COMENTÁRIO À CARTA APOSTÓLICA DESIDERIO DESIDERAVI

COMENTÁRIO À CARTA APOSTÓLICA DESIDERIO DESIDERAVI

Pe. João Paulo Veloso* 

 

            No último dia 29 de junho o papa Francisco emitiu uma carta apostólica intitulada Desiderio Desideravi, a respeito da formação litúrgica do povo de Deus. A carta, que ainda não foi oficialmente traduzida para a língua portuguesa, rapidamente causou um alvoroço, suscitando tanto reações favoráveis e benevolentes quanto reações agressivas e desrespeitosas. Esse embate de ideologias, sobretudo no meio virtual, é exatamente o oposto do “desejo ardente” do papa: que as polêmicas em torno da liturgia sejam abandonadas. Mas o que o papa ensina nos 65 números desta carta?

            Ele estrutura o seu documento em uma linguagem quase coloquial, palatável à maior parte das pessoas, poupando o leitor menos versado em teologia de uma série de termos técnicos que prejudicariam o intuito do documento: tornar a formação litúrgica uma realidade acessível ao povo de Deus, para além dos círculos acadêmicos e dos congressos teológicos. O que o papa pontifica, ele mesmo o faz em sua carta. 

            No entanto, a linguagem acessível não significa pobreza de conteúdo. Pelo contrário, ao longo da exposição ele toca nos principais pontos teológicos acerca da reforma litúrgica iniciada antes mesmo do Concílio Vaticano II, sob o pontificado de Pio XII, no esteio do Movimento Litúrgico. E o faz com propriedade, citando desde Leão Magno, Agostinho e Irineu, passando por Francisco de Assis e chegando a Romano Guardini. 

            A abundância de citações de Guardini não poderia ter sido diferente ao se abordar o tema da formação litúrgica. Principal entusiasta da participação ativa do povo em seu tempo, o teólogo ítalo-tedesco disse reiteradas vezes que não adiantaria reformar o rito se o povo não recebesse a adequada formação para ele. 

            Voltando ao texto, o próprio cabeçalho já indica a total fidelidade à eclesiologia que emergiu do Concílio Vaticano II: o papa endereça sua carta “aos bispos, presbíteros, diáconos, consagrados e leigos”, em consonância com a ministerialidade da Igreja apresentada na Lumen gentium. Em seguida o papa esclarece que esta carta é uma ferramenta para oferecer reflexões “para contemplar a beleza e a verdade da celebração cristã”. 

Esta temática retornará ao longo de todo o documento, como um refrão ou um fio condutor, em todos os seus três eixos: reavivar o assombro diante da beleza e da verdade da celebração; promover uma formação litúrgica autêntica; reconhecer a importância da ars celebrandi.

Beleza e Verdade da Liturgia

Neste primeiro eixo, o papa explica por que escolheu citar Lc 22,15. Este desejo ardente de Jesus em comer a ceia com os discípulos é o fundamento da liturgia como o hoje da história da salvação. Ao afirmar que toda a criação esperava por aquele momento único e irrepetível, o papa enfatiza o valor dos sinais sacramentais e da mediação da matéria nas coisas espirituais em geral, e na Eucaristia em particular. Ele faz uma delicada e incisiva teologia eucarística, com interessantes elementos escatológicos e missionários, que culmina no reafirmar que a última ceia é a antecipação ritual da morte de Jesus, “corpo entregue, sangue derramado”. A consequência disso é o ardente desejo de Jesus que se perpetua na celebração cristã, até que Ele retorne. 

A celebração cristã, sendo um ato litúrgico realizado por Jesus e seu Corpo, a Igreja, é o espelho da eclesiologia e, por isso, uma verdadeira fonte teológica, não um mero aparato cerimonial e exterior. A liturgia, vista como teologia, é a vacina para o mal do gnosticismo e do neopelagianismo, duas chagas da vida espiritual, que já foram abordadas no documento sobre a santidade, que o papa escreveu há alguns anos. 

A beleza e a verdade da liturgia só podem ser acessadas quando esta vai além dos opostos do rubricismo x superficialidade. O assombro diante da celebração, segundo o papa, não é desvanecer diante de um rito misterioso ou enigmático, mas é consequência de uma liturgia bem celebrada, que necessariamente leva à adoração. 

A formação litúrgica

O grande problema da iniciação à vida litúrgica é a incapacidade de compreender a linguagem simbólica. Isso é consequência dos tempos modernos, que tornaram o ser humano demasiadamente funcional e menos reflexivo. O não acesso a esse tipo de linguagem tornou ininteligível a celebração, que espelhava um modelo de Igreja que foi superado com a profunda reforma realizada pelo Concílio Vaticano II. Assim, o problema litúrgico não é apenas um embate sobre um determinado rito ser pretensamente mais piedoso do que outro, a questão é eclesiológica. 

Neste ponto da sua exposição, o papa Francisco reitera o que já afirmou na Tradiones custodes: “a única expressão da lex orandi do Rito Romano são os livros litúrgicos aprovados pelos papas Paulo VI e João Paulo II”. Para bem celebrar, portanto, é necessária uma fundamental formação para a liturgia e uma essencial formação a partir da liturgia.

Esta formação, teórica e prática, tem como sujeitos privilegiados os sacerdotes, que devem adquirir a consciência que não somente eles são os celebrantes, mas todo o Corpo de Cristo. Este aprendizado se inicia no seminário, que deve apresentar em sua grade acadêmica a íntima conexão da liturgia com todos as disciplinas teológicas. Isso implica em uma mudança natural na prática pastoral, sobretudo na pastoral de conjunto, que não se faz a partir de uma cartilha, mas sim da celebração comunitária. Ainda, os seminaristas devem ter a oportunidade de participar de celebrações que sejam a autêntica expressão da igreja. Depois, o papa retorna para o tema do simbólico: a formação litúrgica deve em primeiro lugar capacitar as pessoas para este tipo de linguagem.

Ars celebrandi

O último dos três eixos da carta trata da arte de bem celebrar, necessária para a boa participação. Esta depende, em grande parte, do sacerdote, mas não apenas dele. O papa afirma que tudo deve ser observado, desde as rubricas até o zelo com os paramentos, mas não é apenas isso o que vai garantir a plena participação: é necessário evitar a todo custo tanto o rubricismo quanto o seu oposto, ou seja, a criatividade selvagem. 

O absurdo dos opostos é uma figura estilística usada amplamente pelo papa neste ponto do documento, que denuncia os vários males que impedem a ars celebrandi: subjetivismo, culturalismo, rigidez, criatividade exagerada, misticismo, funcionalismo, pressa, lentidão, relaxamento, obsessão. Estes vícios, segundo o papa, advêm do excesso de personalismo e de mania de protagonismo por parte do sacerdote.

Da parte da assembleia litúrgica, o papa enumera dez formas de participação e se detém em duas: o fazer silêncio e o ajoelhar-se. Depois, retoma o discurso sobre o presidente da celebração, apresentando um percurso peculiar e original: para bem celebrar, o presidente precisa ter a consciência de que é um instrumento para espalhar a chama do amor divino sobre a terra, sob o olhar atento da Virgem Maria, cheio do Espírito Santo, reconhecendo seus pecados e humildade, desejando ser consumido pelo povo: que ao dizer “isto é o meu corpo entregue por vós” o diga de fato e de coração!

ars celebrandi é mais do que um conjunto de formações técnicas ou racionais, significa entrar no espírito da celebração e deixar-se formar pelo próprio texto e pelos gestos próprios de cada ato litúrgico, o que implica também em adquirir a ars dicendi, ou arte de falar bem. O papa termina este eixo afirmando categoricamente que não é possível retornar à forma celebrativa pré-Vaticano II.

Conclusão

O papa encerra sua carta incentivando as diversas comunidades a redescobrir o sentido do ano litúrgico e do domingo como pontos fundamentais para a boa vivência da fé. Tendo sido um fruto reelaborado das proposições da assembleia da Congregação do Culto Divino e a da Disciplina dos Sacramentos, realizada em 2019, este documento não pretendeu ser um diretório ou uma instrução, mas uma luz para iluminar os problemas enfrentados em âmbito litúrgico.

 

 

·      O texto oficial da carta, em Alemão, Inglês, Francês, Espanhol e Italiano, pode ser acessado em https://bit.ly/3aiYpDy. Em português: https://bit.ly/3OS8GWs

·      O resumo em vídeo da carta, em português, foi realizado pelo autor deste texto, e está disponível em https://youtu.be/0vcAF6tSVw8

 

*Presbítero da arquidiocese de Palmas-TO, Mestre em Liturgia pelo Pontifício Instituto Litúrgico de Roma e membro da ASLI. E-mail: contato@padreveloso.com

Instagram: @padreveloso

 

 
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