Interpretar o livro litúrgico
Dom Jerônimo Pereira, osb
Com a recente publicação do Missal Romano vimos nascer um particular interesse pelo tema do livro litúrgico. O ano de 2023 foi assinalado pela procura, quase frenética, de formação sobre o Missal, tanto da parte das igrejas particulares, quanto de grupos específicos, como famílias religiosas, casas de formação, seminários etc.
Nos mass media um número crescente de músicos, arquitetos, mestres de celebrações de todas as idades, tem recorrido aos livros litúrgicos para embasar argumentos dos mais variados gêneros. Duas perguntas de fundo a se fazer: conhece realmente o livro litúrgico quem sabe citá-lo corretamente (ou limita-se a isso)? Quais são os instrumentos para a sua correta interpretação do livro litúrgico, in genere, ou de um determinado elemento, in specie?
A “hermenêutica” dos livros litúrgicos é uma ciência pouco conhecida e muito menos ainda levada em consideração. Nesse nosso modesto artigo procuraremos apresentar os seus princípios gerais, a partir da vastíssima bibliografia à disposição dos interessados. O objetivo principal é ajudar aos agentes de pastoral litúrgica (músicos e cantores, arquitetos, leitores, acólitos, mestres de celebração, catequistas etc.) a uma leitura complessiva do dado litúrgico-celebrativo registrado no livro litúrgico, entendido como modelo da prática, e a sua relação com o rito, a prática do modelo.
1. Bibliografia orientativa
AUGÉ M., «Princípios de interpretação dos textos litúrgicos», In Anamnesis I. A liturgia: momento histórico da salvação, ed. S. Marsili, Paulinas, São Paulo 1986, 193-252.
DE ZAN R., «Come studiare i testi liturgici?», in Liturgia opus Trinitatis. Epistemologia liturgica, ed. E. Carr, Centro Studi Sant’Anselmo, Roma 2002, 187-194.
DE ZAN R., Erudi, Domine, quaesumus, populum tuum spiritalibus instrumentis. La lettura dell’eucologia latina: appunti per la ricerca di un metodo, CLV - Edizioni Liturgiche, Roma 2021.
GIRARDI L., «L’ermeneutica dei libri liturgici e la comprensione del sacramento», in La forma rituale del sacramento, Scienza liturgica e teologia sacramentaria in dialogo. Atti della XXXVII Settimana di Studio dell’Associazione Professori di Liturgia, ed. S. Ubialli, CLV - Edizioni Liturgiche, Roma 2011, 207-230.
GIRARDI L., «L’ermeneutica del libro liturgico», RL 109 (2022) 99-112.
IRVIN K. W., Context and Text. Method in Liturgical Theology, The Liturgical Press, Collegeville (Minnesota) 1994.
LADRIÈRE J., «La performatività del linguaggio liturgico», Concilium 9 (1973) 276-292.
LODI E., Liturgia della Chiesa: guida allo studio della liturgia nelle fonti antiche e recenti, EDB, Bologna 1981.
LUKKEN G., Per visibilia ad invisibilia. Antropological, Theological, and Semiotic Studies on the Liturgy and the Sacraments, Pharos, Kampen (The Netherlands) 1994.
MAGGIANI S., «Epistemologia liturgica, Come studiare l’azione liturgica?», in Liturgia opus Trinitatis. Epistemologia liturgica, ed. E. Carr, Centro Studi Sant’Anselmo, Roma 2002, 179-181.
MAGGIANI S., «Interpretare li Libro liturgico», in Il mistero celebrato. Per una metodologia dello studio della liturgia. Atti della XVI Settimana di Studio dell’Associazione Professori di Liturgia (Assisi, 28 agosto - 1° settembre 1988), CLV - Edizioni Liturgiche, Roma 1989, 157-192.
MERZ M., Liturgisches Gebet als Geschehen. Liturgiewissenschaft-lich-linguistische Studie anhand der Gebetsgattung Eucharistisches Hochgebet, Aschendorff, Münster 1988.
NAKAGAKI F., «Metodo integrale. Discorso sulla metodologia nell’interpretazione dei testi eucologici», in Fons vivus. Miscellanea liturgica in memoria di don Eusebio Maria Vismara, ed. A cuva, Pas-Verlag, Zürich 1971,269-286.
OR’EGAN J., «Proximity. Methodology in Liturgical Theology», Questions Liturgiques 97 (2016) 65-83.
SCHERMANN J., Die Sprache mi Gottesdienst, Tyrolia-Verlag, Innsbruck - Wien 1987.
TERRIN A. N., Leitourgia. Dimensione fenomenologica e aspetti pragmatici, Morcelliana, Brescia 1988.
TRIACCA A. M. - FARINA R., «Studio e letteratura dell’eucologia. Note metodologiche», in Teologia, liturgia, storia. Miscellanea in onore di Carlo Manziana, vescovo di Cremona, ed. C. Ghidelli, La Scuola, Brescia 1977, 197-224.
2. (Breve) História de um percurso
A chamada ciência litúrgica funda as suas raízes no século XIX com a iniciativa do abade de Solesmes, Próspero Guéranger (1805-1875), em torno do restauro do canto gregoriano e do estudo histórico-critico das fontes antigas. Tal método foi seguido e levado adiante por L. Duchesne (1843-1922), F. Cabrol (1855-1937), J. A. Jungmann (1889-1975). Com a ajuda de diversas ciências auxiliares (como a codicologia e a paleografia) tornou-se possível chegar a edições críticas de fontes antigas, reconstruir a história dos livros e das fórmulas contidas, as suas variações e evoluções, a sua ligação com diferentes contextos e as tipologias às quais pertencem. Nessa base, foi possível focar no aspecto literário das fontes, incluindo abordagens diversas: desde a análise mais estritamente linguística até a hermenêutica litúrgico-teológica, visando a obtenção dos significados teológicos dos formulários (M. Augé).
Ao método histórico-crítico acrescentou-se o método da “liturgia comparada” de A. Baumstark (†1948), que propõe a leitura contextual, e o “método integral” de F. Nakagaki, A. M. Triacca (†2002) e R. Farina. Tais métodos foram enriquecidos com o acréscimo do aspecto do estudo sincrônico dos textos, com a ajuda da semiótica, da análise estruturalista e da pragmática linguística. De máxima importância é a contribuição do estudo da performatividade da linguagem que ajuda na compreensão da transcodificação do texto (da rubrica à ação [corpo, espaço, tempo]: atos de linguagem). Este último processo é de fundamental importância porque esclarece que o objeto da ciência liturgia é o rito e não o ritual (livro). Grande síntese foi feita por R. De Zan, mas, sobretudo, por S. Maggiani (†2020).
3. Indicações metodológicas
Antes de tudo, precisa-se da clareza que o objeto de toda celebração é o Mistério Pascal de Cristo, celebrado no Espírito Santo e o sujeito é a Igreja, formada por batizados-crismados, corpo de Cristo. O livro litúrgico entra, portanto, como o instrumento que serve para conduzir o sujeito ao objeto. Ele se apresenta como o modelo da prática (programa ritual), enquanto a celebração (rito) é o modelo colocado em prática (prática do modelo). Obviamente, entre o modelo e a prática existe uma série de variantes de tipo espacial, temporal, pessoal etc.
Um estudo sério de um determinado livro litúrgico ou de uma indicação contida nele, deve levar em consideração, sobretudo, que são os livros litúrgicos nascidos da reforma do Vaticano II, a única expressão da lex orandi da Igreja (TC 1), e daí passar passar ao menos por três fases:
a) o conhecimento histórico. O conhecimento das várias fases pelas quais passou o livro em geral e cada uma das suas partes (estrutura, articulação interna, conteúdo etc.) faz compreender o valor e o significado do livro na sua fase atual.
b) o conhecimento das varias estruturas rituais e as suas articulações internas.
c) o aprofundamento teológico, litúrgico e pastoral que nasce do estudo das Introduções, dos conteúdos bíblico-teológicos emergentes, principalmente da eucologia.
Outro elemento de fundamental importância é o conhecimento da estrutura geral dos livros litúrgicos. Convém reforçar essa imprescindível necessidade de conhecimento das características principais de um livro litúrgico, porque o fato de um livro simplesmente conter os textos litúrgicos não o faz um livro litúrgico.
O livro litúrgico se apresenta como uma obra “composta” como um mosaico. Nele encontramos diversos gêneros de textos que não têm o mesmo peso. Ocupam o primeiríssimo lugar as preces, depois os textos escriturísticos, as monições indicativas (presbiterais, diaconais ou confiadas a outros ministros) e, finalmente, as rubricas.
3. Estrutura
Todo os livros se abrem com um decreto de promulgação do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, onde se indicam as leis de isenção e as competências das Conferências Episcopais e depois se articulam em quatro partes:
Constituição Apostólica
Introdução
Ordo ou Ordines (Programa ritual)
Apêndice.
3.1. Constituição Apostólica
Quando num ordo sacramental toca-se na parte essencial do sacramento, uma Constituição Apostólica abre o livro litúrgico. O seu objetivo é precisar como era antes e como passa a ser os elementos que dizem respeito a sacramentalidade específica do ordo (cf. Missal Romano, Ritual da Confirmação).
3.2. Introdução
Todos os livros litúrgicos têm uma sua específica Introdução (Praenotanda). Os elementos que compõem uma Introdução são basicamente um código teológico e um código rubrical, com referências teológicas de caráter pastoral levando em consideração, especificamente, o modo de celebrar.
O código teológico corresponde a uma apresentação sintética dos dados fundamentais da doutrina tradicional da Igreja no que diz respeito ao sacramento ou ao sacramental. Ele tem como objetivo comunicar o que deve emergir como significado de uma celebração.
O código rubrical, que depende e tem como objeto o rito propriamente dito, é formado por textos de caráter pastoral. Nele, as rubricas são descritas de modo indireto, podendo conter notícias, referências, interpretações de dados de origem teológica, indicações de vários tipos etc. Ele tem por objetivo indicar como deve funcionar a celebração, para que se chegue aos efeitos significados, a partir da colocação em ato dos significantes.
3.3. Ordo ou Ordines (Programa ritual)
O programa ritual detém o primado com relação às outras partes do livro litúrgico. Um livro litúrgico pode apresentar um modelo de celebração ou vários. Por exemplo, o Missal Romano apresenta um Ordinário da missa com o povo e um Ordinário da missa da qual participa um só ministro.
O programa ritual utiliza gestos, palavras, objetos, processos e atividades que correspondem a contextos espaço-temporal, criados pela própria enunciação que gera uma ação performativa quando indica o que fazer ou o que e como dizer. Observemos algumas rubricas do Domingo de Ramos (Comemoração da entrada do Senhor em Jerusalém. Primeira forma: Procissão]:
5. O sacerdote diz: Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e todos fazem o sinal da cruz.
6.O sacerdote, de braços abertos, diz uma das orações seguintes:
O sacerdote, sem nada dizer, asperge os ramos com água benta.
8. Após o Evangelho poderá haver uma breve homilia. O sacerdote, o diácono ou um ministro
leigo dá início à procissão com estas palavras ou outras semelhantes:
O Ordo deve ser lido e interpretado de modo global e progressivo, levando em consideração as funções rituais, a trama simbólica e os sentidos criados pelas interrelações de linguagens. Para tanto deve-se levar em consideração:
a) a estrutura celebrativa do programa ritual no seu complexo (Ritos iniciais, Liturgia da Palavra, Liturgia “sacramental”, Ritos finais) e nas suas estruturas internas (Ritos iniciais: entrada, saudação, rito penitencial, Kýrie, Glória e oração Coleta) e mínimas (Coleta: Convite presidencial, silêncio, oração, confirmação da assembleia).
b) os atores: assembleia, presidente, cantores, leitores, ministros etc.
d) o dispositivo ecológico: a distribuição e a regulamentação do tempo e do espaço.
e) a linguagem não verbal: ações gestuais, coisas, objetos.
f) atos de linguagem: a relação entre os gestos e as palavras.
Voltemos ao Domingo de Ramos:
2. Na hora conveniente (dispositivo ecológico), reúne-se a assembleia (atores) numa igreja menor ou em outro lugar apropriado fora da igreja (dispositivo ecológico), para onde se dirige a procissão (linguagem não verbal). Os fiéis (atores) trazem ramos nas mãos (linguagem não verbal).
3. O sacerdote e o diácono (atores), em vestes sagradas de cor vermelha (linguagem não verbal) como para a Missa, acompanhados por outros ministros (atores), aproximam-se do lugar onde o povo está reunido (dispositivo ecológico + atores). Durante a procissão o sacerdote poderá usar pluvial em vez de casula (atores + linguagem não verbal).
4. Durante a procissão (linguagem não verbal), canta-se a seguinte antífona ou outro canto apropriado (ato de linguagem).
3.4. Apêndice
A última parte do livro litúrgico é o Apêndice onde encontram-se geralmente recolhidos um Lecionário, textos eucológicos opcionais, antífonas e outros cantos e indicações melódicas.
4. As eucologias
Eucologia é um termo técnico para indicar as orações. Estilisticamente, a oração romana clássica, distingue-se por sua precisão, brevidade, escassa concessão ao sentimento (sobriedade) e elegância literária. Além disso, apresenta-se com uma forte carga de formal solenidade, sobriedade, clareza de expressão e profundidade teológica. Nos seus elementos teológicos, a oração tem como sujeito a Igreja, como objeto a globalidade do Mistério Pascal, como destinatário o Pai e a mediação crística, no Espírito Santo. Ela é sempre estruturada sobre dois movimentos, próprios de toda ação litúrgica: ascendente e descendente.
4.1. A estrutura
As preces são de dois tipos: eucologias maiores e menores. Maiores ou menores têm a seguinte estrutura[1]:
a) invocação inicial (Ó Deus...): geralmente breve, com poucos atributos
a1) desenvolvimento aposto da Invocação inicial (às vezes se omite)
b) anamnese: narração de uma obra salvífica
c) pedido
c1) finalidade do pedido (às vezes se omite)
d) conclusão, longa ou breve, que sublinha a mediação de Cristo
e) aclamação da Assembleia.
Coleta, 29 de dezembro, Quinto dia na Oitava do Natal
a | Ó Deus | |
A1 | invisível e todo-poderoso, | |
b | que dissipastes as trevas do mundo com a vinda da vossa luz, | |
c | volvei para nós o vosso olhar sereno, | |
c1 | a fim de que proclamemos dignamente a maravilha do nascimento do vosso Filho Unigênito. | |
d | Ele, que é Deus, e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. | |
e | Amém. |
4.2. Dimensões
São quatro as dimensões da oração litúrgica:
1. a dimensão bíblico/anamnética
2. a dimensão doxológica
3. a dimensão epiclética (suplicante)
4. a dimensão comunitária.
4.3. Fundamentos
A essas dimensões, correspondem quatro fundamentos:
1. cristológico-pneumatológico
2. teândrico
3. eclesiológico
4. simbólico.
5. A conjunção “Ou”: uma particularidade dos novos Ordines
Os novos Ordines são caracterizados pela abundante riqueza de elementos. Tal superabundância gerou a recorrente presença da conjunção “ou”, do latim, “vel”. Ela deve ser entendida tanto como alternatividade, quanto como opcionalidade.
Alternatividade: a função do “ou” como alternatividade aparece no interior da sequência ritual não simplesmente como sinônimo de optativo, opcional, voluntário, livre ou facultativo, mas como eletivo em detrimento da determinada situação pastoral da possibilidade/impossibilide. O livro litúrgico apresenta, em primeiro lugar, a forma típica da sequência ritual. Não sendo pastoralmente possível realizá-la, oferece-se, então, uma segunda e, por vezes, até uma terceira possibilidade, como é o caso, por exemplo, da Entrada no Domingo de Ramos. As “Entradas” (Procissão, Solene e Simples) não estão à “livre escolha” da comunidade, muito menos do presidente, mas ao discernimento pastoral. Assim, esclarecem as rubricas das Entradas Solene e Simples:
12. Onde não se pode realizar a procissão fora da igreja, a entrada do Senhor será celebrada dentro da igreja, com entrada solene, antes da Missa principal.
16. Em todas as outras Missas deste domingo, nas quais não há entrada solene, faz-se a memória da entrada do Senhor em Jerusalém com entrada simples.
O mesmo critério aplica-se, por exemplo, à leitura das “Introduções”:
IGMR, 48. O canto (de entrada) é executado alternadamente pelo coral de cantores e pelo povo (forma típica) ou pelo cantor e pelo povo (na ausência do coro) ou só pelo grupo de cantores (caso o coro e o povo estejam, por alguma razão, impedidos de exercer o seu ministério). Pode-se usar a antífona com seu salmo, do Gradual romano ou do Gradual simples (forma típica) ou então outro canto condizente com a ação sagrada e com a índole do dia ou do tempo, cujo texto tenha sido aprovado pela Conferência dos Bispos (caso a primeira forma de execução [coro + povo] do texto/melodia dos Graduais não seja possível).
Opcionalidade: o “ou” como opcionalidade aparece tanto no corpo da sequência ritual, como referência ao Apêndice, quanto, de forma mais especifica, no próprio Apêndice, onde encontram-se antífonas, leituras etc.
Conclusão
Nessa apresentação sumária dos critérios fundamentais para a interpretação de um determinado livro litúrgico ou de uma sua parte, não podemos levar em consideração alguns aspectos, tal como os critérios para interpretação do Lecionário, tanta no interior de um determinado Ritual, quanto como livro em si. Espera-se que tais indicações nos ajudem a celebrar melhor o Mistério Pascal de Cristo, per ritus et preces.
[1] Para um exemplo de estudo do caso concreto da estrutura, dimensões e fundamentos de uma oração, cf. https://www.asli.com.br/artigos/um-caminho-quaresmal-por-meio-das-preces-a-oracao-coleta-do-ii-domingo-da-quaresma