O ESPÍRITO DA LITURGIA EM PAPA FRANCISCO

O ESPÍRITO DA LITURGIA EM PAPA FRANCISCO

Fr. Luis Felipe Marques, OFMConv.*

 

Nos primeiros gestos do Francisco, já se podia intuir novidades. O sóbrio modo de vestir, a saudação espontânea, o inclinar-se e a oração do povo de Deus expressavam a chegada de um tempo novo e cheio de surpresas. Os gestos e a linguagem revelavam que o “novo” papa trazia consigo uma forte experiência pastoral e uma radical experiência sobre o homem. Na memória de uma década de pontificado, é preciso reconhecer com gratidão que o horizonte está aberto, a linguagem está inaugurada e os gestos continuam fortes e bonitos. 
Com Francisco veio uma ventania do Espírito Santo para superar as estagnações de um tempo. Vivemos um momento que encanta e surpreende seja pelos gestos e atitudes, seja pela palavra bem colocada, seja pelo forte interesse pastoral que cativa, convida, inclui, provoca e incomoda. Ao repropor a intenção do Vaticano II e no intuito de completar a sua agenda, evoca-se a necessidade de sair, movimentar, dialogar com maturidade e lucidez com um novo público interno e externo à Igreja para acolher, discernir e responder aos novos sinais dos tempos, com clara consciência e estilo evangélico.
No Concílio Vaticano II, foi verificada e comunicada uma verdade, por isso ele permanecerá um exemplo típico da ação do Espírito Santo na Igreja. Porém, hoje resta-nos continuar trabalhando para que a verdade conhecida se torne realidade através das novas evidências. 
No âmbito da liturgia, o magistério de Francisco oferece uma virada sistemática e um “desbloqueio” de uma visão de liturgia pouco condizente com o Concílio. Desde a sua eleição, mesmo que de forma discreta, a questão litúrgica está no foco da sua atenção e do seu ministério petrino. É falando da liturgia que ele demonstra o quanto foi valiosa a reforma do Concílio Vaticano II. Neste ano em que comemoramos o décimo ano de um pontificado valioso para a Igreja e depois de Desiderio Desideravi,(1) carta apostólica sobre a formação litúrgica do povo de Deus, é interessante visualizar o itinerário percorrido para entender o porquê de uma atenção discreta, no entanto, objetiva, sistemática e pastoral. 
Foi o Movimento Litúrgico e, por consequência, o Concílio Vaticano II que redescobriram a compreensão da liturgia e a sua importância na vida da Igreja (DD 16). O fruto mais visível do Concílio Vaticano II deve ser uma comunidade renovada, que canta o louvor ao seu Senhor, que tem consciência da participação nos mistérios de Deus que passam pela realidade profundamente humana dos sinais da liturgia. 
A Liturgia é a fonte e ápice da vida cristã (SC 10), embora ela não seja a única atividade da Igreja (SC 09). É a celebração litúrgica que expressa, alimenta e fortalece a fé (SC 59; LG 11). Por isso, o primeiro documento do Concílio – Sacrosanctum Concilium - serviu como base para todos os outros documentos, decretos e declarações. As grandes Constituições do Concílio não podem ser separadas umas das outras. Na Liturgia, a Igreja, “Luz das nações” (Lumen Gentium), coloca-se na escuta atenta à “Palavra de Deus” (Dei Verbum), e reconhece “as alegrias e as esperanças” (Gaudium et spes) do povo de Deus (DD 29). 
Consciente de que o processo da reforma ainda está acontecendo e necessita de aprofundamento e de tempo, de cuidado apaixonado e paciente, de inteligência espiritual e pastoral e, sobretudo, de uma formação não improvisada, que passe pela sabedoria celebrativa do povo de Deus, é preciso prosseguir com um impulso renovado. 
No campo litúrgico, é preciso formação, crescimento e discernimento sobre o sentido da fé, que nos ajuda a discernir o que vem de Deus e o que conduz verdadeiramente a Ele (EG 119). É aqui que a formação sóbria in re liturgicado Papa Francisco oferece esclarecimentos e toma posição. Os seus discursos e homilias, gestos e disposições dentro das celebrações resulta de uma visão de liturgia vinculada com a participação do povo de Deus.
A crise estrutural da fé e o individualismo social do nosso tempo são fatores evidentes. O problema da questão litúrgica encontra outras causas: a dificuldade de entender o que se celebra, o esquecimento do simbólico, a multiplicação do sentimentalismo e o favorecimento do tridentinismo, o desaparecimento dos ritos, a improvisação, a insuficiente formação e o clericalismo. Esses graves problemas transformam a liturgia, encontro privilegiado de Deus com o seu povo, em espetáculos coreográficos, com luzes e excessos, cantos estridentes e fastidiosas celebrações, sem contar nas longas e fracas reflexões homiléticas. Tudo se volta para a artificialidade das formas rituais. 
Mesmo que necessárias não precisamos apenas recordar as rubricas adequadas, mas teorias teológicas que sejam fiéis à riqueza da Tradição. O rito é por si mesmo uma norma e a norma nunca é fim para si mesma, mas está sempre a serviço da realidade mais alta que quer salvaguardar (DD 48). Confundir o rito com as rubricas é uma tendência que vem de longe e que caracteriza nossa história latina. Um ponto particularmente evidente está no início do Missal Tridentino, onde se encontra o “ritus servandus”, que é precisamente a redução do rito à observância de numerosas rubricas pelo padre. A redução da liturgia a “ritus servandus” é precisamente a tentação de todos os tradicionalismos litúrgicos.[2]
Na verdade, o rito requer formas de inteligência para ser abordado, pois revela emoções e pensamentos, convoca o corpo, desperta uma sensação de admiração e evoca a beleza.[3] Por isso, o rito não pode ser da ordem da eficiência. Por definição o ritual é “interrupção elementar do contexto mundano vital”.[4] Sendo assim, o magistério litúrgico do Papa Francisco tem o objetivo de redescobrir a liturgia na sua complexidade de linguagem, na sua imensa gratuidade, na sua capacidade de acolher e questionar as múltiplas dimensões do humano. A contínua redescoberta da beleza da Liturgia não é a busca de uma estética ritual que se contenta apenas com uma cuidadosa observância exterior de um rito ou se satisfaz com uma escrupulosa observância das rubricas (DD 22). 
O problema mais grave toca as tensões litúrgicas dos últimos anos. Não são apenas gostos, sensibilidades ou espiritualidades diferentes em torno da celebração. A situação não está somente em torno de divergências simples ou gostos autorreferenciais, mas sim diante de sérias problemáticas eclesiológicas. Não é possível para um católico presumir não aceitar a reforma litúrgica nascida de Sacrosanctum Concilium, desconhecendo ou não aceitando a validade do Concílio. A não aceitação da reforma é a expressão mais fundamental da incompreensão da ação litúrgica e da Tradição (DD 31). Não é possível voltar à forma ritual que os padres conciliares, sob a orientação do Espírito Santo e seguindo sua consciência de pastores, desejaram reformar (DD 61). De fato, segundo Francisco, um dos aspectos mais complexos da reforma é a sua implementação prática, ou seja, a forma como se traduz na vida cotidiana o que os padres conciliares estabeleceram.[5]
Essas observações têm consequências importantes. O cristão não pode querer viver atrás de um restauracionismo legalista. A Tradição e a memória do passado nos ajudam a ter a coragem de abrir novos espaços para Deus. Quem vive procurando soluções disciplinares, em busca de uma exagerada segurança doutrinal, na tentativa de recuperar o passado perdido, tem uma visão estática e involutiva. E desse modo, a fé torna-se uma ideologia entre tantas. Por consequência, a beleza do celebrar cristão e de suas necessárias implicações na vida da Igreja, acaba sendo deturpada por uma superficial e redutiva compreensão de valor ou, pior ainda, por instrumentalizações ideológicas (DD 16).
A liturgia não é “autoajuda”, mas epifania da comunhão eclesial. Por conseguinte, nas orações e nos gestos ressoa o “nós” e não o “eu”; a comunidade real, não o sujeito ideal. Quando se desejam nostalgicamente tendências passadas ou se querem impor outras novas, corre-se o risco de antepor a parte ao todo, o eu ao Povo de Deus, o abstrato ao concreto, a ideologia à comunhão e, no fundo, o mundano ao espiritual.[6]
A liturgia é obra de Cristo e da Igreja, e como tal é um organismo vivo, como uma planta, não pode ser negligenciada nem maltratada. Não é um monumento de mármore ou bronze, não é uma peça de museu. A liturgia está viva como uma planta e deve ser cultivada com cuidado. E, além disso, a liturgia é jubilosa, com a alegria do Espírito, não de uma festa mundana, mas com a alegria do Espírito. Precisamos, hoje como nunca, de uma visão elevada da liturgia, de modo a que não se reduza aos detalhes de rubrica: uma liturgia que não seja mundana, mas que faça com que os olhos se voltem para o céu, a fim de sentir que o mundo e a vida são habitados pelo Mistério de Cristo; e ao mesmo tempo uma liturgia com “os pés no chão”, não distante da vida.[7]
  
UM OLHAR SOBRE O MAGISTÉRIO LITÚRGICO-SACRAMENTAL 

Pela rapidez da abordagem – é possível encontrar reflexões mais amplas – aqui apresentaremos apenas alguns elementos do magistério litúrgico de Francisco.[8] Efetivamente, basta acompanhar uma das missas do Papa para perceber a intensidade com que ele celebra e a sua compreensão do mistério celebrado. 
A sensibilidade teológica-litúrgica de Francisco responde à uma dinâmica polarizada, acontecida entre os anos 90 e o início do seu magistério, que tentou reduzir a reforma litúrgica do Vaticano II a um evento desnecessário. Se os sinais de renovação do último Concílio foram evidentes e persuasivos, os métodos pastorais posteriores sofreram à causa de reducionismos, de retornos, de bloqueios e de incompreensões. 
Os “motu-próprios litúrgicos” de Francisco têm significados históricos e imprimem passos novos e diferentes. Não são inovações arbitrárias, mas fiel amadurecimento do nexo Igreja-liturgia incluído pelo Vaticano II e transmitida aos livros litúrgicos. Desse modo, as propostas de Francisco oferecem chaves de leituras interessantes para interpretar a crise litúrgica que a Igreja tem atravessado. A liturgia é um tema que não parece ser central na sensibilidade do primeiro papa jesuíta. Mas é um tema sobre o qual, de uma forma singularmente intensa e programática, ele tem procurado iluminar os equivocados “desígnios de restauração” dos últimos anos.[9]
A primeira exortação Evangelii gaudium é, sem dúvida, um documento abrangente e programático para a vida eclesial neste período histórico.[10] Essa exortação é um programa aberto, que não se limitou a “sintetizar” os resultados do Sínodo, mas ousou pensar com e desde os resultados uma “nova forma” de ser Igreja hoje. Nela desvelam-se os interesses, as feições e a forma de como o papa concebe o mundo e a experiência eclesial. Em matéria litúrgica, EG entrecruza a beleza da liturgia com a evangelização (EG 24), questiona a sacramentalização (EG 63), fala da qualidade da homilia (EG 135-144) e sublinha a mistagogia, como valorização dos sinais litúrgicos na Iniciação Cristã (EG 166). 
O Papa Francisco em EG chama à atenção para um perigoso mundanismo espiritual que toma forma na celebração litúrgica, em particular, num cuidado exibicionista pela liturgia (EG 95). É mundana uma liturgia que não evangeliza e que não traduz a ação celebrativa em vida, ou seja, que não encarna a Páscoa na história (DD 37). A Igreja chama-nos a levar e a promover uma vida litúrgica genuína, a fim de que possa existir sintonia entre aquilo que a liturgia celebra e o que nós vivemos na nossa existência. Trata-se de manifestar na nossa vida o que recebemos mediante a fé e o que celebramos.[11] No mundanismo se procura “os próprios interesses, não os interesses de Jesus Cristo” (Fl 2, 21). Por isso, o mundanismo se esconde por detrás de aparências de religiosidade e até mesmo de amor à Igreja, no entanto, em vez da glória do Senhor, procura-se pela glória humana e pelo bem-estar pessoal (EG 93). Assim, a vida da Igreja transforma-se numa peça de museu ou numa possessão de poucos iluminados (EG 95). 
Depois de EG, foi a partir de 2017 que Francisco começou a falar mais vezes da liturgia e dos equívocos causados nos últimos anos. Por ocasião da 68ª Semana de Liturgia do Centro de Ação Litúrgica (24/08/2017), Francisco fez um potente discurso: “podemos afirmar com certeza e com autoridade magisterial que a reforma litúrgica é irreversível”. Esse discurso é ponto alto da perspectiva de Francisco sobre a liturgia.[12] Habituados a ouvir o apelo de “reforma da reforma”, o Papa Francisco usando de sua autoridade magisterial fecha essa confusa e ideológica argumentação. Não é preciso reconsiderar a reforma revendo as suas escolhas, mas conhecendo melhor suas razões subjacentes, inclusive através da documentação histórica, interiorizar os seus princípios inspiradores e observar a disciplina que a regula.[13]
Logo em seguida, com o Motu Proprio Magnum principium (03/09/2017), modificando o can. 838, Francisco tomou uma decisão importante relativa à liturgia. A tradução dos livros litúrgicos, compreendido as Sagradas Escrituras, estava regulamentada pela instrução Liturgiam authenticam (2001) e, tratando-se de inculturação, pela instrução Varietates Legitimae (1994), assim pareceu oportuno ao Papa retomar alguns princípios transmitidos desde o tempo do Concílio (SC 36-38). A finalidade das traduções dos textos legislativos e dos textos bíblicos, para a liturgia da palavra, é anunciar aos fiéis a Palavra de salvação em obediência à fé e exprimir a oração da Igreja ao Senhor. Com esse objetivo é preciso comunicar fielmente a um determinado povo, através da sua língua, o que a Igreja pretendeu comunicar a outro por meio da língua latina. Mesmo se a fidelidade nem sempre pode ser julgada por simples palavras, mas no contexto de toda a ação da comunicação e segundo o próprio gênero literário, contudo alguns termos peculiares devem ser considerados também no contexto da íntegra fé católica, dado que cada tradução dos textos litúrgicos deve ser congruente com a sã doutrina. 
Nas audiências gerais de quarta-feira, entre novembro de 2017 e junho de 2018, Francisco apresentou um ciclo orgânico de vinte e quatro catequeses sobre os sacramentos da iniciação cristã: quinze sobre a missa, seis sobre o batismo e três sobre a crisma. Ele optou por fazer uma abordagem com estilo mistagógico, partindo da própria celebração, para revelar o significado da ação sacramental e do seu alcance para a vida da Igreja. 
      Em torno ao sacramento da penitência-reconciliação, com insistência, o papa repete: “não se improvisam confessores” (MV 17). No mais, afirma: “não invalidemos estes momentos com comportamentos que possam contradizer a experiência da misericórdia que se procura” (MM 11). A partir da misericórdia, arquitrave que sustenta uma nova forma de Igreja, o sacramento da penitência e sua mediação passam por quase todas as intervenções magisteriais. Assim, o Papa Francisco tem corrigido o imaginário simbólico (“o confessionário não é uma lavanderia”), equilibrado a questão casuística ao estabelecer o caso-por-caso, sublinhado o critério originário da misericórdia, caracterizado um modelo e dado uma nova forma ao ministério eclesial da penitência. 
      Francisco, de modo intencional ou não, tem modificado, de forma lenta, o modo de pensar e de estar concretamente no confessionário e o serviço ministerial na Igreja. As suas críticas sobre o clericalismo manifestam um modo novo de conceber a beleza e a força do sacramento da Ordem. O autoritarismo e o clericalismo consistem numa visão elitista-exclusivista do processo vocacional e marcam-se com pressupostos distantes do caminho evangélico, eclesial e iniciático. O poder transforma o ser no ter: “na Igreja entra-se pelo Batismo, não pela ordenação sacerdotal ou episcopal, entra-se pelo Batismo”. 
           Em relação ao Matrimônio, encontramos na Exortação Apostólica Amoris Laetitia (19/03/2016), uma excelente perspectiva sobre a teologia do sacramento. O sacramento do matrimônio não é uma convenção social, um rito vazio ou o mero sinal externo dum compromisso. O sacramento é um dom para a santificação e a salvação dos esposos, porque a sua pertença recíproca é a representação real, através do sinal sacramental, da mesma relação de Cristo com a Igreja. O matrimônio é uma vocação, sendo uma resposta à chamada específica para viver o amor conjugal como sinal imperfeito do amor entre Cristo e a Igreja. Por isso, a decisão de se casar e formar uma família deve ser fruto dum discernimento vocacional (AL 72).
Em 2019, com a Carta Apostólica Aperuit illis, o III Domingo do Tempo Comum foi criado como domingo “da Palavra de Deus” para valorizar a experiência de escuta da Palavra, em um contexto de relações com a tradição judaica e com as outras confissões cristãs. 
Há ainda outras intervenções mais discretas, no entanto, valiosas. Podemos pensar, por exemplo, na mudança em relação ao rito do lava-pés na Missa da Ceia do Senhor, em que podem ser admitidos os jovens e as crianças, as mulheres, os idosos e doentes.  Já em 2013, o acréscimo do nome de São José, esposo da Bem-aventurada Virgem Maria, na Oração Eucarística II, III e IV da terceira edição típica do Missal Romano. A elevação da memória de S. Maria Madalena, apostola Apostolorum, à festa, marca uma sensibilidade não apenas inclusiva, mas a tentativa de reconhecer a dignidade de todos os batizados. 
Com o Motu Proprio Spiritus Domini, Francisco modifica o can. 230 &1, acerca do acesso das mulheres aos ministérios do leitorado e acolitado (11/01/2021). Respondendo à Assembleia dos Bispos, o papa modificou a disciplina referente aos ministérios instituídos, dando continuidade ao disposto por Paulo VI. A motivação é responder à missão do tempo presente e colher o testemunho de tantas mulheres que, com cuidado, zelam pela Palavra e pelo Altar. Com efeito, ele sublinha que os ministérios litúrgicos estão inerentes ao Sacramento do Batismo e da Crisma.  
Com o Motu Proprio Antiquum ministerium, o papa institui o ministério laical do catequista (10/05/2021), com uma específica ritualidade litúrgica. O ritual latino para conferir o ministério, aprovado pelo Papa, foi publicado por decreto da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos (03/12/2021), acompanhado de uma Carta Explicativa aos Presidentes das Conferências Episcopais, seguida de outra Carta de 24/05/2022.
No Motu Proprio Traditionis custodes sobre o uso da liturgia romana anterior à reforma de 1970 (16/7/2021), Francisco estabelece, tendo consultado os bispos, mudanças referentes à aplicação de Summorum Pontificum. Com 8 artigos, Papa Francisco estabelece que: os livros litúrgicos promulgados pelos santos Pontífices Paulo VI e João Paulo II, em conformidade com os decretos do Concílio Vaticano II, são a única expressão da lex orandi do Rito Romano; o bispo diocesano somente pode autorizar o uso do Missal de 1962 seguindo as orientações da Santa Sé; onde tem grupos ligados ao Missal precedente é função do bispo observar a comunhão com a reforma litúrgica; os padres novos devem ser autorizados a celebrar com o Missal anterior de 1970, e os padres que já celebram devem pedir novamente a faculdade; os Institutos de vida consagrada e as Sociedades de vida apostólica, erigidas a seu tempo pela Comissão Pontifícia Ecclesia Dei, passam a submeter-se à competência da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e às Sociedades de Vida Apostólica; a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica exercitarão a autoridade da Santa Sé para as matérias de sua competência, velando pela observância dessas disposições; são revogadas as normas, instruções, concessões e costumes anteriores, em particular, a distinção entre forma ordinária e forma extraordinária do Rito Romano. Uma única expressão da lex orandi é motivo de unidade e de comunhão. 
Finalmente, com a Carta Apostólica Desiderio Desideravi (29/06/2022), Francisco oferece a Igreja e à reflexão litúrgica um lindo e valioso presente. Uma das passagens centrais de DD consiste em colocar em primeiro plano o “estupor pelo mistério pascal” que, como tal, constitui o coração da experiência litúrgica. A liturgia é uma realidade central na vida do cristão. No “hoje” de cada celebração litúrgica, concretiza-se, de modo efetivo e eficaz, a realidade de nossa salvação (DD 2). A poderosa beleza da liturgia reside no encontro com Cristo. A fé cristã ou é um encontro com Ele vivo, ou não existe (DD 10).
O documento oferece um amplo espaço para o reconhecimento do Movimento Litúrgico e apresenta a questão formativa como decisiva para o caminho de reforma litúrgica. Sem a formação a reforma torna-se deformada e estéril. Por isso, antes de mostrar os princípios a serem reformados, SC trouxe a natureza teológica da liturgia (SC 5-8) e a necessidade primordial de uma formação litúrgica (SC 14-19). 
Depois de R. Guardini é evidente que a formação litúrgica não consiste num instruir cerimonial para a liturgia. A compreensão do mistério acontece nos ritos e preces da celebração litúrgica em que o povo de Deus não é um mero expectador de uma ação do padre. Fica evidente que o conhecimento de Cristo, questão decisiva para a nossa vida, não consiste em uma assimilação mental de uma ideia; mas, sim, em um real envolvimento existencial com a sua Pessoa. Ser formado para a liturgia não quer dizer que se precisa fazer muitos cursos para preparar a celebração, mas deixar-se formar pela própria ação litúrgica. A liturgia não é a compreensão de uma ideia que se explica através de um rito, mas é a experiência do mistério através das ações e gestos realizados no rito. A celebração diz respeito à realidade de sermos dóceis à ação do Espírito, que nele opera, até que Cristo seja formado em nós (DD 41). 
Ainda, em Desiderio Desideravi, o bispo de Roma sintetiza algumas considerações anteriormente ilustradas em Evangelii Gaudium e Gaudete et exsultate sobre gnosticismo e neopelagianismo. Ao falar desses males, Francisco também mostra a sua compreensão sobre liturgia. De fato, ele fala desses dois venenos perigosos que tentam reduzir a vida cristã ao subjetivismo e anulam o valor da graça por confiar apenas nas próprias forças (DD 17). São afirmações sintéticas bastante incisivas porque nos permitem compreender por que a liturgia pode e deve ser considerada como o antídoto mais eficaz contra a intoxicação espiritual do mundo contemporâneo. 

O VERDADEIRO ESPÍRITO CONCILIAR 

Quando consideramos os documentos Varietates Legitimae (1994); Liturgiam Authenticam (2001); Redemptionis Sacramentum (2004); Summorum Pontificum (2007) e a Instrução Universae Eclesiae (2007), entendemos o grave efeito de retorno sofrido durante mais de 30 anos de magistérios pontifícios e qual o objetivo de Francisco ao retomar a questão litúrgica. Para ele o problema é muito claro e, por isso, fala sobre liturgia de forma muito simples, sóbria e discreta. Ele toma a forma da sobriedade de forma simples, pouco afetada, mas muito efetiva e afetiva. É o resgate da nobre simplicidade do rito e o abandono de um esteticismo sem forma. 
Não é novidade que os magistérios anteriores ao de Francisco coibiram o desenrolar da reforma litúrgica. O Espírito da Liturgia estava distante do Movimento Litúrgico e, sobretudo, da reforma conciliar. O Concílio se viu estancado em sua potência renovadora, e a liturgia foi – sem dúvida – um dos espaços que sofreram severamente com a centralização romana.[14] A sequência de redimensionamentos litúrgicos do Vaticano II – a crítica à inculturação, a contestação da assembleia celebrante, a autonomia das línguas modernas, a invenção da forma extraordinária, o paternalismo do Vetus Ordo em relação ao Novus Ordo e o enfraquecimento da autoridade episcopal com a Comissão Ecclesia Dei – revelava o desconforto magisterial sobre a questão ritual reconhecida com Sacrosanctum Concilium (SC 48).[15]
Essa movimentação oposicionista também encontrou apoio numa geração mais jovem que procurava por uma experiência mais transcendental da liturgia em comparação ao que costumavam vivenciar. A busca por uma liturgia espiritual e mais respeitosa assumiu um verdadeiro movimento contracorrente que encontrou no “tradicionalismo esteticista” alguns valores fundamentais de retorno à uma prática tridentina. A crítica mais forte era de que a liturgia estava demasiada humana e não honrava a dimensão divina da liturgia. No entanto, o perigo de hoje é não querer respeitar a profunda humanidade da liturgia, em que para voltar-se somente para Deus, o mistério tornou-se estranho à vida.[16]
Assim, o espírito renovador com o qual o Papa Francisco impulsiona e caracteriza seu pontificado passa necessariamente por uma renovação da vida litúrgica. É hora de abandonar as polêmicas para escutarmos juntos o que o Espírito diz à Igreja, conservar a comunhão e continuar a maravilhar-nos pela beleza da Liturgia (DD 61). Levando a sério a natureza histórica da liturgia e a dimensão pastoral da teologia, não podemos cair no relativismo das opiniões e das correntes, onde a cada momento mudamos a forma de celebrar: “muda o papa, muda a liturgia”.
Efetivamente, com Francisco a liturgia encontrou seu lugar no horizonte querido e descrito pela Sacrosanctum Concilium e corroborado pela reforma litúrgica. Dessa maneira, Magnum principium (2018), Traditionis Custodes (2021) e Desiderio Desideravi (2022) sintetizam a “irreversibilidade” da reforma no espírito do Concílio Vaticano II. Num contexto de tendência restauracionista da liturgia e no desejo de instaurar um “novo” Movimento Litúrgico, centrar as coisas no Concílio e no “original” Movimento litúrgico é fator justo e necessário. No entanto, não é suficiente. 
Se não colhermos a potência do “nascente” Movimento Litúrgico, verdadeira passagem do Espírito Santo na Igreja (P. Pio XII), de Sacrosanctum Concilium e do resgate do Papa Francisco sobre a liturgia a partir de um confronto real e sem negacionismos, resultado de uma formação adequada e coerente, toda a possibilidade de continuar com as “reformas” no contexto litúrgico nascerá deformada. Por isso, podemos concluir que as “reformas” que Papa Francisco coloca na liturgia hoje nos ajudam a “voltar” ao Concílio para “repartir” dele. É preciso repartir dele sem os vícios sistemáticos de outrora e sem os bloqueios dogmatizados. Não podemos refazer o caminho feito até agora e nem retroceder, o Concílio e a SC são um ponto de partida, uma referência fundamental a atualizar e a avançar. Não se trata de ruptura, nem de continuidade, mas de vitalidade: a vitalidade da fé de ontem que é, para nós, o testemunho que fecunda a fé viva de hoje.[17]
O futuro eclesial e, em particular, o futuro litúrgico, dependem da estrada que tomaremos depois do pontificado de Francisco, que está sabendo interpretar de modo evidente a hermenêutica iniciada pelo Concílio. O ensinamento de Francisco não visa oferecer uma visão da liturgia finalizada em si mesma, demais estética, cerimonial e mundana.[18] Por vezes, temos a impressão de que, quanto mais a história vai adiante, alguns aspectos que tocam a estrutura da Igreja parecem voltar-se para trás ou justificarem-se com abstrações objetivas e obsoletas. Se a Igreja pensar que o único modo de ser fiel ao Evangelho é continuar em tudo e por tudo como antes, seja doutrinalmente seja disciplinarmente, logo se convencerá da sua obsessão: uma Igreja “em saída” “nunca se fecha, nunca se refugia nas próprias seguranças, nunca opta pela rigidez auto defensiva [...] e assim não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de sujar-se com a lama da estrada” (EG 45).

 
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