O ANO TODO COROAIS COM VOSSOS DONS

O ANO TODO COROAIS COM VOSSOS DONS

 

Frei Davi Maria, O.Carm¹

1.         Introdução: Maria a mulher Pascal

Em todo decorrer do Ano Litúrgico, encontramos solenidades, festas e memórias que nos ajudam a melhor viver a fé, deste modo, o calendário Litúrgico da Igreja torna-se como que um itinerário a ser percorrido partindo sempre daquilo que é o núcleo central do mesmo e da fé: a Páscoa, e apontando para vida celeste, pois, a Liturgia deseja sempre nos levar para o céu, para a comunhão com a Trindade Santa. 

Na medida em que somos introduzidos pela Igreja nas celebrações Litúrgicas percebemos que, além das diversas memórias dos santos ali celebrados, encontramos uma grande abundância de festas marianas. Levando em consideração que cada Missal, em cada Conferência Episcopal possui festas marianas de acordo com a realidade de seu país.

Na realidade quando falamos de celebração mariana queremos dizer que, celebramos sempre o mistério Pascal do Senhor em Sua Mãe ou na vida de algum santo da Igreja. Nunca celebramos outra coisa que não seja a Páscoa e se celebrasse, seria tudo, menos uma Liturgia Cristã Católica, pois, a Liturgia da Igreja encontra na Páscoa do Senhor a sua alma e o seu real espírito. 

            Sendo assim, as celebrações marianas constituem um meio divino de vivermos a Páscoa do Senhor, isso porque a Virgem Santa exulta sempre de alegria por seu Senhor. Por isso, a presença de Maria é um dom para a Liturgia, pois, olhando para Ela temos um caminho seguro a ser percorrido, desde os grandes tempos do Ano Litúrgico, como o tempo por excelência Cristológico-Mariano do Advento e Natal, até mesmo a memória de Santa Maria no sábado que antecedendo ao domingo deseja formar e despertar o nosso coração para o encontro com o Ressuscitado, pois, “ninguém seguiu Cristo mais de perto, também em sua morte e ressurreição, do que Maria, sua Mãe” (Lutz, 1995, p: 48).

            A Virgem Santa Maria não é um obstáculo para a Liturgia, é antes um dom, no entanto, não podemos querer celebrar Maria separada do mistério de Cristo, isso seria de um enorme prejuízo para o viver de fé do corpo místico do Senhor. Em nossa caminhada Litúrgico-Pascal, Maria se faz presente também como peregrina na fé para nos apontar os passos a serem dados e os caminhos que devem ser tomados, deste modo, nos relembra Marsili, “a Páscoa nova não é só a Páscoa de Cristo, mas é o próprio Cristo. Ele, em sua encarnação, é a atuação da salvação prometida na Páscoa judaica, desde o momento do seu nascimento até a sua ressurreição, até o Pentecostes e até a parusia final” (Marsili, 2012, p. 698).   

            Por isso, ao contemplar e celebrar no decorrer do Ano Litúrgico o mistério da Páscoa do Senhor Jesus nas mais diversas festas de Sua Mãe e nossa, percebemos que Maria é a mulher toda Pascal, interior e exteriormente, Páscoa esta que Maria já começou a viver desde o primeiro instante da visita de Deus por meio do anjo, quando, sabendo que o que aconteceria era ação do Espírito, dá pleno consentimento, até o encontro com seu Filho Ressuscitado. 

2.         A presença de Maria: dom para a Liturgia

Em nossos calendários e agendas temos algumas datas que são importantes e que fazemos questão de não esquecer, por diversos motivos, desde o aniversário de nossos pais, amigos, ou da pessoa amada, até mesmo aquela festa ou show que acontecerá e que desejamos ir. Sempre que a data é especial, ela é agendada e se torna importante, de tal modo que não marcamos nada naquele dia. 

No decorrer do Ano Litúrgico, entre tantas solenidades, festas e memórias que encontramos e vivenciamos, ocupa um especial lugar as festas da Mãe de Deus. Depois de Jesus Cristo, a Virgem Maria é quem mais possui memórias no calendário litúrgico, memórias estas que não apontam para ela como objetivo final, no entanto, ao olhar para a Virgem Santa encontramos n’Ela, Aquele que é o motivo e a razão de a louvarmos dentro da Liturgia. Louvamos a Virgem Maria porque sabemos que ela apresenta nossos louvores a seu Filho Jesus Cristo, não retendo para ela nada, mas tudo apresentando aquele de quem, fez-se escrava deu à luz. 

O salmo 65, é um hino de louvor e ação de graças a Deus pelos benefícios recebidos em favor da terra, que se torna fértil por meio das chuvas que a regaram e os brotos que começam a nascer. No início do salmo encontramos ainda um louvor a Deus pelo perdão recebido. Podemos então aplicar os louvores do salmista à Virgem Maria, lembrando-nos sempre de que ela está intimamente unida a Jesus, 

Preparas a terra assim: regando-lhes os sulcos, aplanando seus torrões, amolecendo-a com chuviscos, abençoando-lhe os brotos. Coroas o ano com benefícios e tuas trilhas gotejam fartura; as pastagens do deserto gotejam, e as colinas cingem-se de júbilo; os campos cobrem-se de rebanhos, e os vales se vestem de espigas, clama-se, cantam-se hinos (Sl 65). 

            Este salmo faz nos lembrar que, as celebrações da Mãe de Deus, são como que benefícios divinos que se fazem presente durante todo o Ano Litúrgico, possuindo unicamente o desejo de nos despertar para Cristo, ou, como diz o salmista, aplanar os nossos torrões, amolecer-nos com chuviscos e nos abençoar com os brotos, que são dons e graças que o Senhor concede aqueles que d’Ele se aproximam. 

            Diversas são as festas da Mãe de Deus, desde aquelas já pregadas e cridas pelos Padres da Igreja, como as três grandes solenidades marianas: Mãe de Deus (1 de janeiro), Dormição e Assunção (15 de agosto) e Conceição Imaculada (8 de dezembro), passando pelas grandes festas da idade média, até os nossos dias. Muitas são as memórias marianas que celebramos, memórias que nos quer despertar para Aquele que é o centro da liturgia, seu Filho Jesus Cristo. Todo o Ano Litúrgico e consequentemente as memórias da Virgem Maria servem para manifestar no corpo místico os mistérios do amor do Senhor, esse é o motivo maior das celebrações marianas na igreja. 

            A fechada de uma igreja antiga, repleta de detalhes e símbolos que nos despertam o olhar e nos inflama a curiosidade faz com que entremos e nos deparemos com o centro do espaço sagrado, o Altar. Todas as memórias da Virgem Maria, são como que uma grande igreja, antiga e repleta de detalhes que nos fazem elevar o olhar e mesmo que não queiramos acabamos vendo o céu, ao passo que a mesma arquitetura nos obriga a baixar o olhar e dirigi-lo agora para o presbitério e encontrar no Altar aquele que é a razão de toda aquela arquitetura, Jesus Cristo. 

 

3.         A Virgem Maria no Ano Litúrgico

            O Ano Litúrgico é um meio pedagógico, e não apenas, suscitado pelo Espírito Santo para a formação e santificação do corpo místico, que é a Igreja, o Ano Litúrgico presentifica na vida dos fieis em meio à tantas atividades e trabalhos, o mistério de amor do Pai: Jesus Cristo Ressuscitado e com isso nos aponta para nosso fim último, o céu, a comunhão com a Trindade. O centro do Ano Litúrgico é a Páscoa e é justamente nela e por ela que se encontram e se encaixam todas as memórias que celebramos, tanto da Virgem Maria, como dos santos. Voltando-se para a guia e mestra da Liturgia: a Sacrosanctum Concilium, é válido aqui mencionar: 

Na celebração deste ciclo anual dos mistérios de Cristo, a Santa Igreja venera com especial amor a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, indissoluvelmente unida à obra salvífica do seu Filho; em Maria a Igreja admira e exalta o fruto mais excelso da Redenção, e a contempla com alegria como imagem puríssima do que ela deseja e espera ser. (Sacrosanctum Concilium, 103)

            Ao celebrar no decorrer de todo Ano Litúrgico a presença da Virgem Maria a Igreja une-se a ela em atitude fiel e dócil escuta ao Espírito Santo e colocando-se como peregrina como um dia foi a Virgem Santa pelas estradas de Jerusalém, a Igreja aprende a ser mãe e a gerar para o céu, os filhos que Deus lhe confiou pelo Batismo. Maria é a mulher pascal por excelência, pois abrindo-se a ação do Espírito de Deus pôde não apenas gerar Jesus Cristo, mas também levá-lo à Isabel e educar os servidores de Caná a fazerem tudo o que seu Filho lhes dissesse (cf. João 2, 1-12). 

            Dessa mesma Virgem e Mãe podemos aprender a viver a Páscoa de quatro modos, por assim dizer. Anualmente, quando se celebra o Tríduo Pascal, centro da fé cristã católica, aos domingos, DIES DOMINI, onde o corpo místico se reúne ao redor do altar que é Jesus Cristo. Diariamente, quando se participa da eucaristia, pois toda eucaristia é Páscoa e por último, se vive a Páscoa todas as vezes que nos abrimos a graça de Deus e vivemos como ressuscitados. 

            A memória da Virgem Maria no Ano Litúrgico faz compreender melhor o que de fato é a Páscoa e as consequências que daí se originam, como a ética litúrgica, por exemplo. Quem tem Maria por mãe e a louva numa celebração litúrgica, no entanto, não é capaz de se compadecer ou aceitar o irmão que está ao lado, não vive a Páscoa, mas apenas uma ideia de páscoa. A Virgem Maria na Liturgia nos faz perceber que fé e vida se conjugam e devem estar em perfeita harmonia.

            Muitos são os títulos dados à Virgem Maria, no entanto, todos eles, assim como a veneração a ela, encontram fundamento e razão de ser em dois aspectos, que é a Maternidade e o discipulado. Maria de fato é Mãe e Mãe em plenitude e discípula atenta e dócil ao seu Senhor, estes são os dois maiores vínculos que unem Maria a Jesus Cristo na Liturgia. 

Separar a Virgem ou isolar um pouco sua “memória” falsificaria o sentido e a própria eficácia da ação materna de Maria na Igreja; ligá-la aos mistérios de Cristo e ao organismo da Igreja significa, ao contrário, conferir um sentido particular e incomparável ao seu culto, do qual cada cristão não pode prescindir, exatamente para prestar uma adequada homenagem aos próprios mistérios do Senhor (Biffi, 2022, p. 399)    

            O grande Sacramento do Ano Litúrgico é o Cristo Ressuscitado, no entanto, as datas marianas são como que “sacramentais” que apontam diretamente para Jesus e que o formam no coração e na mente. A Virgem Maria está perfeitamente associada a obra salvadora de Jesus Cristo, ela é a sua mais perfeita colaboradora, pois dando pleno consentimento ao Pai, a salvação começa a acontecer desde o primeiro momento de seu FIAT, por isso, Ela, é aquela que exulta de alegria no Senhor por aquilo que Ele estava realizando, ao mesmo tempo que é a mesma que reconhece sua pequenez e louva ao Pai por ter se agradado de sua humilhação. 

            A presença de Virgem Maria no Ano Litúrgico torna perceptível a ternura de Deus Pai e seu amor para com o homem. Maria é mestra no seguimento ao Senhor e aponta para o objetivo maior da vida litúrgica: a união com Jesus Cristo. Celebrar a Virgem Maria na Liturgia é mergulhar por inteiro no mistério de Deus que adentra na humanidade do homem para salvá-lo e porque muito o ama se faz do seu tamanho, como diz Santa Teresa de Jesus.

            

4.         As festas Cristológico-Marianas

            A reforma litúrgica suscitada pelo Espírito, lançadas as bases pelo Movimento Litúrgico e empreendida pelo Concílio Vaticano II, em nada diminui a importância da Virgem Maria na Liturgia, muito pelo contrário, a coloca dentro do mistério Pascal de Jesus. Deste modo, celebra-se sempre, em toda Liturgia o mistério da Páscoa e por esse mesmo mistério os fiéis são iluminados em sua fé e vida eclesial. 

            Infelizmente, no decorrer da história a Liturgia foi sendo de certo modo afastada da vida do povo, com isso tem-se o deslocamento do eixo central da Liturgia: a Páscoa, e as devoções nas suas mais variadas formas começaram a tomar espaço na vida de fé dos fiéis, assim a Liturgia por muitos anos quase não foi considerada como fonte principal da espiritualidade cristã. É nesse contexto que em alguns lugares o tempo mariano por excelência não é o Advento e o Natal e sim o mês de maio e em outros, outubro, também. 

É claro que em muitas regiões, sobretudo o mês de maio é testemunha de um amor terno e inocente para com a Mãe de Deus, de muitas pessoas que mesmo não conhecendo os dogmas em sua profundidade, tem suas orações e preces atendidas porque se fazem simples e humildes, confiando sempre que “sua Senhora”, de tantos nomes e fisionomias lhes atendera, pois Ela é sua mãezinha querida, no entanto, os fiéis, que são um povo sacerdotal não deveria nunca ter sido privados da riqueza de um tempo mariano dentro do Ano Litúrgico. 

            Algumas festas marianas, mais que outras possuem um forte caráter Cristológico de tal modo que é impossível separar a Mãe do Filho, como também não é possível olhar para Maria sem perceber os sinais de Cristo Jesus. As festas mais antigas da Mãe de Deus começaram já nos primeiros séculos, com os Padres da Igreja, que com o coração de pastor souberam acolher os louvores dos fiéis, orientando-os e apontando sempre Cristo Jesus no mistério da Maternidade divina. Eis algumas festas: 

            - 2 de fevereiro. Apresentação do Senhor no templo. Essa festa foi atestada por Egéria/Etéria, em sua peregrinação à Jerusalém no século VI. 

O quadragésimo dia depois da Epifania é aqui celebrado com a maior solenidade... neste dia há uma procissão na Anástasis; todos se incorporam e tudo decorre segundo a ordem habitual com grandes festejos, como na Páscoa. Os presbíteros pregam, assim como o bispo, comentando sempre aquele passo do Evangelho onde se diz que, no quadragésimo dia, José e Maria levaram o Senhor ao templo (Antologia Litúrgica, 2015, n: 1665)

            - 25 de março. Anunciação do Senhor. Esta festa foi introduzida em Roma por volta do ano 660. São Leão Magno afirma em um sermão sobre essa festa em Roma que, “a Igreja universal celebra, em cada ano, a vinda de nosso Senhor e Salvador, e, graças a esse retorno anual, recebe grande alegria” (Antologia Litúrgica, 2015, n: 4308)

            - 15 de agosto. Dormição e Assunção de Maria. Já no ano 431 encontram-se relatos sobre esta festa, em Roma ela é introduzida por volta do ano 650. 

No século VI a liturgia galicana conheceu uma festa de Nossa Senhora, que tinha lugar a 8 de janeiro, e no século VII era comemorada sob o nome de Festa da Assunção de Maria (Sacramentário de Bobbio). Há uma festa atestada em Roma para o século VII e celebrada a 15 de agosto sob o título de “NATALE SANCTAE MARIAE” (Nascimento de Santa Maria) ... no Sacramentário Gregoriano o título da festa é Assunção de Santa Maria. (Adam, 2019, p: 155)

            - 8 de setembro. Natividade da Virgem Maria. Festa de origem Oriental datada já no século V e introduzida em Roma no século VII. André, bispo de Creta, também no século VII, já a celebrava: 

Este é o significado da festa que hoje celebramos, porque o nascimento da Mãe de Deus é o princípio desses bens prometidos, princípio que terá o seu termo e conclusão na predestinada união do Verbo com a carne. Hoje nasce a Virgem Maria, será amamentada e crescerá, preparando-se deste modo para ser a Mãe de Deus, Rei dos séculos. Deste nascimento nos vem um duplo benefício: por um lado, eleva-nos ao conhecimento da verdade; e por outro, liberta-nos de uma vida escravizada à letra da lei... porque hoje é o dia em que o Criador do universo edificou o seu templo; hoje é o dia em que a criatura prepara uma nova e digna morada para seu criador. (Antologia Litúrgica, 2015, n: 5755)

            - 21 de novembro. Apresentação da Virgem Maria. Essa festa remonta ao século VI e é introduzida em Roma por volta de 690. Provavelmente foi a dedicação da Igreja de Santa Maria Nova em Jerusalém, no ano de 543 que se dá início a referida celebração. A apresentação da Virgem Maria no templo faz uma certa alusão a sua virgindade perpétua, isto é, totalmente consagrada a Deus. 

 

5.         Um Tempo Mariano             

            A Liturgia é uma escola de fé na vida do povo de Deus, por ela a Igreja recebe os ares do Espírito Santo para se renovar e ser sempre um sacramento de salvação e sinal do amor de Deus no mundo. Tem-se no Ano Litúrgico um tempo mariano por excelência e com uma profunda riqueza espiritual para a fé, que é o tempo do Advento e do Natal, tempo que constitui uma feliz expectativa seguida de uma alegria exultante, pois, aquele que tanto se esperava finalmente chegou. 

Desta maneira, os fiéis que procuram viver com a Liturgia o espírito do Advento, ao considerarem o amor inefável com que a Virgem Mãe esperou o Filho, serão levados a tomá-la como modelo e a prepararem-se, também eles, para irem ao encontro do Salvador que vem, bem vigilantes na oração e... celebrando os seus divinos louvores (Marialis Cultus, 4) 

Advento e Natal são tempos marianos porque antes o são cristológicos em sua natureza mais profunda. É justamente a partir de Jesus Cristo que se olha para a Virgem Maria como modelo perfeito de seu seguimento e discipulado. No Advento pode-se encontrá-la imersa na contemplação e na feliz expectativa, pois aquilo que fora anunciado pelo anjo logo acontecerá de forma plena. No Natal, a Virgem Maria contempla não mais apenas em seu coração, contudo, agora, diante de seus próprios olhos o filho de Deus humanado, o “Natal constitui uma memória continuada da Maternidade divina, virginal e salvífica d’Aquela cuja intemerata virgindade deu a este mundo o Salvador” (Marialis Cultus, 5). Ela, a nova Eva, reclina em braços e amamenta o novo Adão, união essa tão singular e profunda que em um outro momento, de dor, tornará a acontecer. Mãe e filho estão perfeitamente unidos, desde a anunciação, passando pelo seu nascimento, até o calvário e a feliz esperança da ressurreição. 

Seria separar o que Deus uniu, se, ao proclamarmos o lugar da Virgem Maria na história da salvação, e, por isso, no próprio mistério de Cristo, dele A separássemos na celebração desse mistério, ou, o que seria pior, a ele A contrapuséssemos. A fé da Igreja a tal não nos conduz; antes pelo contrário, a oração da Igreja, que encontra a sua expressão máxima na celebração da liturgia, por todos os modos nos faz sentir como a Virgem Santa Maria Se integra totalmente no mistério de Cristo, como nele se integra toda a Igreja (Ferreira, 2018, p. 319)

            No Tempo Comum, a grande escola do discipulado, ela é mestra que aponta o divino Mestre, nada retém a si mesma, mas, aponta sempre para Jesus Cristo. Como é o maior tempo litúrgico, consequentemente, reúne em si a maioria das festas marianas, em todas elas encontra-se um forte caráter cristológico, pois, “o mistério de Maria encontra as suas primeiras manifestações litúrgicas na celebração dos mistérios do Senhor” (Augé, 2004, p. 332). Ao mesmo tempo que no grande deserto espiritual da Quaresma, Ela que é Mãe da Igreja, caminha com todos os seus filhos, fazendo-os perceber e sentir Jesus Cristo em todos os momentos de suas vidas até o encontro interior e transformante com o divino Ressuscitado. 

 

6.         Educados por Maria para a Liturgia

A Liturgia é um longo caminho de formação para a comunidade dos fiéis batizados, caminho formativo este que não deseja outra coisa a não ser a cristificação. Quando se fala de formação litúrgica ou da Liturgia como caminho formativo deseja-se um alcance e transformação no/pelo Senhor, pois “a Liturgia: lugar de encontro com Cristo” (Desiderio Desideravi, 10), deve ser a mestra de nossa vida interior e consequentemente de nossa formação. A formação existe para educar, para retirar aqueles excessos que em nada nos ajudam a nos aproximar de Jesus, mas antes, constituem um obstáculo a sua ação em nossas vidas. Embora não sendo fácil o ato de formar, o mesmo continua sendo necessário para a vida humana de todas as pessoas. Sem a educação nos tornamos como que um carro desgovernado ou completamente errantes sem uma direção certa. 

Na vida eclesial, a Liturgia é este caminho de educação, onde somos formados para nos parecer com Jesus Cristo. Em tal caminho, a Virgem Maria, se torna nossa Mãe, mais também nossa educadora e como tal, Ela nos aponta o caminho e a direção para Jesus Cristo. por isso, “a Igreja persevera na oração com Maria. Esta união da Igreja orante com Mãe de Cristo faz parte do mistério da mesma Igreja, desde o seu início: nós vemos Maria presente neste mistério, como está presente no mistério do seu Filho” (Dominum et Vivificantem, 66).

            Com a Virgem Maria aprendemos que, “a formação Litúrgica é educação ao pensar e ao querer eclesial, ao SENTIRE CUM ECCLESIA” (Biffi, 2022, p. 151), isso porque não há motivo para educar numa perspectiva litúrgica que seja separada da Igreja. Somos então educados e formados por Maria para a Liturgia quando reconhecemos n’Ela os mistérios de Cristo Jesus, mistérios estes que Liturgia celebra sempre iluminados pela Páscoa do Senhor. 

            As diversas circunstâncias da vida terrena da Virgem Maria nos educam interiormente para uma melhor e mais autêntica participação na vida litúrgica. De Maria aprendemos a ouvir a Palavra, o Verbo Encarnado, Jesus Cristo, e como Ela damos também um sim pleno e confiante ao projeto de Deus Pai em nossas vidas. Com a mesma Virgem Santa somos ainda educados a guardar no coração e deixar que ali sejam enraizados os mistérios do Senhor, e mesmo que a cruz pese, com Ela aprendemos a esperar confiantemente em Deus e no seu amor que nunca desampara nenhum de filhos. 

            Na Sagrada Escritura percebemos ainda que poucas são as palavras que a Virgem Maria pronuncia, Ela é a mulher do silêncio frutuoso e consciente, daquele silêncio que educa e que longe de ser uma ausência de barulho, é antes, um esvaziar-se de tudo aquilo que não vem de Deus e que nos atrapalha de nos unirmos a Ele. Maria é modelo perfeito de educadora na fé, porque além de educar o Filho de Deus, antes, se permite ser educada pelo próprio Espírito Santo em vista da missão salvadora de seu Filho, pois, ao passo que Maria se torna Mãe de Jesus, seu divino Filho educa sua Mãe para a Maternidade eclesial, Maternidade esta, assumida no momento crucial da paixão redentora de Jesus Cristo. 

Primeiro a mãe educou o Filho para a sua missão de Messias introduzindo-o na Antiga Aliança; mas não foi ela, foi, sim, o conhecimento próprio de Jesus, no Espírito Santo, acerca do envio por parte do Pai que lhe mostrou quem é e o que tem a fazer. E, assim, a relação inverte-se: o Filho, a partir de então, educará a mãe na grandeza da sua missão própria. (Ratzinger-Von Balthasar, 2000, p. 105) 

            Saber que Maria educou e foi educada por seu Filho a torna ainda mais especial para a vida de fé da Igreja, pois, Maternidade e Filiação estão em comum união, e quando se refere a pessoa de Maria não temos a menor dúvida de que Ela se faz humilde e pequenina para aprender com Jesus Menino, assim sendo, “a dimensão mariana da Igreja envolve-se naquela atmosfera de amor que facilita a nossa conversão a Deus” (Leahy, 2005, p. 130). 

            De uma vida verdadeiramente mariana, “entendemos que o ano litúrgico é para nós a possibilidade de crescer na consciência do Mistério de Cristo, mergulhando a nossa vida no Mistério da sua Páscoa, à espera do retorno” (Desiderio Desideravi, 64).

 

7.         Considerações finais 

            A Liturgia é uma perfeita escola de formação para a santidade, tudo o que nela acontece corrobora para nossa edificação espiritual e humana, pois, humano e divino, Liturgia e vida nunca devem estar em oposição, antes, aquilo que é vivido precisa necessariamente ser celebrado e o que é celebrado, os mistérios do Senhor, devem encontrar eco e abertura em nossos corações, pois de outro modo não seremos sal e luz para o mundo. 

            A celebração dos mistérios de Cristo na vida da Virgem Maria, para nós hoje, possui uma dupla missão, primeiro, nos reeducar a ser verdadeiros filhos e devotos de tão boa Mãe, guiando nosso amor e nossas devoções a Ela por meio das celebrações Litúrgicas e segundo, com Maria aprendemos a redescobrir a Páscoa do Senhor em nossa páscoa, não uma páscoa de apenas uma vez ao ano, mas uma páscoa diária, que una o que rezamos e celebramos com o modo que vivemos, pois assim viveu Maria, nossa Mãe. 

O que Maria deseja, através das diversas épocas da Igreja, não é que a veneremos enquanto pessoa individual, mas que reconheçamos a profundidade do amor de Deus na obra de sua Encarnação e Redenção. Uma vez que ela viveu na casa do discípulo amado, seria estranho se o Evangelho do amor de Deus Uno e Trino, revelado em Cristo, não fosse inspirado também por sua presença e suas palavras (Von Balthasar 2016, p. 25-26)

            As festas da Mãe de Deus constituem verdadeiros dons para uma autêntica vida Litúrgica, e a Liturgia da Igreja é caminho seguro para uma autêntica, consciente e frutuosa de devoção mariana. Olhando para tão boa Mãe sabemos o caminho a ser seguido, por isso rezamos, “O Deus considerando a humildade da Virgem Maria, vós lhe concedestes a graça e a honra de ser Mãe do vosso Filho unigênito, e a coroastes hoje de glória e esplendor; concedei, por suas preces, que, salvos pelo mistério da redenção, sejamos elevados à vossa glória” (Missal Romano, 2018, p. 637).

 

Referências bibliográficas

ANTOLOGIA LITÚRGICA. Textos Litúrgicos, Patrísticos e Canónicos do primeiro milénio. Secretariado Nacional de Liturgia. Fátima, 2015.

ADAM, Adolf. O ANO LITÚRGICO: sua história e seu significado segundo a Renovação Litúrgica. São Paulo, Edições Loyola, 2019. 

AUGÉ, Matias. LITURGIA, História, Celebração, Teologia, Espiritualidade. São Paulo, SP, editora Ave Maria, 2. Ed. 2014.

BIFFI, Inos. LITURGIA, SACRAMENTOS, FESTAS. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022. 

CONSTITUIÇÃO Sacrosanctum Concilium – SC. In: ENQUIRÍDIO DOS DOCUMENTOS DA REFORMA LITÚRGICA. Secretariado Nacional de Liturgia de Portugal. Fátima, 2014.

CARTA ENCÍCLICA Dominum et Vivificantem – DV. In: ENQUIRÍDIO DOS DOCUMENTOS DA REFORMA LITÚRGICA. Fátima, Secretariado Nacional de Liturgia de Portugal, 2014.

CARTA APOSTÓLICA Desiderio Desideravi – DD. São Paulo, Paulinas, 2022.

EXORTAÇÃO APOSTÓLICA Marialis Cultus – MC. In: ENQUIRÍDIO DOS DOCUMENTOS DA REFORMA LITÚRGICA. Fátima, Secretariado Nacional de Liturgia de Portugal, 2014.

FERREIRA, José. OS MISTÉRIOS DE CRISTO NA LITURGIA. Fátima, Secretariado Nacional de Liturgia, 2018.

LUTZ, Gregório. PÁSCOA ONTEM E HOJE. São Paulo, Paulus, 1995.

LEAHY, Brendan. O PRINCÍPIO MARIANO NA IGREJA. São Paulo, Cidade nova, 2005.

MISSAL ROMANO. São Paulo, Paulus, 2018.

MARSILI, Salvatore. SINAIS DO MISTÉRIO DE CRISTO. Teologia Litúrgica dos Sacramentos, Espiritualidade e Ano Litúrgico. São Paulo, Paulinas, 2012.

RATZINGER, Cardeal Joseph; VON BALTHASAR, Hans Urs. MARIA, PRIMEIRA IGREJA. Coimbra, Gráfica de Coimbra, 2000.

VON BALTHASAR, Hans Urs. MARIA para hoje. São Paulo, Paulus, 2016.

 
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