus. Entre 1673 e 1675 uma sequência de aparições de Jesus a Santa Maria Margarida Alocoque, religiosa visitandina, em Paray-le-Monial dará um novo impulso ao culto do Sagrado Coração, do Filho amado de Deus. Documentos registram que não foram poucas, sobretudo por causa de questões teológicas as dificuldades para introduzir esta nova devoção dentro da liturgia romana (Cf. AUGÉ, 2011, p.235).
Por parte de Roma, o primeiro reconhecimento oficial se deu com o papa Clemente XIII. Este no ano de 1765 autorizou os bispos poloneses e a arquiconfraria romana do Sagrado Coração o direito de celebrarem as festividades do coração de Jesus. Esta celebração será introduzida no calendário da Igreja Latina, por Pio IX, em 1856, e este estabelecerá como dia próprio para celebrá-la a terceira sexta-feira depois da solenidade de Pentecostes, práxis vivida até os nossos dias. Leão XIII promovendo o culto motivou a consagração de toda humanidade ao coração de Jesus. Já Pio XI, em 1928 decretou que neste dia deveria se recitar o ato de reparação ao Coração de Jesus (cf. AUGÉ, 1988, p.227).
Da história e devoção do culto ao Coração de Jesus, recolhemos o esforço da Igreja que pouco a pouco, à luz das Sagradas Escrituras, da Tradição e pronunciamentos do magistério buscou dar bases sólidas a esta celebração. A lex orandi, testemunha uma lex credendi construída através de um longo processo, o que motivou uma lex vivendi, isto é, a comunidade que celebra esta solenidade, é exortada a ter um coração como o do Cristo. Por isso, tratemos agora a partir dos textos eucológicos, o conteúdo do mistério que somos chamados a celebrar nesta solenidade.
Uma eucologia que nos exorta a sermos com Cristo um único coração
No ano de 1929 o Papa Pio XI promulgou um novo formulário, para ser usado na celebração desta festa que denominou de Cogitationes. O nome deste formulário foi tomado da primeira palavra da antífona de entrada, própria para esta celebração. A importância da publicação deste novo formulário está no fato de trazer à luz, o conteúdo teológico litúrgico que somos convidados a celebrar. No Missal Romano de 1970 encontraremos textos do antigo formulário Cogitationes, mas também o mesmo será enriquecido com uma coleta opcional. A oração pós-comunhão foi reelaborada e precisamos ainda ressaltar que o novo prefácio fará aparecer elementos das Sagradas Escrituras, bem como da Patrística (cf. AUGÉ, 2011, p.235).
O novo formulário reformado e enriquecido com novas orações, testemunha um retorno às fontes, com o intuito de fazer aparecer à Igreja, a teologia do mistério celebrado pela solenidade do Sagrado Coração de Jesus. No número 166 do Diretório sobre a piedade popular e liturgia encontramos uma precisa síntese do conteúdo doutrinal desta solenidade.
Entendida à luz das Escrituras, a expressão Coração de Jesus, designa o próprio mistério de Cristo, a totalidade do seu ser, a pessoa considerada no seu núcleo mais íntimo e essencial: Filho de Deus, sabedoria incriada, caridade infinita, princípio de salvação e de santificação pela inteira humanidade. O Coração de Cristo, Verbo encanado e salvador, intrinsicamente, no Espírito, com infinito amor divino-humano, para o Pai e para os homens seus irmãos.
A antífona de entrada, por meio do salmo 32,11.19, testemunha o desejo de Deus para todas as gerações, através da expressão: “Pensamentos do seu Coração”. Nas Sagradas Escrituras o coração é apresentado como o centro das decisões e escolhas humanas. Deus age sempre a partir do seu coração de Pai, por isso o seu desejo é libertar toda a sua criação do poder da morte e assim o faz, através da encanação de Jesus, expressão maior do seu coração de Pai, ofertado à toda humanidade.
Das duas orações de coleta, propostas para a celebração recolhemos dois ensinamentos que esta solenidade deseja tornar conhecido aos membros da comunidade cristã. O primeiro é de que a celebração do Coração de Jesus é um convite para a meditação das maravilhas que Deus, por meio de seu Filho realiza em favor de toda a sua criação e como por meio do seu amado ele dispensa graças, à toda humanidade. O segundo seria um convite a abandonarmos o pecado, a fim de nos consagramos ao Cristo, àquele que nos revelou os grandes tesouros do amor do Pai, para com toda a sua criação.
Na oração sobre as oferendas à comunidade eclesial voltando-se ao Senhor, suplica que a sua oferta de pão e de vinho, possa reparar, os seus pecados, a partir do “indizível amor do Coração” de Jesus. Com esta oração a comunidade não só apresenta o fruto do seu trabalho, mas a sua vida que deve assemelhar-se a vida mesma de Cristo. Purificados de suas faltas, os membros da comunidade cristã, são chamados a viver a no e a partir do Coração de Jesus, que é expressão concreta do amor do Pai, para com os seus filhos.
O prefácio próprio para esta celebração proclama o mistério da salvação, visto a partir das dimensões cristológica, eclesiológica e sacramental. No trecho a seguir torna-se claro o que por ora afirmamos:
Elevado na Cruz, entregou-se por nós com imenso amor. E de seu lado aberto pela lança fez jorrar, com água e o sangue, os sacramentos da Igreja para que todos, atraídos ao seu Coração, pudessem beber, com perene alegria, na fonte salvadora (MISSAL ROMANO, 1992, p. 383).
Nas duas propostas de antífonas para a comunhão recorremos ao Evangelho de João. Na primeira à comunidade que celebra é convida a ir ao encontro do Senhor e nele saciar a sua sede. Na segunda à comunidade é recordada que Jesus ao ter o seu peito rasgado pela lança do soldado, no alto da cruz, dele brotou água e sangue. As duas antífonas trazem à luz a missão da Igreja, ser no mundo um manancial de água viva, que conduz todos a salvação.
Por fim, nos deparamos com a oração-pós comunhão. Através dela, a comunidade pede ao Senhor, que alimentada pelo sacramento da caridade e inflamada no seu amor, possa sempre estando em Cristo, reconhece-lo, na pessoa dos irmãos.
Como podemos observar as orações do formulário para esta solenidade, é um grande convite para que toda a comunidade eclesial viva a partir do Coração de Jesus. Viver segundo o Coração do Senhor é deixar-se conduzir pela mesma caridade, que fez de Cristo irmãos de todos e Redentor da humanidade.
A Palavra nos forma para a prática do amor
Na esteira da renovação litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II, encontramos no atual lecionário, um elenco de leituras distribuídos em três anos A, B e C. Os textos no seu conjunto refletem o mistério que somos convidados a celebrar nesta solenidade. A comunidade é convidada a fazer memória da ação amorosa de Deus na história da salvação, que por meio da entrega amorosa do Filho, deixou a todos a promessa de uma vida em abundância. A comunidade que celebra este mistério é chamada a tocar o coração de Jesus. “O encontro do coração humano com o amor divino possui um efeito transformador” (TESSAROLO, 2012, p.621). O resultado desta transformação é a efetivação do Reino de Deus.
Para o ano A, à comunidade é chamada a proclamar os seguintes textos: Dt 7,6-11; 1Jo 4,7-16; Mt 11,25-30. O Senhor escolheu e consagrou para si um povo, a este dá a uma lei, a fim de que ele viva segundo o seu amor. Viver segundo o amor de Deus é ter um coração manso e humilde, capaz de socorrer os irmãos em suas necessidades e de superar as penúrias da existência neste mundo, à luz da fé, tendo esperança e buscando o Reino.
No Ano B, à comunidade é chamada a proclamar os seguintes textos: Os 11,1.3-8-4.8c-9; Ef 3,8-12.14—19; Jo 19,31-37. O texto da profecia de Oséias nos apresenta um Deus que age a partir do seu coração de Pai, por isso tem compaixão do seu povo. A expressão maior da compaixão de Deus pela humanidade, podemos contemplar no alto da cruz. No peito de Cristo rasgado pela lança do soldado contemplamos a Igreja que nasce nas águas do batismo e que tem suas vestes alvejadas no sangue cordeiro. Esta comunidade não só é chamada a conhecer o amor de Deus, revelado por Jesus, mas é exortada a vivê-lo a partir da sua missionariedade.
Ainda faz-se necessário apresentar os textos propostos para o Ano C, que são os seguintes: Ez 34,11-16; Rm 5,5b-11; Lc 15,3-7. Neste ano as leituras convidam à assembleia celebrante, a meditar sobre a figura do pastor. O pastor que as leituras bíblicas nos apresentam é alguém que age com o coração. Vai ao encontro das ovelhas para protege-las dos perigos próprios da vida. Assim, age Deus, por meio do seu Filho. Vem ao encontro da ovelha que está perdida, para reconduzi-la ao redil, para que todas tenham vida e vida em abundância.
As leituras bíblicas apresentadas para a Liturgia da Palavra da solenidade do Sagrado Coração de Jesus, juntamente com os textos eucológicos propostos para a celebração da eucaristia é um grande convite a uma experiência de conversão. Esta conversão deve nos mover para uma vida em Cristo.
Vivendo o mistério que celebramos
Este ano somos convidados a celebrar a solenidade do Coração de Jesus, como membros de uma Igreja que é chamada a exercitar-se na prática da sinodalidade. A palavra sínodo significa caminhar juntos. É no caminhar juntos, que crescemos como Igreja e no respeito pela diversidade, que faz aparecer a beleza da comunidade eclesial, que é expressão do sacramento do Reino. Desse modo, a pergunta que aqui podemos nos colocar é esta: Quais são as atitudes que o mistério celebrado nesta solenidade, nos ajuda na busca de uma Igreja sinodal? Podemos aqui elencar três atitudes: da acolhida, da escuta e do discernimento.
Os evangelhos nos testemunham que sendo Jesus o coração do Pai entre nós, nunca se ouviu dizer que alguém que dele se aproximou, não tenha sido acolhido. Acolher deve ser uma das mais belas atitudes daqueles que desejam ter um coração como o de Cristo. Como Igreja discípulo-missionária é preciso acolher e instruir a todos na verdade do evangelho, se desejamos mostrar ao mundo que o Coração do Pai, em Cristo não tem fronteiros.
Na escuta dos pequenos e dos frágeis Jesus soube sempre agir com o coração. A Igreja mais do que nunca, em tempos de muitos rumores e de palavras vazias precisa aprender a escutar. A escuta nos ajuda a ter um olhar diferente e respostas proféticas, diante das questões colocadas pelo mundo contemporâneo, que exigem de nós profetismo.
Jesus mesmo quando se calou, ajudou aqueles que dele se aproximaram a discernirem com o coração. Assim deve ser também a Igreja, ela não precisa ter respostas em todos os momentos, em que ela é indagada, sobre muitas questões que se colocam a fé. Ela precisa sim, saber discernir a melhor resposta e o momento certo para responder aos questionamentos do ser humano, que vive em um mundo marcado por rápidas transformações.
Celebrar a solenidade do Sagrado Coração de Jesus em nossos dias, na busca por uma Igreja sinodal, nos faz participantes da ansiedade redentora de Jesus, o que nos coloca numa atitude permanente de missão. Ainda há muitos que precisam escutar e viver segundo o Coração de Jesus. Por isso, “a espiritualidade do Sagrado Coração de Jesus é sobretudo preocupação e empenho para responder ao amor de Deus em Cristo Jesus” (TESSAROLO, 2012, p.621).
Referências bibliográficas
AUGÉ. M. L’anno litúrgico. È Cristo stesso presente nella sua chiesa. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2011.
________. Le feste del Signore, della Madre di Dio e dei santi, in: VV.AA. Anàmnesis 6. L’anno litúrgico: storia, teologia e celebrazione. Genova-Milano: Marietti, 1988, p. 223-259.
CONGREGAZIONE PER IL CULTO DIVINO E LA DISCIPLINA DEI SACRAMENTI. Direttorio su pietà popolare e liturgia. Principi e orientamenti. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2002.
Missal Romano restaurado por decreto do Sagrado Concílio Ecumênico Vaticano II e promulgado pela autoridade do Papa Paulo VI. São Paulo: Paulus, 1992.
TESSAROLO, A. Coração de Jesus in: ANCILLI, E. (org.). Dicionário de Espiritualidade – V. I. São Paulo: Paulinas – Loyola, 2012.
*Missionário Redentorista, mestre em Sagrada Liturgia pelo Pontifício Instituto Litúrgico de Roma, doutorando em Teologia pela PUC-SP, Diretor Secretário do ITESP, apresentador do Programa Jornada Bíblica da TV Aparecida e secretário-executivo da ASLI.