His sacrificiis & Sumentes pignus
As orações Sobre as oferendas e Depois da comunhão
III Domingo da Quaresma
II Parte
Sumentes pignus
Passemos à oração Depois da comunhão; vejamos a sua forma típica latina, a sua tradução oficial e apresentamos uma tradução para estudo:
2008MR
Sumentes pignus caelestis arcani, et in terra positi iam superno pane satiati, te, Domine, supplices deprecamur, ut, quod in nobis mysterio geritur, opere impleatur.
2023MRB
Senhor, tendo recebido o penhor do mistério celeste, e já saciados na terra com o pão do céu, nós vos pedimos humildemente que se manifeste em nossa vida o que o sacramento realizou em nós.
Tradução para estudo
Recebendo o penhor do mistério celeste e, colocados [estando ainda] na terra, [sendo] já saciados com o pão do céu [celeste], a ti, Senhor, suplicantes pedimo, que aquilo que em nós se realiza [acontece] pelo [por meio do] mistério/sacramento, se cumpra em nossas ações.
Discurso sobre as fontes
A Sumentes pignus tem uma história de vida muito diferente da His sacrificiis. Os revisores do MR a retiraram do Sacramentário Veronense (Ver), onde incluía uma menção à intercessão dos Santos (Ver 23: [VIII], X. [Mense Aprile], Item alia, [Post communionem]).
Ver:
Sumentes pignus caelestis arcani, et in terra positi iam superno pane satiati, supplicamus, Domine, deprecantibus sanctis tuis, ut, quod in nobis mystice geritur, veraciter impleatur.
(Tendo recebido o penhor do segredo celestial, e já saciados na terra com o pão do céu, imploremos, Senhor, suplicando aos teus santos, que, o que se passa misticamente em nós possa ser verdadeiramente cumprido).
A parte conclusiva da Sumentes pignus estava próxima em substância à frase do que se tornara ao longo dos séculos uma Secreta muito conhecida, encontrada Gelasianano Vetus (GeV 346: XXXVII. [In Quadragesima], Feria IIII, Ebdomada VI, Secreta), usada até o Concílio e ainda mantida hoje para a quarta-feira da Semana Santa:
GeV
Suscipe, quaesumus, Domine, munus oblatum, et dignanter operare: ut, quod passionis mysterio gerimus, piis affectibus consequantur.
Do GeV a Oração passou para os Gelasianos do século VIII
= Gell 585: LXLV (101). [In Quadragesima], Ebd[omada] VI, Fer[ia] III ad s[an]c[t]a[m] Mariam: Sup[er] oblata.
= Eng 582: XCVII. [In Quadragesima], Feria IIII, Ebdomada VI, Secreta.
= Eng 588: XCVII. [In Quadragesima], Orationes in Feria IIII, Ebdomada VI, Hic comples septimum scrutinium, Secreta.
= Eng 638: CIII. [In V Feria Caena Domini], Feria V, Missa ad vesperum, Secreta.
= SGall 483: 91. [Die dominica ad palmas], Feria IIII ad sanctam Mariam, Super oblata.
Não tendo sido acolhida pelo 1474MR entrou diretamente no tridentino e assim chegou ao Missal da reforma vaticana, com mais de uma formulação:
= 1570MR 1172: Feria iiii post Dominicam palmarum, Secreta.
= 1962MR 887: Feria IV Hebdomadae sanctae, Secreta.
= 1970MR/1975MR p. 238: Feria IV Hebdomada Sanctae, Super oblata:
= 1975MR p. 238: Feria IV Hebdomada Sanctae, Super oblata:
= 2008MR p. 289: Feria IV Hebdomada Sanctae, Super oblata:
2008MR
Suscipe, quaesumus, Domine, munus oblatum, et dignanter operare: ut, quod gerimos Filii tui mysterio passionis, piis affectibus consequantur.
2023MRB
Acolhei, Senhor, nossa oferenda, e deixai agir vossa misericórdia, para que, ao celebrarmos o mistério da paixão do vosso Filho, alcancemos a plenitude dos seus frutos.
= 2008MR p. 483: Feria IV Dominica XXXII “Per Annum”, Super oblata:
2008MR
Sacrificiis praesentibus, Domine, quaesumus, intende placatus, ut, quod passionais Filii mysterio gerimos, pio consequamu affectu.
2023MRB
Senhor, olhai com benevolência para o sacrifício que apresentamos, a fim de que participemos com amor do mistério da paixão do vosso Filho.
= 2008MR p. 914: Commune Martyrum, I: extra Tempus Paschale, A: Pro pluribus martiribus 5, Super oblata:
2008MR
Sacrificiis praesentibus, Domine, quaesumus, intende placatus, ut, quod passionais Filii mysterio gerimos, beatorum N. et N. exemplis, pio consequamur effectu.
2023MRB
Senhor, olhai com benevolência para o sacrifício que apresentamos, a fim de que, a exemplo dos santos N. e N., participemos com amor do mistério da paixão do vosso Filho.
Os compiladores modernos, portanto, reajustaram a prece veronense para refletir o que se tornou a expressão mais típica da liturgia romana, substituindo “mystice” por “mysterio”, a partir da Secreta gelasiana Suscipe, quaesumus. Da mesma forma, o “veraciter” do texto veronense foi substituído pelo mais compacto “opere”, gerando uma espécie de “contraste dialogante”, ou complementariedade, assinalando a passagem do espiritual [lex orandi] ao operacional [lex vivendi]:
Sumentes pignus caelestis arcani, et in terra positi iam superno pane satiati, [te] supplicamus, Domine, [súplices deprecamur] deprecantibus sanctis tuis, ut, quod in nobis mystice [mysterio] geritur, veraciter [opere] impleatur.
Esse “contraste dialogante” entre lex orandi e lex vivendi é empregado em um bom número de textos eucológicos antigos; o encontramos, por exemplo, entre “fé e ação” (GrH 216; GrH 883; GeV 646), “mens/mente e ação” (GrH 42) ou “sensus/sentido e ação” (Gell 2875).
Perspectivas teológicas
A Sumentes pignus segue a clássica estrutura latina das Orações para depois da comunhão. Inicia fazendo referência ao ato litúrgico apenas levado a termo, com uma ideia de perenidade, ou extensão temporal (Sumentes). Denominando a eucaristia como garantia/caução (pignus) da vida em Deus – “Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (= caelestis arcani), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Cor 2,9) – a apresenta como antecipação do banquete celeste, o banquete das núpcias do Cordeiro. Imediatamente, faz a Igreja apresentar-se diante de Deus recordando-se da sua condição de peregrina (Et in terra positi) que faz, já agora (iam), em plenitude, a experiência que Israel fez no deserto em imagem (superno pane satiati)
Disse Jesus: “Em verdade, em verdade eu vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo”. Jesus replicou: Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim jamais terá sede. Eu sou o pão da vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer” (Jo 6, 32-35.48-50)
É a tensão mística e escatológica entre a realidade terrena e a participação antecipada no banquete celeste.
Concluída a parte anamnética, vem introduzida imediatamente a parte epiclética – “Te, Domine, supplices deprecamur” (a ti, Senhor, suplicantes pedimos) – num tom de humilde súplica, reconhecendo a dependência de Deus. À epiclese segue a justificativa, ou explicação do motivo da petição: “Ut, quod in nobis mysterio geritur, opere impleatur” (Para que o que em nós se realiza por meio do sacramente, se cumpra na vida prática”. Ou seja, pede-se com o máximo de humildade para que se aprenda a traduzir no cotidiano o que a Eucaristia ensinou por meio dos sinais sacramentais. Aqui é necessário recordar que a comunhão eucarística é a plenitude da Eucaristia, que corresponde à ação de graças da Igreja, feita de gestos e palavras, ritos e preces (cf. SC 6).
A prece coloca, portanto, em evidência a dimensão escatológica da celebração eucarística como expressão concreta da esperança no cumprimento pleno do Reino de Deus, já antecipado na Eucaristia. Tal antecipação implica a necessidade de uma conversão interior (metanoia), uma mudança radical de mentalidade, de tal modo que os fiéis passem a viver aquilo que receberam, tornando-se sinais vivos do amor de Deus no mundo. Reforça-se a ideia de que a Eucaristia configura o fiel à vida de Cristo: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim (Gl 2,20)”.