MEU DEUS POR QUE ME ABANDONASTES? A EXPRESSÃO CANTADA DA ASSEMBLEIA DENTRO DO CONTEXTO DA SEMANA SANTA

MEU DEUS POR QUE ME ABANDONASTES? A EXPRESSÃO CANTADA DA ASSEMBLEIA DENTRO DO CONTEXTO DA SEMANA SANTA

 

Anderson Cata Prêta[1]

Juliana Mara da Silva Matos[2]

 

Introdução

Ao apresentar esse texto é preciso comunicar ao leitor que, por ora poderá estar buscando o funcionalismo de como cantar o estribilho no rito do salmo responsorial ou a espera de uma valorização sentimental, não será esse o foco, uma vez que é um percurso dado ao fracasso não só liturgicamente, mas teologicamente:

 

“na teologia mais recente, fizeram-se muitas tentativas incisivas de perscrutar, partindo desse brado de angústia de Jesus, os abismos da sua Alma e compreender o mistério da sua Pessoa no tormento extremo. No fim das contas, todos esses esforços caracterizaram-se por uma abordagem demasiado limitada e individualista” (BENTO XVI, 2011, p.195).

 

A partir do momento ritual em que o texto é sugerido, pretende-se verificar as possibilidades melódicas, sem ferir a liberdade comunicativa e musicalidade que o povo reunido possa ter, mostrando a amplitude que o texto dentro de um contexto possui.

Verificaremos a base do texto, sua divisão silábica, sua ritualidade, suas possibilidades neurais, até alcançar a amplitude espacial, cultural e por fim relacional. Ou seja, o exercício de diatipologospraxia, fundamentado em sete tipologias (BONATO; CATA PRÊTA; MATOS, 2023, p.366). E, a partir dessa análise, apontar saídas de como a expressão concatena com o contexto da semana santa, sobretudo, observando a ritualidade do tríduo Pascal.

O presente texto, procura trazer mais clareza ao povo que tem por participação ativa assumir a resposta da primeira leitura, sem precisar de explicações desnecessárias ou ensinamentos de melodia. Ou seja, não cair no funcionalismo do texto musicado ou de uma apresentação musical: fato que ocorre nas realidades brasileiras, mas de fomentar o desenvolvimento de liturgia e o contexto que os ritos possuem entrelaçados e postos para a participação dos fiéis.

 

A tipologia Bíblica e a sua apresentação poética-textual no Lecionário

O nosso objeto de estudo é o estribilho do salmo responsorial da liturgia de Domingo de Ramos, que corresponde ao versículo 2a do salmo 21 (22): “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Dado o objeto investigativo, passaremos o olhar sob sete tipologias que sustentam a argumentação do método da diatipologospraxia e consequentemente nos fornecer base e orientações para a expressão nesse determinado momento ritual.

Iniciaremos pela tipologia bíblica, tendo o verbo aproximar como referencial, não apenas para essa tipologia, mas para as outras que encontraremos nesse texto. Poderíamos nos atentar ao sentido de justo que grita dia e noite, porém não tem a atenção de Deus (BORTOLINI, 2000, p.100).  A priori teríamos o paradoxo da compreensão bíblica: entre a “súplica extraordinária do inocente perseguido e libertado” (SCHOKEL, 1996, p. 361) e daquele que por conta dos delitos está afastado de Deus, e então não é escutado (AGOSTINHO, 1997, p.191). Todavia, à luz da ritualidade da semana Santa, perceberemos que Cristo, que carregou sobre si todas as nossas enfermidades, nos une nele – inocente que sofre – e santificados nele os que cometem delitos, outrora distantes (BENTO XVI, 2011, 195).

Após verificarmos os comentários bíblicos sobre o texto, associaremos a forma poética com que o texto é apresentado no Lecionário:

 

Figura 1: Salmo responsorial


Fonte: SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO, 1994, p. 449

 

Em primeiro olhar, encontramos os acentos (já seria a apropriação da tipologia ritual, mas nos atentaremos nesse tópico a tipologia textual) que nortearão a forma com que vamos organizar o texto, a saber: “Deus”, “que” e “nas”. Segundo passo é dividir as nossas sílabas focalizando como estrutura e ponto de referência, os acentos. Em um terceiro momento, observarmos que o primeiro acento é a segunda sílaba poética, subentendemos que a primeira sílaba é um anacruse. Organizemos o texto:

 

Meu    Deus   meu     Deus

Por      que      mea-    ban

Do       nas      te

 

Com o breve exercício de observação, já possuímos a organização poética, o movimento melódico e a intenção bíblica. Para contribuir com a possibilidade melódica e o incentivo de expressão, passaremos a observar em língua portuguesa a forma de expressão da frase.

O vocativo que inicia a oração é repetido duas vezes. Aqui temos uma apóstrofe, figura de linguagem em que um interlocutor chama outro, ainda que não se localize no mesmo local ou tempo, fazendo com que se torne “seu interlocutor imediato” (AZEREDO, 2018, p. 542). Tal ação apenas é possível ser realizada quando o emissor tem plena confiança no interlocutor a quem chama. Confiança de que será compreendido e ouvido. Assim, essa repetição apostrófica, indica essa invocação confiante. É o tipo de convocação que se faz apenas aqueles com quem se possui um vínculo relacional muito estreito. 

Segue-se à invocação, o questionamento introduzido pelo advérbio interrogativo de causa: “por que”. Pela sua própria natureza subentende-se introduzir a busca pelo motivo ou causa que levou ao abandono. Entretanto, esse questionamento soa mais como uma confidência surgida do íntimo sendo revelada, do que como reconhecimento ou afirmação de, de fato, sentir-se abandonado, uma vez que a invocação inicial, conforme explicitado, parte da certeza de que a pessoa chamada está ouvindo.

Neste ponto, exegese e interpretação textual se convergem ainda mais:

 

A duplicação do título do Deus pessoal e a interrogação estabelecem o tom pressuroso da súplica. A pergunta não é protesto, mas é exigência confiante, necessidade de explicar um fato incompreensível. Porque é incompreensível que sendo tu “meu Deus”, o único que eu reconheço, me tenhas abandonado, como se não fosses meu Deus ou eu não fosse teu. Mas se o orante pode dirigir-se a seu Deus em termos tão pessoais, é que não foi abandonado. (SCHOKEL, 1996, p. 363)

 

 

A provocação neural no corpo, e a superação do clichê harmônico: tipologia do corpo e da música.

Como já é tácito, o texto possui uma “intensidade da expressão, ampla sem ser difusa” (SCHOKEL, 1996, p.360). Logo, exigirá tanto do corpo quanto no encadeamento musical uma consonância e harmonia, com a finalidade de reverberar e entrelaçar as tipologias.

Dado o conhecimento adquirido, é proposital que sons conflituosos façam parte do arranjo. Isso não significa que devemos apropriar de escalas menores naturais ou harmônicas com finalidade indutiva mas que, de acordo com os acentos, sejam enfatizados acordes que causem na expressão sensações que estimulam a resposta intencional do texto. A priori temos a escolha do compasso ternário para a composição demonstrativa. Ressalto que em hipótese alguma estamos indicando a melodia para o uso nas realidades brasileiras. Seria uma falta de sensibilidade com as musicalidades locais. Portanto, estamos apresentando uma possibilidade melódica para uma realidade celebrativa específica. É salutar ainda enfatizar de que “nenhuma preferência neurológica é inata por determinados tipos de música” (SACKS, 2007, p.111), ou seja, não é plausível considerar que nota específica, intervalos ou acordes determinam ações e reações, quanto menos sentido, mas é preciso de contexto. 

A escolha, e não a fórmula do compasso ternário, está condicionada a música silábica, inspiração tanto na teoria musical de Agostinho, quanto na estrutura linguística do canto gregoriano, na perspectiva da musicalidade local em que será celebrado com essa melodia. Assim, uma escolha funcional e não funcionalista, pois não tem o fim em si, mas projeta condições. Como observamos, temos um movimento anacrúsico, e para valorizar os acentos, daria dois tempos de compasso para cada um e uma pausa que valorizaria os dois primeiros acentos e passível de respiração. Um elemento importante para a expressão que muitas vezes é esquecido. Atentamos a partitura:

 

Figura 2: Salmo Responsorial – Domingo de Ramos


Fonte: Do autor

 

Atentos na análise, observaremos a duração das notas, os tempos e movimento, por isso os acentos mais duradouros: “tudo o que soa é da alçada do movimento, de fato, e as sílabas, enfim – as sílabas soam” (AGOSTINHO,2021, p.71). Sobre as alturas (aproximação e distância), olhando a relação do primeiro intervalo, a intenção é colocar o eu do pronome possessivo em nota mais baixa que a nota de Deus, que além de acento mostra que é de maior duração que a primeira nota. Destacamos o intervalo de terça menor, valorizando que é próximo, mas esta proximidade, do ponto de vista do homem é imperfeita, portanto, um considerável e tenso afastamento. O movimento descendente a partir do compasso seguinte mostra o silêncio da resposta divina, e mergulha no profundo do clemente, acabando-se no vazio. Movimento que enaltece o “ultimato de súplica” (SCHOKEL, 1996, p.360) próprio do gênero literário do texto. O movimento ascendente dos compassos seguintes está relacionado com continuidade e amplitude do abandono: “o brado no tormento extremo é simultaneamente certeza da resposta divina, certeza da salvação não só para o próprio Jesus, mas para muitos” (BENTO XVI, 2011, p.195). A melodia se joga, se lança e não precisa se escorar em si, mas esperança: “Deus permanece seu Deus, Jesus põe sua confiança incondicionada no Deus que sempre foi seu Deus e o é também agora” (MANICARDI, 2023, p.120), moção terapêutica que a música precisa se apropriar. E tudo isso é visto na forma com que os acordes se apresentam. 

Iniciar com o acorde menor, é justamente para enfatizar a tensão e dissonância existente no pronome possessivo. Mas, quando pronuncio o nome de Deus, a sua relativa, a semelhança maior dá clareza. O segundo meu Deus não é o foco da próxima frase, porém não deve ser desprezado, e então utiliza-se do recurso de passagem para ligar a ideia melódica e trazer de volta o conflito do intervalo de terça menor. Por fim, o acorde escolhido para enfatizar o abandono, a falta de rumo, a incerteza, sem deixar esmagar a esperança é um acorde de possibilidades, o quinto grau que nessa escala é a subdominante: tem a intenção de causar preparação para intensificar a tensão ou criar repouso. Ou seja, não resolve. E justamente aí está o objetivo. Estamos iniciando a Semana Santa, as leituras encaminham para a paixão e morte, mas sem negar o esperançar da ressurreição. Neurologicamente estamos apontando para o recurso da cadência de engano, que nada mais é “uma resolução satisfatória [...] um acorde que nos diz que não acabou, um acorde que não resolve completamente” (LEVITIN, 2021, p.111-112). Conseguinte, não é a manipulação da expectativa, mas a provocação para o que deve ficar em aberto.

 

O espaço celebrativo e a cultura como expressões valorizadas, próprias da ritualidade

Partindo da ritualidade e para a ritualidade, teremos o percurso facilitado para a relação com as tipologias da cultura e do espaço celebrativo. Observemos a mistagogia nos ritos e preces:

texto que apresenta afinidade literária e temática com a primeira leitura ou com o Evangelho [...] serve para ampliar, completar e responder as temáticas da palavra proclamada. O movimento é claro, se na primeira leitura Deus fala conosco, no salmo nós o respondemos por meio do canto (MARQUES, 2023, p.84).

 

Se nós respondemos a Deus, é o espaço litúrgico que precisa manifestar tal resposta: o corpo, a assembleia. E a teologia do salmo reafirma essa ideia: “reza como corpo: isto significa que a luta de todos nós, as nossas próprias vozes, a nossa tribulação e a nossa esperança estão presentes (BENTO XVI, 2011, p.196). Este povo toma parte no e após o silêncio entre a leitura e o salmo, a decisão em responder. O texto não pertence a quem desenvolve estimulando a DTLP do responsório, mas a quem está apto a responder com canto, estimulado pela leitura que antecedeu. Logo, é claramente uma expressão do povo, dos que estão sentados! A musicalidade é própria, é cultural, não é influenciada por apresentações, modismos ou emoções singulares. Seria conflitante com a própria ritualidade do texto que foi compilado e construído

 

nas várias épocas e fases da existência de Israel. Eles revelam a oração de um povo que ouviu falar de Deus na criação e nos eventos da história. Exprimem alegria e admiração, gratidão e arrependimento, angústias e tristezas, pedido de ajuda, de perdão e proteção. Em cada salmo está expresso o sentimento mais profundo de cada criatura humana em relação com Deus. (MARQUES, 2023, p.85)

 

Na ritualidade percebemos as relações do espaço, a necessidade da expressão natural e cultural do povo reunido e as tipologias músicas (tipologias musicais) e bíblicas sendo retomadas. 

E não apenas na questão do rito em si, mas no contexto que o texto se refere, o salmo 22 (21) é uma súplica que converge ao louvor desse justo que possui íntima relação com Deus. Se apropria de um pronome possessivo, portanto conjectural a aproximação e a graça batismal e que culminará, não no texto do Domingo de Ramos, mas na projeção dada pelo salmista pelo Deus que o liberta o faz cantar louvores (BORTOLONI, 2000, p.101), para nós no contexto da semana maior, o louvor na noite Santa da Vigília Pascal. No contexto do salmo, que “permeia a narração da paixão e ultrapassa-a" (BENTO XVI, 2011, p.195) se dá no versículo 25 que não está no texto da liturgia de Domingo de Ramos. O que fortalece a ideia de inacabado ou sem espaço para complemento, tanto na ritualidade da semana, quanto se exige na expressão já refletida no tópico anterior.

 

Expressão - Diatipologospraxia

Após o percurso objetivo e de certa forma rasante, porém não menos argumentativo, encontramos a DTLP do responsório: “uma das mais antigas formas de cantar a liturgia destaca-se por uma resposta de frases curtas [...] e tem por característica projetar sentido sobre o texto que procede, e estimular a participação consciente, na medida em que provoca a meditação do texto com o qual se relaciona” (BONATO; CATA PRÊTA; MATOS, 2023, p.377). Práxis descrita na relação (dià), dinâmica (typos) e reverberação (lógos) que o texto foi costurando pelas tipologias, sendo claro e natural o formar-se pela liturgia, não havendo necessidade de explicações desnecessárias. O rio desagua no mar, como um processo natural.

 

Considerações finais

Ao chegarmos ao fim deste levantamento argumentativo, podemos reputar que não se pode concluir uma escala específica ou encadeamento melódico, quanto menos, escala ou fórmula de compasso específica para o texto. Como também, não há motivos para considerar a resolução do acorde no final da frase a não ser de negar a ação ritual e valorizar apenas a melodia. Deve se afastar de clichês. Exige um envolvimento maior da assembleia e sua autonomia. O rito nos lança para dentro da semana maior de forma plena: corpo, alma e espírito. Não cabe sentimentalismo e emoções subjetivas, quanto menos a uma imagem reservada ao eu ou fragmentada do tríduo pascal, ponto alto da semana e da vida cristã, para qual estaremos nos dirigindo.

 

Referencias Bibliográfica

 

AGOSTINHO, Santo. A música. 1. Ed. São Paulo: Paulus, 2021. Coleção Patrística.

 

______ . Comentário aos Salmos: Salmos 1-50. São Paulo: Paulus, 1997. Coleção Patrística.

 

AZEREDO, José Carlos de. Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. 4. ed. São Paulo: Publifolha; Instituto Houaiss, 2018.

 

BENTO XVI.  Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a ressurreição. 1. Ed. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011.

 

BONATO, Aline; CATA PRÊTA, Anderson; MATOS, Juliana Mara da Silva. Sacrossanctum Concilium e a fomentação de diatipologospraxia com música na ação litúrgica. In: MARQUES, Frei Luis Felipe; ARNOSO, Pe Rodrigo. (orgs.) Atualização Litúrgica 6. 1. Ed. São Paulo: Paulus, 2023. cap. 11, p. 365-388.

 

BORTOLINI, José. Conhecer e Rezar os Salmos: comentário popular para nossos dias. São Paulo: Paulus, 2000.

 

LEVITIN, Daniel J. A música no seu cérebro: a ciência de uma obsessão humana. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2021.

 

MANICARDI, Luciano. O humano sofrer: evangelizar as palavras sobre o sofrimento. 1. Ed. Brasília: Edições CNBB, 2023.

 

MARQUES, Luis Felipe C. A mistagogia da missa: nos ritos e preces. 1. ed. Petrópolis. RJ: Vozes, 2023.

 

SACKS, Oliver. Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

 

SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Lecionário Dominical A-B-C. São Paulo: Paulus, 1994. p.449-450

 

SCHÖKEL, Luis Alonso. Salmo I: salmos 1-72. São Paulo: Paulus, 1996.



[1]Especialista em Neurociência, Música e Educação (Unyleya 2024), Musicoterapeuta (CENSUPEG 2023), Especialista em práticas musicais para espaços religiosos brasileiros (FACEC, 2022), Psicopedagogo (UNIMES, 2022), licenciado em pedagogia (UNIMES, 2021), licenciado em música (UNIMES, 2020). Membro da Associação dos Liturgistas do Brasil (2024).

[2] Mestranda em Economia, Políticas Culturais e Indústrias Criativas (UFRGS) Especialista em Neurociência, Música e Educação (Unyleya 2024), Musicoterapeuta (CENSUPEG 2023), Especialista em Arranjo Musical (Unyleya 2022), Licenciada em Música (Claretiano2021), Especialista em Gestão de Pessoas (Anhanguera 2017), Licenciada em Letras Português e Inglês (UNITAU 2007)

 
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