O CAMINHO LITÚRGICO DE EMAÚS
Davi Maria, O.Carm¹
1- Educados pela Liturgia
Sempre que falamos em humanidade logo nos lembramos da palavra formação ou educação, que entre tantas coisas pode ser significada como, “dar forma”, e é verdade. Quando formamos alguém estamos dando uma determinada forma àquela pessoa e para que isso aconteça se faz necessário, no entanto a abertura para se permitir ser formado e a humildade de nunca se achar pronto, mas sempre a caminho e deste modo, sempre aberto a aprender algo novo.
Na vida eclesial, o Ano Litúrgico é um grande mestre de formação de fé do povo sacerdotal, nele encontramos todos os mistérios da fé cristã devidamente reunidos e organizados, partindo sempre do mistério que é o eixo central da fé e sem o qual o Ano Litúrgico não passaria de um calendário muito bem organizado, mais que logo cairia na rotina e no costume, o mistério do qual falamos que porta como que a vida do Ano Litúrgico e consequentemente da Liturgia é a Páscoa.
A Páscoa de Nosso Jesus Cristo é a razão de toda a Liturgia e a Liturgia por sua vez é a atuação de Jesus na Igreja, é dela que a Igreja ganha vida, é da Liturgia que a Igreja se alimenta e mesmo em meio a tantos ventos contrários, de pé caminha e aponta o caminho da salvação Jesus Cristo, o Filho de Deus.
Na Liturgia da Igreja a partir dos fatos da vida de Jesus Cristo encontramos setas que nos apontam os passos a serem dados. Olhar para a Liturgia como um caminho de formação é se permitir ser formado pelo próprio Cristo Jesus. Os mistérios, os símbolos, a arquitetura, a música, a organização do espaço sagrado, entre tantas outras coisas corroboram para nossa formação humana e espiritual, pois, os ritos e os sacramentos nos educam. Isso acontece porque nesta atividade divina: a Liturgia, o mistagógo, aquele que nos ensina e nos mostra o caminho a ser seguido que é Ele mesmo é sempre Jesus Cristo.
A Liturgia, como caminho de formação nasce como lugar de encontro com o Ressuscitado, com Jesus Cristo, sem esse encontro não é possível falar de formação e transformação espiritual. Mas, encontro não como uma ideia, ou um conto, antes como algo real, vivo e atuante, é isso que acontece em toda Liturgia, Cristo Jesus, vivo, real e atuante é quem nos atrai a Si. Nos diz o Papa Francisco na Desiderio Desideravi:
A Liturgia nos garante a possibilidade desse encontro. Não serve uma vaga recordação da Última Ceia: nós precisamos estar presentes naquela Ceia, a fim de poder escutar a sua voz, comer do seu Corpo e beber do seu Sangue: nós precisamos dele. Na Eucaristia e em todos os sacramentos, é garantida a nós a possibilidade de encontrarmos o Senhor Jesus e de sermos alcançados pelo poder da sua Páscoa. O poder salvífico do sacrifício de Jesus, de cada palavra sua, cada gesto, olhar e sentimento, chega até nós na celebração dos sacramentos. (n.11[bddl1] )
Como caminho formativo que nasce a partir do encontro, a Liturgia é também lugar por excelência da escuta, sem o ato da escuta da voz do Bom Pastor, a formação não atinge o objetivo desejado. Na narrativa pós ressurreição segundo Lucas que encontramos no capítulo 24, dos versículos de 13 a 35 encontramos no relato dos discípulos de Emaús, um longo caminho formativo, percorrido com o próprio Jesus, neste relado, pode-se perceber nas entrelinhas como que o espaço sagrado da Liturgia ampliado de forma espiritual. Tudo o que acontece dentro da arquitetura de um espaço sagrado: a escuta da Palavra e a Eucaristia, acontece nos caminhos que levam a Emaús.
2- Não ardia o nosso coração?
A Palavra de Deus é fundamento basilar para a experiência de fé e sustentação da mesma no corpo místico. Muitas Ordens religiosas que foram responsáveis pela catequese e formação do povo de Deus encontram na Palavra Sagrada o fundamento da existência de sua espiritualidade. A Regra de São Bento, está repleta de citações bíblicas, já Francisco de Assis encontra na vivência do evangelho sem nada de próprio e em castidade a Regra para seus frades e Alberto de Jerusalém, estabelece para os Carmelitas no capítulo 10 da Regra que na permanência e vigilância da cela (do quarto), deve-se ser observado a meditação continua da Palavra dia e noite, “permaneça cada uma na sua cela ou perto dela meditando dia e noite na lei do Senhor e vigiando em orações” (REGRA DO CARMO, n. 10). [bddl2]
A vida cristã passa necessariamente pelo ato da escuta de Palavra de Deus, ela é plasmadora dos novos discípulos, é a escuta desta Palavra portadora de vida que, dilata “o coração e com inenarrável doçura de amor corre-se no caminho dos mandamentos de Deus” (Prólogo da Regra de São Bento, 2016, p. 20). Sem a sua escuta atenta e dócil não podemos crescer no seguimento de Jesus Cristo e nem sermos transformados por Ele. A Liturgia por sua vez além de se fundamentar na Palavra de Deus é um amplo meio para a proclamação e escuta da mesma. Sem a Palavra de Deus não há Liturgia e sem Liturgia o anúncio da Palavra Sagrada talvez não tivesse tido tanto eco no coração dos fiéis, pois, a Liturgia, como vemos na exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini,
Constitui, efetivamente, o âmbito privilegiado onde Deus nos fala no momento presente da nossa vida: fala hoje ao seu povo, que escuta e responde. Cada ação Litúrgica está, por sua natureza, impregnada da Sagrada Escritura... por isso, constantemente anunciada na Liturgia, a Palavra de Deus permanece viva e eficaz pela força do Espírito Santo, e manifesta aquele amor operante do Pai que não cessa jamais de agir em favor de todos os homens. (n.52)
No relato dos discípulos de Emaús, Lucas nos apresenta a Palavra de Deus quase como que uma poesia que nos desperta o coração, que inflama nossos sentidos e nos arrasta para dentro do mistério do amor. Os discípulos que peregrinavam pela decepção, caminham com Jesus e depois de terem ouvidos a Palavra proclamada pelo próprio Verbo do Pai, podem no final da narrativa, diante da eucaristia dizerem um para o outro aquilo que sentiam no caminho. Para isso, no entanto, foi necessário a escuta e abertura à Palavra.
Vejamos agora o relato de Lucas, retirado da Bíblia de Jerusalém,
Eis que dois deles viajavam nesse mesmo dia para um povoado chamado Emaús, a sessenta estádios de Jerusalém; e conversavam sobre todos esses acontecimentos. Ora, enquanto conversavam e discutiam entre si, o próprio Jesus aproximou-se e pôs-se a caminhar com eles; seus olhos, porém, estavam impedidos de reconhecê-lo. Ele lhes disse: “que palavras são essas que trocais enquanto ides caminhando?” E eles pararam, com o resto sombrio. Um deles, chamado Cléofas, lhe perguntou: “Tu és o único forasteiro em Jerusalém que ignora os fatos que nela aconteceram nestes dias?” “Quais?” disse-lhes ele. Responderam: “o que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que foi profeta poderoso em obras e em palavras, diante de Deus e diante de todo o povo: como nossos sumos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Nós esperávamos que fosse ele quem redimiria Israel; mas, com tudo isso, faz três dias que todas essas coisas aconteceram, É verdade que algumas mulheres, que são dos nossos, nos assustaram. Tendo ido muito cedo ao túmulo e não tendo encontrado o corpo, voltaram dizendo que haviam tido uma visão de anjos a declararem que ele está vivo. Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas tais como as mulheres haviam dito; mas não o viram”. Ele, então, lhes disse: “Insensatos e lentos de coração para crer tudo o que os profetas anunciaram. Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse em sua glória?” E, começando por Moisés e percorrendo todos os Profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito. Aproximando-se do povoado para onde iam, Jesus simulou que ia mais adiante. Eles, porém, insistiram, dizendo: “permanece conosco, pois cai a tarde e o dia já declina”. Entrou então para ficar com eles. E, uma vez à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, depois partiu-o e deu-o a eles. Então seus olhos se abriram e o reconheceram; ele, porém, ficou invisível diante deles. E disseram um ao outro: “Não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?”. Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém. Acharam aí reunidos os Onze e seus companheiros, que disseram: “É verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão”. E eles narraram os acontecimentos do caminho e como o haviam reconhecido na fração do pão. (Lc 24, 13-35)
Nesta perícope bíblica de Lucas, percebemos na caminhada dos discípulos ainda no início, talvez, até à mesa de sua casa e a celebração da fração do pão, ampliada de forma espiritual o espaço sagrado da Liturgia. A Liturgia realiza-se num espaço e neste todos olham para o mesmo lugar sacramental: o presbitério, tanto a Liturgia, como esta passagem de Lucas se fundamentam em duas mesas de um único e verdadeiro Altar, a “mesa” da Palavra e a mesa da Eucaristia, e o Altar: Jesus Cristo. A maior parte desta narrativa de Lucas se dá no caminho, na estrada, e acontece por meio da escuta atenta daquilo que lhes era comunicado, escuta esta não tão compreendida inicialmente, mas, acolhida no silêncio, no vazio do coração e na decepção dos sentidos, era isso o que sentiam em seu caminho de volta, tanto que inicialmente não reconheceram o Senhor.
O arder de coração que começa já Liturgia do caminho, no altar da Palavra, por assim dizer, só é tomado em consciência no final, diante da Eucaristia que lhes alimenta a alma e os olhos, assim como a Palavra o fizera o caminho, aquecendo-os, pois, “se as Escrituras ajudam a entender o escândalo da cruz, têm também o poder de esquentar o coração desiludido” (CASALEGNO,[bddl3] 2003, p. 195), isso porque a presença de Jesus Cristo que celebrava com eles não era uma ideia, ou pensamento e sim, real. Jesus Ressuscitado se faz presente e lhe explica a veracidade das profecias a Seu respeito: “e começando por Moisés e percorrendo todos os Profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito”(Lc 24, 27).
O itinerário formativo de Emaús se dá numa Liturgia que acontece no caminho, em meio aos percalços da vida, numa Liturgia em que rezamos o que vivemos para no momento certo viver o que rezamos. Primeiro esses discípulos tem a coragem de dialogar com o Senhor e lhe dizer o que tinha acontecido, agora, silenciando e ouvindo ao Ressuscitado os mesmos foram capazes de fazer uma prece, “permanece conosco, pois cai a tarde e o dia já declina”(Lc 24,29), é justamente esta prece, esta “epiclese[bddl4] ”, que fara com que aqueles dois discípulos possam agora, tendo ouvido e sendo formados pela Palavra se aproximarem da mesa Eucarística e com um olhar renovado voltarem e anunciarem a comunidade dos discípulos.
3- A epiclese: fica conosco Senhor
A Liturgia celebrada no caminho que conduz ao povoado de Emaús, é uma Liturgia Pascal, que é capaz de fazer arder o coração, reconhecer o mestre no partir do pão e tomando consciência de sua vocação, os impulsiona a fazer o caminho de volta e anunciar a comunidade eclesial que de fato Ele, Jesus Cristo, havia ressuscitado, que o que as mulheres tinham visto e comunicado era de fato verdade.
Quando se fala em epiclese, logo nos lembramos da invocação que se faz em todo sacramento, sobretudo na Eucaristia para que o Espírito Santo venha e realize a presentificação real do Senhor nas espécies que tão logo se tornam sagradas. Na passagem dos discípulos de Emaús, temos uma epiclese rezada por um povo sacerdotal, por dois discípulos que fazem parte do corpo místico do Senhor que é a Igreja.
A Liturgia reza ao Pai na epiclese, ou na invocação do Espírito Santo, presente em todos os sacramentos, para que os torne eficazes, segundo a Palavra de Cristo que se realiza na própria Liturgia. Efetivamente, é Cristo quem batiza, quem administra a unção do Espírito, quem dá o próprio Corpo e Sangue; é Cristo quem perdoa e cura, é Cristo quem ordena... e quem consagra a união do matrimónio. (CORDEIRO, 2014, p. 71)
Antes, porém, do pedido para que o Senhor permaneça, o gesto de Jesus de se afastar, de continuar o caminho adiante revela,
Falta de fé, de abandono da comunidade, da procura solitária do sentido dos desafios da história. também sua volta para a cidade, no final do relato é significativa: indica o reencontro da fé, o reconhecimento do valor da comunidade reunida, a consciência de que o anúncio do evangelho ajuda a entender os dramas da vida. (CASALEGNO, 2003, p. 194)
Mesmo sem compreenderem e nem reconhecerem o Senhor, os discípulos que a esta altura já estavam com o coração ardendo, podem rezar, “permanece conosco...”. Da mesma forma em que na celebração Litúrgica a epiclese se posiciona entre a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística, também em Emaús esta prece se faz presente praticamente no mesmo momento. Naquela ocasião depois de terem feito uma caminhada Pascal com o Senhor por meio de sua Palavra, numa refeição eles chegam, guiados pelo divino mistagógo, Jesus Cristo, ao centro do encontro, para a fração do pão.
A Eucaristia é sempre celebrada na feliz expectativa do Senhor que vem a nós sob o véu sacramental, verdadeiro sinal de sua presença. Em Emaús, quem preside a Eucaristia é o próprio Cristo Ressuscitado. Naquele momento, os dois discípulos tinham a certeza de que “a Eucaristia é verdadeiramente um pedaço de céu que se abre sobre a terra; é um raio da Jerusalém celeste, que atravessa as nuvens da nossa história e vem iluminar o nosso caminho” (Ecclesia de Eucharistia, 2003, n: 19), por isso seus olhos podem se abrir e eles tomam consciência de quem estava caminhando com eles.
Em Jesus tudo se acerta e toma o seu real lugar, a presença de Jesus é capaz de mudar completamente a caminhada de alguém, desde que também este, como em Emaús se abra a graça que se manifesta diante de si.
O mistagógo da Liturgia de Emaús é o próprio Jesus que pacientemente conduz os discípulos ao centro do mistério Pascal da Eucaristia, é Ele o sacramento de encontro com o Pai.
O testemunho da fé pascal expresso nos evangelhos nos mostra, portanto, que nem as Escrituras, nem as palavras e gestos de Jesus são suficientes para suscitar a profissão de fé da Igreja, mas é necessário que o Cristo Ressuscitado seja ele mesmo exegeta do seu mistério escondido nas Escrituras... a revelação do mistério de Deus é sempre um ato de Deus mesmo, por que só o mistério revela o mistério. (BOSELLI, 2019, p. 22)
O pedido dos discípulos de Emaús para que o Senhor permaneça é o eixo unitivo das duas mesas desta Liturgia celebrada no altar das estradas e no altar do coração humano. O ato de pedir para que o Senhor fique com eles era já fruto da escuta da Palavra, sem a qual não há vida cristã e nem seguimento ao Senhor.
Um exercício muito frutuoso para a vida espiritual e Litúrgica é a Lectio Divina, que consiste em apenas quatro passos, ler, meditar, rezar e contemplar. Segundo Guido, o Cartuxo, na leitura procuramos, na meditação encontramos, na oração pedimos e contemplação experimentamos. Podemos perceber este método de oração no decorrer da passagem bíblica de Emaús.
A leitura para estes discípulos talvez seja o ato de falar ao Senhor exatamente tudo o que tinha acontecido e como eles se sentiam, já o ato de ouvir o que Senhor estava dizendo, de forma paciente, mas também chamando a atenção para tudo aquilo que outrora tinha Ele dito, mostra-se neste evangelho como uma meditação, pois, mesmo sem terem plena consciência estes dois discípulos começam a encontrar aquilo que seu coração procurava. Tendo ouvido e meditado o que lhes disse Jesus no decorrer do caminho eles podem agora rezar para que o Senhor permaneça, e permanecendo eles o experimentam na fração do pão, logo após Jesus desaparece e eles o reconhecem.
Foi naquele momento que se lhes abriram os olhos e “O reconheceram. Mas Jesus desapareceu da presença deles” (Lc 24,31). O Senhor está à mesa com os Seus como antes, com a oração de benção e a fração do pão. Depois desaparece da sua vista externa, e precisamente nesse desaparecer abre-se a vista interior: reconhecem-No. Trata-se de um verdadeiro encontro convival e, todavia, é novo. Ao partir o pão, Ele manifesta-Se, mas só ao desaparecer é que Se torna verdadeiramente reconhecível. (RATZINGER, 2020, p. 241[bddl5] )
O abrir dos olhos na fração do pão constitui também um abrir-se as escrituras, tanto que, agora tomando consciência de tudo aquilo que tinha sido celebrado no amplo espaço litúrgico e sagrado dos caminhos que levavam a Emaús, os dois discípulos afirmam que sentiam o coração ardendo, pois, Palavra e Eucaristia estão unidas de tal modo entre si, que nesta perícope de Lucas para se chegar à fração do pão deve-se passar pela escuta da Palavra e a Palavra anunciada conduz à mesa da Eucaristia.
4- Um olhar eucaristizado
A celebração da Eucaristia feita por nós, todas as vezes que participamos de uma Liturgia Eucarística deve nos levar necessariamente a ser eucaristia, caso contrário, a Eucaristia que recebemos não fará a transformação desejada, para que isso aconteça é preciso nossa abertura de coração, tal como em Emaús, os dois discípulos abrem-se a escuta do que Jesus comunicava-lhes e depois o pedem para que ficasse com eles, pois, “o pleno reconhecimento de Jesus acontece na fração do pão, que se torna, assim, essencial para reencontrar a Cristo” (CASALEGNO, 2003, p. 195)
Na Liturgia celebrada em Emaús acontece uma transformação de olhar e percepção dos sentidos. Depois da fração do pão, aqueles discípulos têm agora o olhar eucaristizado[bddl6] , eles não enxergam mais como antes, com o olhar da decepção, da tristeza, agora percebem que todos os sinais que Jesus havia dado se encaixam perfeitamente. É próprio de quem tem um novo olhar, perceber as coisas de forma nova e é justamente isso que acontece em Emaús, a percepção do novo, só é possível depois do encontro eucarístico com Jesus.
A Eucaristia, por sua vez é sinal e vínculo de unidade da nova comunidade de fé, formada agora não por castas, ou tribos, como no Antigo Testamento, e sim por um povo sacerdotal, real e profético. É Ele, o Cristo Senhor, cabeça da Igreja, que se fazendo Eucaristia une em torno de Si o corpo místico, das mais diversas partes do mundo e com os mais diversos costumes, mais que n’Ele e por Ele nos tornamos um só povo. Por isso, na Eucaristia e numa comunidade eucarística não deve nunca haver espaços para divisões e egoísmos e sim para a união e a partilha.
A Eucaristia é como comunhão com o Senhor e não sinal de divisão na Igreja[bddl7] , por isso na comunidade eclesial há uma só mesa eucarística e quando, por infelicidade fazemos deste sacramento sinal de divisão é porque não compreendemos o que é a Eucaristia. Se a Eucaristia é comunhão com o Senhor, e de fato o É, então os comungam do mesmo pão, devem todos estar em comum união. Mesmo na diversidade, que longe de ser algo ruim, é antes um dom, pois o mesmo Apóstolo Paulo no capítulo 11 da carta aos Coríntios nos relembra que num corpo há muitos membros, “com efeito, o corpo é um e, não obstante, tem muitos membros, mas todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, formam um só corpo” (1 Cor 12, 12), e continuando, Paulo afirma que da mesma forma acontece com Cristo, somos muitos, mas n’Ele formamos um só corpo.
Pela Eucaristia temos o olhar ampliado, pois, nela não há espaços para a mediocridade, antes temos o olhar cristificado e passamos perceber a realidade com o olhar de Jesus Cristo. Foi precisamente isso que aconteceu em Emaús, tanto que, logo em seguida, os discípulos partem para anunciar à comunidade tudo o que tinha se passado com eles.
Ter um olhar eucaristizado/cristificado, são sinais de alguém que tendo feito uma experiência com Jesus Cristo torna-se eucaristia para a fé dos irmãos. Em Emaús, logo após a celebração da fração do pão, os discípulos, como outrora a Virgem Maria[bddl8] (Lc 1, 39), partem apressadamente a Jerusalém e indo ao encontro da comunidade apostólica testemunham ali tudo que fez o Senhor. Aqueles dois celebrantes de Emaús, estão agora não mais decepcionados ou tristes, antes, se encontram plenos de Jesus por isso partem para anunciar e anunciar também àqueles que estavam porventura nos caminhos.
Pela Liturgia, verdadeira escola de formação, assim como em Emaús, diz o Papa Francisco, “é garantida a nós a possibilidade de encontrarmos o Senhor Jesus e de sermos alcançados pelo poder da sua Páscoa. O poder salvífico do sacrifício de Jesus, de cada palavra sua, cada gesto, olhar e sentimento, chega até nós na celebração dos sacramentos” (Desiderio Desideravi, 2022, n: 11), isso porque na Liturgia e pela Liturgia nos tornamos Eucaristia, pois O recebemos, na Palavra e no sacramento e eucaristizadores, isto é, tendo sido penetrados e transformados por Ele, devemos agora com em Emaús, partir, e anuncia-lo a todos, pois, “a fé cristã, ou é um encontro vivo com ele, ou não é” (Desiderio Desideravi, 2022, n. 10).
Em Emaús, havia a fragilidade dos discípulos que guiados pela decepção voltaram para seu povoado natal e é justamente no caminho de retorno que a desilusão dos dois discípulos acaba por se tornar um lugar teológico e por isso mesmo, um lugar Litúrgico, pois, na celebração da Liturgia, nossas dores e dessabores da vida encontram acolhimento no coração amoroso de Jesus, somente assim procedendo é possível ter um olhar eucaristizado.
Para vivermos com este olhar do próprio Cristo Jesus, é necessário que em nossas vidas unamos sempre oração, crença e vivência. O que rezamos e acreditamos devem encontrar plena sintonia com em nossos atos e comportamentos, pois, ter um olhar eucaristizado é fazer da Eucaristia a ética de nossa vida. Neste itinerário de eucaristização é preciso a autocomunicação de dons, Cristo Jesus nos comunica e revela seus dons e nós devemos dar-lhe tudo aquilo que de bom temos e que d’Ele nos veio,
Não se pode compartilhar o pão da Eucaristia sem se estar disposto a compartilhar o pão da vida. O dom é dar do nosso, dando-nos a nós mesmos. Deus não aceita nossos dons de pão e vinho se por meio deles não nos damos a nós mesmos em sacrifício, expresso numa oferenda que é autodoação de si mesmo aos outros (BOROBIO, 2009, p. 251)
Possuir um olhar tocado, transformado e restaurado por Jesus Cristo, é também sinal de mudança de mentalidade. Os discípulos de Emaús, fazem um itinerário não apenas de mudança espiritual, também, mas de mudança de mentalidade, tanto que se eram medrosos e reclamavam no caminho, agora se tornam ardorosos missionários. A eucaristização da mentalidade talvez seja mais difícil do que a espiritual, pois, esta exige de nós o desapego de nossas seguranças e de nossos pseudo “certezas”[bddl9] , ela nos deixa desarmados diante de quem pensa diferente para aprendermos também com eles. O caminho de Emaús é um eterno abismar-se diante do mistério de Deus, mistério este que nos forma continuamente pela Palavra e pela Eucaristia e que nos leva a ser homens e mulheres novos, inteiramente eucaristizados.
5- Levantaram-se e voltaram
Esta passagem bíblica de Lucas nos traz um itinerário Litúrgico/catequético em oito passos. Jesus se aproxima, ouve as queixas, explica as Escrituras. É pedido para que Jesus permaneça e permanecendo celebra a fração do pão, os olhos dos discípulos se abrem e reconhecendo o Senhor decidem refazer o caminho de volta para testemunhar a comunidade.
O levantar-se e refazer o caminho em Emaús agora é inteiramente diferente da vinda, pois, tendo se encontrado com Jesus na Palavra que lhes ardia o coração e na fração pão, os discípulos são eucaristizados, passam a olhar a realidade e tudo aquilo que tinha acontecido com Jesus com um novo olhar, com um olhar transformado por Ele mesmo.
A Liturgia em Emaús não termina com a fração do pão, mas estende-se também à volta que os dois discípulos fazem a comunidade, com isso, eles mostram, a partir de sua experiência, que “a fé em Jesus morto e ressuscitado corresponde perfeitamente ao plano de Deus e que ela amadurece lentamente por meio da compreensão das Escrituras e pela participação na eucaristia” (CASALEGNO, 2003, p. 196). O retorno a Jerusalém é assumido como uma missão de testemunhar aos discípulos que, em meio ao desânimo se encontravam acorrentados no medo e na tristeza, que de fato o Senhor tinha ressuscitado e aparecido as mulheres e a Simão.
Por duas vezes encontramos a palavra verdade nesta perícope de Lucas. A primeira vez é no versículo 22, ela aparece no caminho de volta a Emaús, é uma verdade contada[bddl10] a partir de algo que foi dito por alguém, “é verdade que algumas mulheres, que são dos nossos, nos assustaram ...” (v. 22) e a segunda vez no versículo 34, “é verdade! O Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!” (v. 34), agora a verdade não é dita como anteriormente, mas parte de uma experiência Pascal, na Páscoa do Senhor Ressuscitado aqueles discípulos encontraram a sua Páscoa, por isso podem agora afirmar, é verdade! Ele ressuscitou! nós celebramos com Ele!
Somente a partir da experiência com o Senhor Ressuscitado é que eles se levantam e partem a Jerusalém, agora aqueles dois discípulos se tornam verdadeiros missionários do Deus vivo e indo a Jerusalém confirmam o que tinha acontecido: sim, Ele ressuscitou e apareceu a Simão. Esta verdade experienciada pelos discípulos de Emaús não apenas testemunha a comunidade, mas, a comunidade confirma também é verdade que o que aconteceu em Emaús era digno de ser creditado.
O retorno a Jerusalém é também um retorno eclesial, ao seio da Igreja, pois separados da comunidade nenhuma experiência pode ser digna de fé, porque a Igreja é o corpo místico, a assembleia santa, o povo sacerdotal, régio e profético, nenhum membro conseguem viver a fé separados dos demais. Os discípulos de Emaús retomando o caminho de volta retornam também a comunhão com o corpo místico do Senhor. Estando agora a comunidade reunida o Senhor lhes aparece para conceder o primeiro dom com ressuscitado para a sua comunidade e lhes diz, “a paz esteja convosco!” (Lc 24, 36)
6- Considerações finais
O relato de Lucas sobre os discípulos de Emaús é uma valiosa riqueza espiritual e litúrgica para a Igreja e a vida de fé de todos os fiéis. O evangelista nestes versículos do 13 ao 35, apresenta-nos um verdadeiro itinerário espiritual de transformação interior e exterior. Podemos nesta perícope de Lucas nos identificar e perceber que algumas vezes na vida somos semelhantes aos discípulos de Emaús, seguimos Jesus Cristo, fazemos uma experiência de fé com Ele, porém, se não mudamos a mentalidade acabamos por desacreditar naquilo que o Senhor ensinou e anunciou.
O contato com a Palavra Sagrada ilumina-nos a mente e a fé e nos faz perceber os sinais do Senhor e que Ele está sempre conosco, nunca nos abandona e como em Emaús, também em nossos dias Ele se faz presente na caminhada, hora nos admoestando e hora nos ensinando como outrora aos discípulos.
O reconhecer ao Senhor se dá na mesa da Eucaristia, pois, ali, é o próprio Cristo Jesus, Cabeça da Igreja que reúne em torno a Si, seu corpo místico, para nos alimentar e nos eucaristizar e assim nos tornamos euristizadores, isto é, sinais vivos do amor de Deus pela humanidade, homens e mulheres renovados pela presença do Ressuscitado, ou numa linguagem litúrgica: homens e mulheres pascais.
Referências bibliográficas
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo, Paulus, 2008
BENTO XVI. JESUS DE NAZARÉ. Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição. São Paulo, Planeta, 2020
BOSELLI, Goffredo. O SENTIDO ESPIRITUAL DA LITURGIA. Brasília-DF, Edições CNBB, 2019
BOROBIO, Dionisio. CELEBRAR PARA VIVER. Liturgia e sacramentos da Igreja. São Paulo, Edições Loyola, 2009
CONSTITUIÇÕES DA ORDEM DOS IRMÃOS DA BEM AVENTURADA VIRGEM MARIA DO MONTE CARMELO. Braga, Empresa do Diário do Minho, 2022
CORDEIRO, Dom José Manuel. CORAÇÕES AO ALTO. Introdução a Liturgia da Igreja. Lisboa, Paulus, 2014
Carta Apostólica DESIDERIO DESIDERAVI. São Paulo, Paulinas, 2022
Carta Encíclica ECCLESIA DE EUCHARISTIA. São Paulo, Paulinas, 2003
CASALEGNO, Alberto. LUCAS. A CAMINHO COM JESUS MISSIONÁRIO. São Paulo, Edições Loyola, 2003
Exortação Apostólica VERBUM DOMINI. – VD. In: ENQUIRÍDIO DOS DOCUMENTOS DA REFORMA LITÚRGICA. Secretariado Nacional de Liturgia de Portugal. Fátima, 2014
REGRA DE SÃO BENTO. Juiz de Fora, MG, Edições Subiaco, 3 ed: 2016