Escuta povo santo o que o Senhor deseja falar

Escuta povo santo o que o Senhor deseja falar

            Na Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium, ao tratar da reforma e renovação da liturgia os padres conciliares evidenciaram a importância do anúncio da Palavra de Deus, nas ações litúrgicas da Igreja. Além disso, ressaltaram também a urgente necessidade de oferecer, aos membros da comunidade eclesial, um maior acesso a esta Palavra, através da sua abundante proclamação, em meio a assembleia reunida para celebrar o Mistério da nossa fé. Tal indicação, emerge de uma consciência de que não é possível dissociar liturgia e bíblia. Deste ponto podemos afirmar que, aquilo que encontramos registrado nas Sagradas Escrituras, na ação litúrgica é atualizado pela ecclesia orans. Neste sentido, “a Palavra de Deus se revela palavra congregante, é de fato o davar, que não retorna ao Senhor sem resultado, sem ter realizado aquilo para o qual foi enviado” (Boselli, 2017, p. 107). 

             A importância da proclamação da Palavra de Deus na liturgia, recuperada a partir dos ensinamentos conciliares fez nascer ao lado do Missal, o livro próprio a ser utilizado pelo presidente da assembleia, os lecionários: dominical, ferial e para a celebração dos santos e outras circunstâncias. Em três volumes podemos encontrar um rico elenco de leituras, que nos ajudam a acessar os múltiplos tesouros da Palavra do Senhor, que ao ser proclamada no seio de uma assembleia, já nos revela um dos modos de Cristo se fazer presente na liturgia (SC 7). 

            Nos últimos tempos, constata-se um valoroso trabalho formativo, daqueles que na ação litúrgica exercerão o ministério da proclamação da Palavra. Aquele que proclama a leitura, empresta a sua voz a Cristo, a fim de que o Pai, possa comunicar-se com assembleia, por ele mesmo reunida e que ele deseja formar por sua Palavra. A proclamação desta Palavra deve ser feita de modo audível, por isso, exige técnica e preparo, que antecede a própria celebração. Preparar-se para o exercício deste ministério na liturgia é algo de fundamental importância, pois, “todos os cristãos, que pelo batismo e a confirmação no Espírito se convertem em mensageiros da Palavra de Deus, depois de receberem a graça de escutar a palavra, devem anunciá-la na Igreja e no mundo, ao menos com o testemunho de suas vidas” (ILM 7).

            Introduzidos no mistério que somos convidados a celebrar, por intermédio dos ritos iniciais, chegamos à Liturgia da Palavra. Entre as muitas formas que participamos deste momento da celebração é por meio do silêncio, que nos exercita na capacidade de escutar o Senhor que deseja nos falar. “Para que a Palavra de Deus, realmente produza nos corações aquilo que se escuta com os ouvidos, requer-se a ação do Espírito Santo, por cuja inspiração e ajuda a Palavra de Deus se converte no fundamento da ação litúrgica e em norma e ajuda de toda a vida” (ILM 9). É próprio deste momento a atitude de recolhimento, que nos predispõem a fazer um caminho, em que nos deixamos educar pela Palavra anunciada. 

            Na construção deste caminho de escuta da Palavra, podemos nos perguntar sobre a pertinência do gesto ritual do silêncio, para melhor vivenciar este momento da celebração. Os diversos rumores que povoam nossas vidas, muitas vezes adentram as nossas ações litúrgicas e acabam dispersando as nossas assembleias. Estamos reunidos, mas não dispostos plenamente para vivermos a ação litúrgica em espírito e verdade. 

            A Palavra proclamada na liturgia ilumina e nos faz compreender o mistério que somos chamados a celebrar. Na Palavra a comunidade eclesial reunida é formada e exortada a viver a dimensão do discipulado de Jesus. Porém, para que esta formação seja eficaz, o gesto do silêncio se constitui em um importante caminho mistagógico, isto é, uma estrada segura para que nos encontremos com o Mistério, que deve envolver a vida de todos aqueles que tomam parte da assembleia. “Na celebração litúrgica a Palavra de Deus não se exprime sempre do mesmo modo, nem penetra sempre nos corações dos fiéis com a mesma eficácia; mas Cristo está sempre presente em sua palavra e, realizando o mistério da salvação, santifica os homens e presta ao Pai o culto perfeito” (ILM 4). 

            Na Liturgia da Palavra o gesto do silêncio litúrgico, nos abre para um profundo diálogo com Deus. Por isso, escuta e silêncio são duas ações que se interrelacionam neste momento da celebração. Aqui não falamos de uma escuta e silêncio, vividos de uma forma passiva, mas de um exercício de acolhida do mistério que estamos celebrando e que se desvela à medida que a Palavra é proclamada em meio a assembleia. Durante a celebração litúrgica da Palavra de Deus, o silêncio é experienciado antes e entre a proclamação das leituras, após a homilia e durante a oração dos fiéis. 

            Após o amém da oração coleta, a assembleia é exortada a sentar-se e colocar-se numa atitude de recolhimento para a acolhida da Palavra de Deus. O Senhor que congregou o seu povo para celebrar, em Cristo, no Espírito agora deseja por meio dos textos Sagrados comunicar-se e dialogar com a sua comunidade. Para compreender a sua mensagem é preciso fazer silêncio, por isso, neste momento não cabe uma música instrumental de fundo, que acompanhe o gesto da proclamação, mas aqui devemos apenas escutar. A nossa mente, corpo, coração e espírito devem estar voltados para o Senhor. Nada deve nos dispersar. Sendo assim, aqui o silêncio nos ajuda a voltar a nossa atenção para a mesa da Palavra, que nos prepara para a mesa da eucaristia. “Na Liturgia da Palavra, é, sem dúvida, o sentido da escuta o que está particularmente envolvido; nela Deus fala ao seu povo, para alimentá-lo com sua Palavra, e o povo responde a esta Palavra com palavras de fé, aclamações e orações” (Conferência Episcopal Italiana, 2024, p. 43).    

            Neste momento que antecede o anúncio da Palavra de Deus, vem se criando o hábito de se cantar algum refrão que exorta a comunidade a experiência do silêncio e escuta. Todavia, é preciso utilizar-se destes refrões sem que ele ocupe o lugar do silêncio de recolhimento. O silêncio também é canto no Espírito. 

            A arte de bem celebrar a Palavra de Deus nos testemunha a necessidade de se silenciar entre a proclamação das leituras. Este silêncio nos exercita na acolhida da mensagem que a leitura anunciada deseja imprimir no coração humano, como forma de orientação das ações dos membros que forma a assembleia litúrgica, no cotidiano. A proclamação da Palavra, não deve se dar de um modo apressado. É preciso que cada palavra que compõe a leitura seja lida de forma audível, a fim de que a comunidade reunida as compreenda. O bom leitor, que se preparou para o exercício deste ministério anteriormente, é alguém que contribui para que os membros da assembleia se exercitem no silêncio e na escuta, que são necessários para a acolhida e meditação dos textos Sagrados. Na Liturgia da Palavra “a mente e o coração dilatam-se na meditação, no justo equilíbrio entre fala e silêncio” (Conferência Episcopal Italiana, 2024, p. 43). 

            A homilia é um outro momento em que somos exercitados para a prática do silêncio e da escuta. O rito renovado e reformado segundo as orientações do Concílio Vaticano II, resgatou a importante prática, da explicitação da Palavra e exortação a vive-la, dirigida a assembleia, por parte daquele que a preside. O resgate da homilia contribuiu para evidenciar a dimensão educativa e catequética da Liturgia da Palavra. Além do resgate deste importante momento da Liturgia da Palavra, o novo ordo missae, prescreve que após a explicação da Palavra proclamada, o presidente deve motivar à assembleia a viver o silêncio, com o escopo de ruminar a palavra proclamada e meditada. O silêncio aqui observado transforma-se num momento oportuno, para se pensar nos elementos fundamentais para se viver de um modo autêntico e salutar a vida cristã. 

            O silêncio aqui é rompido pela profissão de fé nos domingos e dias solenes ou pela prece universal. Aqui falamos do último momento da vivência do silêncio na Liturgia da Palavra. A prece universal é a Palavra de Deus transformada em oração. As necessidades da Igreja, do mundo, da comunidade local entre outras é sempre expresso por um leitor e a cada pedido o silêncio da assembleia que acompanha atentamente é rompido por uma aclamação. Aqui se observa mais uma vez a importância do silêncio como ação litúrgica, que gera a participação ativa de toda a assembleia. 

            O silêncio como pudemos constatar está unido a escuta. Na esteira da renovação e reforma litúrgica, ainda precisamos percorrer uma longa estrada, a fim de que ele seja vivido na sua plenitude e se resgate, sobretudo, a sua dimensão catequética e de caminho para nos encontrarmos com o Senhor, que se revela por meio de sua Palavra proclamada, que deve ser escutada no coração e vivida por toda a assembleia em espírito e verdade. A este ponto podemos asseverar que é preciso, “educar à beleza do silêncio que acolhe e interioriza, guarda no coração a Palavra do Senhor” (Conferência Episcopal Italiana, 2024, p. 44).  A atenta proclamação da Palavra de Deus e vivência celebrativa deste momento, nos prepara para viver a Liturgia eucarística, onde o gesto do silêncio é experienciado de diversos modos, pela comunidade em oração. 

 

BOSELLI, G. O sentido espiritual da liturgia. Brasília: Edições CNBB, 2017. 

CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA. Um missal para as nossas assembleias: a Terceira Edição do Missal Romano.  Brasília: Edições CNBB, 2024. 

DOCUMENTOS DO CONCÍLIO VATICANO II. São Paulo: Paulus, 2007. 

Instrução Geral do Missal Romano e Introdução ao Lecionário. Brasília: Edições CNBB, 2023.  

 

 
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