Haec hostia & Percipientes, Domine
As orações Sobre as oferendas e Depois da comunhão
do II Domingo da Quaresma
Parte I
Haec hóstia
Observemos imediatamente como a Oração sobre as oferendas do II Domingo do Tempo da Quaresma se apresenta na edição típica latina do Missal Romano e a sua atual tradução para uso da Igreja no Brasil.
2008MR:
Haec hostia, Domine, quaesumus, emundet nostra delicta, et ad celebranda festa paschalia fidelium tuorum corpora mentesque sanctificet.
2023MRB:
Esta[s] oferenda[s], Senhor, apague[m] os nossos pecados e santifique[m] os corpos e as mentes dos vossos fiéis para a celebração da Páscoa [para as festas pascais a serem celebradas].
Sobre a sua procedência
Essa oração pode, muito provavelmente, ter saído da pena de São Gregório Magno, dado os vários paralelos que se encontram entre as suas obras e determinadas elementos da prece. A oração, ligeiramente diferente da sua forma atual, vem da tradição episcopal/papal. A sua fonte mais antiga, por ordem de cronologia de formação histórica do Sacramentario Gregoriano, é o Sacramentário Patavino (Pad). Entre 670-680 um “Sacramentário” em forma germinal, dedicado às celebrações papais, foi adaptado para uso dos presbíteros que na época davam assistência pastoral à basílica cemiterial de São Pedro, no Vaticano. Os compiladores acrescentaram-lh elementos do Sacramentário presbiteral (GeV) e de outras fontes para completar o que faltava para um ambiente “paroquial”. Esse Sacramentário foi chamado “Patavino”, porque o melhor códice existente do seu modelo encontra-se na cidade de Pádua. A oração aparece, sempre como Sobre as oferendas, em cinco celebrações diferentes: para o III domingo depois ad Epifania (Pad 95: XXII. Dominica III post Epiphaniam, Super obl[ata]); para o domingo da Quinquagesima (Pad 125: XXXI. In Quinquagesima ad sanctum Petrum, Super oblatam) e da Trigésima (Pad 203: XLVIII. Die dominico] ad sanctum Laurentium in [Trigesi]ma, Super oblatam); para a celebração da memória do Papa Santo Urbano I († 230) (Pad 453: CII. Natalis sancti Urbani papae, Super obl[ata]) e para a quarta-feira (têmporas) do mês de setembro (Pad 681: CLXVI. [Orationes mensis VII], Feria IIII ad sanctam Mariam maiorem, Super obl[ata]):
Pad:
Haec hostia, Domine, quaesumus, emundet nostra delicta, et sacrificium celebrandum, subditorum tibi corpora mentesque sanctificet.
A versão do Gregoriano anterior ao Pad difundiu-se “clandestinamente” para além dos Alpes, adaptando-se para o uso de um bispo, obviamente, fora de Roma. O seu único e eloquente registro é o chamado Sacramentário de Trento (GrT). Nele, a nossa oração, na sua forma patavina, está assinalada para três ocasiões. Encontra-se, antes de tudo, entre as orações para a livre escolha do celebrante principal, destinadas ao uso cotidiano (Tre 61: I. [Orationes cottidianae cum canone], Postea oratio super oblata); para o domingo da Quinquagesima (Tre 207: XXVI. In Quinquagesima ad sanctum Petrum, Super oblata) e para a Ordenação episcopal (Tre 972: CLXXVIII. Benedictio Episcoporum, Secreta).
Ligeiramente modificada em relação à forma patavina, aparece outras quatro vezes, destinada ao III domingo da Quaresma (Tre 286: XLIIII. [In Quadragesima], Die dominico ad sanctum Laurentium foris Murum, Super oblata); à terça-feira da IV semana da Quaresma (Tre 321: LIII. [In Quadragesima], [Die dominico ad Hierusalem], Feria III ad sanctum Laurentium in Damasum, Secreta), à memória do Papa Santo Urbano (Tre 551: XCIIII. Natale sancti Urbani papae, Secreta) e à quartas-feiras (têmporas) do mês de setembro (Tre 746: CXL. [Mense septimi, Orationes die dominico ad sanctum Petrum], Feria IIII ad sanctam Mariam maiorem, Secreta]):
Pad:
Haec hostia, Domine, quaesumus, emundet nostra delicta, et sacrificium celebrandum, subditorum tibi corpora mentesque sanctificet.
Tre
Haec hostia, Domine, quaesumus, emundet nostra delicta, et ad sacrificium celebrandum, subditorum tibi corpora mentesque sanctificet.
À versão do Gregoriano anterior ao Pad os papas introduziram uma série de festas e de novos formulários, ficando assim configurado o sacramentário papal usado em Roma até o pontificado do Papa Adriano I (772-795). “É o seu nome (Hadrianum - GrH) que se utiliza para identificar o sacramentário nessa forma como se encontrava no fim do século VIII, quando Carlos Magno solicitou ao Papa um sacramentário puro e autêntico com o objetivo de estabelecer a unidade litúrgica no reino franco”[1]. No GrH a Oração é destinada a seis celebrações: Had 24: 2: Benedictio Episcoporum, Super oblata; Had 151: 34: In Quinquagesima ad sanctum Petrum, Super oblata; Had 230: 52: [Die dominico] ad sanctum Laurentium foris Murum, Super oblata; Had 265: 61: [In Quadragesima], [Die dominico ad Hierusalem], Feria III ad sanctum Laurentium in Damaso, Super oblata; Had 505: 109: Natale sancti Urbani papae, Super oblata e Had 707: 164: [Mensis septimi, Orationes], Feria IIII ad sanctam Mariam maiorem, Super oblata.
Assim apresenta-se o quadro sinótico do uso da Oração Haec hostia nos sacramentários romanos:
Para o terceiro III domingo depois ad Epifania = Pad 95.
Para o domingo da Quinquagesima = Pad 125; Tre 207; Had 151.
Para o domingo da Trigésima = Pad 203.
Para a memória do Papa Santo Urbano = Pad 453; Tre 551; Had 505.
Para a quarta-feira das têmporas do mês de setembro = Pad 681; Tre 746; Had 707.
Para uso cotidiano = Tre 61.
Para a Ordenação episcopal = Tre 972; Had 24.
Para o III domingo da Quaresma = Had 230.
Para a terça-feira da IV semana da Quaresma = Tre 286; Tre 321; Had 265.
Da identificação e uso da Oração Haec hostia nos sacramentários romanos de tipo papal/episcopal podemos afirmar, por causa do seu abundante uso, que ela gozava de uma grande apreciação, talvez por causa dos seu autor e, contemporaneamente, tinha uma multifuncionalidade teológica, servindo para muito gênero de celebrações.
Os Gelasianos do século VIII, todavia, empregaram a Oração exclusivamente para o III domingo após a Epifania:
SGall 157: 28. Dominica III post Teophania, Super oblata
Gell 178: XXVIII (31). Dominica] tercia pus[t] Theophania, S[e]cr[eta]
Eng 173: XXVIII. Dominica III post Theophaniam, Secreta
Aug 182: XXX. Tertia dominica post Theophaniam, Secreta
SupTre 1059: III. Dominica III post Theophania, Secreta
Sup 1103: VIIII. Dominica III post Theophania, Super [oblata]
Os Missais impressos, a partir de 1474, acolheram a Oração para as seguintes ocasiões:
Para o III domingo depois ad Epifania:
= 1474MR 281: Dominica tertia post Epiphaniam, Secre[ta].
= 1570MR 443: Dominica tertia post Epiphaniam, Secreta.
= 1962MR 313: Dominica tertia post Epiphaniam, Secreta.
= 1962MR 1736: Dominica tertia quae superfuit post Epiphaniam, Secreta.
Para o domingo da Quinquagesima:
= 1474MR 331: Dominica in Quinquagesima, St[ati]o ad s[an]c[tu]m Petrum, Secreta.
= 1570MR 538: Dominica Quinquagesima, Statio ad sanctum Petrum, Secreta.
= 1962MR 373: Dominica in Quinquagesima, Statio ad S. Petrum, Secreta.
Para a memória do Papa Santo Urbano:
= 1474MR 1906: [In san]c[t]i Urbani, Se[creta].
= 1570MR 2640: Sancti Urbani Papae [et] martyris, Secreta.
Para a quarta-feira das têmporas do mês de setembro:
= 1474MR 1505: Feria quarta quatuor temporum [septembris], Statio ad sanctam Mariam maiorem, Se[creta].
= 1570MR 2065: Feria IIII Quatuor Temporum mensis septembris, Statio ad sanctam Mariam maiorem, Secreta.
= 1962MR 1621: Feria quarta Quatuor Temporum septembris, Statio ad S. Mariam maiorem, Secreta.
Para o III domingo da Quaresma:
= 1474MR 552: D[omi]nica tertia in Quadragesima, Sta[ti]o ad s[an]c[tu]m Laurentiu[m] ex[tra] muru[m], Secreta.
= 1570MR 813: Dominica III in [Quadragesima], Statio ad sanctum Laurentium extra muros, Secreta.
= 1962MR 611: Dominica III in Quadragesima, Statio ad S. Laurentium extra muros, Secreta.
Para a terça-feira da IV semana da Quaresma:
= 1570MR 922: Feria III [post IIII Dominicam Quadragesimae], Statio ad S. Laurentium in Damaso, Secreta.
= 1962MR 704: Feria tertia [post Dominicam IV in Quadragesima], Statio ad S. Laurentium in Damaso, Secreta.
Para a terça-feira da III semana da Quaresma:
= 1474MR 571: [Dominica tertia in Quadragesima], Feria tertia, St[ati]o ad S. Pote[n]tiana[m] in Damaso, Secreta.
Como visto, a nossa oração continuou a ser usada ao longo dos séculos. Às vésperas do Concílio Vaticano II, o 1962MR, em continuidade com a tradição do sacramentários de tipo papal, continuou empregando-a para o Domingo da Quinquagésima, o III Domingo da Quaresma, a terça-feira após o IV Domingo da Quaresma e a Quarta-feira das Têmporas de setembro, juntamente com o III Domingo após a Epifania. Apenas o Tre a utilizava como opção para o uso cotidiano e, juntamente com o GrH, para a consagração de bispos. A festa do Papa Santo Urbano desapareceu depois de 1604.
O texto original claramente tinha um paralelismo entre “Haec hóstia” (Esta oferenda) e “sacrificium celebrandum” (sacrifício a ser celebrado), enquanto nos séculos posteriores houve uma tendência intermitente de dissolver essa estrutura rara e resolver o problema percebido inserindo um “ad” antes de “sacrificium” (Tre 286.321.551.746). O 1474MR e o 1570MR o demostram (cf. 1474MR: 281.331.552.571.1505.1906; 1570MR: 443.538.571.813.922.2640; 1962MR: 313.373.611.704.1736). Foi com base na modificação com “ad” que os revisores recentes introduziram sua referência à Páscoa.
1970MR p. 192: Dominica II in Quadragesima, Super oblata.
1975MR p. 192: Dominica II in Quadragesima, Super oblata.
2000/8MR p. 218: Dominica Il in Quadragesima, Super oblata.
Pad:
Haec hostia, Domine, quaesumus, emundet nostra delicta, et sacrificium celebrandum, subditorum tibi corpora mentesque sanctificet.
Ter:
Haec hostia, Domine, quaesumus, emundet nostra delicta, et ad sacrificium celebrandum, subditorum tibi corpora mentesque sanctificet.
2008MRB:
Haec hostia, Domine, quaesumus, emundet nostra delicta, et ad celebranda festa paschalia fidelium tuorum corpora mentesque sanctificet.
Discurso sobre as fontes Bíblicas e a teologia litúrgica
A oração Haec hostia tem a seguinte estrutura: uma invocação simples (Domine), uma dupla petitio (emundet nostra delicta / fidelium tuorum corpora mentesque sanctificet), uma justificativa, que indica o escopo da petitio (ad celebranda festa paschalia) e uma conclusão simples, própria dessa tipologia de eucologia menor. As primeiras palavras (haec hostia) determinam o seu uso e indicam o momento ritual, ligando-se ao hodie litúrgico.
A oração, expressando o desejo de purificação e santificação dos fiéis em preparação para a Páscoa, reflete vários temas bíblicos, especialmente ligados à purificação e à preparação para as celebrações pascais. Na petição por purificação (emundet nostra delicta) ecoa a súplica do salmista por perdão (Sl 50,2 “Lava-me completamente da minha culpa e purifica-me do meu pecado”) e a ideia de preparar corpo e mente para a Páscoa reflete o ensinamento paulino de que a celebração pascal exige os movimentos de conversão e de santificação (1Cor 5,7-8: “Purificai-vos do velho fermento para que sejais uma nova massa, pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado”), assim como o pedido de santificação dos corpos e das mentes reforça a visão do “Apóstolo das gentes” de que a vida cristã envolve a oferta total do ser a Deus (Rm 12,1-2 “Apresentai os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. Essa riqueza de teologia bíblica ilumina a compreensão litúrgica da Eucaristia.
A oração Haec hostia, expressa uma profunda teologia sacramental, centrada no papel purificador e santificador da Eucaristia. O vocábulo hostia traduz o conceito de “sacrifício expiatório” que, na teologia cristã, identifica-se com o próprio Cristo, a verdadeira oferenda, “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). O sacrifício/Cristo torna-se presente no altar em cada celebração eucarística. De fato, a eucaristia não se configura como uma repetição do sacrifício de Cristo, mas a sua atuação sacramental, de modo a serem, Cristo, o seu sacrifício e a celebração do memorial, uma só e mesa realidade (cf. CIC 1367). Desde esse momento, a participação ativa dos fiéis ao trazer ao altar os dons não é apenas um ato litúrgico externo, mas já uma participação no sacrifício de Cristo, que purifica e santifica.
A eucaristia, purificando, transforma os fiéis santificando-os não apenas a alma, mas também o corpo, de tal modo a manifestar neles, ao mundo, a ressurreição gloriosa. A prece deixa claro que o objetivo final dessa purificação e santificação é a participação plena no mistério pascal de Cristo, atuado, especialmente, a cada celebração anual da Páscoa.
A expressão da primeira petição “emundet nostra delicta” coloca em evidência a dimensão da dinâmica penitencial da Eucaristia. A eucaristia configura o crente a Cristo, separando-o do pecado (cf. CIC, 1394) e fazendo-o crescer em santidade. Tal pedido de purificação antes das festas pascais, recorda a tradição bíblica do “fermento velho que deve ser lançado fora, abandonado” (1 Cor 5,7), simbolizando a conversão necessária para a nova vida em Cristo.
A expressão da segunda petição “corpora mentesque sanctificet”, antes de tudo, reflete uma compreensão integral do ser humano, unindo corpo e alma no caminho de santificação. A esse ponto, a prece da Igreja nos recorda que a eucaristia não apenas purifica, mas também deifica a pessoa humana, tornando-a sempre mais conforme à imagem de Cristo, permitindo que sua graça penetre em todas as dimensões do ser. Então, a inteireza (“corpo”) do ser, santificada pelos ritos eucarísticos, antecipa a ressurreição futura, onde o corpo será glorificado (cf. Jo 6,54: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”).
Finalmente, a prece trata do escopo da petição “ad celebranda festa paschalia”. A expressão “festas pascais a serem celebradas” se refere, antes de tudo, à festa litúrgica que se aproxima, a daqui a algumas semanas, mas também a cada “Páscoa semanal/dominical”, e a cada assembleia eucarística. Todas elas apontam para a participação naquele “banquete escatológico do Cordeiro” (cf. Ap 19,9), pois cada eucaristia é uma real antecipação do Reino de Deus, onde Cristo será tudo em todos. Esse banquete é comunitário, não santifica apenas o indivíduo, mas toda a comunidade, de modo que todo o Corpo de Cristo, que é a Igreja, se prepare “coralmente” e “sinodalmente” para celebrar a vitória definitiva sobre o pecado e a morte. Então, na noite santíssima da Páscoa, momento culminante da renovação batismal, toda a Igreja, em cada um dos fiéis, será chamada a [re]viver a própria Páscoa (pessoal e comunitária) morrendo com Cristo para ressuscitar com Ele.
[1] C. Folson, Los libros litúrgicos del rito romano. Uma guia para el estudio de su tipologia e historia. (I) Libros para la missa, CPL, Barcelona 2023, 53.