CORPUS CHRISTI: SANTÍSSIMO SACRAMENTO DO CORPO E DO SANGUE DE CRISTO

CORPUS CHRISTI: SANTÍSSIMO SACRAMENTO DO CORPO E DO SANGUE DE CRISTO

 

Pe. Sandro Ferreira*

 

 

 

“Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come 

deste pão viverá eternamente” (Jo 6, 51)

 

Origem desta celebração

 

A origem desta solenidade, que se celebra na quinta-feira posterior à festa da Santíssima Trindade, deve ser vista em conexão com a devoção ao Santíssimo Sacramento desenvolvida ao longo do século XII. Naquele período, havia um movimento eucarístico denominado “Cristo todo” que realçava a presença real de Cristo no pão consagrado. Conta a história que, no ano de 1209, Juliana de Liège (Bélgica), uma religiosa agostiniana, teve uma visão de um disco lunar dentro do qual havia uma parte negra e isso foi interpretado como sendo a falta de uma festa eucarística no ciclo anual das festas litúrgicas. Essa festa eucarística foi, então, introduzida pela primeira vez, pelo bispo Roberto de Liège, em sua diocese, no ano de 1246. A celebração foi bem acolhida naquela diocese e, em pouco tempo, outras dioceses também começaram a celebrá-la. Dezoito anos depois, em 1264, o Papa Urbano IV prescreveu-a para toda a Igreja. Na bula de introdução, denominada “Transiturus” o Papa fundamentava a instituição da festa e fazia uma exposição global da doutrina da Eucaristia enquanto sacrifício e refeição. A morte de Urbano IV, naquele mesmo ano, foi desfavorável à propagação da festa. Somente com o Papa Clemente V, durante o Concílio de Viena (1311-1312), é que se voltou a insistir na reintrodução da festa eucarística no calendário litúrgico.

 

Tradição da Igreja

 

As antigas traduções vernáculas do Missal Romano intitulavam essa celebração como “Festa do Santíssimo Corpo de Jesus”. Com a intenção de oferecer ao povo uma visão mais global do Santíssimo Sacramento, esse título foi ampliado para “Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo”. Essa nova designação mostra-nos claramente que a festa inclui também o mistério do “Preciosíssimo Sangue”. Por isso, encontra-se nas Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário, a afirmação de que “a festa do corpo de Deus é também a festa do Preciosíssimo Sangue, como se pode ver claramente a partir dos textos da missa e do ofício da festa, bem como da bula de introdução de Urbano IV”.

Santo Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica, caracteriza o significado da Eucaristia sob o tríplice aspecto de passado, presente e futuro: do ponto de vista do passado, ela significa enquanto memorial da Paixão de Cristo que foi verdadeiro sacrifício; do ponto de vista da realidade presente, enquanto sacramento da nossa unidade com Cristo e dos homens entre si; e do ponto de vista do futuro, enquanto prefigurativo do “gozo da divindade”. Esse tríplice significado é expresso com palavras quase idênticas, durante a celebração eucarística, nas três orações presidenciais: “neste admirável sacramento, nos deixastes o memorial de vossa Paixão” (oração coleta); “Concedei, ó Deus, à vossa Igreja os dons da unidade e da paz, simbolizados pelo pão e pelo vinho que oferecemos na sagrada eucaristia” (oração sobre as oferendas); “Dai-nos (...) possuir o gozo eterno da vossa divindade, que já começamos a saborear na terra pela comunhão do vosso Corpo e do vosso Sangue” (oração pós-comunhão).

 

A procissão

 

            A procissão com o Cristo Eucarístico que se segue imediatamente à celebração da Santa Missa teve início entre os anos de 1274 e 1279, em Colônia, na Alemanha. Essa prática encontrou boa acolhida na maioria dos países ainda no século XIV e, no século XV, a procissão começa a ser realizada também em Roma. Ao longo da história, muitos foram os modos pelos quais aconteceu essa procissão: a hóstia consagrada era conduzida em um ostensório, originariamente recoberto por um véu e, mais tarde, visível aos olhos de todos. Essa procissão é uma maneira de levar as pessoas a sentirem a presença de Deus que caminha junto de seu povo em todos os momentos de sua vida. Assim como na procissão o Cristo Eucarístico caminha à nossa frente. É Cristo que nos conduz a um caminho seguro.

 

Os textos bíblicos

 

            A celebração eucarística da festa de Corpus Christi também se apresenta com três ciclos de leituras. No ano A, o evangelho toma o texto de Jo 6,51-58, no qual Jesus, em seu discurso eucarístico, mostra-se como verdadeira comida e verdadeira bebida. O ano B, por sua vez, apresenta o texto de Mc 14,12-16.22-26 em que Jesus envia discípulos para preparar, em um lugar determinado, a Ceia Pascal, para a qual ele dará um novo sentido (vale lembrar que esse evangelho é, também, meditado na Quarta-feira Santa devido à proximidade cronológica com a Instituição da Eucaristia). Já no ano C, a Igreja apresenta-nos o texto de Lc 9,11b-17, que trata do milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. A solenidade do Santíssimo Sacramento do Corpo e Sangue de Cristo, assim como a da Páscoa e a de Pentecostes, também apresenta uma sequência própria para ser cantada logo após a segunda leitura. 

 

Aspectos pastorais

 

A solenidade do Corpo e Sangue de Cristo nos coloca em sintonia profunda com o mistério da Páscoa do Senhor. Jesus Cristo, o Filho de Deus, se faz corpo, carne, homem. Ele assume a nossa realidade (menos o pecado), a nossa história, as nossas lutas. Ele se faz corpo entregue e sangue derramado. Por isso, participar da Eucaristia, memorial e anúncio da morte e ressurreição de Jesus, de sua entrega por amor, deve provocar também em nós, seus discípulos e discípulas, ações de amor solidário. Celebrar em memória de Jesus significa fazer o que ele fez: ser alimento para a vida do mundo.

            A Instrução Geral do Missal Romano nos recorda que “na última Ceia, Cristo instituiu o sacrifício e a ceia pascal, que tornam continuamente presente na Igreja o sacrifício da cruz, quando o presbítero, representante de Cristo Senhor, realiza aquilo mesmo que o Senhor fez e entregou aos discípulos para que o fizessem em sua memória. Cristo, na verdade, tomou o pão e o cálice, deu graças, partiu o pão e deu-o a seus discípulos dizendo: Tomai, comei, bebei; isto é o meu Corpo; este é o cálice do meu Sangue. Fazei isto em memória de mim” (IGMR 72).

            A solenidade de Corpus Christi nos faz experimentar, de forma mística e concreta, o mistério da entrega do Senhor Jesus. Já na antífona de entrada da missa, lembramos os sinais da abundância divina: “O Senhor alimentou seu povo com a flor do trigo e com o mel do rochedo o saciou”. De fato, somos saciados fartamente pelas mesas da Palavra e da Eucaristia. No admirável sacramento, memorial da paixão do Senhor, não somente veneramos o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo (cf. Oração do dia), mas comemos e bebemos com Ele, n’Ele e por Ele.

Porém, precisamos destacar que, além de ser uma festa litúrgica, a Solenidade de Corpus Christi assume um caráter devocional popular. Para muitos cristãos, o momento ápice da festa é certamente a procissão pelas ruas, momento em que os fiéis pedem as bênçãos de Jesus Eucarístico para suas casas e famílias. No entanto, o centro da celebração está no Sacrifício Eucarístico, na entrega de Jesus por amor à humanidade, e não na procissão. Não podemos desviar o foco. Essa solenidade precisa manifestar um profundo vínculo com a comemoração da Eucaristia no contexto da Missa da Ceia do Senhor no Tríduo Pascal. 

Em unidade com toda a Igreja e com o mistério Eucarístico, cantamos: “Tão sublime sacramento adoremos neste altar, pois o Antigo Testamento deu ao Novo seu lugar. Venha a fé, por suplemento, os sentidos completar. Ao Eterno Pai cantemos e a Jesus, o Salvador. Ao Espírito exaltemos, na Trindade, eterno amor. Ao Deus Uno e Trino demos a alegria do louvor. Amém”. Esse belo hino traduz e atualiza aquilo que a liturgia deseja vivenciar nesse dia: expor a verdadeira doutrina do Santíssimo Sacramento do altar e anunciar que o pão e o vinho consagrados são, verdadeiramente, o Corpo e o Sangue de nosso Redentor.

Queridos irmãos e irmãs, que a Eucaristia no fortaleça em nossa caminhada cristã e que, pelas estradas da vida, possamos manifestar nossa fé e amor a Jesus Eucarístico. 

 

* Presbítero da Arquidiocese de Maringá-PR, doutor em Teologia Dogmático-Sacramentária pelo Pontifício Ateneu Santo Anselmo (Roma), mestre em Teologia Sistemática pela PUCPR-Campus Curitiba, professor da PUCPR-Campus Londrina. E-mail: pesandroferreira@gmail.com

 

 

 
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