Haec hóstia & Percipientes, Domine
As orações Sobre as oferendas e Depois da comunhão
do II Domingo da Quaresma
Parte II
Percipientes, Domine
Observemos como se apresenta o texto latino da oração Percipientes, Domine e a sua tradução para o Missal em uso na Igreja do Brasil. Sugerimos também uma tradução para estudo:
2008MR:
Percipientes, Domine, gloriosa mysteria, gratias tibi referre satagimus, quod, in terra positos, iam caelestium praestas esse participes.
2023MRB
Nós comungamos, Senhor, no mistério da vossa glória, e nos empenhamos em render-vos graças, porque nos concedeis, ainda na terra, participar dos bens do céu.
Tradução para estudo
Senhor, ao recebermos os gloriosos mistérios, esforçamo-nos por dar-te graças, porque, colocados (fincados; plantados com raízes) na terra (enquanto ainda estamos na terra), nos concedes de sermos já participantes das realidades (coisas) celestes.
Sobre a sua procedência
A oração Percipientes, Domine é autenticamente romana, sem sombra de dúvidas. Encontra-se pela primeira vez no Sacramentário Veronense (Ver – o mais antigo dos Sacramentários romanos), mesmo que em uma forma diferente, mais ampla, e destinada para as Têmporas de dezembro (Ver 914: XXVII, X. [In ieiunio mensis decimi], Item alia, [Post communionem])
Percepimus, Domine, gloriosa mysteria, quibus in terra positos, iam caelestium facis esse consortes Tu inter ista quae vivimus guberna nos, Domine, quaesumus, ut ad illa perducas.
Depois disso, a encontramos na tradição presbiteral (GeV), já bastante reelaborada, muito próxima à sua forma atual, destinada à quarta-feira da III semana da Quaresma (GeV 213: I, XXVI. [In Quadragesima], Feria IIII Ebdoma[da] III, Post communionem):
Percipientes, Domine, gloriosa mysteria, referrimus gratias, quod, in terris positos, iam caelestium praestas esse participes.
Com a migração do GeV para o Norte da Europa, a Percipientes, Domine passou para os Gelasianos do século VIII, transitando da quarta para o “recem criado” jejum das quintas-feiras da Quaresma:
Gell 328: LV (60). [In Quadragesima], Ebd[omada] I, Fer[ia] V ad s[an]c[tu]m Laurentiu[m] in Formonsu[m], P[ost] communionem.
Gell 429: LXXI (77). [In Quadragesima], Ebd[omada] III, Fer[ia] V ad s[an]c[tu]m Cosme et Damia[num], P[ost] communionem.
Eng 334: LVII. [In Quadragesima], Feria V, Ebdomada I, ad sanctum Laurentium in Formosum, [Post communionem].
Aug 337: LX. [In Quadragensima], Feria V ad sanctum Laurentium ad Formonsum, Ebdomada I, Post communionem.
SGall 301: 57. [In Quadragesima], Feria V ad sanctum Laurentium ad Formosum, Post communionem.
Praticamente um século depois da transmigração do GeV para a Gália, o Papa Gregório II (715-731) institui o jejum obrigatório em todas as quintas-feiras da Quaresma e ordenou a adição da “quinta-feira” ao ciclo de missas estacionais. Tal medida corrigia o cânone 41 do Concílio de Cartago que regulava os tempos do jejum eucarístico, ordenando que os Santos Mistérios não fossem oferecidos por aqueles que não tivessem observado o jejum, com exceção de um dia, “aquele que celebra a Ceia do Senhor”. A Igreja africana, de fato, identificava a Quinta-feira Santa com o dia da antiga Páscoa judaica, que o próprio Jesus celebrou com os apóstolos antes da Paixão, e por esta razão permitia que o clero e os fiéis quebrassem o jejum em todas as quintas-feiras (inclusive da Quaresma), honrando assim a memória da Ceia do Senhor.
Para preencher a lacuna eucológica, o Papa providenciou a criação de um formulário específico – na realidade, uma compilação de material nada original, retirado de fórmulas litúrgicas mais antigas.
Para a criação de novos formulários, comumente, adotavam-se, de uma forma um tanto aleatória, orações de algum dia próximo. Foi, muito provavelmente, desse modo que a nossa atual Depois da comunhão foi por um período usada também para a quinta-feira da I e da III Semana da Quaresma. Fato é que a Oração muito cedo desapareceu da tradição do Missal Romano imediatamente antes da invenção da imprensa, consequentemente, não estava presente no Missal pré-conciliar (1474, 1570,1962), sendo recuperada diretamente do GeV pela reforma do Concílio Vaticano II.
1970MR p. 193: Dominica II in Quadragesima, Post communionem.
1975MR p. 193: Dominica Il in Quadragesima, Post communionem.
2000/8MR p. 219: Dominica I in Quadragesima, Post communionem.
GeV
Percipientes, Domine, gloriosa mysteria, referrimus gratias, quod, in terris positos, iam caelestium praestas esse participes.
2008MR
Percipientes, Domine, gloriosa mysteria, gratias tibi referre satagimus, quod, in terra positos, iam caelestium praestas esse participes.
Como se pode observer, os revisores modernos modificaram o texto do GeV, preenchendo a “segunda linha”. O termo usado pelos revisores “satago” (que também ocorre em outros lugares na forma não elidida “satis ago”), não se encontra nos principais sacramentários romanos antigos ou galo-romanos, embora seja encontrado em 2Pd 1,10: “Irmãos, sejam ainda mais diligentes (magis satagite) em tornar firme a vossa vocação e eleição por meio de boas obras”.
Sobre as fontes Bíblicas e a teologia
Um dos temas centrais dessa Oração é a participação nas realidades celestes. Tal ideia remete imediatamente à realidade da vida cristã, já elevada com Cristo. Essa reflexão encontra-se no coração da teologia paulina que exorta a Igreja a, tendo feito a experiência antecipada da ressurreição “com Cristo”, por graça e por meio dos sinais sacramentais, buscar “as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra” (Cl 3,1-2). Sim, a participação celeste já se inicia na vida terrena por meio dos sacramentos. São Paulo não usa o futuro, mas o presente escatológico para evidenciar essa realidade: “Ele (Deus, o Pai) nos ressuscitou com Cristo e nos fez assentar nos céus em Cristo Jesus.” (Ef 2,6). É a Eucaristia o meio pelo qual a Igreja já participa da vida divina enquanto peregrina neste mundo: “Quem come deste pão viverá eternamente” (Jo 6,51).
Esse domingo, todos os anos, apresenta o tema da transfiguração. De modo aproximativo a Percipientes, Dominedesenvolve, a partir da perspectiva da lex orandi, a teologia da antecipação escatológica da realidade transfigurada com e em Cristo, expressando claramente como o memorial eucarístico da ceia do Senhor nos insere no hoje da história no mistério celeste. Por meio da memória feita em obediência ao mandato do Senhor, o crente, ainda peregrino, participa da vida divina, numa tensão entre o “já” e o “ainda não”. A Igreja sente que não tem mais distância entre o presente e o porvir. Altar, Tabor, cenáculo e Jerusalém celeste: tudo concentrado num só lugar, non ó pedaço de pão embebido no pouquinho de vinho. São os “gloriosos mistérios” que transportam à glória do dia que não conhece crepúsculo, ao Dies Domini, ao domingo que transfigura a Igreja, que introduz na eternidade. A Igreja sente o coração explodir de alegria pascal, nova e verdadeira: “Comigo engrandecei ao Senhor Deus, invoquemos todos juntos o seu nome” (Sl 33,4). Tudo é contemporâneo: a manducação do Pão celeste e a ação de graças coincidem: “ao recebermos... esforçamo-nos por dar-te graças”. A ação de graças que brota do coração do que participou em plenitude da mesa eucarística é central, pois o dom recebido supera a condição terrena e projeta para a comunhão eterna. Assim o afirma o Apóstolo Paulo na segunda leitura do Ano C (Fl 3, 20 – 4,1)
Nós, porém, somos cidadãos do céu. De lá aguardamos o nosso Salvador, o Senhor, Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso, com o poder que tem de sujeitar a si todas as coisas. Assim, meus irmãos, a quem quero bem e dos quais sinto saudade, minha alegria, minha coroa, meus amigos, continuai firmes no Senhor.