LITURGIA, SACRAMENTOS E FESTAS

LITURGIA, SACRAMENTOS E FESTAS 

Nós, liturgistas e teólogos do Brasil, assim como todo bom estudioso e, finalmente, todo apreciador da boa literatura do âmbito da teologia e do conhecimento in genere, fomos presenteados recentemente com a publicação em português da obra intitulada Liturgia, sacramentos, festas, do professor italiano Monsenhor Inos Biffi, pela editora Vozes (Petrópolis, 2022). 

         O autor, infelizmente, ainda desconhecido no Brasil, é um dos tipos padrões de teólogos com formação universal, mas não enciclopédica ou “dicionarística”, e sim de natureza de conhecimento com profundidade, propriedade e grande valor científico. Renomado teólogo da catedral de Milão, a sua opera omnia, com mais de 20 grandes volumes, revela o seu domínio e particular fineza em temas como o cristocentrismo na obra de São Tomás de Aquino e no trato dos grandes autores medievais e modernos, abordados tanto do ponto de vista teológico, quanto histórico, litúrgico e linguístico, de modo que não se pode tratar seriamente de autores como Santo Ambrósio de Milão ou São Bernardo de Claraval, ou da história da teologia, sem fazer referência, e reverência, ao teólogo octogenário milanês.

         A obra Liturgia, Sacramentos, Festas, que agora temos entre as mãos é, na verdade, uma espécie de ensaio que reúne um conjunto de artigos, que apareceram em vários momentos e em diferentes contingências. Todo o material, harmoniosamente agrupado, se apresenta distribuída em três partes. Na primeira parte, intitulada, simplesmente A liturgia, formada por 10 estudos/capítulos, o autor condensou os temas teológicos fundamentais da ciência litúrgica, onde se escutam com clareza sonora inigualável, os ditados cúspides do Concílio Vaticano II, desenvolvidos maximamente, pela Sacrosanctum Concilium. Entre outros, a liturgia é apresentada como mistério de Cristo e da Igreja (cap. 1.8.9); lugar de experiência da fé (cap.2); que tem linguagem própria e relacional, que dialoga entre a liturgia em si e a antropologia (cap. 3.5) e, para que seja realmente assimilada tal linguagem, precisa-se investir num processo formativo harmônico/mistagógico, com uma inevitável referência “guardiniana”, como ultimamente o fez o Papa Francisco em Desiderio Desideravi (cap.4.10). Está claro para o autor que os ritos restaurados pelo Concílio Vaticano II, teologicamente mais ricos e liturgicamente mais “verdadeiros” e autênticos, são o veículo condutor ao e do único mistério Cristo. 

         A segunda parte – Os sacramentos: memória e sinais da salvação – é formada por 15 capítulos, agrupados em estudos que se ocupam dos sacramentos in genere, sacramentologia geral, e dos sacramentos in specie. Os quatro primeiros capítulos se dedicam em apresentar os sacramentos como ações litúrgicas, indicando-os sempre como obra de Cristo e da Igreja, numa perspectiva de pascalidade da totalidade. A particularidade do autor, embora não seja liturgista, propriamente dito, mas um apaixonado curador dessa ciência, é de não ignorar a estreita relação entre teologia sacramental, rito, prece e mística. Nos capítulos seguintes o autor se debruça sobre os sacramentos, começando pelos da Iniciação Cristã – Batismo, Crisma e Eucaristia – aos quais dedica um amplo espaço de reflexão (cap. 5-11). Um capítulo é dedicado ao sacramento da Penitência (cap. 12) e outro à Unção dos Enfermos, na perspectiva do “conforto pascal de Cristo” (cap. 13). Os capítulos 14 e 15 se ocupam, respectivamente, do “sacerdócio ministerial” e do sacramento do Matrimônio. Finalmente, um capítulo (cap. 16) funciona como síntese e epílogo do tema sacramental.

         Dividida em duas seções, a terceira parte, se ocupa do Ano Litúrgico e as estações da salvação. A primeira seção tem como objeto as celebrações do ciclo das manifestações: Advento, Natal, Epifania. Depois de uma introdução geral ao tema do Ano Litúrgico, dois capítulos (cap. 1.2) se ocupam do Advento, sob os aspectos espiritual e das linhas mestras que guiam a sua celebração. Os dois capítulos sucessivos (cap. 3.4) se ocupam do Natal, da Epifania e do Batismo do Senhor. O autor não desenvolve os aspectos históricos dessas celebrações, acentuando mais a teologia, a espiritualidade e a antropologia. A segunda seção, dividida em 10 capítulos, se concentra sobre as celebrações do ciclo da glorificação: Quaresma e Páscoa. A introdução à seção evidencia imediatamente a centralidade do Mistério Pascal, tema do qual se ocupa especificamente o quarto capítulo dessa seção. Os capítulos são dedicados à Quaresma e ao seu itinerário (cap. 1.8), à Semana Santa (cap. 2), a uma visão teológica do Tríduo Pascal (cap. 3.9) e à uma leitura mais “espiritual” do Tempo da Páscoa (cap. 5.10). Dois outros aspectos são ainda contemplados nessa seção: a participação da Bem-aventurada Virgem Maria na História da salvação (cap. 6) e a dimensão antropológica da festa cristã (cap. 7).

         A obra de 641 páginas não chega a constituir um “verdadeiro manual de ciência litúrgica”. De fato, se apresenta muito pobre no que diz respeito ao aparato técnico bibliográfico e os temas não se apresentam sempre dentro de uma lógica de percurso didático/formativo. Convém sempre salientar, todavia, que se trata de uma coletânea de textos que perfazem um arco de cerca 15 anos. Uma dificuldade que o texto apresenta para citações futuras é o fato de não ter capítulos seguidos, mas recapitulados a cada parte e seção da obra. Seja como for, o que temos entre as mãos é uma daquelas obras que não pode jamais não configurar entre os livros das estantes de todo e qualquer estudioso ou curioso do tema da liturgia: bispos, presbíteros, diáconos, estudiosos da Ciência Litúrgica, agentes de pastoral litúrgica etc. Ouso dizer que, de agora em diante, se deve desconfiar de um liturgista que não tenha sobre a sua mesa de trabalho a obra do prof. Biffi.    

 

Boa leitura.

In pace fixus

 

Dom Jerônimo Pereira Silva, osb

Presidente da ASLI

 

 

 

 
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