DESIDERIO DESIDERAVI: PONTOS DE REFLEXÃO SOBRE A FORMAÇÃO LITÚRGICA PARA AVANÇAR RUMO À REFORMA CONCILIAR

DESIDERIO DESIDERAVI: PONTOS DE REFLEXÃO SOBRE A FORMAÇÃO LITÚRGICA PARA AVANÇAR RUMO À REFORMA CONCILIAR

Ângelo Cardita

 

“Ângelo, nos serve uma reflexão, elogio ou comentário. Lanço uma pergunta: qual foi sua reação ao ler o documento? Escreva sobre isso”. Foi com estas palavras que o frei Luis Marques me instigou a escrever e a partilhar os meus primeiros pensamentos a propósito da carta do Papa Francisco, Desiderio desideravi, do dia 29 de junho de 2022, sobre a liturgia e a formação litúrgica. Faço-o sob a forma de sete pontos de reflexão muito sintéticos, formulados com o objetivo de suscitar o debate, indicando a perspectiva que pesquisas mais detalhadas poderão seguir e aprofundar.  

1) Qual foi a minha reação ao ler o documento? A resposta direta e imediata coincide com um sentimento de confirmação da dinâmica de regresso ao projeto conciliar, patente já em Traditionis custodes. Na minha perspectiva, a leitura deste Motu proprio deve afastar-se de toda a polaridade violenta com Summorum pontificum, pois o documento revogador passa a fornecer os critérios de leitura a considerar. Também não se deve pensar que Traditionis custodes se dirige exclusivamente aos adeptos dos ritos pré-conciliaires, como uma espécie de reprimenda. Situando o problema no contexto mais amplo da formação litúrgica, Desiderio desideravi vem confirmar que a “restituição” da reforma litúrgica conciliar implica toda a Igreja, sem excepções. Traditionis custodes recordou aos bispos a centralidade litúrgica do ministério que eles exercem no seio das Igrejas locais. Este aspecto da reforma conciliar ainda não encontrou todas as condições de desenvolvimento, mas as desculpas começam a perder terreno. Agora, a carta apostólica Desiderio desideravi dirige-se a todos. A mensagem é clara: “senhores bispos, façam o favor de assumir a dimensão litúrgica do ministério que Cristo e a Igreja vos confiam!” “Membros do Povo de Deus – fiéis batizados, ministros ordenados, ministros instituídos, pessoas consagradas – façam o favor de levar a sério a questão litúrgica como forma de renovar a Igreja no sentido desejado pelo Concílio Vaticano II”. Trata-se pois de despertar as Igrejas locais.       

2) Um dos aspectos que, segundo Bento XVI, justificavam a liberalização do “uso” dos livros litúrgicos anteriores à reforma conciliar prendia-se a um suposto potencial educativo de um certo “sentido do sagrado” que se teria perdido, nomeadamente por causa dos “abusos” na forma de celebrar com os livros litúrgicos renovados. Como se o sagrado tivesse mergulhado na tinta usada na impressão dos livros litúrgicos antes do Concílio e depois se tivesse esgotado. Não é que Bento XVI não tenha compreendido o Concílio – ele mesmo participou no evento como teólogo consultor. Pior que isso, ele deixou que a erosão do tempo e que a inércia de sua situação eclesiástica alterassem a percepção do Concílio, desligando-a do sensus fidei. Bento XVI tornou-se assim um exemplo infeliz de auto-alienação. Bento XVI também não suportou as transformações sociais e políticas ocorridas ao longo do século XX e passou a ler a renovação conciliar em função dos seus próprios medos. Isto explica a regressão à espiritualidade infantil à qual ele faz referência na carta explicativa que acompanhava Summorum pontificum. Bento XVI reuniu assim as condições para que a liturgia confirmasse a teses dos mestres da suspeição (a religião como nevrose coletiva: Freud; como opium populi: Marx, etc.). Com a sua carta apostólica Desiderio desideravi, o Papa Francisco volta a considerar a questão litúrgica do ponto de vista da formação, recuperando a lição dos grandes mestres do Movimento litúrgico, sobretudo Romano Guardini. E aqui é necessário abrir bem os olhos para ver o que efetivamente se escreve a propósito da formação litúrgica: o desafio de Guardini agora assumido pelo papa é o de reaprender a viver como seres humanos numa relação religiosa (DD 34). O centro nevrálgico é a escuta das alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos seres humanos – para evocar a constituição pastoral do Concílio – e não a alienação ou a projeção do desejo numa ideia abstrata de sagrado ou num ativismo ideológico, político ou social.             

3) Num contexto de tendência reacionária, centrar as coisas no Concílio e no Movimento litúrgico é certamente justo e necessário. No entanto, não é suficiente. Para começar, há omissões em Desiderio desideravi: a mais lamentável é talvez a ausência de referências a Hélène Lubienska de Lenval, uma pedagoga cujo labor formativo e litúrgico se equipara ao de Guardini, ou até o supera. Depois, existem também os diferentes ritmos e circunstâncias eclesiais de recepção. A simplificação dos ritos operada pela reforma litúrgica pretendia dotar as Igrejas particulares de instrumentos de trabalho que seriam desenvolvidos ulteriormente em diálogo com as situações concretas. O Movimento litúrgico deu início a esta dinâmica mesmo sem possuir os grandes documentos conciliaires. Como entender a paralisação pós-conciliar? Em síntese, para retomar a tarefa da formação litúrgica, não basta recuperar as propostas dos autores e autoras do Movimento litúrgico, mas é necessário reelaborá-las, atualizando a linguagem e sobretudo a metodologia numa perspectiva interdisciplinar.

4) Os promotores do Movimento litúrgico começaram pela própria celebração. A exigência de uma reforma dos livros litúrgicos surgiu num segundo momento, no interior de um dinamismo mais amplo perseguindo a participação ativa. Os livros litúrgicos são pois realidades textuais subordinadas à participação na celebração viva. No entanto, pensar que um roteiro elaborado por um comitê diocesano ou paroquial garante a participação ativa é como considerar que o sentido do sagrado se recupera usando os livros litúrgicos pré-conciliares. O problema nos dois casos é o do fetichismo textual. Celebrar passa a ser algo como “ler o texto que está na folhinha” ou “que aparece na tela”, algo em que não mergulhamos inteiramente, mas que conservamos confortavelmente à distância, escondendo-nos atrás da folhinha ou da tela com a falsa sensação de participar quando de fato nos estamos afastando da ação. Não basta, portanto, reafirmar a importância dos livros litúrgicos renovados, mas é preciso aprender a lê-los, interpretá-los e usá-los respeitando a diferença qualitativa que existe entre a descrição normativa dos ritos e a pulsação ritual de cada comunidade eclesial reunida em assembleia.  

5) Chama a atenção que Desiderio desideravi continue a falar em “formação”, sem empregar a terminologia da “mistagogia”. O fato ganha mais saliência se pensarmos na recente proposta de percurso catecumenal-matrimonial do Dicastério para os leigos, a  família e a vida. O modelo mistagógico é apenas um modelo entre várias possibilidades. Não há qualquer razão para o canonizar, sendo mais interessante que as portas continuem abertas para a diversidade de propostas formativas. Para além disso, a questão mais decisiva é a da capacidade simbólica dos seres humanos. O modelo mistagógico supõe uma teoria neo-platônica do símbolo, uma teoria pré-moderna que corre o risco de não aderir às condições atuais da modernidade e da pós-modernidade e de fazer violência a outras visões do mundo. Talvez os símbolos vivos se manifestem hoje noutros campos da experiência humana e já não tanto na liturgia cristã em boa parte porque as nossas categorias não permitem reconhecê-los nem acolhê-los. Assim, em vez de um modelo mistagógico inspirado num passado idealizado, porque não elaborar propostas de formação litúrgica assentes na intersubjectividade, na performatividade ou na intermedialidade?  

6) Outro aspecto a exigir aprofundamento e renovação prende-se com a íntima relação que existe entre liturgia e eclesiologia. A visão de Desiderio desideravi é perfeitamente clássica, tanto do ponto de vista eclesiológico como pedagógico: “formemos os candidatos aos ministérios ordenados para que estes formem os fiéis”. É preciso ter coragem de reescrever isto em sintonia com a eclesiologia do Povo de Deus e, mais concretamente, da mútua ordenação do sacerdócio comum e do sacerdócio ministerial. Do ponto de vista pedagógico, em confluência com esta transformação eclesiológica maior, é necessário que os destinatários da formação litúrgica assumam a condição de sujeitos co-formadores. Pensemos no paradoxo de um padre querendo ensinar os fiéis a participar ativamente na ação litúrgica. As próprias condições do ato pedagógico (o padre explica e os fiéis aplicam) entram em contradição com o objetivo visado (fiéis e ministros participando ativamente na celebração). Não basta colocar um ministro leigo ou uma religiosa em vez do padre. Se o esquema fundamental de relação pedagógica continuar a reproduzir a dicotomia entre “formadores” e “formandos”, não se abandona verdadeiramente a “hierarcologia”.  Basicamente, seria preciso ter a coragem de rever por completo a questão da formação dos candidatos ao sacramento da ordem. A viragem litúrgica da eclesiologia sugere uma pista radical: em vez de formar padres para formar os fiéis passemos antes a formar comunidades batismais que formem nos diferentes ministérios da missão eclesial. Sem esta reviravolta fundamental, qualquer iniciativa de formação litúrgica não passará de um paliativo pouco eficaz. 

7) Os atos rituais e os gestos culturais vivem em interrelação: os ritos incluem dimensões culturais e estéticas de tal forma que a própria cultura se manifesta e constitui através do rito e da arte. A nossa é no entanto uma época de pobreza cultural e de banalidade artística na forma de viver e de concretizar os nossos ritos. O mundo da arte e da cultura, pelo contrário, é rico em ritos de todo o tipo, vivos e eficazes. Os nossos ritos já não têm qualquer reconhecimento cultural: a música, a literatura e a poesia, as artes pictóricas e arquitectônicas, a escultura, as dimensões dramáticas ligadas ao gesto, as formas estéticas de integrar o espaço e de vivenciar o tempo, etc., tudo isto existe na liturgia, mas sob o domínio do gosto duvidoso de um kitsch beato de pouca qualidade. A arte litúrgica é pensada e criada numa perspectiva funcional impermeável à dinâmica da ausência de referencialidade externa que caracteriza a estética contemporânea mais alta. No entanto, formar “para” a liturgia exige formação artística e cultural, pois trata-se de aprender algo que pertence igualmente ao rito e à cultura numa forma estética aquém e além da expressão de uma boa eclesiologia ou de uma reta cristologia. Contrariamente a certos misticismos ingénuos, as exigências formativas dos vários aspectos rituais litúrgicos não se diferenciam dos seus correlativos culturais: que me perdoem a redundância, mas “cantar é cantar”, “proclamar um texto é proclamar um texto”, “encarnar um gesto é encarnar um gesto”, e assim por diante. Trata-se antes de mais nada de uma experiência humana de formação através da inscrição pessoal na herança cultural comum. Assim, desligar a liturgia da cultura e da arte acaba por deformar tanto a liturgia quanto os que a celebram. 

 

 

 

 
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