O CÂNTICO DE ZACARIAS COMO EXPRESSÃO LITÚRGICA PARA O CÂNTICO DE COMUNHÃO NA SOLENIDADE DA NATIVIDADE DE SÃO JOÃO BATISTA
Anderson Cata Prêta[1]
A proposta deste breve texto é fomentar o conhecimento da organização textual que temos na Igreja Católica e perceber a aproximação do cântico litúrgico, devidamente empregado, com a ação ritual, sobretudo inspirado na sagrada Escritura (cf. SC 121), por onde habita o canto litúrgico e se manifesta como melodia eterna. Observaremos alguns pontos que, de forma limitada, apresentam fragilidades argumentativas quanto a ritualidade do cântico de comunhão. Ressalto que a rica história e presença desse texto dentro da milenar história da Igreja exigirá uma outra reflexão. Vejo como salutar e importante também o fazer, mas que não será possível nesta breve argumentação. Outro ponto importante é que o cântico de comunhão nos permite diversas diatipologospraxias com esse texto, a saber: antifonário, meditativo, hino, tropário ou responsorial. Caberá à realidade celebrativa e à musicalidade local serem capazes, ou não, de desempenhar tal práxis. A reflexão a seguir contempla todas essas possibilidades, contribuindo ainda mais para uma escolha clara, que realmente seja comunicativa e reciprocativa na celebração. O texto do cântico de Zacarias é indicação tanto no Graduale Simplex (cf, 1975 p.280-281) como no Graduale Romanum (cf, 1974 p. 572), para o cântico de comunhão na solenidade de São João Batista.
Acompanhar ou Corresponder?
Antes de adentrar propriamente no texto, preciso fazer uma introdução sobre como vemos e desenvolvemos o cântico de comunhão em nossas liturgias, a priori da forma como é apresentado e/ou explicado sobre a sua natureza. Muito já ouvi e li quando se fala do cântico de comunhão como um canto que “acompanha” o rito e admito que o verbo tem me causado certo desconforto. Então, como fiz movido a amofinação, convido o leitor a tatear esse primeiro passo pelo significado das palavras em nossa língua portuguesa.
Segundo o dicionário, o verbo acompanhar significa: “1. Ir em companhia de; seguir. 2. Seguir a mesma direção de. 3. Observar a marcha, a evolução de. 4. Ser da mesma política ou opinião que. 5. Executar acompanhamento de. 6. Rodear-se, cercar-se.” (FERREIRA, 2000, p.12). Pelas definições, não podemos negar o distanciamento entre partes ou sujeitos, quanto ao envolvimento que o verbo sugere. Ou seja, temos ao menos uma subjetividade, limitação ou ambiguidade de sentido. Pois dizer que observa, rodeia e cerca é a mesma coisa, referindo agora ao contexto celebrativo, dizer que é o cântico que se executa durante o rito, sem muitas características além disso. Logo, é cantar na liturgia ou durante a liturgia. Ser da mesma opinião e ou acompanhamento também não caracteriza parte integrante como a música o é (cf. SC, §112), mas apenas um adorno que estando ou não, teria um papel sem muito sentido.
Vejamos outro verbo, o corresponder: “1. Ser próprio, adequado ou proporcional. 2. Retribuir, devolver. 3. Estar em correlação.” (FERREIRA, 2000, p.188). Percebemos que o significado está muito mais apropriado para o papel da música na liturgia, uma vez que consideramos a nossa participação na liturgia como resposta da autocomunicação divina, diante do memorial que se realizou em Cristo (cf. CATA PRÊTA, 2023a), que através da música facilita “a participação da assembleia, e também resgata a dimensão memorial” (FONSECA, 2010, p.57).
Agora, podemos verificar se o texto, a partir da perspectiva que nosso cântico será uma correspondência na celebração, se converge com outras tipologias ou é apenas uma questão de nomenclatura verbal.
Tipologia textual e bíblica: a nossa resposta.
A primeira pergunta a se fazer é: qual a semântica deste texto bíblico? Tomemos o texto de Lucas 1, 67-79. O autor bíblico enfatiza que Zacarias estava cheio do Espírito Santo. Como sabemos, estar cheio do Espírito avulta o ânimo para o anúncio (cf. Mq 3,8), ressalta a ousadia de proclamar sobre as maravilhas de Deus (cf. At 4,31). Na primeira frase do cântico encontramos logo um elogio, o que é próprio dos textos litúrgicos e segue a justificativa da encomia. Percebemos diversas razões e motivos relatados nos versículos que também são as nossas palavras em nosso cotidiano. É um ato de reconhecimento se apropriando de várias referências do antigo testamento. O Senhor que visita (cf. Ex. 3,16), que recorda a aliança (cf. Lv 26,42) comum no antigo testamento, a aliança feita ao nossos pais (cf. Jr 11,5 e Mq 7,20), a libertação dos inimigos (cf. Gn 22, 16-18). A confiança, um ato de fé na promessa de Deus que enviará o mensageiro para preparar o caminho (cf. Ml 3,1 e Is 40,3) e comunicar a todos sobre aquele que vem (cf. Zc 3,8), a luz do mundo para os que estão nas trevas (cf Is 9,1), trazer cura para as diversas cegueiras (cf. Is 42,7), guiando os passos do povo (cf Jr 6,14) no caminho da paz (cf. Is 11, 6-9).
Concluímos a semântica, com o paralelismo na história da salvação e com a clareza dos elogios da glorificação a Deus na relação das tipologias textual e bíblica.
Tipologia ritual: celebramos.
O próprio texto já nos coloca na dinâmica solicitada para o rito: “demonstra a alegria dos corações e realça mais a índole comunitária” (IGMR 86): o seu povo que conhece a salvação, que ilumina a todos e dirige os passos. Encontramos uma interessante ligação com a teologia Paulina sobre a igreja – a Igreja corpo de Cristo (Cf. Rm 12,1-8) - e uma unidade em Cristo que se realiza na ação ritual (cf. SC 26).
O parágrafo anterior já nos bastaria para fundamentar a ritualidade desse cântico para o momento da comunhão, mas desejo pontuar algo muito interessante que foi a minha primeira provocação para escrever esse texto: a ponte entre as mesas da Palavra e da Eucaristia. A mãe Igreja sempre cuidadosa, nos deixa elementos primorosos para darmos continuidade ao tato dessa mistagogia. Olhando para a o elenco das leituras, percebe-se o cuidado de não ter os versículos do cântico no rito da proclamação do Evangelho. O texto proposto para a missa do dia salta do versículo sessenta e seis para o versículo oitenta. Claro que não se trata de uma mera abreviação, mas abre justamente a possibilidade de uma correspondência da assembleia pelo cântico de Zacarias, conforme o sentido textual já observamos na breve análise do texto e seu paralelismo bíblico. Em uma forma relacional, que é própria do culto da missa associado com música (cf. CATA PRÊTA, 2022b), o texto bíblico se apresenta como o melhor texto para a correspondência e íntima relação ritual.
Portanto, as tipologias bíblica, ritual e textual já nos permitem aferir que a problemática apontada no início sobre o melhor verbo para se referir ao cântico de comunhão (e também aos demais cânticos processionais) é um cântico que corresponde ao rito também no sentido textual, bíblico, musical, da cultura, do corpo e do espaço litúrgico.
Destaco também, de certa forma trateado, outro indicador que tenho encontrado em muitas colocações com a justificativa do cântico de comunhão em unir as mesas da palavra e da Eucaristia, cantando, ou de forma literal, ou boa parte do texto já proclamado na liturgia da palavra, sendo uma repetição sem sentido do que já foi anunciado e refletido. É necessário compreender o convite para uma atualização sem cair em clichês (cf. MARQUES, 2022, p.259). Ao menos fosse um quiasmo do texto, ou o que já temos nas antífonas do gradual, mas se trata de uma repetição como um comentário durante o rito da comunhão, não havendo necessidade para tais explicações (cf. SC 34).
Conclusão
E o leitor pode estar perguntando: e onde está a partitura do cântico? Como musicoterapeuta, reforço o que outrora já mencionei em outros textos: que a musicalidade dos que congregam é a expressão (claro que de forma orientada e organizada) propulsora da oração (cf. CATA PRÊTA, 2023), como encontramos no cântico de Zacarias: uma melodia da alma. A tipologia musical vai de encontro com essa dinâmica, buscando a sua melhor diatipologospraxia, amparada pelas tipologias já refletidas e que melhor podem ser exploradas a partir dessa provocação.
Outros fatores importantes são o texto intimamente ligado a ação, como ação correspondente, e considerar a união mistagógica das mesas da Palavra e da Eucaristia no canto de comunhão. À vista disso, não é refazer o rito e cantar literalmente o texto, apresentado e argumentado para nós pela tipologia ritual. Concluímos também, pela disposição do rito do evangelho próprio da celebração do dia vinte e quatro de junho, ser o texto indicado para o cântico de Comunhão que já justificamos tanto por apontamento do gradual, como a argumentação da relação da liturgia da Palavra com a liturgia Eucarística.
Utilizemos o belíssimo texto de Zacarias para cantar a liturgia, como nossa resposta, arquétipo e adesão ritual, como passos para a mistagogia, como ato de fé, como atitude congregacional, glorificação de Deus e santificação dos homens (cf. SC 5). Não se trata apenas de um texto para a liturgia, mas uma expressão repleta de significado.
Referências Bibliográficas
BÍBLIA SAGRADA. CNBB, 2001.
CATA PRÊTA, Anderson. Formação Caminho, 2022a. A existência do diálogo com música no rito romano celebrado no Brasil. Disponível em: < https://formacaocaminho.com.br/a-existencia-do-dialogo-com-musica-no-rito-catolico-romano-celebrado-no-brasil/>. Acesso em 11 jun 2023.
______. ASLI, 2022b. A música como expressão do diálogo litúrgico. Disponível em: < https://www.asli.com.br/artigos/a-musica-como-expressao-do-dialogo-liturgico> Acesso em 11 jun 2023.
______. ASLI, 2023. A musicalidade do indivíduo: construtora da expressão no culto. Disponível em: < https://www.asli.com.br/artigos/a-musicalidade-do-individuo--construtora-da-expressao-no-culto> Acesso em 11 jun 2023.
CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Instrução Geral do Missal Romano e Introdução ao Lecionário. 7a. ed. Brasília: Edições CNBB, 2021.
Constituição SACROSSACTUM CONCILIUM sobre a liturgia. São Paulo: Paulinas, 2002.
FONSECA. Joaquim. Quem canta? O que cantar na liturgia? São Paulo: Paulus, 2010.
Graduale Romanum. Sacrosanctae Romanae Ecclesiae de Tempore et de Sanctis, Solesmis, 1974.
Graduale Simplex: in usum minorum ecclesiarum, editio typica altera, LEV, Città del Vaticano, 1975
MARQUES, Luís Felipe C. Atualização Litúrgica 5. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2022.
[1]Especialista em práticas musicais para espaços religiosos brasileiros (FACEC), Musicoterapeuta (APEMESP 3-230444) e Psicopedagogo (UNIMES).