O AMOR DE DEUS PELA CIDADE DA HUMANIDADE
Washington da Silva Paranhos, SJ*
O Cristo ressuscitado se manifesta como aquele que doa o Espírito. É o Espírito que guia a Igreja ensinando-a todas as coisas ao longo dos tempos. A atitude resultante indica saber dar conta da esperança que há em nós, dando a vida pelos irmãos e dando testemunho de Cristo com palavras e obras. Neste artigo queremos apresentar não apenas um roteiro homilético, coisa que encontramos bons materiais, mas refletir também sobre três pontos presentes na liturgia da Palavra desse domingo: o Espírito Santo, a Igreja e a paz. No final apresento ainda uma perspectiva espiritual para a vivência dessa realidade na cidade a partir da experiência litúrgica.
A liturgia do VI Domingo da Páscoa aborda, sob diferentes aspectos, a presença de Cristo em nosso meio, sendo a nossa paz verdadeira. É que os domingos da Páscoa renovam na comunidade a alegria que despertou a Boa Notícia da ressurreição do Senhor. É o que pedimos com insistência neste domingo (ver a antífona de entrada). A verdadeira alegria pascal, porém, não encontra-se em uma informação abstrata sobre a vitória de Cristo sobre a morte, mas na vivência de uma vida nova pela comunidade. É neste sentido que iniciamos a celebração desse domingo, pedindo que “nossa vida corresponda sempre aos mistérios que recordamos”.
A primeira leitura descreve um momento importante da vida da primeira comunidade cristã. As divergências que surgiram entre os apóstolos sobre como proceder com os convertidos do paganismo se intensificam a tal ponto de devem ser resolvidas em uma assembleia que foi de fato o primeiro concílio ecumênico da Igreja. Reunidos em Jerusalém, os apóstolos concordam sobre o que deve ser imposto aos recém-convertidos do paganismo. Estamos interessados não tanto na questão específica que estava em discussão naquele momento, mas no que o fato significa. Trata-se da Igreja terrena que, recém-nascida, confronta-se com as diferentes opiniões que surgiram dentro dela, discute seus problemas, se normatiza e assim se consolida em suas estruturas. Ao lado desta imagem, a segunda leitura apresenta um vislumbre profético-simbólico da futura cidade, a Jerusalém celeste, imagem da Igreja celeste em que já não há divisões e já não há necessidade de estruturas e mediações, nem mesmo sagradas como o templo e a fé, “pois a glória de Deus é a sua luz e a sua lâmpada é o Cordeiro”.
As duas cidades são muito diferentes. Na cidade terrena há contrastes, divisões, a necessidade de confrontar-se e construir consensos, às vezes com dificuldade. A cidade celeste, por outro lado, é toda compacta, unida. É por isso que a cidade terrena com suas estruturas, monumentos e templos está destinada a perecer. No entanto, como vimos no domingo passado, a cidade celeste, enquanto eterna, tem suas raízes na fragilidade da cidade terrena. Há correspondência e consistência entre as duas cidades. A passagem do Evangelho nos lembra disso. Ao deixar os discípulos, Jesus promete enviar-lhes o Espírito Santo: “... ele vos ensinará tudo e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito”. A tarefa do Espírito é, portanto, “ensinar e recordar” tudo o que Cristo disse: não uma recordação repetitiva, mas uma recordação de aprofundamento, criador de novos desenvolvimentos e aplicações renovadas na fidelidade à única experiência salvífica realizada em Cristo. É, portanto, o Espírito que nos guia à cidade celeste, é ele que garante o caminho na história da comunidade terrena dos discípulos de Jesus. De fato, vemos que os apóstolos reunidos em Jerusalém na assembleia estão cientes de que estão tomando suas decisões guiadas pelo Espírito: “Pareceu muito bem ao Espírito Santo e a nós ...”. Graças ao Espírito, os vários componentes do cristianismo primitivo reunidos em Jerusalém resolvem um problema espinhoso que produzia tensões e divisões.
Próximo à solenidade de Pentecostes, somos convidados a refletir sobre a presença do Espírito Santo na vida da Igreja. É o Espírito que dá impulso à Igreja terrena e a dirige para os valores definitivos da cidade celeste. Esquecendo a ação do Espírito, às vezes somos tentados a banalizar a vida cristã reduzindo-a a fórmulas e leis. A liturgia desse domingo recorda-nos, pelo contrário, que Deus só se comunica ao mundo no amor e no cumprimento da palavra de Jesus (cf. cântico ao Evangelho e antífona à comunhão), interpretada, porém, à luz do Espírito Santo. Assim, a cidade de Deus se realiza no presente por meio da realidade do amor cristão e por obra do Espírito Santo. Sem a ação interior e oculta do Espírito, a Igreja corre o risco de ser uma reunião de militantes, e não uma comunhão de discípulos.
Por tudo isso, a liturgia da Palavra desse domingo, nos faz refletir que é um tempo, o nosso, em que precisamos de uma cidade habitável. De uma cidade “esplendorosa da glória de Deus” (Ap 21,10), muito luminosa, diz-nos o Apocalipse. Mas precisamos disso hoje, não apenas amanhã, lá no céu.
Não que essa necessidade seja apenas dos nossos dias. Muitos autores nos deixaram vestígios do anseio por uma cidade habitável. E viram a possibilidade disso na adesão à Lei de Deus. Pensemos, entre muitos outros, nos escritos de Santo Agostinho. A própria Bíblia nos dá testemunho das expectativas e armadilhas de uma cidade humana, que busca a fraternidade, mas também pode rejeitá-la, à maneira de Caim.
No entanto, ressoa ainda mais ardente o paradoxo de nossa época, que traz consigo a herança de um mundo e de séculos em que a humanidade tentou de tudo para provar a si mesma que pode viver sem Deus. O fracasso é tão óbvio que ficamos surpresos ao ver nossa teimosia em tentar novamente. Disfarçada de subterfúgios que louvam os ídolos disfarçando-os de Deus, ou explicitamente marginalizados e perseguidos, a fé no Único permanece hoje uma questão revolucionária. Não está na moda decidir confiar-se a Ele, sobretudo em contextos sociais, econômicos e políticos. Na verdade, da Palavra, não em conversa fiada. Antes, parece ser realmente subversivo para dizer o mínimo.
Descobrimos que a fé e o amor não podem ser adquiridos através da herança dos genomas. Não flui simplesmente do sangue materno através do cordão umbilical. Não se pode dizer que seja vivido apenas por tradições antigas que se tornaram rituais habituais. A própria humanidade rejeita esse modo de existência, especialmente agora que a cultura dominante está tingida de um absoluto (paradoxal) relativismo. Cada um escolhe (ou pensa que escolhe) o que gosta.
E a cidade? A cidade, então, é construída por cada um. Sempre foi assim, mas hoje é mais evidente. A cidade, casa da humanidade para um convívio e uma sociabilidade necessária à sobrevivência, não é uma massa de indivíduos anônimos, mas uma questão de relação. E sobretudo, a cidade é fruto da decisão responsável de cada um de viver no amor. Ninguém pode delegar a outro a tarefa de construir a cidade iluminada pelo amor.
Viver na cidade é dirigir-se consciente e coerentemente ao outro numa atitude de acolhimento e dom. Nós cristãos, testemunhas do Ressuscitado e especialistas em partidas e expectativas, sabemos disso pela fé e pela experiência. Aprendemo-lo precisamente d’Ele, que nos revela a fonte e o modelo do amor. O próprio Deus não está sozinho, mas está aberto e estendendo a mão ao outro; de algum modo ele faz sua morada em si mesmo na relação constitutiva de Pai e Filho, da qual procede o Espírito Santo. E também o aprendemos procurando ouvir e observar as suas palavras, que são as mesmas do Pai. Percebemos que somente um coração sinceramente interessado no outro e, portanto, descentrado de suas próprias necessidades para perceber e cuidar das necessidades do irmão (porque é irmão), pode gerar uma convivência que se torna pacífica. Ou seja, terreno fértil para viver bem.
As três pessoas da Trindade nos inspiram. Mas são também parte da tentativa de fazer-nos como elas, de sair de nós mesmos para encontrar o outro. Para nos empurrar para fora do nosso egoísmo, de fato, elas decidiram fazer morada em nós também. Em última análise, existe o segredo da verdadeira paz: permitir que o Deus Uno e Trino ocupe o quarto mais íntimo de nossa interioridade e se torne uma tenda desprotegida pela obsessão de si mesmo. Deixemo-nos encher d’Ele para nos esvaziarmos do nosso ego, demasiado ansioso, conturbado e preocupado em defender a nossa própria sobrevivência para percebermos por nós mesmos que só vivemos se alguém nos alimentar! Alguém diferente, alguém – muitas vezes – que vem de longe ou que foi embora e volta. Assim como o Ressuscitado, que esperamos ao percebê-lo já entre nós cada vez que habitamos a cidade, optando por colocar em prática a sua Palavra.
Vivemos numa época em que a cidade precisa de testemunhos autênticos de amor livre e universal. O olhar para esta convivência terrena, então, só pode ser aquele que se assume e se impregna com os olhos e o coração de Deus, sempre voltados para o outro, para o encontro, para o acolhimento. Assim iluminam a cidade, que se torna celeste porque se torna radiante pelo poder vulnerável do amor. Quem sabe se é hora de começar a habitar neste momento, aqui e agora, à maneira do céu. Assim a luz e a paz inundarão de dentro dos lares, dos programas, das decisões..., principalmente das pessoas e das relações que habitam em Deus e na cidade.
Se o ser humano tem sede de Deus, esta sede não pode ser saciada com propostas alienantes ou com um Jesus sem carne e sem compromisso com o outro. A espiritualidade deve curar, libertar e encher de paz, mas, ao mesmo tempo, chamar à comunhão solidária e à fecundidade missionária (cf. EG 89). Uma espiritualidade que leve a uma “fraternidade mística”, ou seja, a olhar o próximo em sua grandeza e descobrir Deus em cada ser humano (EG 91), é a verdadeira “revolução da ternura” (EG 88).
Estamos imersos no mundo vivendo, trabalhando junto e com as pessoas, mas em meio as ações somos contemplativos porque percebemos a vida divina no mais profundo da realidade. Recordemos que Jerusalém, a cidade ideal, a cidade do Pentecostes, no início foi chamada Šālēm, “paz” (cf. Gn 14,18)[1]. Depois Abraão lhe deu o nome de Yērā’eh (ver): «Abraão passou a chamar aquele lugar “O SENHOR providenciará” (Yhwh yir’eh). Hoje se diz: “No monte em que o SENHOR aparece” (Yhwh Yērā’eh)», sobre o monte do Senhor teve a visão (cf. Gn 22,14)[2]. Agora o nome de Jerusalém é uma junção de paz e visão. Jerusalém é a primeira entre as visões, e a sua superioridade consiste em ser a chave interpretativa da história em relação ao homem e em relação a Deus. Sem Jerusalém a história espiritual do mundo se estagna, com Jerusalém tem sempre uma visão, tem uma promessa.
Nesse sentido, devemos voltar a ser visão, promessa para as nossas cidades. Porque Jerusalém é um mistério para sempre, representa uma provocação, aquela de como fazer viver juntos o sagrado e o profano, como fazer viver juntos culturas diversas, religiões diversas, ainda que em meio as dificuldades. Hoje, nós seguidores do Cristo, somos chamados a crer firmemente na possiblidade de um mundo diferente, uma cidade diferente, uma sociedade diferente em que a fraternidade, a igualdade, a solidariedade e a verdadeira democracia tornam-se realidade.
A fé nos ensina que Deus vive na cidade, em meio as suas alegrias, desejos e esperanças, como também em meio a suas dores e sofrimentos. As sombras que marcam o cotidiano das cidades, como exemplo a violência, pobreza, individualismo e exclusão, não nos podem impedir que busquemos e contemplemos o Deus da vida também nos ambientes urbanos. As cidades são lugares de liberdade e oportunidade. Nas cidades é possível experimentar vínculos de fraternidade, solidariedade e universalidade. Nelas, o ser humano é constantemente chamado a caminhar sempre mais ao encontro do outro, conviver com o diferente, aceitá-lo e ser aceito por ele[3].
Tem um modo contemplativo para se viver no meio do mundo, ou melhor, um modo de descobrir o Deus presente em todas as coisas, no centro das realidades. O cristão, a exemplo do pêndulo, pode oscilar entre Deus e o mundo. Sendo familiar com Deus e admirando a variedade das coisas doadas, a complexidade, a multiplicidade do mundo, não temendo-o com todo o seu mundanismo. E ao mesmo tempo, é profundamente familiar com o mundo sentindo pulsar o Espírito de Deus, agindo no mundo, em tudo e em todos de maneira inesperada.
A espiritualidade litúrgica nos sensibiliza e nos capacita para nos aproximar do nosso mundo com uma visão muito mais contemplativa. Percebendo que o “subir” até Deus passa necessariamente pelo “descer” até o mais profundo da humanidade.
Poderíamos dizer que os grandes problemas atuais, as chamadas fronteiras do mundo: globalização, diferentes culturas, ciência e tecnologia, ecologia, bioética, migrações..., adquirem a cada dia novas e surpreendentes proporções; estas fronteiras constituem os grandes desafios para a Igreja e pedem de nós, discípulos missionários, uma presença inspiradora e samaritana.
A atitude contemplativa a que somos chamados é esta: ver Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus, como dizia Inácio de Loyola, ou seja, ver Deus no mundo e o mundo em Deus[4]. O próprio Mistério Pascal nos motiva a “olhar” nossa realidade, nossa cidade, a humanidade inteira, as fragilidades humana, as paixões, sentimentos, fracassos, e vitórias, imperfeições, perfeições... Deus se encontra aí, em meio a esta realidade, salvando-a. Uma espiritualidade litúrgica como presença cristã no contexto urbano é convidada a descobrir e ao mesmo tempo, indicar a presença real do Deus que “in-habita” nas pessoas, casas, bairros, povos, cidades. Se o coração dos povos é o santuário de Deus, somos convidados a passear com o Absoluto pelas ruas da cidade.
Somos chamados e interpelados por esse Deus presente nas cidades. Mas as interpelações partem do reverso da história, dos lugares ocultos, os chamados outros-espaços das grandes cidades. Na verdade, Deus sonha uma cidade em que existe uma praça e a mesa para todos. A praça não é de um só, mas de todos e comporta todos, começando pelos humilhados, pelos últimos; um espaço onde todos circulam livremente, cria relações e convive, sendo aceito e reconhecido como irmão; a mesa ao centro da praça, é um verdadeiro lugar de hospitalidade e acolhida, de encontro fraterno, lugar de chegada e entrada da pluralidade e evidentemente da diversidade como a Nova Jerusalém. Uma mesa aberta, portanto, da qual ninguém é excluído, mas em que os primeiros convidados são os últimos do mundo.
“A alegria evangelizadora refulge sempre sobre o horizonte da memória agradecida: é uma graça que precisamos pedir”[5], o reconhecido do bem recebido. É essa experiência que está na base da missão da Igreja e que os pobres sabem viver com profundo sentido.
Diante de tudo isso, somos interpelados, a partir de Jesus Cristo e na alegria do encontro com ele, mas também na força do Espírito Santo, a agirmos de forma missionária para que, de fato, o mundo seja evangelizado, e assim tenhamos as pessoas vivendo a vida nova em Cristo, a Igreja sendo verdadeira comunidade dos filhos e filhas de Deus congregados no Espírito Santo, e a sociedade deixando de ser a civilização do mundo para ser a cidade de Deus, a civilização do amor.
Se é verdade de que é próprio da liturgia não dizer tudo, pois existe a valência simbólica, o mesmo dizemos aqui.
*Jesuíta, mestre em teologia pela Universidade Pontifícia Salesiana de Roma (2015) e Doutor em Teologia com especialização em Liturgia e Sacramentária também pela Universidade Pontifícia Salesiana de Roma (2017). Atualmente é professor da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia.
[1] Gn 14,18 – Segundo o SI 76,3, a tradição judaica e muitos Padres identificaram Salém com Jerusalém. Que seria o nome abreviado de Jerusalém, “a cidade da paz”, da plenitude, da segurança.
[2] «Providenciará» v. 14, em hebr., tanto “providenciar” (= ver) como “aparecer” (= ser visto) explicam o nome de Moriá (ra’ah = “ver”). Na tradição sacerdotal, Moriá é identificado com Jerusalém, ver também 2Cro 3,1.
[3] DAp 514.
[4] Cf. Constituições da Companhia de Jesus, 288.
[5] Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 13.