DO EXCESSO AO ESSENCIAL: O RITO COMO EXPRESSÃO MÁXIMA NO TRÍDUO PASCAL
Vinícius Schumaher*
Cristo está na liturgia: uma força sacramental
Depois de um tempo intenso de quaresma, onde mergulhamos em nossas próprias mazelas, deixando-nos ser conduzidos pelo Espírito ao deserto, para em meio a secura do nosso pecado suplicarmos: “Misericórdia, ó Senhor, pois pecamos” (Sl. 51) e nos “reconciliarmos com Deus, em nome de Cristo” (2Cor 5,20), é chegada a hora de se concretizar aquilo que muitas vezes rezamos e entoamos, como Igreja, no mesmo salmo: “Dai-me de novo a alegria de ser salvo!” (Sl. 51). Estamos às portas do tríduo pascal, coração pulsante de todo o ano litúrgico. E no decorrer de todo ele somos convidados a fazer memória da Páscoa do Senhor e vivermos com Ele, na inteireza do nosso ser, sua paixão, morte e ressurreição.
Celebrar o tríduo é podermos nos conectar, outra vez, com o que há de mais profundo no mistério da nossa fé. É importante recordarmos que no cerne da Oração Eucarística o presidente aclama: “Eis o mistério da fé” e nós, enquanto assembleia reunida no Espírito, oramos dizendo: “todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressusrreição. Vinde, Senhor Jesus!”. Jesus é, e sempre será o mistério da nossa fé, por isso, tudo o que celebramos faz referência e reverência à sua pessoa e ao seu projeto de salvação, que continuamente atualizamos no decurso do ano litúrgico e, de maneira especial, nestes dias do tríduo pascal.
Ao celebrarmos o tríduo pascal somos convidados a viver a sacramentalidade da liturgia com ainda mais intensidade, pois enquanto Igreja, esposa do Cordeiro, iremos fazer memória do próprio Cristo que é sacramento do Pai e como sacramento realiza aquilo que significa (SC 7).
Com Jesus seremos convidados ao serviço, nos partindo e repartirmos em nome do verdadeiro amor: Deus (Jo 13,16-20; 1Cor 11,23-26), experimentaremos os dois piores medos do humano: o abandono e a morte (Sl 21(22); Jo 18, 29) e no silêncio da madrugada, tendo a noite como testemunha, nos deixarmos ser resgatados por inteiro, rompendo os laços com a morte e ressuscitando para a vida eterna. Nos encontrando com Ele vivo no jardim que outrora havíamos sido expulsos e escutando sua voz que diz: “Mulher, porque choras? Levanta-te...” (Lc 24,6; Jo 20,15).
O mistério celebrado é grande. Tão grande que mudou o curso da história da salvação. Mudou a nossa história. Quando estamos diante de um grande acontecimento que nos impacta e tem o poder de gerar em nós uma modificação interna e externa é quase certo ouvirmos: “diante daquilo fiquei sem palavras”, mas isso nem sempre quer dizer que ficamos sem nenhuma reação ou vazios de sentimentos. Podemos tomar como exemplo o sorriso de um pai que vê seu filho pela primeira vez em seus braços ou o choro dilacerante de uma pessoa que enterra um verdadeiro amor. Nestas duas ações extremas, entre vida e morte, muitas vezes não cabem palavras, pois as ações por si só (sorriso e pranto) falam, expressam e exigem uma mudança.
Com os ritos litúrgicos não é diferente. Como afirma o papa Paulo VI na carta apostólica A Celebração do Mistério Pascal, os mistérios celebrados ao longo do ano litúrgico são sacramentos. Quando celebramos cada um destes mistérios, com leituras, cantos, ritos e preces apropriadas, participamos¸ hoje, aqui e agora, do mistério de Cristo. E diante deste mistério não cabem excessos, apenas o essencial. Por isso, nos atentemos aos excessos que podem roubar nossas consciências e corações daquilo que é primazia, principalmente nestes dias, no decorrer dos ritos que compõem o tríduo pascal.
As celebrações do tríduo gozam de profundo simbolismo e profundidade. E o rito muitas vezes fala por si só. Assim como já retomamos na Sacrosanctum Concilium se Cristo é sacramento do Pai e, quando nos reunimos é Ele quem realiza toda a ação litúrgica em nós, pelo Espírito Santo, então deixemos que o Senhor cumpra seu papel através de nossos corpos, que nesse momento ritualizam os mistérios da sua paixão, morte e ressurreição.
Purificar a ação ritual: do excesso ao essencial
Muitas vezes para purificarmos nossas ações rituais dos excessos, se faz necessário um caminho reverso, voltando ao próprio rito para nos encontrarmos com a pureza da sua constituição e com o sentido primeiro que ele deseja expressar. Um caminho prático pode auxiliar nesta tarefa, sendo: nos atentarmos aos excessos de comentários ou explicações desnecessárias, valorizar as orações eucológicas que constituem o próprio rito e valorizar os símbolos e os gestos simbólicos (ação corporal) que são próprios do rito nestes dias de tríduo.
Uma atenção especial aos símbolos para que não se tornem ruídos no espaço litúrgico e na ação ritual. Por vezes, não é difícil vermos na Celebração da Ceia do Senhor comunidades enchendo os espaços litúrgicos com pães e uvas e tirando o foco dos sinais sacramentais mais relevantes da noite: o próprio pão e o vinho que consagramos. Ou termos mais de uma cruz para a adoração ao crucificado na celebração da paixão, com a justificativa de que temos de “facilitar” (lê-se apressar) a participação do povo. No sábado santo, comentários de cunho catequético e homilias longas que quebram todo o movimento natural da celebração da mãe de todas as vigílias, riquíssima em seus ritos.
Ao citarmos a homilia, importante lembrar que a SC 52 afirma que a homilia é parte integrante da própria liturgia e que nas missas dominicais e festas de preceito, concorridas pelo povo, esta não seja omitida, a não ser por motivo grave. No entanto, como parte integrante dos ritos é caracterizada como um rito memorial e tem caráter sacramental como todo rito litúrgico. De acordo com o Beckhäuser (2012) a homilia é a grande responsável por recolher os motivos da nossa ação de graças, nos conduzindo ao Cristo, corpo doado e sangue derramado na mesa eucarística. Sendo, portanto, a homilia um rito, é importante que o presidente das celebrações do tríduo não a dissocie dos demais, correndo o risco de uma quebra do diálogo ritual e, também, da cadência rítmica tão importante na celebração.
Queridos padres, deixem que os ritos falem, façam apenas o trabalho de um artesão que acolhe toda a matéria prima que já é linda por natureza e apenas a valoriza ainda mais. Presida a assembleia reunida conduzindo-a ao rito e ao mistério e não a você. Prepara-se. Esteja inebriados dos ritos que compõem o tríduo. Primeiro com a razão através do estudo do mesmo e, no momento da celebração ligando-o ao seu coração pelo Espírito. E nesta sinfonia harmônica entre razão e emoção auxilie o povo através do seu tom de voz, olhar e gestos a mergulhar naquilo que se celebra.
Queridas equipes de liturgia, fujam da “criatividade selvagem” no preparo das celebrações. Evitem comentários sobre o rito. Rito não se explica, se vive! Estudem os ritos que compõem cada celebração, com isso as leituras, as orações e os cantos. O rito é a verdadeira bussola de vocês. Ele é bonito, quando limpo. Não criem em cima do rito.
Concentrem atenção na preparação das pessoas que exercerão os ministérios e façam um trabalho de ligar essas pessoas, sejam elas leitores, músicos, acólitos, coroinhas ou ministros da comunhão eucarística ao sentido do rito que irão executar ou participar. Estudem juntos com os ministérios e construam pontes entre razão e emoção para que mais um vez o rito fale por si no momento da celebração e a sacramentalidade da liturgia cumpra seu papel neste tríduo: encontrarmo-nos com o servo, o crucificado e o ressuscitado e juntos com Ele celebrarmos sua Páscoa, mistério de nossa fé!
Sendo os ritos sinais sensíveis, significativos e eficazes no encontro do Ressuscitado com seu povo (Buyst, 2011) não nos esqueçamos de também os valorizar. Sabemos que os sinais sensíveis foram escolhidos por Cristo e pela Igreja para “significar as coisas divinas invisíveis”, conforme consta na SC 33. Podemos eleger como sinais sensíveis relevantes do tríduo pascal: pão e vinho, a cruz, fogo (círio pascal) e água (fonte batismal). Acrescentaria também como sinal sensível nossos espaços litúrgicos como um todo. Importante darmos a ele uma comunhão perfeita com o tom e o ritmo do tríduo. E por último, mas não menos importante, nosso corpo. Que nossos corpos sejam sinais sensíveis embebidos do Espírito para que toda a ação gestual esteja em profunda consonância com o rito e o mistério celebrado naquele momento.
Para concluir
Nossa vida cotidiana está cada vez mais cheia de excessos. Buscamos tudo e nos encontramos muitas vezes com nada. Um paradoxo existencial. Ocorre que corremos o risco de fazermos de nossas ações rituais a mesma coisa. Como já dito, colocamos nela nossos excessos e nos afastamos do essencial. Nossos ritos se afastam da verdadeira força sacramental que é o Ressuscitado, para serem expressões de nossos egos. Sem perceber passamos cultuar bezerros de ouro (Ex 32) e isso é um risco, pois o preço é o vazio daquilo que celebramos.
Que nestes dias de tríduo possamos valorizar nossas liturgias e gozarmos de toda a força sacramental que ela possui. “A Liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana toda a sua força.” (SC 10). Acreditemos e vivamos isso, principalmente nestes dias intensos da Igreja. Que na ceia, na morte e na ressusrreição estejamos inteiros, com pontes bem estabelecidas entre mente e coração para que toda a nossa ação ritual, realizada com fé e inteireza leve toda a Igreja a uma participação ativa, consciente plena e frutuosa (SC 14) e apresse a vinda do Senhor.
Referências e para aprofundar:
BECKHÄUSER, Alberto. Sacrosanctum Concilium: texto e comentário. Ed. Paulinas, 2012.
BUYST, Ione. O segredo dos ritos: ritualidade e sacramentalidade da liturgia cristã. Ed. Paulinas, 2011.
CONSTITUIÇÃO SACROSANCTUM CONCILIUM. In Documentos do Concílio Vaticano II: constituições, decretos, declarações. Petrópolis: Vozes, 1966.
*Bacharel em psicologia. Especialista em psicologia clínica. Leigo da Diocese de Votuporanga. Liturgista membro da Rede Celebra – Rede de Animação Litúrgica.