Jubilemos, porque eterno é seu amor: ensaio para a peregrinação

Jubilemos, porque eterno é seu amor: ensaio para a peregrinação

 

Anderson Cata Prêta[1]

andersoncatapreta@yahoo.com.br

 

Introdução

O artigo tem por objetivos provocar nas realidades brasileiras uma aproximação à Palavra de Deus, a harmonia com os textos propostos para o ano jubilar e fomentar a musicalidade do povo, cada qual em sua realidade. A provocação de um ensaio consiste justamente no preparar-se para bem celebrar. 

O texto base para a proposta reflexiva e argumentativa é o salmo 135 (136) apresentado como “Hino Pascal[2]pelas maravilhas do Deus Criador e Libertador” (Conferência Nacional Dos Bispos do Brasil, 2024, p.56). Tal texto se encontra como oração para peregrinação, logo, entendemos como texto litúrgico para procissão e percurso até o templo em que se fará as celebrações durante o ano jubilar. Portanto, entende-se que o termo ensaio venha ao encontro para estimular e cativar nos batizados a alegria do caminhar e do encontro. O artigo é construído, observando em três tópicos, a expressão do povo no que lhe compete, sua qualidade expressiva-comunicativa e naturalidade da expressão.

Contudo, salientamos que a proposta reflexiva deste texto antecede a mistagogia: um processo preparativo e formativo que reúne ciências e a concatenação argumentativa, com finalidade de organizar as atividades e favorecer o desenvolvimento mistagógico, que denomino de método diatipologospráxico. 

 

Demos graças: A nossa resposta

A relação existente da liturgia é a proposta divina e a resposta do homem como louvação (SC §5 e §7). Já nessa primeira fundamentação poderíamos encerrar o tópico e justificar o subtítulo. Todavia, para o desenrolar do texto que culmina em observar conteúdos litúrgicos, ou seja, da participação do povo, se faz necessário apontar mais características sobre o conceito de resposta, a intenção e apontar quem toma parte dessa dinâmica.

Na primeira argumentação está a identidade de grupo dos batizados: convocados por Deus (Marques, 2023, p.31). Essa primeira ação traz consigo as características de povo eleito, reunido no amor de Cristo, ou seja, uma resposta livre e ato de fé como testemunho de uma ação não verbal (cf At 2, 42-48). 

Como segundo pilar argumentativo deste tópico, observemos o texto em que consiste a resposta exclusiva dos fiéis: “eterno é seu amor”. Nas diversas traduções encontramos amor e misericórdia como sinônimos. Se faz necessário observar o termo para melhor compreender a intenção de expressão musical. A palavra no hebraico é “hesed” é um convite para a prática de amor leal ou misericórdia, excelendo a profundidade da ação divina para com o seu povo (Canário, 2024). Trata-se de evidenciar a proposta divina, na resposta do povo. Tal conduta, exigirá justamente a observação do acento colocado no texto, para que se sublime a palavra eterno, que veremos nos próximos tópicos.

Por fim, a consonância resposta e assembleia como valor didático da Liturgia, que o povo responde a Deus com canto, sinal de participação ativa (SC §30 e §33).

Ciente do quadro relacional e das propriedades verbais e não verbais deste ensaio, observaremos a qualificação dialogal.

 

A proposta relacional do texto: A diatipologospraxia da litania.

A expressão dos batizados está vinculada a natureza que o rito ou ação litúrgica se apresenta. Observemos a vivência da resposta litânica e algumas de suas características: uma ação comunitária, reconhecimento da grandeza de Deus, petição de louvor e de ação de graças (Bonato; Cata Prêta; Matos, 2023, p.379). Esmiuçemos os argumentos que seguem, para optarmos por essa DTLP.

Partimos da observação da exegese: “O salmo 136 é um hino desenvolvido em forma de ladainha, ou seja, com resposta idêntica a cada invocação.” (Schokel, 1998, p.1549). A base comunicativa, que é o texto, já apresenta esta forma em sua natureza. Porém, a própria dinâmica bíblica exige uma contextualização e uma conexão com o tempo presente.

Tratar como prática abstrata não corresponde a metodologia que exige uma práxis. Todavia, qual será essa vivência? No período em que vivemos, nada mais do que um ato sinodal, de encontro, de missão e ato litúrgico que proporcionará o estímulo natural e expressão clara do povo reunido (Documento Finale, 2024, §27). Sendo assim, claramente se vê uma ação do povo que responde a sua convocação, atrelado ao sacerdócio batismal.

Logo, se torna inevitável que para o ato de peregrinação, sendo isso próprio do povo, seja essa a prática relacional para esse texto e contexto: “quem propõe a litania a que a assembleia responde não é quem preside, e sim o grupo de canto ou solista” (Bonato; Cata Prêta; Matos, 2023, p.379). Consequentemente o processo culmina justamente no que há de vir após a peregrinação que é o ato comunitário de celebrar com suas particularidades:

“a Igreja, Corpo de Cristo, aprende da Eucaristia a articular unidade e pluralidade: a unidade da Igreja e a multiplicidade das assembleias eucarísticas; unidade do mistério sacramental e variedade de tradições litúrgicas; unidade de celebração e diversidade de vocações, carismas e ministérios. Nada mais do que a Eucaristia mostra que a harmonia criada pelo Espírito não é uniformidade e que todo dom eclesial está destinado à edificação comum.” (Documento Finale, 2024, §26, tradução nossa)

 À vista disso, implica musicalidade particular dos batizados e não uma cópia de melodias, quantos menos uma musicalidade universal. Observemos detalhes do desenvolvimento melódico a seguir.

 

A melodia e seus propósitos na ritualidade do texto do Salmo 135 (136)

Em primeiro momento, dentro desse tópico do artigo, se faz necessário afirmar que não se trata de uma indicação para que se realize em sua comunidade, paróquia ou diocese. Trata-se de apresentar, de forma argumentativa e provocativa o desenvolvimento e detalhes importantes para que despertem nas realidades brasileiras o desenvolvimento litúrgico.

Primeira característica é a tipografia do texto. Observando o livro através deste pequeno recorte, temos como destaque os acentos propostos no texto oficial.

Figura 1: Hino Pascal pelas maravilhas do Deus Criador e Libertador.

Fonte: (Conferência Nacional Dos Bispos do Brasil, 2024, p.56).

 

Os acentos estão nas sílabas tônicas das palavras núcleo da frase. Neste primeiro momento de observação do texto, atentamente repararemos na prece aclamativa da assembleia, que encontramos o acento na palavra eterno. Destaca-se alguns pontos: o que é eterno no texto, uma observação filosófica e contextualização para a realidade celebrativa.

Trazendo para a realidade contemporânea, o eterno que é aquilo que é, e não algo que não se acaba, evitando confusões com o infinito. Logo além do tempo, nos é traduzido nas palavras de Francisco como ato constante nas cinco vezes que o termo aparece em sua carta Dilexit nos. Encontramos o Filho eterno, uma realidade física (§60), no encontro e relação constante com Ele (§67) e a ligação íntima com o Pai (§74) criador. Como também se observa as características que enfatizam o amor, que também é traduzido como misericórdia (§99) e resposta de fé do homem como algo concreto, real, nada abstrato (§117). Portanto, se valida que a expressão confiante “por que eterno é”, carrega claramente os adjetivos acima: por que eterna é a disposição de Cristo para conosco que se encarnou; por que eterno é seu amor no estar conosco; por que eterna é a graça de chamar Deus de Pai; por que eterna é sua misericórdia; por que é eterno, confiável e assertivo acreditar.

Para elucidar melhor os apontamentos, observaremos como segunda característica, a melodia abaixo (Formação Caminho, 2024), através da partitura. Agora, primeiramente a melodia da antífona e depois a resposta.

Figura 2 – Partitura Hino pascal pelas maravilhas do Deus Criador e Libertador

 

Fonte: Do autor

 

A proposta para a melodia do cantor é clara: inicia como movimento ascendente até o ponto mais alto da melodia dessa frase, que está para a valorização do acento. A intenção é expressar o movimento de súplica e louvor. Elogios a Deus que são observados justamente na construção frasal do salmo: “alguns enunciados fiquem gramaticalmente interrompidos pelo estribilho (7 e 8, 11 e 12, 13 e 14, 18 e 19) mostra que [...] a série inteira do estribilho pende diretamente do invitatório” (Schokel, 1998, p.1549), que segue: Eterno é seu amor. A melodia da antífona se mantemconstante em um intervalo de quarta, logo, sem saltos melódicos, como indicativo de continuidade e constância. Outro fator importante para a melodia, vem da observação bíblica: “Na prática da recitação cabe prestar mais atenção ao unitário, em atitude contemplativa, centrada na razão unificadora do louvor. Também pode-se escutar o estribilho como acompanhamento rítmico sobre o qual se vai desdobrando a melodia.” (Ibidem, p.1550). Ou seja, melodia mais constante para quem inicia, e evidencie o cantor, o solista para favorecer a ação da assembleia que responderá.

Figura 3 – Partitura Hino pascal pelas maravilhas do Deus Criador e Libertador

Fonte: Do autor

Para a resposta insistente da assembleia, o autor teve a clara intenção de valorizar o acento na sílaba tônica da palavra eterno através das características musicais de ocupar o tempo mais forte do compasso, maior duração de tempo e uma das notas mais agudas da melodia, como também fez semelhante no verso do cantor. Equivalente apenas na altura de nota com o pronome possessivo, para evidenciar de quem é a natureza do eterno.

Dada as informações e construído esse processo argumentativo e formativo, o artigo se encontra em condições de estimular a musicalidade local e uma expressão natural, distinta de uma cópia ou representação de melodia. Sendo assim, terreno preparado para o desenvolvimento mistagógico, que se pede a liturgia.

 

Considerações finais

Torna-se claro que o texto proposto para peregrinação favorece e estimula a participação de cada indivíduo na consciência de comunidade orante. O que nos é pedido como Igreja: “Aprofundar o vínculo entre liturgia e sinodalidade ajudará todas as comunidades cristãs, na pluriformidade de suas culturas e tradições, a adotar estilos celebrativos que manifestem o rosto de uma Igreja sinodal.” (Documento Finale, §27. tradução nossa). Portanto, não basta o texto por si só, mas a dinâmica estrutural e relacional contida na ritualidade para a comunidade. Nisso, é nítido observar que a litania é a forma litúrgica no que se refere ao rito, espaço (percurso), música, conceituação bíblica, cultural, do corpo e textual a partir de observação de um estudo tipológico para este cântico.

Todavia, ainda necessitamos de muito ensaios para que tal compreensão chegue e seja estimulada no povo que se reúne: “toda essa dinamicidade exige uma mente renovada e uma abertura fundamental ao dom do Espírito” (Marques, 2023, p.33). Uma conversão litúrgica.

Uma Igreja sinodal que está em júbilo precisará abrir as portas para o diálogo dentro das realidades e não cair em tentação da cópia pela cópia da internet ou desejar comer a cebola do Egito, embora escravos, havia algo o que comer que era “dado”. Mas, livrai-nos!

 

Referência Bibliográfica

BÍBLIA - Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2003.

 

BONATO, Aline; CATA PRÊTA, Anderson; MATOS, Juliana Mara. Sacrosactum Concilium e a fomentação de diatipologospraxia com música na ação litúrgica. In MARQUES, Frei Luis Felipe; ARNOSO, Pe. Rodrigo. (Orgs.) Atualização Litúrgica 6. São Paulo: Paulus, 2023. cap. 11, p. 365-388

CANÁRIO, Gisele. Hesed (חֶסֶד): mais que uma palavra, um convite para a vida. São Paulo, 04 nov. 2024. Facebook: giselecanario. Disponível em: <https://www.facebook.com/share/r/1Eo3sxWZiV/>. Acesso em: 10 nov. 2024.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Jubileu 2025: Textos Litúrgicos. 1ª Ed. Brasília: Edições CNBB, 2024.

DOCUMENTO FINALE.  Una Chiesa sinodale: comunione, partecipazione, missione. Vaticano: General Secretariat of the Synod, 26 de out. de 2024. Disponível em: <https://www.synod.va/en/news/final-document-of-the-xvi-assembly.html>. Acesso em: 31 out. 2024.

FORMAÇÃO CAMINHO. Jubileu 2025 - Peregrinos de Esperança Hino Pascal Pelas maravilhas do Deus Criador - Peregrinação. YouTube. 28 out. 2024. Disponível em: <https://youtu.be/q3Qwwxu4WYU?si=mrLMLMYvgDb6ZfzI>. Acesso em: 10 nov. 2024.

FRANCISCO, Papa. Vatican.va. Carta Encíclica Dilexit nos: Sobre o amor humano e divino do coração de Jesus. 24 out 2024. Disponível em: <Dilexit nos (24 de outubro de 2024) | Francisco (vatican.va)> Acesso em 27 out 2024.

MARQUES, Luis Felipe C. A mistagogia da missa: nos ritos e nas preces. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023.

SCHOKEL, J. Salmos II: 73-150. São Paulo: Paulus, 1998.



[1]Membro da Associação dos liturgistas do Brasil. Especialista em Neurociência, Música e Educação (Unyleya 2024), Musicoterapeuta (CENSUPEG 2023), Especialista em práticas musicais para espaços religiosos brasileiros (FACEC, 2022), Psicopedagogo (UNIMES, 2022), licenciado em pedagogia (UNIMES, 2021), licenciado em música (UNIMES, 2020).

[2]O SI 136 converte-se em cântico da nova páscoa e, como o perpétuo não terminou, no cântico da futura parusia. (SCHOKEL, 1998, p.1558)

 
Indique a um amigo