E AS MÃOZINHAS NO PAI-NOSSO DA MISSA?
Pe. Paulo Eduardo F. Souza
“Que minha oração suba à tua presença como incenso, a elevação de minhas mãos como sacrifício da tarde" (Salmo 141 [140], 2).
Não tenha medo de erguê-las, de levantá-las. Não, você não cometerá nenhuma infração litúrgica. Você não assumirá uma postura exclusiva do sacerdote ministerial. Quem lhe disser o contrário o fará mais por zelo no cumprimento cego de uma interpretação restritiva de uma rubrica do que por real conhecimento. Expliquemo-nos (nossas considerações valem, obviamente, para a prática do Rito Romano).
No início do século III, Tertuliano, o primeiro grande teólogo do Ocidente (que, infelizmente, se distanciou da comunhão católica na última fase de sua vida), dizia claramente como os cristãos deviam rezar a oração dominical: com as mãos elevadas, antes, estendidas, imitando a Paixão do Senhor (De oratione, 14). Advertia, porém, quanto ao perigo de não se respeitar uma certa moderação na altura das mesmas mãos: braços demasiadamente erguidos poderiam ser um sinal equivalente ao olhar altaneiro, indício de falta de humildade. Pouco tempo depois, também São Cipriano, Bispo de Cartago, fazia a mesma admoestação (De dominica oratione, 6).
Talvez o risco dessa imoderação esteja na raiz de um novo comportamento testemunhado por outro africano: Santo Agostinho. De fato, no fim do século IV e início do século V, o Bispo de Hipona ensinava que as pessoas já batizadas deveriam rezar o Pai-nosso todos os dias, mas, na igreja, tal oração era reservada ao sacerdote. Os demais fiéis deveriam apenas escutá-la (Sermo 58). A mesma prática é testemunhada em Roma, no século VI, nos tempos do Papa São Gregório Magno: o Pai-nosso, que ele deslocara do momento imediatamente antes da comunhão para depois da doxologia da oração eucarística (onde se encontra até hoje), era rezado apenas pelo sacerdote (Epistula 12).
Essa aproximação do Pai-nosso à doxologia da oração eucarística (“Por Cristo, com Cristo e em Cristo…”), aliada ao silêncio dos fiéis, fez com que não poucas pessoas sugerissem que a oração dominical da Missa fosse parte da oração eucarística e, por isso, com razão, reservada ao sacerdote. Tal interpretação, contudo, nunca se impôs.
O fato é que, no Rito Romano, até pouco tempo atrás, o Pai-nosso continuava reservado ao sacerdote. Nas chamadas “Missas dialogadas”, os fiéis se uniam ao sacerdote na hora do “mas livrai-nos do mal” (“sed libera nos a malo”). E só! Pouco antes da reforma litúrgica promovida pelo último Concílio, vemos o insinuar-se de uma nova prática: o canto do Pai-nosso, nas missas mais solenes, por parte de todos os fiéis, o que, à época, não raras vezes era tido como abuso litúrgico.
Com a entrada em vigor do Novus Ordo da Santa Missa, a oração dominical é devolvida a todos os fiéis. Diz-se explicitamente que os fiéis se unem ao sacerdote no momento de rezar o Pai-nosso. As rubricas prescrevem que o sacerdote deve ter os braços erguidos. Silenciam, contudo, quanto à postura a ser assumida pela assembleia.
A reforma, portanto, nos dá ensinamentos claros: a oração dominical, na Santa Missa, não pode ser tida como parte ou continuação da oração eucarística; não é, assim sendo, reservada ao sacerdote. É a oração de todo batizado!
Não parece evidente que o fato de só o padre erguer os braços nessa hora estava associado à prescrição de que tal oração lhe era reservada?! Uma vez que a Igreja devolve a oração dominical para os lábios de todos os fiéis, uma vez que a Igreja nos mostra que não se trata de uma oração reservada ao sacerdote, o que impede que os fiéis retomem o grande gesto testemunhado nos alvores do cristianismo?!
Na realidade, aqueles que insistem em dizer que é errado que os fiéis ergam as mãos durante o Pai-nosso da Missa deveriam ser coerentes e ensinar que tal oração, na Missa, só deveria ser pronunciada pelo sacerdote. Noutras palavras, o que estava reservado ao padre não era o gesto, mas, sim, a própria oração; ou melhor, também o gesto porque acompanhava a oração.
Nós não estamos diante de uma postura errada e outra certa. Hoje, o parecer de equilibrados liturgistas é pela possibilidade de que os fiéis rezem o Pai-nosso na Missa com os braços erguidos. Tal foi a orientação dada explicitamente pela Conferência Episcopal Italiana (CEI), em 1983, e tal parece ser a orientação da nossa CNBB. Deve-se primar, contudo, por uma certa comunhão dos gestos (IGMR, 42).
Nesse sentido, quando, numa assembleia litúrgica, ninguém, além do padre, erguer os braços durante o Pai-nosso, não seja o “diferentão”. O mesmo vale para o outro lado da moeda: quando, numa assembleia litúrgica, todos se unirem ao sacerdote na oração do Pai-nosso erguendo seus braços, não fique com os braços cruzados ou as mãos postas insinuando não sei que tipo de conhecimento litúrgico privilegiado.
Mais sério, no entanto, que a posição dos braços é permitir que todo o povo reze o Pai-nosso do início ao fim. Nós, sacerdotes ministeriais, não podemos roubar do povo a ousadia de tratar Deus de Pai. As primeiríssimas palavras da oração - “Pai nosso” - devem ser pronunciadas por todos! Por isso existem diversas opções de introdução à oração dominical. Ao povo não se pode relegar a simples continuação “que estais nos céus…”.
Em resumo: de braços erguidos, quando a assembleia majoritariamente abrir os braços; de mãos postas, quando a assembleia for mais contida. Em toda circunstância: Pai-nosso bem rezado, do início ao fim (não se esqueça de que, na Missa e na Liturgia das Horas, não dizemos o “amém” ao término do Pai-nosso). E mais: não esquente a cabeça com o “alecrim dourado” que insiste em dizer que você está errado ao erguer seus braços. Ele, de braços não erguidos, merece a mesma advertência que Tertuliano dirigia aos “aparecidos” que erguiam os braços de forma imoderada.
*Pe. Paulo Eduardo F. Souza, da Diocese de Jundiaí-SP, fez seu mestrado em Teologia e Ciências Patrísticas no Instituto Augustinianum, de Roma, e atualmente é doutorando de Teologia Patrística pelo Centre Sèvres - Faculdades Jesuítas de Paris.