Liturgia: Fonte da Piedade e Cume da Vida Espiritual
Frei Davi Maria Santos, O.Carm[1]
Irmã Emanuela Mélo de Souza, OSB[2]
Introdução
Quando afirmamos que a Liturgia é fonte da piedade e cume para onde deve tender espiritualmente toda a vida interior, reconhecemos que esta mesma ação sagrada é perita em humanidade, pois, por seus ritos e preces somos educados e formados na interioridade, visto que a Liturgia procede de Cristo Jesus e é um caminho seguro a ser trilhado.
Apontar a Liturgia como fonte da piedade, é uma forma de reconhecer o valor desta última. Se a fonte da piedade popular dos fiéis é a vida litúrgica, então a piedade, quando bem orientada a partir dos tempos litúrgicos torna-se em consciência aquilo que ela já o é em ato, ou seja, um dom de Deus na vida dos fiéis. Contudo, se a piedade caminhar separada da Liturgia, se transformará em rezas ditas com pureza de coração, entretanto, não atingirá o fim a que estaria destinada caso estivesse unida àquela que é sua fonte.
Do mesmo modo acontece com a vida espiritual ou interior. A Liturgia é fonte da piedade e disso não temos dúvida. Por isso a Liturgia torna-se, por direito, o cume espiritual para todos aqueles que desejam viver a partir do Espírito. Evidentemente, tal cume não é alcançado por meio de uma simples participação litúrgica, e sim, pela abertura do coração à ação do Senhor.
Isso acontece porque a Liturgia é a escola da fé para todo o povo cristão. Nela, a Igreja não celebra a si mesma e nem mesmo as suas próprias ações, mas as de Jesus Cristo. Como também, na Liturgia, nada celebramos que não seja os Mistérios de Cristo Jesus. A Virgem Maria e todos os santos, nós os celebramos sempre imersos n’Ele e a partir do Mistério Pascal do Filho de Deus. Do contrário, não é a Liturgia católica que celebramos. É Jesus Cristo que nos convida a participar de seus Mistérios e neles nos introduz. De fato, “não se vai à Liturgia porque dela se tem desejo ou porque uma pessoa se sente bem; é-se convidado a ela pelo Senhor, e esta é a única razão séria para nela ingressar, e também a mais pessoal” (De Clerck, 2022, p. 47).
Contudo, sem uma reeducação que nos ajude a celebrar a Liturgia como aquilo que ela é, não será possível à comunidade sacerdotal despertar para realidades mais profundas que esta ação cristológica custodia em si. É necessário deixar-se educar e formar pelo rito e pelas preces que liturgicamente falando, são ritos e preces pascais. Visto que, “a Liturgia é o santo serviço de oração da Igreja diante de Deus” (Von Balthasar, 2019, p. 80) e dos batizados que docilmente respondem a este chamado do Ressuscitado.
1- Liturgia: fonte da piedade
Aparentemente podemos pensar que Liturgia e piedade não podem caminhar juntas, o que é um erro. A piedade popular é para o povo de Deus, em especial para os mais simples, um dom de Deus para lhes manter viva a fé no coração. Basta que nos recordemos de tantos hinos populares, chamados de benditos, que são entoados por inúmeras pessoas nas celebrações, nos terços, nas novenas e nos demais encontros das comunidades eclesiais, em especial, naqueles lugares mais distantes da sede paroquial.
Nos primórdios da Igreja, a Liturgia estava unida à vida do povo de tal modo que era impossível pensar a fé cristã que é vivida no ordinário da existência humana separada da celebração dos Mistérios Pascais de Jesus Cristo. Quando temos contato com as obras dos Padres da Igreja percebemos que essa união possui algo de divino e que muito contribuiu para a vida espiritual dos primeiros cristãos no seguimento do Senhor. Já no período dos Padres, percebemos a presença de exercícios espirituais, como por exemplo, as procissões, estações e rogações, que eram celebradas, em especial durante a Quaresma.
Com o decorrer dos séculos, Liturgia e piedade começam a ser “separadas”, o que acarretou uma série de problemas espirituais para a Igreja, pois, a Liturgia passou a “pertencer” apenas ao clero e o povo começou a se refugiar nas devoções particulares. Não que estas não sejam boas; quando bem orientadas produzem muitos bons frutos. Entretanto, se a devoção caminha separada da vida litúrgica, o povo sacerdotal carece daquilo que é mais precioso na vida da Igreja que é a celebração da Páscoa, dado que toda Liturgia, em especial o domingo, é sempre Páscoa.
Quando aproximamos o povo de Deus dos Mistérios celebrados, este mesmo povo que é sacerdote, rei e profeta, passa a experienciar o que São Pio X chama de o “verdadeiro espírito cristão, bebendo na sua fonte, primária e indispensável, que é a participação ativa nos sacrossantos Mistérios e na oração pública da Igreja” (DPPL, n. 46). Esta participação ativa na Liturgia se tornou preciosa para o Movimento Litúrgico, que percebeu que apenas levando a comunidade dos batizados a participarem de forma ativa e consciente é que poderiam despertar para a beleza e a profundidade espiritual da ação sagrada, que é a Liturgia.
Sabiamente, a Igreja nunca desprezou a piedade popular apontando-a como algo prejudicial, antes, o próprio Concílio Vaticano II, recomenda exercícios piedosos ao povo cristão, desde que estejam em conformidade com os ensinamentos e as normas da Igreja (cf. SC). Como também muitos(as) teólogos(as) liturgistas atuais, procuram refletir apontando os melhores caminhos para uma união sempre mais frutuosa da Liturgia com a piedade do povo de Deus. Assim,
A piedade popular, justamente considerada um verdadeiro tesouro do povo de Deus, manifesta uma sede de Deus que só os simples e os pobres podem conhecer; torna capazes de generosidade e de sacrifício até o heroísmo, quando se trata de manifestar a fé; comporta um sentido apurado dos atributos profundos de Deus (DPPL, n. 9).
Contudo, faz-se necessário um verdadeiro e oportuno discernimento na vida espiritual para se saber quais devoções são inspiradas pelo Espírito de Deus e quais partem da imaginação ou de gostos pessoais. Se não forem purificadas, as devoções se tornarão um empecilho para uma sadia vivência da Liturgia. A sã piedade popular, mesmo aquela mais “particular”, quando é vivida no seio da comunidade eclesial torna-se uma fonte que não aponta para ela. A Liturgia é o ponto de referência que canaliza e encaminha os anseios oracionais da vida carismática e devocional (cf. DPPL). Embora a Liturgia não esgote toda a vida espiritual (cf. SC), ela é como um parâmetro para sabermos se a piedade que vivemos é dom do Espírito ou não.
Afirmar que a Liturgia é fonte para a piedade e a vida espiritual é inicialmente reconhecer que é desta ação sagrada que brota toda a força e dinamismo que sustenta e impulsiona a piedade, transformando-a em um meio de experienciar o Mistério de Deus que abraça toda a da existência humana. A piedade que se faz presente e atuante na vida espiritual é um dom do Espírito Santo, que gera atitudes necessárias na caminhada interior. Por conseguinte, ambas, devem partir, se desenvolver e retornar sempre para a Liturgia, o lugar onde, por sua vez, “impele os fiéis, saciados pelos Mistérios Pascais, a viverem unidos no amor [...]. É, portanto, da Liturgia, principalmente da Eucaristia, que, como de uma fonte brota para nós a graça” (SC, n. 10).
Como fonte da piedade, a Liturgia torna-se também sua moderadora, ou seja, aquela que trata de apontar os caminhos e meios para que a piedade se desenvolva. Um caminho atual para seu desenvolvimento é pensar exercícios piedosos a partir da celebração mistagógica do ano litúrgico (cf. DPPL). Deste modo, a piedade e a vida espiritual serão alicerçadas na rocha da fé, pois, no ano litúrgico, são celebradas as ações salvíficas ou os mistérios de Cristo.
2- Liturgia: cume da vida espiritual
A Liturgia é ação sacerdotal de Jesus Cristo, afirma a Sacrosanctum Concilium, e por ser ação d’Ele é que ela se torna a fonte principal e o cume da vida espiritual. Isso acontece pelo fato de que a Liturgia celebra continuamente o Mistério da presentificação da Páscoa do Senhor em nosso meio, não apenas por ritos e preces – muitas até seculares – como também quando aqueles que se aproximam do altar tomam consciência do que estão celebrando e vivem a Liturgia que é celebrada.
A presença da Liturgia na vida cristã pode ser comparada a uma bússola, que guia e aponta o caminho certo, mostrando para qual direção os passos devem dirigir-se, ou seja, para o próprio Cristo Jesus, aquele que é o fundamento e razão de sua existência na vida espiritual.
Celebrar a Liturgia e adentrar nos Mistérios é se permitir ser tocado no mais profundo do ser por Jesus Cristo Crucificado/Ressuscitado que se comunica à assembleia por meio de sua Palavra, que forma e faz arder os corações daqueles que a ouvem e pela Eucaristia, alimentando e fortalecendo o seu corpo místico que peregrina no mundo a caminho do céu. assim sendo, a Liturgia é a escola dos discípulos. Deste modo,
A Liturgia é a ação da Igreja em que se torna presente Cristo, isto é, a ação salvífica de Cristo na Igreja, assumindo a fisionomia de ação ritual. O centro da Liturgia é a Páscoa, fulcro de toda a história da salvação, ou melhor, o Mistério de Cristo como História da Salvação (Cordeiro, 2014, p. 13).
Falar de vida espiritual sem mencionar a importância e a necessidade da vida litúrgica como sua fonte principal, acarreta o perigo que é o de se considerar autossuficiente. Sobre isso, o Papa Francisco, chama-nos a atenção ao falar da mundanidade espiritual (cf. EG), que se manifesta de muitas formas, como também no desprezo ou a não devida valoração da Liturgia, que nos garante a possibilidade do encontro com Deus, conosco mesmo e com os irmãos e irmãs que formam a comunidade.
A Liturgia, que é uma ação comunitária pode nos libertar do autorreferencialismo e nos abrir os “olhos da fé” para a vida espiritual (cf. DD) que, embora seja pessoal, é também comunitária, pois, ninguém vive uma vida espiritual autêntica de maneira egoísta e fechado em si mesmo. A vida espiritual deve ser como uma luz que, por meio do testemunho ilumina a outros que estão nos caminhos do Espírito. Daí a necessidade da vida litúrgica, visto que esta é ação de Jesus Cristo e da comunidade dos batizados.
Na Liturgia, celebramos os Mistérios de Jesus Cristo e na vida espiritual somos chamados a viver estes Mistérios, fazendo com que o que celebramos seja vivenciado e o que vivenciamos seja apresentado ao Senhor em sua ação para que se torne dom de seu Amor. Deste modo – e não apenas – a Páscoa começará a produzir frutos em nossas vidas, tornando-nos homens e mulheres renovados em Cristo. Por isso, um dos principais frutos que uma vida espiritual autêntica produz na vida cristã é a consciência de que nascemos da Páscoa e para a Páscoa e que a vida humana deve ser uma Páscoa diária, ou seja: encontro com Cristo Ressuscitado.
A espiritualidade litúrgica que se fundamenta no Cristocentrismo, na Sagrada Escritura, nos Sacramentos e na Páscoa (Cf. Marsili, 2009), pode e deve ser também o fundamento de toda a vida espiritual, para que assim a comunidade cristã esteja aberta para vivenciar as surpresas dos Mistérios de Deus que se revelam em seu Filho Jesus Cristo. Por isso, “a vida espiritual, liturgicamente orientada, nasce da celebração vivida” (Marques, 2023, p. 168), no cotidiano da existência humana.
A vida espiritual é um campo muito fértil para a Liturgia, isto é, nela, a Liturgia produz dons, haja vista que, “a Liturgia é vida e não uma ideia a ser compreendida” (Marques, 2023, p. 168). A celebração dos Mistérios do Senhor transforma – se nos abrirmos – nossa maneira de pensar, agir e julgar, nos levando a atuar como alguém que vive uma vida cristocêntrica. Nesse viés, a arte de celebrar encontra plena adesão na vida interior, pois, a celebração litúrgica não se resume a posições – embora necessárias – no rito, mas sobretudo, a encarnar, nas atitudes, os atos da celebração do Mistério Pascal.
A Liturgia possui importância na vida espiritual pelo fato de que ela é fonte e cume da atividade eclesial. O próprio Concílio Vaticano II, na Sacrosanctum Concilium afirma: “a Liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte donde emana toda a sua força” (n. 10). Neste sentido, a Liturgia torna-se fonte e cume da vida espiritual. Fonte donde brota a força necessária para os caminhos do Espírito, nem sempre compreensíveis à nossa humanidade e cume para onde devem se encaminhar todas as espiritualidades eclesiais e a vida interior. Sem a Páscoa, nada faz sentido na vida espiritual. Deste modo,
Toda a vida espiritual inicial amadurece em contato com Cristo; Cristo, porém, entra em contato com os homens por meio dos Sacramentos, de modo objetivo e real. Todos os outros meios para aumentar a vida espiritual (ascese, oração, devoções, trabalho) têm na Liturgia sua fonte, especialmente no Batismo-Confirmação, que por seu caráter sacramental constitui um estado “litúrgico” cultual e permanente (Castellano, 2008, p. 53).
Portanto, a Liturgia, para produzir frutos duradouros em nossas vidas não poderá ser apenas um momento efêmero, antes, deve ser um tempo de Deus que, espiritualmente falando não se conclui com o término do rito e das preces. Isso acontece porque na Liturgia encontramos o seio materno da vida espiritual, e para que este seio não venha a ser puramente ritualístico, para ele devem convergir toda a existência humana, com suas alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, para que a vida terrena seja tocada e transformada pela experiência do Ressuscitado e deste modo o corpo místico possua a vida divina a que tanto anseia e de que necessita.
3- Educados pela Liturgia
A Igreja é obra salvífica de Jesus Cristo, afirma Bartolomeu Xiberta, O.Carm, (cf. Xiberta, 1954). Sendo esta mesma Igreja obra de salvação e a Liturgia ação do Senhor nela, que é seu corpo, é que se faz necessário pensar a piedade popular e a vida espiritual não de forma separada, uma da outra, uma vez que a Liturgia é fonte e cume para ambas. A Igreja, opus Christi, ou seja, obra de Cristo, é visivelmente corpo místico do Senhor quando se reúne para celebrar a Páscoa e espiritualmente quando aqueles que fazem parte deste corpo vivem interiormente daquilo que celebram. Assim, a partir da ação sagrada que é a celebração litúrgica, a piedade e a vida espiritual ganham forma e sua razão de ser.
Sabemos que a Liturgia é ação do Senhor e por isso é dom do Espírito Santo àquela que é obra sua, a Igreja. Contudo, é necessário, em nossos dias, um certo equilíbrio litúrgico que parta sempre do que a Igreja celebra e da forma que ela propõe tal celebração. Por equilíbrio entendemos ainda a educação litúrgica, que por meio de ritos e preces somos guiados na vida espiritual e formados na verdadeira piedade que nasce daquilo que celebramos, isto é, da Páscoa.
Seria de muito proveito espiritual se as devoções que temos acompanhassem os tempos litúrgicos. Assim como já acontece no período quaresmal com a via sacra e as caminhadas penitenciais próprias deste tempo preparatório para a Páscoa. Como também no exercício contemplativo do rosário, quando a meditação dos Mistérios da vida do Senhor se torna o ponto central desta oração secular. Dessa maneira, a piedade com suas devoções estaria fazendo uma “volta” às suas fontes e se redescobrindo como uma via de acesso a Deus que não permanece apenas no devocional, mas, que caminha de acordo com o tempo celebrado.
Falar de educação litúrgica é repropor que a Liturgia seja o parâmetro que nos aponta o caminho certo na vida espiritual e, por conseguinte, na piedade popular. Quando vida espiritual e piedade nascem da ação sagrada do Senhor e nela encontram seu alicerce procurando caminhar e rezar sempre a partir do que é celebrado, no decorrer do ano litúrgico, o povo sacerdotal, régio e profético passa a vivenciar a ritualidade litúrgica como momento histórico que presentifica a Salvação (cf. Costa, 2010). Desta maneira, a Liturgia, equilibra a vida interior e a piedade evitando exageros ou vivências que não condizem com os anseios da Igreja e as inspirações do Espírito. Entretanto, para que isso aconteça, é preciso que aqueles que desejam uma vida interior profunda e uma piedade verdadeira se permitam ser educados pela Liturgia.
Torna-se fruto de uma celebração litúrgica ativa e consciente uma Liturgia que ajude os fiéis, por meio de sua sacramentalidade, a descobrirem qual o sentido da piedade popular e o fundamento da vida interior, pois ambas, tanto a piedade como a vida interior são dons espirituais que nos predispõem a uma amorosa acolhida do Mistério que na Liturgia é celebrado, visto que, a centralidade do Mistério Pascal nas celebrações litúrgicas (cf. Guedes, 2019) é o grande mestre que nos conduz nas vias espirituais e piedosas, pois, “essa centralidade do Mistério de Cristo é que garante que a piedade popular e a celebração litúrgica se integrem” (Costa, 2010, p. 109).
A educação litúrgica que nos forma para uma melhor e mais frutuosa celebração nos ajuda a reconhecer que o sensus fidei, presente na vida da Igreja desde os primeiros séculos é um dom da Trindade que, quando bem formado e orientado produz muitos frutos na vida eclesial. Neste sentido, o educar litúrgico se torna decisivo, “porque a participação ativa, plena, consciente e frutuosa na celebração, fundada na estrutura sacramental da Igreja e no sacerdócio de Cristo é um direito e um dever de todos os fiéis” (Cordeiro, 2014, p. 15), que lhes orienta a consciência celebrativa para uma vivência diária da consagração batismal.
Um outro fruto deste educar litúrgico que é um dom de Deus é a maturidade litúrgica, que a partir da abertura pessoal de coração nos leva a uma conversão eclesial e transformação do olhar e dos atos. Através da maturidade litúrgica somos formados pela e para a Liturgia (cf. DD), isto é, por Cristo Jesus e para Ele. Talvez apenas formando/educando o povo de Deus de maneira madura é que alcançaremos a tão desejada participação que o Movimento Litúrgico sonhou e desejou e que felizmente o Concílio Vaticano II abraçou, por isso, com razão afirma Fernando Lorenz que, “a formação litúrgica abre os caminhos que nos fazem ir ao encontro da brisa suave que paira sobre o monte santo, onde celebramos o Mistério Pascal de Cristo” (2023, p. 19).
A maturidade a que somos conduzidos pela educação litúrgica nos ajuda a sair da mediocridade de celebrar de qualquer jeito e nos leva à profundidade da Liturgia. Assim, a famosa pergunta “pode ou não pode”, tão presente em nossas paróquias e que muitas vezes faz um mal terrível, já não haverá visto que, a consciência madura de cada batizado o levará a saber o que pode mesmo ou não. É claro que isso não é um passe de mágica, mas sim, o resultado de todo um itinerário formativo autêntico e sério, como também compromissado em formar a partir daquilo que a Igreja ensina, em especial, no Magistério atual, ancorados na verdadeira Tradição e não em tradicionalismos. A Tradição verdadeira é a fé pulsante e viva de tantos já vivenciam a Páscoa eterna, enquanto o tradicionalismo é a fé morta que alguns vivos insistem em querer reanimar.
O educar litúrgico que a comunidade batismal é chamada a ajudar a redescobrir e manifestar os Mistérios de Cristo, procurando celebrar e viver da Liturgia, unindo oração e vida, fé e atos, vida espiritual e humanidade, pois, a fé que rezamos porque acreditamos tem desejo de se encontrar com nossa vivência a se enraizar em nosso dia a dia. Isto é a santidade diária que pelo batismo somos todos convidados.
Conclusão
Depois deste caminho iniciado, podemos melhor perceber que a Liturgia está no DNA da Igreja e sua ausência acarretaria numa crise de sentido para a missão de anunciar a Jesus Cristo, isso porque a Liturgia é uma questão eclesial e não apenas um desejo daqueles que são cultores da ciência litúrgica. É da Liturgia, celebração e ação do Cristo Jesus que brota toda a vida espiritual e piedosa da Igreja.
Deste modo, não pode a Liturgia ser reduzida pura e simplesmente a atos externos, sem que estes não encontrem eco em nossa forma de ser e nos ajudem a viver cristificados. Por ser encontro com Cristo é que da Liturgia emerge toda a força e vivacidade da vida espiritual. A respeito disso, basta que olhemos a vida dos santos, que sempre foram homens e mulheres profundamente litúrgicos, isso porque tinham em consciência que ela é ação sagrada do Senhor e desta mesma ação é que nascem os gestos de piedade como manifestação da vida interior.
A Liturgia cresce com aqueles que a rezam, ou seja, a celebram, contudo, para que isso aconteça é necessário que vivamos da Liturgia que celebramos. A Liturgia torna vibrante e atuante a vida espiritual, redireciona a piedade do povo de Deus para que esta nasça do Mistério Pascal. É a Liturgia que nos acompanha desde os primeiros anos de vida, está conosco no decorrer de nossa existência, e no último instante, celebramos ainda uma Liturgia que, mesmo sem sendo pessoal – a unção dos enfermos – possui um caráter fortemente eclesial. Desta maneira, de Liturgia em Liturgia caminhamos como peregrinos na esperança, com o coração e a mente tocados pelo Senhor, rumo à Páscoa eterna.
Referências
CORDEIRO, José Manuel. Corações ao Alto. Introdução à Liturgia da Igreja. Lisboa: PAULUS, 2014.
COSTA, Valeriano Santos. Viver a Ritualidade Litúrgica como Momento Histórico da Salvação. São Paulo: Paulinas, 2010.
CASTELLANO, Jesus. Liturgia e Vida Interior. Teologia, Celebração, Experiência. São Paulo: Paulinas, 2008.
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