O CONVENTO DAS “ÚLTIMAS-CEIAS”

O CONVENTO DAS “ÚLTIMAS-CEIAS”

Fr. Luis Felipe C. Marques, OFMConv.*

Desde o início da guerra na Ucrânia, os frades franciscanos conventuais da Custódia da Santa Cruz tecem uma rede de fraternidade ativa e de solidariedade eficaz para ajudar e estar ao lado dos refugiados. Perto da Igreja de Santo Antônio, no coração de Leapólis, a maior cidade da Ucrânia Ocidental, um convento nosso, transformou-se em cenáculo pascal e de despedida. Ao deparar-me com esta notícia, brotou-me um sentimento no coração e tentei fazer uma releitura dinâmica da ação de Jesus na sua “irrepetível” páscoa do cenáculo, nesta semana que somos convidados a celebrar a “Solenidade do Corpo do Senhor”.

A despedida de Jesus e o evento histórico da cruz estão unidos através da celebração da Última-Ceia. Ambos estão indissoluvelmente interligados. Na Última Ceia, Jesus antecipa o que acontecerá na cruz: o acontecimento pascal da sua própria entrega em favor dos seres humanos. No cenáculo, Ele cumpre de antemão seu morrer no calvário e o transforma num ato profético de auto entrega amorosa. Dado a proximidade dos dois eventos, alguns exegetas perguntam-se: a Última Ceia de Jesus com seus discípulos tratava-se de uma ceia pascal, propriamente dita, ou de uma ceia de despedida? É fácil ver o alcance do gesto de Jesus. O seu ato, coroação da Páscoa Judaica, não é somente ritual, mas existencial. 

A doação feita pelo Senhor nos permite considerar a Eucaristia como convívio fraterno dos discípulos cuja finalidade é participar do sacrifício pascal e perpetuá-lo através das gerações. De fato, Cristo quis ser alimento para todos os convidados e desejou que todos participassem da sua vida divina como fundamento para o amor fraterno e como edificação para a vida da Igreja. Na ceia, Jesus fez os discípulos compreenderem que sua vida podia ser resumida e continuada na partilha do pão e no dom do cálice. Este contexto nos permite compreender o sentido pleno e verdadeiro da Eucaristia. Ela não revela simplesmente o marco “objetivo” e “cerimonial” de um núcleo dogmático, mas a continuação do exercício sacerdotal e pascal de Cristo na realidade das pessoas.

Nas semanas em que a guerra era eminente, ameaçadora e violenta, muitas pessoas de Kiev e, também, de duas cidades próximas à Rússia, Kharkiv e Chernihiv, chegavam na fronteira entre a Ucrânia e a Polônia. Famílias inteiras necessitavam de hospedagem e de alimentação. Os homens iam até lá para deixar suas esposas e filhos. Em situação de guerra, como estabelecia o governo, eles não podiam deixar o país. Então, acompanhavam seus familiares até a fronteira, hospedavam-se em um de nossos conventos, dormiam e comiam a “Última-Ceia”, antes de retomarem à guerra. Este momento marcava o tempo existente entre a libertação e a aflição da despedida: “Desejei ardentemente comer essa ceia convosco” (Lc 22,15).  

Frei Mykola exclama: “eles olham nos olhos um do outro e acariciam suas mãos. Seus sussurros e seus olhares contêm a dor de um povo atacado”. Aos dizeres do nosso irmão frade menor conventual, entendemos que a tristeza de um povo é revelada no ato de fazerem juntos a última refeição. Eles não sabem o que acontecerá adiante... Talvez nunca mais se encontrem, se beijem ou se comuniquem. Para uns, essa “Última-Ceia” será de despedida, enquanto para outros servirá como êxodo de uma terra, outrora, oprimida. A força simbólica deste encontro nos permite compreender, o fundamental “mandato” de Cristo: “eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13,15).

A “Última-Ceia” dessas famílias servirá como um “memorial”. É o único e mais profundo “testamento” que os pais deixam aos seus. A partir desse momento, sua “presença real” será a possibilidade de uma memória atualizada no coração de suas esposas e filhos. O reflexo da presença será visto não apenas como uma realidade em si, mas em seu pleno significado. Ali, não há apenas retrospectiva histórica e nostálgica, mas genuínas relações familiares num momento derradeiro e decisivo de reconciliação, diálogo e de esperança. Num contexto de combate e guerra, aquela “Ceia” não será uma ou a repetição de muitas outras que haviam acontecido: ela será única e irrepetível. A comida, não será apenas uma realidade comum, mas tirada do seu estado “profano”, transformar-se-á em instrumento de relação, perdão, doação e perpétua memória. 

Portanto, o mistério das “Últimas-Ceias” desses pais, esposas e filhos reflete o sentido do “por vós” dito por Jesus: "eu quis comer essa Ceia para que vós vivais". Afinal, se come, para viver. É o ritmo do dom que se dá a si mesmo. Além do mais, no Memorial Eucarístico, recordação da paixão-morte-ressurreição do Senhor, somos remetidos não somente a um passado e a um acontecimento realizado na história, mas à perspectiva da libertação futura. Nessas “Últimas-Ceias” está a esperança do fim da guerra e de que a vida de todos seja salva. A esperança é sempre uma espera futura de libertação e paz. Tudo isso revela-nos que a Última-Ceia de Jesus com seus discípulos, na qual instituiu o sacramento da Eucaristia, nunca foi a última, mas a primeira de muitas outras que ainda podem acontecer, nos muitos “cenáculos” da história.

 

Fontes:

https://www.ofmconv.net/il-convento-delle-ultime-cene/

https://www.avvenire.it/mondo/pagine/frati-di-leopoli-cosi-aiutiamo-le-famiglie-ucraina

 

*Franciscano Conventual, doutor em Teologia Sacramental pelo Pontifício Ateneu Santo Anselmo de Roma.

 

 

 
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