His sacrificiis & Sumentes pignus As orações Sobre as oferendas e Depois da comunhão III Domingo da Quaresma

His sacrificiis Sumentes pignus

As orações Sobre as oferendas e Depois da comunhão

III Domingo da Quaresma

 

I Parte

 

His sacrificiis

 

Observemos como se apresenta a Oração sobre as Oferendas do III Domingo do Tempo da Quaresma na sua forma típica latina e a sua tradução portuguesa para o Brasil. Propomos aqui uma tradução para estudo: 

 

2008MR

His sacrificiis, Domine, concede placatus, ut, qui propriis oramus absolvi delictis, fraterna dimittere studeamus.

 

2023MRB

Senhor de bondade, concedei-nos por este sacrifício que, pedindo perdão de nossos pecados, saibamos perdoar os nossos irmãos.

 

Tradução para estudo:

Senhor, aplacado por estes sacrifícios, concede a nós que oramos para sermos absolvidos de nossas próprias faltas, que nos empenhemos na procura um modo de perdoar os nosso [as dos] irmãos.

 

Discurso sobre as fontes

 

A nossa Oração vem da tradição presbiteral, aparecendo, ligeiramente variada, no GeV, entre os formulários de missa para as diversas necessidades, especificamente como segundo formulário opcional para a missa “Para pedir a caridade” (1329: III, XXVII. [Orationes pro caritate], Item alia Missa, Secreta):

 

His, Domine, sacrificiis, quaesumus, concede placatus, ut, qui propriis oramus absolve delictis, non gravemur externis.

 

Aplacado por estes sacrifícios, Senhor, nós te pedimos, que concedas, que nós que oramos para sermos absolvidos dos nossos próprios pecados, não sejamos sobrecarregados pelos [

Pecados[coisas] externos[as] [dos outros?].

 

            Na adaptação do Sacramentário Gregoriano primitivo para uso presbiteral da basílica de São Pedro no Vaticano (Pad), a nossa Oração migrou da tradição presbiteral para a tradição papal/episcopal. Essa é uma hipótese. Todavia, embora conservando o seu lugar ritual (Secreta = Sobre as oferendas), foi relocada para outro formulário: sábado da IV semana da Quaresma (Pad 199. XLVII. [In Quadragesima], [Die dominico vacat], Sabb[ato] ad sanctos Marcellinum et Petrum, Super oblat[am]), passando por uma ligeira reformulação:

 

 

A base romana do GeV foi o primeiro Sacramentário a migrar para a Gália, no tempo de Pepino, o Breve († 768). Além dele apareceu na Gália na metade do século VIII o Pad. Como essa versão do Gregoriano era usada em São Pedro atraiu muitíssimo os peregrinos francos. Os galos, no lugar de escolherem um ou outro sacramentário, fundiram os dois livros, confeccionando um novo tipo de livro: a família dos Sacramentários Gelasianos do século VIII. O primeiro, mais antigo, é representado pelo Sacramentário Gellonense (Gell), composto em torno a 760-770, no mosteiro beneditino de Flavigny. O Gell acolheu a nossa prece conservando da tradição gelasiana a sua tipologia (Secreta) e lugar ritual (Missa “Para pedir a caridade” – (Gel 2776: (433). Missa pro caritate, S[e]cr[eta, Item alia), assumindo, todavia, a forma gregorianizada, conservando elemento original.

 

His sacrificiis, Domine, [quaesumus] concede placatus, ut, qui propriis oramus absolv[e] delictis, non gravemur externis.

 

Contemporaneamente, a versão mais antiga do Gregoriano difundiu-se também “clandestinamente” para além dos Alpes, adaptando-se para o uso de um bispo, obviamente, fora de Roma. O único e eloquente registro dessa “clandestinidade” é o chamado Sacramentário de Trento (GrT). No Tre, a nossa oração manteve a tipologia, e o lugar ritual do Pad, alternando os elementos da forma (Tre 282: XLIII. [In Quadragesima], [Die dominico vacat] Sabbato ad sanctos Marcellinum et Petrum, Super oblata):

 

A versão mais antiga do Gregoriano que permaneceu em Roma recebeu uma série de acréscimo de formulários. Para a formação dos novos formulários, valeu-se de material precedente tomados da tradição das igrejas titulares. Assim ficou configurado o sacramentário papal usado em Roma “sem outros significativos desenvolvimentos, até o pontificado do Papa Adriano I (772-795). É o seu nome (Hadrianum) que se utiliza para identificar o sacramentário nessa forma como se encontrava no fim do século VIII (GrH), quando Carlos Magno solicitou ao Papa um sacramentário puro e autêntico com o objetivo de estabelecer a unidade litúrgica no reino franco”[1]. Muito provavelmente a nossa Oração migrou do Pad para o GrH, mantendo a tipologia, lugar ritual e forma (Had 226: 51. [In Quadragesima], [Die dominico vacat] Sabb[a]t[o] ad sanctos Marcellinum et Petrum, Super oblata).

Por influência direta do GrH, a nossa Oração foi acolhida pelo SGall, completamente gregorianizada: SGall 352: 66 [In Quadragesima], [Die Dominica vacat], Sabbato ad sanctos Marcellinum et Petrum, Super oblata.

Também por influência do GrH, o Gell voltou a acolher a nossa prece, com tipologia e forma gregorianizadas, mudando, todavia, o seu lugar ritual: sábado da II semana da Quaresma: Gell 385: LXV (70). [In Quadragesima], Ebd[omada] II, Sab[bato], ad s[an]c[tu]m Marcellinu[m] et Petru[m], S[e]c[reta]. Dessa segunda acolhida no Gell, a nossa Oração passou para o Engolismense (Eng 406: LXVIII. [In Quadragesima], Feria VII, Ebdomada secunda, Secreta) e para o Augustodinense (Aug 393: LXVIIII. [In Quadragesima], Sabbato ad sanctos Marcellinum et Petrum, Ebdomada II, Secreta).

            Dos Sacramentários Gelasianos do século VIII, a nossa oração passou para o primeiro Missal impresso (1474MR 541: [Domenica secunda in quadragesima], Sabbato, statio ad Marcellinu[m] et Petru[m], Sec[reta]), dele para o tridentino (1570MR 799: Sabbato secundo Dominicae Quadragesimae, Secreta), conservando-se até à sua última edição, antes da reforma do Concílio Vaticano II (1962MR 600: Sabbato post dominicam Il in Quadragesima, Secreta).

            O gráfico abaixo nos dá um esquema do complexo percurso histórico da nossa Oração desde o seu aparecimento até o 1962MR. É notável a continuidade do seu uso no sábado da segunda semana da Quaresma até o Concílio Vaticano II.

 

 

Todavia, a última linha da nossa Oração “non gravemur externis”, não era totalmente clara e, portanto, os compiladores modernos a substituíram, muito habilmente, por uma frase amplamente positiva e em sintonia com a dimensão fraternal/evangélica da Quaresma “fraterna dimittere studeamus” (procuremos um modo de perdoar os nossos irmãos), uma alusão a Mateus 6,12: “Perdoai-nos [dimitte nobis] as nossas ofensas, assim como nós perdoamos [dimittimus] a quem nos tem ofendido”. Essa mudança textual, e de perspectiva, fez da nossa Oração uma prece extremamente oportuna para um domingo do tempo da Quaresma: 

 

= 1970MR p. 200: Dominica IlI in Quadragesima, Super oblata.

= 1975MR p. 200: Dominica III in Quadragesima, Super oblata.

= 2008MR p. 227: Dominica III in Quadragesima, Super oblata.

 

Perspectivas teológicas

 

            A nossa Oração, genérica sob muitos aspectos, aparecendo no MR unicamente no contexto quaresmal, período que convida à conversão, ao arrependimento e à reconciliação, assume um sabor todo diferente. Colocada entre a Oração Eucarística e a oferta dos dons destinados à santificação, a Igreja implora, em oração, a purificação dos pecados (comunhão vertical anabática) e a graça da comunhão fraterna, por meio do perdão (comunhão horizontal e em certo sentido, catabática), para poder participar em plenitude da comunhão eclesial que consiste na comunhão com Deus (anábasis) e com os irmãos (catábasis). 

            A Oração tem uma estrutura simples e linear. Deus é invocado de modo direto, simplesmente pelo apelativo Senhor (Dominus), passando ineditamente para o pedido fulcral: que o Senhor, aplacado pelos dons (sacrificiis) apenas colocados sobre o altar, use da sua misericórdia (Kyrie, eleison) e conceda o que a Igreja implora. O que a Igreja pede não é outra coisa senão a graça da sabedoria para estudar um modo adequado de levar a termo o cumprimento do preceito evangélico do perdão fraterno (fraterna dimittere studeamus), segundo a perspectiva de Mt 5,23-24: “Se estiveres para apresentar a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão”. A Igreja em oração toma consciência (dimensão [per]formativa da liturgia) de que a condição para receber a graça do perdão das próprias faltas (Qui propriis oramus absolvi delictis – dimensão catabática) é o exercício do perdoar (dimensão horizontal). Aqui se revela a totalidade da catequese litúrgica: a sua gratuidade “ofertorial” induz a Igreja a fugir completamente da lógica do comércio, baseada a partir da perspectiva capitalista do acumular, para entrar na dinâmica do dom, dado antes de ser recebido, pois Ela vive “da memória das palavras do próprio Senhor Jesus, que disse: “Há maior felicidade em dar do que em receber’” (At 20,35). A própria tradução portuguesa do verbo latino dimittere (perdoar) indica que esse gesto reconciliador/salvífico existe, antes de tudo, para (per) ser dado/doado (doar), gratuitamente (per[por]dão[dom]).

A estrutura da prece revela-se agudamente evangélica ao revelar que entre uma e outra forma de comunhão (Deus e irmãos) existe uma vital interdependência.



[1] C. FolsonLos libros litúrgicos del rito romano. Uma guia para el estudio de su tipologia e historia. (I) Libros para la missa, CPL, Barcelona 2023, 53.

 
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