CULTURA LITÚRGICA, “SACRAMENTUM” DE VIDA ESPIRITUAL
Frei Davi Maria Santos, O.Carm[1]
Introdução
Ao iniciarmos um novo caminho sempre começamos muito animados e cheios de fervor para enfrentar os desafios que porventura nos aparecerem no decorrer da estrada. Este fervor inicial é natural, contudo, para manter o ânimo do começo ao fim, principalmente nas dificuldades, é necessário parar um pouco e rever a intenção primeira que conduziu a aceitação desta ou daquela aventura.
É preciso ter sempre na mente e no coração que todo caminho espiritual deve levar a Jesus Cristo. Desse modo, as renúncias que precisamos realizar são sempre acompanhas pelo Senhor e tudo ganha sentido e razão de ser trilhado. Pois, a vida espiritual é uma longa aventura que dura por toda a vida.
Encontramos na máxima ambrosiana: “para Manifestar os Mistérios de Cristo”, uma entre muitas das intenções que podem servir de guia nos caminhos do espírito. Manifestar os Mistérios do Senhor é próprio de quem abriu-se a força redentora de Sua Páscoa e permitiu ser transformado interiormente para que possa ser agente de transformação exterior.
A vida espiritual e a vida Litúrgica, são ainda como o encontro de duas obras, a Opus Dei, que nos antecipa e vem ao nosso encontro e a opus homini, que respondendo com um sim generoso ao Amor de Deus Pai é tocada e fecundada pelo Espírito que d’Ele procede. Tanto a Liturgia como a vida espiritual, são lugares de experiência com Deus Pai que em Seu Filho Jesus Cristo nos permite que o toquemos, ainda que pela fé. Consequentemente, nossos sentidos, como visão, tato, audição e até mesmo olfato, são despertados pela ação ritual, pelos gestos e símbolos, palavras e sons (Cf: Lencastre, 2022).
A Liturgia é como a alma da vida espiritual, uma não existe sem a outra, e ambas se complementam. As duas procedem sempre da Trindade como um dom concedido a Sua criatura para aproximar-se da vida divina. Para isso é preciso que haja uma constante interação entre Liturgia e vida espiritual, que aquilo que uma é, seja assumido e vivenciado pela outra, dessa maneira, a Liturgia ganhará vida em nossas vivências e nossas atividades se tornarão como ofertas litúrgicas, por isso,
Para que a Liturgia seja realmente a vida espiritual da alma é indispensável que a alma se adapte docilmente e plenamente à Liturgia; que cada uma das palavras, cada um dos gestos litúrgicos tenham a sua repercussão no íntimo da alma, repercussão que ecoará ainda, terminada a celebração do culto, nos actos livres da vontade humana; é necessário estabelecer nos actos litúrgicos uma perfeita harmonia entre a actividade íntima da alma e o exercício do corpo (Coelho, 2018, p. 33).
Conduzir a assembleia batismal a uma cultura Litúrgica é levar o povo de Deus a compreender a Liturgia não como um ato separado e isolado em si mesmo do resto da vida, antes, como um todo da existência humana. É tornar a Ação Sagrada do Senhor como o “sacramentum” e a alma da vida espiritual, da vida no Pai, pelo Filho na Ação do Espírito Santo. O caminho espiritual quando parte da Liturgia se torna uma via de amor, assim sendo, “quando aquele que ama escolhe a trilha do amor, ele culmina na reeducação litúrgica, suscitada pelo Espírito Santo no seio da Igreja” (Santos; Junior, 2024). Esta reeducação Litúrgica é um grande dom de Deus Pai, para vivenciarmos melhor a Ação Sagrada.
1- Vida segundo o Espírito
Conhecemos e chamamos por vida espiritual a vida segundo o Espírito, ou seja, a vida que nasce da íntima comunhão de amor entre duas liberdades, a Deus que por Seu Espírito se aproxima de sua criatura e a nossa, que livremente escolhe responder com um “sim” ao chamado à vida interior ou vida de acordo com o Espírito Santo. Sem este encontro de liberdades a vida interior não brota no coração humano. Pois, o Pai, sabe respeitar a liberdade do homem e em seus desígnios nos espera pacientemente, neste sentido,
A vida da graça – afirma Dom António Coelho, OSB – é o contínuo e espontâneo fluir da seiva divina por todas estas ramificações, é a actividade das virtudes, sob a moção da razão humana guiada pela fé, e a actividade dos dons sob o impulso do Espírito Santo, que os dons são essas teclas duma delicadíssima mobilidade que adoptam, dispõem a inteligência e a vontade para receber os mais ténues eflúvios do Espírito e soltar essas sublimes harmonias mais divinas que humanas (2018, p. 17).
A vida espiritual sempre existiu na Igreja e em outras religiões. Cada tempo com seus desafios tratou de formar um modelo de vida interior conforme suscitava o Espírito de Deus à Igreja. Se faz necessário lembrar que a vida espiritual para ser autêntica necessita estar unida a vivência diária, logo, toda espiritualidade precisa se encarnar na vida humana para tomar forma e frutificar, nesse viés, podemos olhar para a vida espiritual como o caminho daqueles que tem sede, isto é, dos sedentos que se põem em peregrinação interior rumo Àquele que é o único que pode lhes saciar. Por isso, “Jesus – afirma José Tolentino – vem ao encontro da nossa história tal como ela é, na sua abertura, incompletude, lacuna ou falha, e diz-nos: o que tem sede aproxime-se; e o que deseja beba gratuitamente da água da vida” (2028, p. 27).
Dizemos que apenas os pequeninos ou aqueles que se reconhecem necessitados conseguem crescer na vida espiritual. Tal afirmação encontra sua validação no fato de que o Espírito Santo não penetra nos corações orgulhosos ou naqueles que se acham grandes e sim, nos que se fazem humildes e são capazes de olhando para dentro de si, perguntarem ao Pai, “que queres que eu faça?...” (2 Cel II, 6, 7, 2014, p. 304), essa foi a pergunta do jovem Francisco há mais de 800 anos.
Para termos bom êxito na via espiritual é de máxima importância abrir-se à Aquele que a sustenta, isto é, ao Espírito Santo, como também fazer-se menor, pequenino diante d’Ele, para que Deus Pai nos eleve em seus braços. Sem medo e empecilho à sua ação, viveu Teresinha a florzinha do Carmelo, que encantou a muitos, sobretudo aos simples e a estes apontou que sua pequena via nasce da íntima entrega confiante a Deus que é nosso Pai.
A vida espiritual acontece no dia a dia, no sentir de cada coisa, não é um piloto automático, nem muito menos uma válvula de escape que acionamos, é um caminho de cruz, muitas vezes pesada, mas sobretudo é um caminho de ressurreição, que nasce de encontros com o Senhor Ressuscitado. Apenas aqueles que desejam ressuscitarem com Ele, conseguem trilhar as vias interiores e chegarem ao seu objetivo: à Vita Cristiformae, a vida segundo Nosso Senhor Jesus Cristo.
Os caminhos do espírito muitas vezes contradizem nossas ideias ou desejos, isso acontece porque a pedagogia do mistagogo desta via, Jesus Cristo, não é igual a nossa. Mormente, é preciso que a fé se enraíze em nossos corações, a esperança brilhe em nosso olhar e o amor caridade se faça presente em todas as nossas ações. Portanto, as nossas fraquezas se transformarão em força de Deus.
Olhar para a nossa sede interior como um caminho segundo o Espírito é um ato de reeducação dos nossos desejos e inclinações, dado que, “não é só o homem que é mendigo de Deus. Em Jesus, Deus também se apresenta como mendigo do homem” (Mendonça, 2018, p. 17), isso acontece pelo fato de que não somos nós os que pôr primeiro atraem a Deus Pai, antes é seu infinito amor pelo homem que o atrai a Si e o leva pelos caminhos que conduzem a Ele mesmo, dentre tantas vias, a Liturgia se apresenta como um caminho para se viver “plenamente a ação litúrgica e vivenciar a surpresa com o mistério” (Marques, 2023, p. 11). Mistério esse que se revela a nós em sua Páscoa, assim,
Deus decide restituir à humanidade a vida espiritual e, para a realização de plano tão grandioso, decreta enviar ao mundo Seu Filho Unigénito [...] Jesus Cristo, Deus e Homem, eis a única fonte da vida espiritual. É o contacto sensível, corporal, físico, com a sua natureza humana – causa instrumental da graça que flui da Divindade – é condição indispensável para se receber, vida divina (Coelho, 2018, p. 18).
Tal “surpresa” do mistério acontece pelo fato de que é na “temporalidade” Litúrgica que se presentifica o Filho de Deus Pai, Jesus Cristo, aquele que nos restitui novamente o dom e a graça da vida espiritual, para que nosso espírito seja formado e alimentado. Sem uma autêntica vida Litúrgica não existe caminho espiritual que conduza a perfeição. Pela Liturgia que é ação de Jesus Cristo, nossa sede é saciada e nosso caminho ganha sentido e razão de existir, porquanto nos encontramos com a Páscoa.
A vida segundo o Espírito conduz necessariamente a experiência ressurrecional, isto é, à ressurreição que é o fundamento maior e sentido da fé cristã. A vida espiritual existe para manifestar em nós os Mistérios de Cristo, não de qualquer forma ou modo, antes, manifestar pelo testemunho autêntico de uma vida que encontrou sentido no encontro vivo com Jesus Cristo.
Somente uma pessoa que verdadeiramente fez um encontro vivo com o Senhor por meio de suas ações: a Liturgia, é capaz de ser missionária, de anunciar com a vida e depois com as palavras se preciso for, Aquele com quem se encontrou, visto que, somente uma vivência Litúrgica autêntica é capaz de gerar uma verdadeira evangelização frutuosa. Outrossim, da Liturgia nasce a alma (em latim anima) da vida espiritual, a segunda não existe sem a primeira, e a primeira ganha forma e gestos na segunda.
Deste modo, a vida espiritual se torna um dom para aqueles que se sendo tocados pelo Espírito – e todos nós o somos – decidem abrir-se inteiramente a ação d’Ele e permitem-se ser transformados espiritualmente para tornarem-se como que eucaristias, homens e mulheres eucaristizados e eucaristizadores, que sentindo o amor do Senhor arder no coração O anunciam a todos, em especial ao mais necessitados do afeto paterno de Deus.
A vida espiritual é um caminho que leva à graça e esta encontra seu sustento na Ação Litúrgica. Posto isso, a vida espiritual é ainda como uma comunicação da RÛAH (em hebraico רוּחַ) de Deus, ou seja, do Espírito Santo que encontrando espaço no coração humano comunica a Trindade e numa dança de amor – pericorése – segundo os Santos Padres Gregos, revela os Três.
2- Nos caminhos da Graça
Os Mistérios da vida de Jesus Cristo revelam e conduzem o coração humano à vida da Graça que por meio da abertura interior – a vida espiritual – se faz possível ser experienciada em todos os tempos. A Graça Divina, nos é revelada plenamente pela Encarnação do Verbo de Deus em nossa carne. É Ele, Jesus Cristo, em união com o Espírito Santo, o grande DOM de sua Páscoa, que nos comunicam e encaminham à Sua Graça, sendo que, “a Graça é uma participação na vida divina; introduz-nos na intimidade da vida trinitária. Pelo Batismo, o cristão tem parte na Graça de Cristo, cabeça da Igreja” (CIC, n. 1997).
Ser conduzido pela Graça e deixar que ela tome posse e oriente os nossos passos nunca foi alienação, antes é reconhecimento de nossa pequenez e da infinita bondade de Deus. A alienação “espiritual” acontece, justamente, da distorção daquilo que é a Graça. A vida na Graça é um DOM sublime para a comunhão com o Pai e não um vigia da vida humana. Não é possível manipular ou adequar a Graça divina a uma determinada circunstância ou a um certo público. Muitas vezes, a Graça de Deus costuma desfazer os nossos planos e seguir na contramão do que queremos. Por conseguinte, pela abertura interior a vida espiritual, somos levados por Seus caminhos a uma amizade sempre mais profunda com Jesus Cristo, amizade esta que é consequência da Graça. Diante disso,
Uma vez incorporado em Cristo, o homem participa, ipso facto, da sua vida, porquanto a vida que circula na cabeça e nos membros. Ora, a vida de Jesus é uma participação na vida divina. Como Verbo, Ele possui a plenitude da vida que desde toda a eternidade colhe no seio do Pai; como homem, recebe uma participação abundante dessa mesma vida, uma plenitude quando possível completa; e é dessa plenitude que recebem todos os seus membros (Tanquerey, 2014, p. 64).
Uma das graças que a Graça divina nos concede hoje, talvez seja a redescoberta da nossa vulnerabilidade humana e espiritual como caminho de encontro com o Senhor e consequentemente, como um caminho litúrgico, visto que a Liturgia são os gestos do Sacerdócio de Jesus Cristo (Cf: SC), em Seu corpo místico que é a Igreja. A nossa miséria não pode estar deslocada da Liturgia, ou seja, se para a Liturgia, que é a comunicação “temporal” da Graça: Jesus Cristo, não forem apresentadas ao Senhor as nossas vulnerabilidades, de que forma estamos vivendo a Graça e experienciando o Ressuscitado?
Uma vida espiritual legítima é antes de tudo uma vida aberta à Ação do Espírito. É uma vivência cristã plena, em perfeita harmonia, interior e exterior, unindo e reeducando, em si, por meio de Jesus Cristo todos os sentimentos, ações e inclinações, até mesmo para melhor viver o ato Litúrgico, uma vez que nele não se celebra algo abstrato, separado da vida real, ou uma ideia, mas sim o Filho de Deus que se faz um de nós. A espiritualidade,
– vida da graça – é a capacidade de descobrir, interpretar, viver, contemplar a presença e a ação do Espírito em nós. Vida espiritual quer dizer vida cristã autêntica. O Espírito pede acolhida e colaboração, num ato de livre aceitação de sua graça e em adesão íntima à sua própria história (Salvador, 1996, p. 10).
Mormente, ser conduzido pela Graça é experienciar gratuitamente o amor de Deus, que se derrama em profusão sobre nós. Neste sentido, deixar-se ser conduzido por ela é testemunhar a liberdade de Deus que vem ao nosso encontro e como bem relembra Karl Rahner, se auto oferecendo – Deus – faz de Si mesmo por amor a humanidade em seu Filho Jesus Cristo, uma oferta ao coração do homem, tornando-o um ser inundado pela Graça (Cf: Rahner, 2015).
Para o doutor angélico, Santo Tomás de Aquino, a fé – que podemos traduzir por vida da Graça – é o encontro entre duas vontades, Deus que nos primeireia e nós que nos abrimos a Seus desígnios. Por isso, “a fé conduz o homem a participar da Graça, o engendrando-o na vida Deiforme, isto é, na vida divina ou deificada” (Morais, 2020, p. 53). Este encontro com a Graça que acontece entre duas liberdades, se dá, também pela Liturgia. Por ela, a Vontade e a Graça da Trindade no perfeito culto que o Filho, em união com o Espírito, oferece ao Pai, se encontram com nossa pequenez e fragilidade, comunicando e fazendo-nos participar de seus Mistérios Salvíficos. À vista disso, vida espiritual e vida de Graça estão intrinsecamente unidas, é “um caminho de Cristo a Cristo em que três forças atuam dinamicamente, a natureza, a liberdade e a Graça” (Gaudio, 2004, p. 154), que se revela na ritualidade da Liturgia. Nesse aspecto,
A Liturgia arranca o homem de si mesmo, das usas preocupações egoístas, dos seus interesses pessoais, da sua devoção individualista, para o unir de coração, de boca e de atitude, à oração dos seus irmãos, para o fazer pensar nas necessidades do organismo vital de que é membro inseparável, e dar à sua piedade, até então isolada, solitária, um sentido verdadeiramente católico (Coelho, 2018, p. 28).
Para se viver em graça/amizade com o Senhor, é oportuno recordar sempre que, “nós não estamos depois de Cristo, nós estamos em Cristo, e continuando Cristo na Liturgia, e na nossa vida” (Silva, 2021, p. 254), dessa maneira, caminhamos de Páscoa em Páscoa celebrando e vivendo cada acontecimento salvífico até a Páscoa eterna no Reino celeste. Diante disso, é “do Mistério Pascal de Cristo, que a Liturgia torna presente e eficaz na celebração dos sacramentos, brota toda a vida e a oração da Igreja, enquanto culmen et fons” (Marsili, 2012, p. 17). Eis o motivo principal pelo qual deve-se insistir e conduzir a comunidade batismal a uma maior e abundante educação e cultura Litúrgica, para assim celebrar e viver em plenitude os Mistérios que pela fé são sacramentados e se tornam sinais da Graça de Deus.
3- Educados a uma Cultura Litúrgica
A Liturgia, como todos os elementos que a constituem formam uma bela e perfeita escola de vida interior, isso acontece pelo fato de que a Liturgia é composta pela celebração dos Mistérios da Vida de Nosso Senhor e numa realidade temporal, por meio da fé e do rito que custodia a beleza destes Mistérios, somos formados e educados interior e exteriormente. As eucologias litúrgicas que são também uma atitude interior, devem encontrar espaço e abertura em nosso coração de tal modo que se transformam em atos exteriores. A lex agendi/vivendi é iluminada pela lex orandi e pela lex credendi, e as duas últimas ganham vida em nosso agir e viver. Liturgia e vida jamais se separam.
Para os Padres da Igreja, esta unidade entre Liturgia e vivência é muito normal. A Liturgia para os primeiros cristãos faz parte da ordinariedade da vida, o que é rezado é levado para as atitudes e estas tomam parte na celebração para serem tocadas pelo Senhor Ressuscitado. Além disso se lex credendi lex stuat supplicandi, a Liturgia não é um simples ritualismo acompanhado pelas rubricas, muito embora estas sejam necessárias e sim o celebrar de Deus no hoje da história, tornando presente o Memorial da Páscoa e antecipando a realidade escatológica do céu, ademais, “a Liturgia – afirma De Clerck – por seu lado, abre constantemente para o futuro. Situa-nos no hoje, mas leva-nos a levantar os olhos para o amanhã” (2022, p. 158). Posto isto,
A Liturgia é o momento fontal e culminante da vida espiritual, mas seria puro ritualismo se não fosse vivida com as exigências intrínsecas da vida teologal e não tivesse uma influência concreta na vida: o culto transformar-se-ia em algo abstrato se não levasse para Deus os anseios e as preocupações de uma existência concreta, vivida no dia a dia (Castellano, 2028, p. 54).
A Liturgia educa-nos por inteiro, conduzindo-nos a ouvir a Palavra, o Verbo do Pai e a nos alimentar do mesmo Verbo que se faz Eucaristia para se unir inteiramente aos peregrinos da vida interior, num só corpo místico. Deste modo, a Ação Sagrada de Jesus Cristo torna-se capaz de nos conduzir a interioridade, ou seja, a capacidade humana de ouvir ao Senhor que nos habita, e ouvi-lo muitas vezes em nossos sentimentos, afetos, fracassos, vitórias, entre outros aspectos da existência humana. Neste sentido, Boselli chama-nos a atenção ao afirmar que, “se a Liturgia não educa para a interiorização, ela não atinge seu fim educativo” (2019, p. 155).
Educar para uma cultura Litúrgica é despertar para as realidades da fé que na Liturgia são presentificadas no Mistério Eucarístico. Tal educação passa necessariamente pela formação à Liturgia e pela Liturgia (Cf: DD), como fons et culmen vitae Ecclesiae, isto é, como fonte de onde nasce toda a vida da Igreja e cume para se encaminham os nossos passos. Se faz urgente compreender e vivenciar esta verdade porque apenas uma vida que verdadeiramente nasce da Liturgia é missionária e compreende que esta verdade revelada nos Mistérios celebrados não pode ficar presa, estática, antes precisa ser anunciada como fonte de vida para todos, desta forma,
Na Liturgia a fé penetra em todos e cada um dos Mistérios; abarca os dogmas, encarnados numa expressão exacta e ao mesmo tempo popular, revestida pela poesia e pela arte de formas variadas e sedutoras. A Liturgia é a fé rezada, a fé canta, a fé proclamada por palavras e gestos (Coelho, 2018, p. 27).
A Liturgia é também lugar de encontro, de um triplo encontro, com a Trindade, que é a razão de nossa existência, com os irmãos que conosco formam um só corpo místico (a Igreja) e conosco mesmo. Por isso, a fé cristã torna-se local de íntima relação com o Senhor. À vista disso, afirma o Papa Francisco, “a Liturgia nos garante a possibilidade desse encontro [...] Na Eucaristia e em todos os sacramentos, é garantida a nós a possibilidade de encontrarmos o Senhor Jesus e de sermos alcançados pelo poder da sua Páscoa” (DD, n. 11), pois, nascemos dela e para ela com fim último de nosso peregrinar terrestre.
A educação que somos convidados pela Liturgia, não nos deixa estáticos, parados em nós mesmos, antes faz arder nossos corações e mentes para o anúncio kerigmático do Senhor. É do Ressuscitado e do Espírito Santo – DOM – de Sua Páscoa que nascem a força evangelizadora e transformadora da Igreja, neste sentido, se passamos pela Liturgia e não sentimos a força do Senhor que nos impele a O amar e anunciá-lo não estamos permitindo que Sua Ressurreição encontro eco e alcance nossa existência.
No hoje da vida humana o Senhor vem ao nosso encontro para nos revelar o seu amor e por Ação Sagrada nos fazer saborear antecipadamente a comunhão trinitária que teremos no céu. Consequentemente, a Liturgia torna-se, “sacramentum” de vida interior, logo, a força da ressurreição interpela-nos a fazer de tudo o que nos acontece uma preparação ou prolongação da apresentação das ofertas, desse modo,
Na Liturgia todos os sentimentos humanos encontram o modo de se transformarem em comunhão orante. A alegria e a dor, a vitória e o fracasso, o temor e a confiança, a admiração e o peso do pecado, tudo pode transformar-se em oração, no louvor, na oferenda, na súplica, na intercessão. Evidentemente, a Liturgia assume todas as modalidades que tornam completa e totalizante: a relação com Deus, espírito, alma e corpo, psicologia e sensibilidade, gestos corporais de adoração e de súplica, movimentos de procissão, canto e dança (Silva, 2021, p. 268).
CULTURA LITÚRGICA, “SACRAMENTUM” DE VIDA ESPIRITUAL
Frei Davi Maria Santos, O.Carm[1]
Introdução
Ao iniciarmos um novo caminho sempre começamos muito animados e cheios de fervor para enfrentar os desafios que porventura nos aparecerem no decorrer da estrada. Este fervor inicial é natural, contudo, para manter o ânimo do começo ao fim, principalmente nas dificuldades, é necessário parar um pouco e rever a intenção primeira que conduziu a aceitação desta ou daquela aventura.
É preciso ter sempre na mente e no coração que todo caminho espiritual deve levar a Jesus Cristo. Desse modo, as renúncias que precisamos realizar são sempre acompanhas pelo Senhor e tudo ganha sentido e razão de ser trilhado. Pois, a vida espiritual é uma longa aventura que dura por toda a vida.
Encontramos na máxima ambrosiana: “para Manifestar os Mistérios de Cristo”, uma entre muitas das intenções que podem servir de guia nos caminhos do espírito. Manifestar os Mistérios do Senhor é próprio de quem abriu-se a força redentora de Sua Páscoa e permitiu ser transformado interiormente para que possa ser agente de transformação exterior.
A vida espiritual e a vida Litúrgica, são ainda como o encontro de duas obras, a Opus Dei, que nos antecipa e vem ao nosso encontro e a opus homini, que respondendo com um sim generoso ao Amor de Deus Pai é tocada e fecundada pelo Espírito que d’Ele procede. Tanto a Liturgia como a vida espiritual, são lugares de experiência com Deus Pai que em Seu Filho Jesus Cristo nos permite que o toquemos, ainda que pela fé. Consequentemente, nossos sentidos, como visão, tato, audição e até mesmo olfato, são despertados pela ação ritual, pelos gestos e símbolos, palavras e sons (Cf: Lencastre, 2022).
A Liturgia é como a alma da vida espiritual, uma não existe sem a outra, e ambas se complementam. As duas procedem sempre da Trindade como um dom concedido a Sua criatura para aproximar-se da vida divina. Para isso é preciso que haja uma constante interação entre Liturgia e vida espiritual, que aquilo que uma é, seja assumido e vivenciado pela outra, dessa maneira, a Liturgia ganhará vida em nossas vivências e nossas atividades se tornarão como ofertas litúrgicas, por isso,
Para que a Liturgia seja realmente a vida espiritual da alma é indispensável que a alma se adapte docilmente e plenamente à Liturgia; que cada uma das palavras, cada um dos gestos litúrgicos tenham a sua repercussão no íntimo da alma, repercussão que ecoará ainda, terminada a celebração do culto, nos actos livres da vontade humana; é necessário estabelecer nos actos litúrgicos uma perfeita harmonia entre a actividade íntima da alma e o exercício do corpo (Coelho, 2018, p. 33).
Conduzir a assembleia batismal a uma cultura Litúrgica é levar o povo de Deus a compreender a Liturgia não como um ato separado e isolado em si mesmo do resto da vida, antes, como um todo da existência humana. É tornar a Ação Sagrada do Senhor como o “sacramentum” e a alma da vida espiritual, da vida no Pai, pelo Filho na Ação do Espírito Santo. O caminho espiritual quando parte da Liturgia se torna uma via de amor, assim sendo, “quando aquele que ama escolhe a trilha do amor, ele culmina na reeducação litúrgica, suscitada pelo Espírito Santo no seio da Igreja” (Santos; Junior, 2024). Esta reeducação Litúrgica é um grande dom de Deus Pai, para vivenciarmos melhor a Ação Sagrada.
1- Vida segundo o Espírito
Conhecemos e chamamos por vida espiritual a vida segundo o Espírito, ou seja, a vida que nasce da íntima comunhão de amor entre duas liberdades, a Deus que por Seu Espírito se aproxima de sua criatura e a nossa, que livremente escolhe responder com um “sim” ao chamado à vida interior ou vida de acordo com o Espírito Santo. Sem este encontro de liberdades a vida interior não brota no coração humano. Pois, o Pai, sabe respeitar a liberdade do homem e em seus desígnios nos espera pacientemente, neste sentido,
A vida da graça – afirma Dom António Coelho, OSB – é o contínuo e espontâneo fluir da seiva divina por todas estas ramificações, é a actividade das virtudes, sob a moção da razão humana guiada pela fé, e a actividade dos dons sob o impulso do Espírito Santo, que os dons são essas teclas duma delicadíssima mobilidade que adoptam, dispõem a inteligência e a vontade para receber os mais ténues eflúvios do Espírito e soltar essas sublimes harmonias mais divinas que humanas (2018, p. 17).
A vida espiritual sempre existiu na Igreja e em outras religiões. Cada tempo com seus desafios tratou de formar um modelo de vida interior conforme suscitava o Espírito de Deus à Igreja. Se faz necessário lembrar que a vida espiritual para ser autêntica necessita estar unida a vivência diária, logo, toda espiritualidade precisa se encarnar na vida humana para tomar forma e frutificar, nesse viés, podemos olhar para a vida espiritual como o caminho daqueles que tem sede, isto é, dos sedentos que se põem em peregrinação interior rumo Àquele que é o único que pode lhes saciar. Por isso, “Jesus – afirma José Tolentino – vem ao encontro da nossa história tal como ela é, na sua abertura, incompletude, lacuna ou falha, e diz-nos: o que tem sede aproxime-se; e o que deseja beba gratuitamente da água da vida” (2028, p. 27).
Dizemos que apenas os pequeninos ou aqueles que se reconhecem necessitados conseguem crescer na vida espiritual. Tal afirmação encontra sua validação no fato de que o Espírito Santo não penetra nos corações orgulhosos ou naqueles que se acham grandes e sim, nos que se fazem humildes e são capazes de olhando para dentro de si, perguntarem ao Pai, “que queres que eu faça?...” (2 Cel II, 6, 7, 2014, p. 304), essa foi a pergunta do jovem Francisco há mais de 800 anos.
Para termos bom êxito na via espiritual é de máxima importância abrir-se à Aquele que a sustenta, isto é, ao Espírito Santo, como também fazer-se menor, pequenino diante d’Ele, para que Deus Pai nos eleve em seus braços. Sem medo e empecilho à sua ação, viveu Teresinha a florzinha do Carmelo, que encantou a muitos, sobretudo aos simples e a estes apontou que sua pequena via nasce da íntima entrega confiante a Deus que é nosso Pai.
A vida espiritual acontece no dia a dia, no sentir de cada coisa, não é um piloto automático, nem muito menos uma válvula de escape que acionamos, é um caminho de cruz, muitas vezes pesada, mas sobretudo é um caminho de ressurreição, que nasce de encontros com o Senhor Ressuscitado. Apenas aqueles que desejam ressuscitarem com Ele, conseguem trilhar as vias interiores e chegarem ao seu objetivo: à Vita Cristiformae, a vida segundo Nosso Senhor Jesus Cristo.
Os caminhos do espírito muitas vezes contradizem nossas ideias ou desejos, isso acontece porque a pedagogia do mistagogo desta via, Jesus Cristo, não é igual a nossa. Mormente, é preciso que a fé se enraíze em nossos corações, a esperança brilhe em nosso olhar e o amor caridade se faça presente em todas as nossas ações. Portanto, as nossas fraquezas se transformarão em força de Deus.
Olhar para a nossa sede interior como um caminho segundo o Espírito é um ato de reeducação dos nossos desejos e inclinações, dado que, “não é só o homem que é mendigo de Deus. Em Jesus, Deus também se apresenta como mendigo do homem” (Mendonça, 2018, p. 17), isso acontece pelo fato de que não somos nós os que pôr primeiro atraem a Deus Pai, antes é seu infinito amor pelo homem que o atrai a Si e o leva pelos caminhos que conduzem a Ele mesmo, dentre tantas vias, a Liturgia se apresenta como um caminho para se viver “plenamente a ação litúrgica e vivenciar a surpresa com o mistério” (Marques, 2023, p. 11). Mistério esse que se revela a nós em sua Páscoa, assim,
Deus decide restituir à humanidade a vida espiritual e, para a realização de plano tão grandioso, decreta enviar ao mundo Seu Filho Unigénito [...] Jesus Cristo, Deus e Homem, eis a única fonte da vida espiritual. É o contacto sensível, corporal, físico, com a sua natureza humana – causa instrumental da graça que flui da Divindade – é condição indispensável para se receber, vida divina (Coelho, 2018, p. 18).
Tal “surpresa” do mistério acontece pelo fato de que é na “temporalidade” Litúrgica que se presentifica o Filho de Deus Pai, Jesus Cristo, aquele que nos restitui novamente o dom e a graça da vida espiritual, para que nosso espírito seja formado e alimentado. Sem uma autêntica vida Litúrgica não existe caminho espiritual que conduza a perfeição. Pela Liturgia que é ação de Jesus Cristo, nossa sede é saciada e nosso caminho ganha sentido e razão de existir, porquanto nos encontramos com a Páscoa.
A vida segundo o Espírito conduz necessariamente a experiência ressurrecional, isto é, à ressurreição que é o fundamento maior e sentido da fé cristã. A vida espiritual existe para manifestar em nós os Mistérios de Cristo, não de qualquer forma ou modo, antes, manifestar pelo testemunho autêntico de uma vida que encontrou sentido no encontro vivo com Jesus Cristo.
Somente uma pessoa que verdadeiramente fez um encontro vivo com o Senhor por meio de suas ações: a Liturgia, é capaz de ser missionária, de anunciar com a vida e depois com as palavras se preciso for, Aquele com quem se encontrou, visto que, somente uma vivência Litúrgica autêntica é capaz de gerar uma verdadeira evangelização frutuosa. Outrossim, da Liturgia nasce a alma (em latim anima) da vida espiritual, a segunda não existe sem a primeira, e a primeira ganha forma e gestos na segunda.
Deste modo, a vida espiritual se torna um dom para aqueles que se sendo tocados pelo Espírito – e todos nós o somos – decidem abrir-se inteiramente a ação d’Ele e permitem-se ser transformados espiritualmente para tornarem-se como que eucaristias, homens e mulheres eucaristizados e eucaristizadores, que sentindo o amor do Senhor arder no coração O anunciam a todos, em especial ao mais necessitados do afeto paterno de Deus.
A vida espiritual é um caminho que leva à graça e esta encontra seu sustento na Ação Litúrgica. Posto isso, a vida espiritual é ainda como uma comunicação da RÛAH (em hebraico רוּחַ) de Deus, ou seja, do Espírito Santo que encontrando espaço no coração humano comunica a Trindade e numa dança de amor – pericorése – segundo os Santos Padres Gregos, revela os Três.
2- Nos caminhos da Graça
Os Mistérios da vida de Jesus Cristo revelam e conduzem o coração humano à vida da Graça que por meio da abertura interior – a vida espiritual – se faz possível ser experienciada em todos os tempos. A Graça Divina, nos é revelada plenamente pela Encarnação do Verbo de Deus em nossa carne. É Ele, Jesus Cristo, em união com o Espírito Santo, o grande DOM de sua Páscoa, que nos comunicam e encaminham à Sua Graça, sendo que, “a Graça é uma participação na vida divina; introduz-nos na intimidade da vida trinitária. Pelo Batismo, o cristão tem parte na Graça de Cristo, cabeça da Igreja” (CIC, n. 1997).
Ser conduzido pela Graça e deixar que ela tome posse e oriente os nossos passos nunca foi alienação, antes é reconhecimento de nossa pequenez e da infinita bondade de Deus. A alienação “espiritual” acontece, justamente, da distorção daquilo que é a Graça. A vida na Graça é um DOM sublime para a comunhão com o Pai e não um vigia da vida humana. Não é possível manipular ou adequar a Graça divina a uma determinada circunstância ou a um certo público. Muitas vezes, a Graça de Deus costuma desfazer os nossos planos e seguir na contramão do que queremos. Por conseguinte, pela abertura interior a vida espiritual, somos levados por Seus caminhos a uma amizade sempre mais profunda com Jesus Cristo, amizade esta que é consequência da Graça. Diante disso,
Uma vez incorporado em Cristo, o homem participa, ipso facto, da sua vida, porquanto a vida que circula na cabeça e nos membros. Ora, a vida de Jesus é uma participação na vida divina. Como Verbo, Ele possui a plenitude da vida que desde toda a eternidade colhe no seio do Pai; como homem, recebe uma participação abundante dessa mesma vida, uma plenitude quando possível completa; e é dessa plenitude que recebem todos os seus membros (Tanquerey, 2014, p. 64).
Uma das graças que a Graça divina nos concede hoje, talvez seja a redescoberta da nossa vulnerabilidade humana e espiritual como caminho de encontro com o Senhor e consequentemente, como um caminho litúrgico, visto que a Liturgia são os gestos do Sacerdócio de Jesus Cristo (Cf: SC), em Seu corpo místico que é a Igreja. A nossa miséria não pode estar deslocada da Liturgia, ou seja, se para a Liturgia, que é a comunicação “temporal” da Graça: Jesus Cristo, não forem apresentadas ao Senhor as nossas vulnerabilidades, de que forma estamos vivendo a Graça e experienciando o Ressuscitado?
Uma vida espiritual legítima é antes de tudo uma vida aberta à Ação do Espírito. É uma vivência cristã plena, em perfeita harmonia, interior e exterior, unindo e reeducando, em si, por meio de Jesus Cristo todos os sentimentos, ações e inclinações, até mesmo para melhor viver o ato Litúrgico, uma vez que nele não se celebra algo abstrato, separado da vida real, ou uma ideia, mas sim o Filho de Deus que se faz um de nós. A espiritualidade,
– vida da graça – é a capacidade de descobrir, interpretar, viver, contemplar a presença e a ação do Espírito em nós. Vida espiritual quer dizer vida cristã autêntica. O Espírito pede acolhida e colaboração, num ato de livre aceitação de sua graça e em adesão íntima à sua própria história (Salvador, 1996, p. 10).
Mormente, ser conduzido pela Graça é experienciar gratuitamente o amor de Deus, que se derrama em profusão sobre nós. Neste sentido, deixar-se ser conduzido por ela é testemunhar a liberdade de Deus que vem ao nosso encontro e como bem relembra Karl Rahner, se auto oferecendo – Deus – faz de Si mesmo por amor a humanidade em seu Filho Jesus Cristo, uma oferta ao coração do homem, tornando-o um ser inundado pela Graça (Cf: Rahner, 2015).
Para o doutor angélico, Santo Tomás de Aquino, a fé – que podemos traduzir por vida da Graça – é o encontro entre duas vontades, Deus que nos primeireia e nós que nos abrimos a Seus desígnios. Por isso, “a fé conduz o homem a participar da Graça, o engendrando-o na vida Deiforme, isto é, na vida divina ou deificada” (Morais, 2020, p. 53). Este encontro com a Graça que acontece entre duas liberdades, se dá, também pela Liturgia. Por ela, a Vontade e a Graça da Trindade no perfeito culto que o Filho, em união com o Espírito, oferece ao Pai, se encontram com nossa pequenez e fragilidade, comunicando e fazendo-nos participar de seus Mistérios Salvíficos. À vista disso, vida espiritual e vida de Graça estão intrinsecamente unidas, é “um caminho de Cristo a Cristo em que três forças atuam dinamicamente, a natureza, a liberdade e a Graça” (Gaudio, 2004, p. 154), que se revela na ritualidade da Liturgia. Nesse aspecto,
A Liturgia arranca o homem de si mesmo, das usas preocupações egoístas, dos seus interesses pessoais, da sua devoção individualista, para o unir de coração, de boca e de atitude, à oração dos seus irmãos, para o fazer pensar nas necessidades do organismo vital de que é membro inseparável, e dar à sua piedade, até então isolada, solitária, um sentido verdadeiramente católico (Coelho, 2018, p. 28).
Para se viver em graça/amizade com o Senhor, é oportuno recordar sempre que, “nós não estamos depois de Cristo, nós estamos em Cristo, e continuando Cristo na Liturgia, e na nossa vida” (Silva, 2021, p. 254), dessa maneira, caminhamos de Páscoa em Páscoa celebrando e vivendo cada acontecimento salvífico até a Páscoa eterna no Reino celeste. Diante disso, é “do Mistério Pascal de Cristo, que a Liturgia torna presente e eficaz na celebração dos sacramentos, brota toda a vida e a oração da Igreja, enquanto culmen et fons” (Marsili, 2012, p. 17). Eis o motivo principal pelo qual deve-se insistir e conduzir a comunidade batismal a uma maior e abundante educação e cultura Litúrgica, para assim celebrar e viver em plenitude os Mistérios que pela fé são sacramentados e se tornam sinais da Graça de Deus.
3- Educados a uma Cultura Litúrgica
A Liturgia, como todos os elementos que a constituem formam uma bela e perfeita escola de vida interior, isso acontece pelo fato de que a Liturgia é composta pela celebração dos Mistérios da Vida de Nosso Senhor e numa realidade temporal, por meio da fé e do rito que custodia a beleza destes Mistérios, somos formados e educados interior e exteriormente. As eucologias litúrgicas que são também uma atitude interior, devem encontrar espaço e abertura em nosso coração de tal modo que se transformam em atos exteriores. A lex agendi/vivendi é iluminada pela lex orandi e pela lex credendi, e as duas últimas ganham vida em nosso agir e viver. Liturgia e vida jamais se separam.
Para os Padres da Igreja, esta unidade entre Liturgia e vivência é muito normal. A Liturgia para os primeiros cristãos faz parte da ordinariedade da vida, o que é rezado é levado para as atitudes e estas tomam parte na celebração para serem tocadas pelo Senhor Ressuscitado. Além disso se lex credendi lex stuat supplicandi, a Liturgia não é um simples ritualismo acompanhado pelas rubricas, muito embora estas sejam necessárias e sim o celebrar de Deus no hoje da história, tornando presente o Memorial da Páscoa e antecipando a realidade escatológica do céu, ademais, “a Liturgia – afirma De Clerck – por seu lado, abre constantemente para o futuro. Situa-nos no hoje, mas leva-nos a levantar os olhos para o amanhã” (2022, p. 158). Posto isto,
A Liturgia é o momento fontal e culminante da vida espiritual, mas seria puro ritualismo se não fosse vivida com as exigências intrínsecas da vida teologal e não tivesse uma influência concreta na vida: o culto transformar-se-ia em algo abstrato se não levasse para Deus os anseios e as preocupações de uma existência concreta, vivida no dia a dia (Castellano, 2028, p. 54).
A Liturgia educa-nos por inteiro, conduzindo-nos a ouvir a Palavra, o Verbo do Pai e a nos alimentar do mesmo Verbo que se faz Eucaristia para se unir inteiramente aos peregrinos da vida interior, num só corpo místico. Deste modo, a Ação Sagrada de Jesus Cristo torna-se capaz de nos conduzir a interioridade, ou seja, a capacidade humana de ouvir ao Senhor que nos habita, e ouvi-lo muitas vezes em nossos sentimentos, afetos, fracassos, vitórias, entre outros aspectos da existência humana. Neste sentido, Boselli chama-nos a atenção ao afirmar que, “se a Liturgia não educa para a interiorização, ela não atinge seu fim educativo” (2019, p. 155).
Educar para uma cultura Litúrgica é despertar para as realidades da fé que na Liturgia são presentificadas no Mistério Eucarístico. Tal educação passa necessariamente pela formação à Liturgia e pela Liturgia (Cf: DD), como fons et culmen vitae Ecclesiae, isto é, como fonte de onde nasce toda a vida da Igreja e cume para se encaminham os nossos passos. Se faz urgente compreender e vivenciar esta verdade porque apenas uma vida que verdadeiramente nasce da Liturgia é missionária e compreende que esta verdade revelada nos Mistérios celebrados não pode ficar presa, estática, antes precisa ser anunciada como fonte de vida para todos, desta forma,
Na Liturgia a fé penetra em todos e cada um dos Mistérios; abarca os dogmas, encarnados numa expressão exacta e ao mesmo tempo popular, revestida pela poesia e pela arte de formas variadas e sedutoras. A Liturgia é a fé rezada, a fé canta, a fé proclamada por palavras e gestos (Coelho, 2018, p. 27).
A Liturgia é também lugar de encontro, de um triplo encontro, com a Trindade, que é a razão de nossa existência, com os irmãos que conosco formam um só corpo místico (a Igreja) e conosco mesmo. Por isso, a fé cristã torna-se local de íntima relação com o Senhor. À vista disso, afirma o Papa Francisco, “a Liturgia nos garante a possibilidade desse encontro [...] Na Eucaristia e em todos os sacramentos, é garantida a nós a possibilidade de encontrarmos o Senhor Jesus e de sermos alcançados pelo poder da sua Páscoa” (DD, n. 11), pois, nascemos dela e para ela com fim último de nosso peregrinar terrestre.
A educação que somos convidados pela Liturgia, não nos deixa estáticos, parados em nós mesmos, antes faz arder nossos corações e mentes para o anúncio kerigmático do Senhor. É do Ressuscitado e do Espírito Santo – DOM – de Sua Páscoa que nascem a força evangelizadora e transformadora da Igreja, neste sentido, se passamos pela Liturgia e não sentimos a força do Senhor que nos impele a O amar e anunciá-lo não estamos permitindo que Sua Ressurreição encontro eco e alcance nossa existência.
No hoje da vida humana o Senhor vem ao nosso encontro para nos revelar o seu amor e por Ação Sagrada nos fazer saborear antecipadamente a comunhão trinitária que teremos no céu. Consequentemente, a Liturgia torna-se, “sacramentum” de vida interior, logo, a força da ressurreição interpela-nos a fazer de tudo o que nos acontece uma preparação ou prolongação da apresentação das ofertas, desse modo,
Na Liturgia todos os sentimentos humanos encontram o modo de se transformarem em comunhão orante. A alegria e a dor, a vitória e o fracasso, o temor e a confiança, a admiração e o peso do pecado, tudo pode transformar-se em oração, no louvor, na oferenda, na súplica, na intercessão. Evidentemente, a Liturgia assume todas as modalidades que tornam completa e totalizante: a relação com Deus, espírito, alma e corpo, psicologia e sensibilidade, gestos corporais de adoração e de súplica, movimentos de procissão, canto e dança (Silva, 2021, p. 268).