FORMADOS PELA LITURGIA E PARA A LITURGIA
Frei Davi Maria, O.Carm*
A formação como caminho de abertura
A formação é uma atividade que acompanha todo o tempo da existência humana. Somos formados até o último instante da nossa existência. Dessa maneira, a formação é uma verdadeira arte. Ela nos modela e nos refaz segundo uma intenção maior, não constituindo um fim em si mesma, mas, apontando para algo maior e que a transcende. A formação torna-se ainda mais bela quando forma um caminho que a medida em que é tomado o sujeito vai se aperfeiçoando.
Há de levar em conta também que, a formação, seja ela qual for é um caminho de liberdade. Nenhuma ação formativa conseguirá educar verdadeiramente alguém que esteja forçado a está em determinado lugar, ou se é formado em liberdade, isto é, fazendo uma escolha clara e consciente, sabendo das exigências próprias daquele caminho, ou a formação provavelmente não atingirá o seu objetivo.
Em toda a Igreja e não apenas nos seminários, casas de formação de dioceses e ordens religiosas a formação é algo pertinente e fundamental. No entanto, devemos ser conscientes de que a liturgia é a primeira e necessária fonte onde podemos beber do espírito genuinamente cristão (SC 14). Toda a vida eclesial e espiritual da Igreja cresce na Liturgia. Nela a Igreja encontra a força para sua caminhada e a inspiração necessária para sua missão (SC 12). Sem a Liturgia a Igreja estaria fadada a um assistencialismo vazio. Na Liturgia, a Igreja encontra Cristo e o presentifica no hoje da história, levando Cristo ao coração do homem e o homem ao coração de Cristo (SC 7). Assim, a liturgia constitui uma grande escola de formação espiritual para todos os cristãos, razão pela qual devemos procurar com o máximo empenho uma devida educação a partir da liturgia (SC 14).
Uma ação de “fluxo e refluxo”, isto é, de levar Cristo ao homem e o homem a Cristo, pode ser visto de modo especial na vida sacramental da Igreja. Nos sacramentos somos conformados a uma vida “Cristiforme”, ou melhor, a uma existência que assuma as características e os sentimentos de Jesus Cristo.
A graça de Deus sempre atua em nossa vida, porém, para que haja a eficácia sacramental é necessária uma disponibilidade ou abertura interior ao dom de Deus. A disponibilidade interior é marcada pela humildade com que nos aproximamos da celebração litúrgica: “só pode aproximar-se da sarça ardente na Liturgia quem depuser as suas sandálias e se prostrar” (CORBON, 2017, p. 98).
Embora os sacramentos não sejam a única forma de se levar Cristo ao homem - existem outras tantas - eles são dom visível da Graça de Deus na vida da Igreja. Neles somos educados e formados: educados a vida cristã mais eficaz e formados a uma participação mais eficiente nos mistérios de Cristo. Para receber a Eucaristia somos chamados não apenas a tomar a fila da comunhão, mas antes a fazer da nossa vida uma comunhão com Deus e com os irmãos. Portanto, a recuperação mais alta da formação litúrgica é possível somente a partir de e em vista de uma necessidade de participação à ação litúrgica que saia da contraposição entre interno e externo, individual e comunitário, subjetivo e objetivo, publico e privado (GRILLO, 2017, p. 33).
Liturgia e espiritualidade
A liturgia é caminho formativo e fonte de espiritualidade para toda a Igreja. Existem muitas formas de vida espiritual, sobretudo, nas Ordens religiosas mais antigas e nas Congregações. Nos dias atuais, diversas formas de espiritualidades, com características próprias que envolvem uma vida espiritual autêntica. Algumas delas não partem da liturgia como fonte de seu carisma. Entretanto, devemos afirmar que a liturgia não é uma entre tantas formas de espiritualidade cristãs, ela é a espiritualidade cristã.
A Igreja vive da Liturgia. Esta é a primeira decisiva, não exclusiva. A Liturgia é a primeira escola da fé e da vida espiritual. Nela deixamos de falar sobre Deus para falar a Deus e agirmos em Deus. A Liturgia não é um rito, nem uma mera execução de rubricas, mas ethos e, fundamentalmente, uma arte da ação (CORDEIRO, 2014, p. 94).
A liturgia nos forma e nos conduz a uma verdadeira vida espiritual que não está de modo algum separada da vida humana, antes, está unida e em plena sintonia de quem tem o máximo contato possível. Desse modo, é evidente que a formação litúrgica tem tudo a ver estruturalmente com a questão espiritual (GRILLO, 2017, p. 25). Vagaggini afirma que, “na teoria das relações entre Liturgia e espiritualidade e entre Liturgia e pastoral, a ciência litúrgica realiza o máximo do contato possível com a vida” (VAGAGGINI, 2019, p. 555).
Não se pode separar a liturgia da vida. Vivenciamos na vida o que celebramos na liturgia e celebramos aquilo que vivemos na vida. A liturgia é expressão de fé (cume) e experiência da fé (fonte). A ação ritual, portanto, deve influenciar os nossos atos e, até mesmo, nos formar e educar humanamente. A liturgia é para nossa vida um caminho de formação que levado a sério torna-se vida em nossa vida.
Quando falamos de formar pela liturgia e para a liturgia, lembramos que não apenas ela nos é meio de formação, isto é, nosso aperfeiçoamento em Cristo, mais que nossa vida deve estar orientada para ela, pois, na liturgia, Cristo Jesus se faz presente e atuante em nossa vida: “só uma vida autenticamente litúrgica gera uma verdadeira evangelização” (CORDEIRO, 2014, p. 95).
Por isso se faz necessário que olhemos sempre a liturgia como fonte primária da espiritualidade cristã: “culmen et fons” da ação eclesial do sujeito batizado. Efetivamente, o segredo de uma boa e frutuosa ação pastoral está na participação ativa, plena, consciente na liturgia e na redescoberta do real significado dos sacramentos, do ano litúrgico, dos gestos e dos símbolos.
O Ano Litúrgico deve ser considerado como uma autêntica Liturgia, ou seja, o conjunto dos momentos salvíficos, celebrados ritualmente pela Igreja, mediante a Eucaristia que é memorial dos acontecimentos do Mistério da Salvação realizados na história (CORDEIRO, 2014, p. 102).
Olhando para o ano litúrgico e para o ofício litúrgico diário percebemos como sua organização corrobora para nossa santificação (SC 88). O calendário do Ano Litúrgico não se fundamenta em coisas passageiras, mas, antes, em quatro grandes pilares da fé: o Cristocentrismo, a Páscoa, a Sagrada Escritura e os Sacramentos (S. Marsili). Assim, nos mistérios da vida do Senhor, desde seu nascimento até o ponto mais alto de nossa fé, a Páscoa, converge nossa caminhada espiritual (SC 5).
No ano litúrgico somos chamados a guiar nossa vida numa atitude de docilidade ao Espírito e de fé na ação divina. Com a recordação dos mistérios da Redenção, a Igreja oferece aos fiéis as riquezas das obras e merecimentos do seu Senhor, a ponto de os tornar como que presentes a todo o tempo, para que os fiéis, em contato com eles, se encham de graça (SC 102).
O ciclo sagrado da liturgia deve nos falar da eternidade e não da vida terrestre que germina hoje, floresce amanhã, dá seu fruto e morre. Mesclado à eternidade o ano eclesiástico não conhece a morte. Nele tudo é vida mesmo através da morte. A natureza guarda uma sombra de eternidade quando ele morre para reviver, mas essa ressurreição se faz sempre por uma nova morte. A flor dura pouco, e com a morte é longa! O Ano Litúrgico não conhece inverno... Cristo é, portanto, o Dia que resplandece à luz da eternidade (CASEL, 2011, p. 87).
A espiritualidade cristã é, portanto, litúrgica e encontra na liturgia seu fundamento, Cristo Jesus. Ele é sempre o protagonista na celebração litúrgica (SC 7). Sendo assim, a liturgia não se reduz a uma repetição vaza de rubricas, mais, na presentificação, atuação e contínua formação do Mistério de amor de Cristo no corpo místico de sua esposa: “a economia da salvação tornou-se Liturgia” (CORBON, 2017, p. 40). Com efeito, alguém pode nos perguntar: qual a espiritualidade da liturgia? Logicamente, a espiritualidade litúrgica é pascal na sua essência. Essa é a resposta mais potente e profunda que podemos dar. É a partir da Páscoa que todos os outros mistérios contidos no ano litúrgico e celebrados no decorrer do calendário ganham sentido e razão de ser (SC 102). Sem a Páscoa do Senhor, o calendário Litúrgico seria apenas uma boa organização de festas da nossa fé.
O Ano Litúrgico é para nós a capacidade de crescer na consciência do Mistério de Cristo, mergulhando a nossa vida no Mistério de sua Páscoa, à espera do seu retorno. Essa é a verdadeira formação permanente. Nossa vida não é uma sucessão aleatória e caótica de acontecimentos, mas um caminho que, de Páscoa a Páscoa, nos conforma a ele, ‘enquanto, vivendo a esperança, aguardamos a vinda do Cristo Salvador’ (DD 64).
Formar para a vida interior
Alguns podem desprezar a liturgia afirmando que ela seja apenas culto, contrapondo liturgia e obras de caridade. Sabemos, no entanto, que tal ideia está equivocada. A liturgia é simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força. O trabalho apostólico ordena-se a conseguir que todos os que se tornaram filhos de Deus pela fé e pelo Batismo se reúnam em assembleia para louvar a Deus no meio da Igreja, participem no Sacrifício e comam a Ceia do Senhor. A liturgia, por sua vez, impele os fiéis, saciados pelos mistérios pascais, a viverem unidos no amor (SC 9).
Sendo assim, mais uma vez reafirmamos, que liturgia e vida não podem estar contrapostas. A liturgia forma para a interioridade para que deste modo a exterioridade, isto é, nossos atos e palavras, sejam iluminados e guiados por Aquele que é o centro da ação litúrgica-sacramental, Cristo Jesus.
Para formar para a interioridade devemos levar em conta a educação ao silêncio, tão extinta na sociedade e nas nossas Igrejas. O silêncio não é omissão, ou um modo de se esquivar da comunidade celebrante, ou ainda, um não comprometimento com a vida batismal. Ele é abertura ao Senhor que nos fala.
Sem o silêncio, o nosso diálogo torna-se superficial, sem possibilidade de compreender o mistério do outro, de concentrar-se na escuta. O silêncio atualiza a nossa capacidade de solidariedade... as pessoas amigas do silêncio chegam àquela pacificação interior que lhes permite falar, comunicar-se, viver e trabalhar mais eficazmente, pois o silêncio é também o clima da criatividade (COTTA, 2011, p. 18-19).
O silêncio nos conduz a um triplo encontro: conosco, com Deus e com os irmãos, corpo místico de Cristo. É curioso o fato de que ao falarmos de liturgia e silêncio, concebemos o mesmo como meio de encontro primeiro consigo e só depois com Deus, isso é simples, quem não é capaz de se encontrar consigo mesmo, de se olhar e dizer quem você é, para além das expectativas dos outros e de se aceitar, com suas limitações e pequenez não será capaz de se encontrar com o Deus Paterno que Jesus revelou ao mundo. Por isso que a liturgia não é algo meramente espiritual, é também humano, pois nela não se separa uma coisa da outra.
Encontrando-se consigo mesmo, o homem é capaz de se encontrar com Deus que o habita, talvez seja esta uma das maiores descoberta da vida do homem: o encontro com Deus, encontro este que é capaz de mudar toda a existência de alguém. Francisco de Assis e Teresa de Jesus quando se encontraram com Deus mudaram de vida e não mais viviam do mesmo modo ou em mediocridade, também na vida de Elisabete da Trindade acontece a mesma coisa quando ela toma consciência que é habitada pela Trindade. Contudo, o encontro consigo e com Deus são provados e testemunhados na vida do homem por meio do encontro com os irmãos. Se quisermos saber quem de fato reza, basta olhar para sua vida e saberemos, isto é, pelos atos exteriores percebemos quem está unido ao Senhor na oração. Este triplo encontro necessita, no entanto, da interioridade e do silêncio para ser experienciado.
A dinâmica da interiorização deve, portanto, estar no coração da liturgia, porquanto, se os textos e os gestos da liturgia não chegam a ser interiorizados por quem participa da liturgia, estes textos e gestos não se tornam o alimento do cristão, não formam sua identidade profunda de cristão (BOSELLI, 2019, p.157).
A interiorização e o silêncio não constituem um fim em si mesmos, antes, apontam para uma realidade maior e transcendente que é o encontro com Cristo na liturgia. O que de fato nos interessa é o encontro com Ele. A interiorização e o silêncio nos ajudam a entrar na vida litúrgica da Igreja. Apontando para o essencial, fazem parte da formação litúrgica.
Uma formação para a interioridade nos leva a descobrir a beleza da liturgia. Por conseguinte, o silêncio é o condutor para uma vida mais profunda espiritualmente. Os fiéis participam ativamente da liturgia não apenas quando respondem as partes que lhe cabem, mas, também, quando silenciam, pois, é necessário que deixemos que o Mistério do Senhor na liturgia nos fale, por isso também que é preciso o devido cuidado com algumas “criatividades” que acabam sufocando a voz do Mistério na liturgia. Quando numa atitude interior de oração, fazemos silêncio, conseguimos guiados pela Graça de Deus participar de forma interior e exterior da Ação Sagrada do Cristo.
A formação litúrgica pela mistagogia
A formação é algo que dura a vida inteira, como afirmamos. Toda pessoa verdadeiramente sábia nunca se considerará pronta e acabada. Os sábios sempre são eternos aprendizes. Exatamente, por isso, o Papa Francisco dedica uma Carta Apostólica – “verdadeiro poema apostólico” – sobre a Formação Litúrgica. É preciso redescobrir, a cada dia, a beleza da celebração cristã (DD 21).
A liturgia não é uma composição de rubricas, nem momento para autopromoção, por isso nela encontramos o remédio que pode nos curar da “mundanidade espiritual” (DD 17). A liturgia nos garante o encontro com Cristo, “na Eucaristia e em todos os sacramentos, é garantida a nós a possibilidade de encontrarmos o Senhor Jesus e de sermos alcançados pelo poder da sua Páscoa” (DD 11).
Entre tantos objetivos que possamos elencar sobre a necessidade da formação Litúrgica, vamos escolher três: global, eclesial e sacramental. No objetivo global, a formação litúrgica deve visar a educação integral dos filhos de Deus, cuidando especialmente da dimensão espiritual e da vida no Espírito, sem esquecer a dimensão social e comunitária da ação religiosa. No objetivo eclesial, devemos ser conscientes de que não adianta se aproximar do altar sem o sentido de pertença à Igreja. A liturgia é o corpo místico que se reúne em torno da mesa do Senhor na Eucaristia. Desse modo, a formação litúrgica precisa fomentar a consciência eclesial e de pertença a uma comunidade local que se torna assembleia de culto na celebração. O objetivo sacramental encontra sua razão de ser na própria graça que atua no sacramento que é sinal da Graça Maior do Dom de Deus. Cada sacramento possui características, gestos, ritos, orações e, até mesmo, expressões corporais que lhe são próprios e que seria de grande perda para a liturgia caso fossem desprezados. Portanto, o caminho da formação litúrgica é mistagógico, ou seja, orientada pela própria ação litúrgica para a introdução cada vez mais profunda e vital no mistério que se celebra (MARTÍN, 2022, p. 64). O mistagogo da Liturgia é Cristo. Ele mesmo nos conduz ao Seu Mistério. Para que a Liturgia possua essa característica tão valiosa aos Padres da Igreja é preciso uma boa catequese, ou seguindo nossas palavras, uma boa e ampla formação, não a partir de um olhar fechado, mais sempre aberto. livre e amplificado.
A mistagogia ocorre não a partir de uma experiência meramente antropológica, ou a partir de uma ‘pedagogia’ genérica da fé, mas a partir da sinergia divina ou comunicação interior de Deus ao homem por meio da eucaristia e dos demais sacramentos. Através da Liturgia, o Espírito Santo transmite ao homem uma ‘experiência’ viva e distinta (MARTÍN, 2022, p. 483).
Devemos cuidar de uma formação com características mistagógicas, que nos leve a “redescobrir, custodiar e viver a verdade e a força da celebração cristã” (DD 16), a ser capaz de se maravilhar, se espantar, positivamente, diante do Mistério litúrgico, tão profundo e tão simples, tão transcendente e tão imanente. Este entendimento nos ajuda na superação da dicotomia existente entre o que se celebra e o que se vive, entre liturgia e espiritualidade, pois, a primeira é a fonte primaria da segunda, e a segunda na vida do homem é o campo amplo para a vivência da liturgia.
No primeiro milênio, ou na chamada era dos Padres da Igreja, a experiência de uma liturgia mistagógica era algo comum na vida dos cristãos. A mística estava em sintonia com a vida, de tal modo que os mistérios celebrados encontravam plena sintonia no dia a dia da caminhada cristã. A experiência mistagógica da liturgia para os Padres da Igreja e os primeiros cristãos, era um modo de viver três lex, cunhadas por Próspero de Aquitânia, lex orandi, lex credendi e lex agendi ou vivendi. Rezamos o que que cremos e vivemos. É nisso que está o fundamento da uma eficiente ética litúrgica: “a liturgia poderia ser considerada não só um ‘lugar teológico’, mas também um ‘lugar ético’, uma fonte de conhecimento da moralidade do agir cristã e de impulso para esse agir”(TABORDA, 2015, p.15).
Para Agostinho de Hipona, a prática litúrgica deve estar centrada na Sagrada Escritura e celebrada sempre, como recebemos do Senhor o mandato, usando suas palavras (lex orandi). Já o memorial do Senhor torna-se um dado daquilo que se crer, isto é, o Senhor se entrega por nós (lex credendi), porém, estas duas lex devem encontrar sintonia com o que se vive. Se o Cristo Senhor fez, devemos seguir seus e agir da mesma forma, isso é a (lex agendi ou vivendi), assim “a Liturgia, por sua vez, não será simplesmente um momento de vivência estética, mas o deixar que o mistério de Deus penetre nossas vidas, e o trazer para diante (offerre) de Deus o que estamos tentando viver no dia a dia” (TABORDA, 2015, p.38).
Traçando um esboço mistagógico da liturgia eucarística, Taborda enumera cinco passos a serem dados. O primeiro deles é o rito. Para uma Liturgia bem celebrada a que se considerar o rito, não como um mero rubricismo, antes, como fidelidade aquilo que nos foi ensinado e repassado pelos Padres da Igreja. O segundo passo é a raiz bíblica do evento salvífico, o evento salvífico em questão nesta narrativa é a aliança de Deus com seu povo, selada na Palavra e no Sacrifício. No Novo Testamento, a narrativa dos fatos interligados ao Senhor, faz com que o coração dos dois discípulos de Emaús, arda, pois, a Palavra prepara a eucaristia; esta realiza o que foi proclamado, fazendo descobrir quem é aquele que a proclama. Uma remete à outra. No terceiro passo, o evento salvífico da aliança é intermediado pela eucaristia, aliança esta que agora é nova e eterna, não passa e nem envelhece. Se antes o povo de Deus necessitava da renovação da aliança e da observância dela como meio de fidelidade ao Deus dos patriarcas, agora, na Páscoa de Jesus Cristo, a uma só e perfeita aliança, de tal modo que nos basta a fidelidade a mesma, não precisamos de outras. O quatro passo é a volta ao rito, agora numa atenção maior, não como uma realidade fenomenológica, apenas, mas, em atenção ao Cristo-Palavra que é o pão descido do céu a ser acolhido na fé. O quinto passo é a dinâmica sacramental que acontece na Igreja (TABORDA, 2015, p.49-51).
Em síntese, citando o Carmelita medieval Tomás Valdense (+1430), Cesare Giraudo, diz que, “a Igreja é o corpo místico de Cristo no qual cada cristão se transubstancia pela recepção do Batismo e da Sagrada Eucaristia” (GIRAUDO, 2014, p.310). A dinâmica sacramental é sempre viva e atuante na Igreja, isso porque o núcleo dos sacramentos é a Páscoa do Senhor.
Quando somos formados pela Liturgia e para a Liturgia, somos modelados pelo Senhor e para Ele mesmo, a nós cabe a abertura e docilidade à sua voz quando chama a comunhão com Ele por meio da Liturgia e do seu corpo místico que é a Igreja, sem esquecermos a humildade que cabe em todo processo formativo, sem ela cairemos na mediocridade em nos achar prontos, quando na realidade o que somos, só o somos pela Graça do Senhor realizada em cada Páscoa, em cada Liturgia e se por acaso um dia não houver mais quem fale em Liturgia, não tem problema, a Liturgia falará e ensinará por si mesma, pois ela é Páscoa sempre presente.
Referências bibliográficas
BOSELLI, Goffredo. O sentido espiritual da liturgia. Brasília-DF: Edições CNBB, 2019.
CONSTITUIÇÃO Sacrosanctum Concilium. In: ENQUIRÍDIO DOS DOCUMENTOS DA REFORMA LITÚRGICA. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia de Portugal, 2014.
CORBON, Jean. A fonte da liturgia. Prior Velho – Portugal: Paulinas, 2017.
CASEL, Odo. O mistério do culto no cristianismo. São Paulo - SP: Edições Loyola, 2009.
FRANCISCO. Carta Apostólica Desiderio Desideravi. São Paulo: Paulinas, 2022.
CORDEIRO, José Manuel. Corações ao alto. Introdução à Liturgia da Igreja. Lisboa: Paulus, 2014.
COTTA, Augusta. O silêncio na vida carmelitana. Juiz de Fora - MG: Ed: Mosteiro da Santa Cruz, 2011.
GIRAUDO, Cesare. Num só corpo. Tratado mistagógico sobre a Eucaristia. São Paulo – SP: Edições Loyola, 2014.
GRILLO, Andrea. Ritos que educam. Os sete sacramentos. Brasília: CNBB, 2017.
MARTÍN, Julián. A liturgia da Igreja. Teologia, história, espiritualidade e pastoral. Petrópolis – RJ: Vozes, 2022.
TABORDA, Francisco. O memorial da Páscoa do Senhor. Ensaios litúrgico-teológicos sobre a Eucaristia. São Paulo – SP: Edições Loyola, 2015.
VAGAGGINI, Cipriano. O sentido teológico da liturgia. São Paulo – SP: Edições Loyola, 2009.
*Frade carmelita da Província Carmelitana Pernambucana. Formado em Filosofia e estudante de Teologia, na Universidade Católica de Pernambuco - Unicap.