O ESPÍRITO SANTO E A LITURGIA
Frei Davi Maria, O.Carm
Um caminho com o Espírito
Em nossa caminhada eclesial e nos diversos serviços que prestamos na Igreja ou até mesmo fora dela, nos nossos trabalhos civis ou em nossas casas, em todo lugar estamos envolvidos pelo Espírito Santo; ele nos habita, nos forma e nos ilumina, sempre. É o Espírito Santo nossa “doce e terna” companhia, permanecendo continuamente em nós, mesmo que muitas vezes não o sintamos ou ignoremos ou não reconheçamos sua presença em nossas vidas.
Para os que tem fé, faz-se necessário, além da recepção dos sacramentos, que é por assim dizer o “Espírito em potência”, também a abertura e a docilidade ao mesmo Espírito, que é o “Espírito em ato”, para que não que sejam dois espíritos, mas apenas um; essa docilidade à sua ação é, então, um modo de relação com ele para entendermos melhor sua ação em nossas vidas e nos sacramentos. Quando somos gerados o Espírito Santo já nos habita, de alguma forma, no entanto, quando recebemos os sacramentos, em especial os da iniciação à vida cristã, o Espírito Santo nos habilita, para que seja plena nossa abertura e a entrega de nossa liberdade a ele, nos dispondo a viver segundo a vontade do Pai.
Quando se fala de um caminho segundo o Espírito, somos imediatamente lembrados de que, este caminho é Trinitário por excelência, pois, não se pode separar o Pai do Filho e nem o Filho do Pai e muito menos o Espírito Santo de ambos e nem ambos do Espírito. Assim, a glória que se dá a uma Pessoa da Trindade, consequentemente se dá aos outros dois, pois a Trindade vive numa eterna e perfeita relação de amor, numa relação “pericorética”.
A Trindade é a comunidade perfeita no amor, nos relembram os Padres da Igreja. Já no II século da era cristã, começa a “torna-se cada vez mais explícita a teologia do Espírito Santo, o qual, ainda com vacilações, ver-se-á cada vez mais unido ao Pai e ao Filho, não só na economia da salvação, mas também na própria vida divina” (LADARIA, 2015, p. 151). Diversos Padres da Igreja se detiveram na doutrina do Espírito Santo para guardar a doutrina fiel da Igreja e não cair em erros, pois, “o mistério de Deus que sua revelação põe diante de nós é, antes de tudo, o mistério de seu infinito amor. É esse amor que a doutrina trinitária da Igreja trata de aprofundar” (LADARIA, 2015, p. 26).
Também a liturgia, que é a ação sagrada do Senhor (SC 7), é um caminho com o Espírito, sem ele, a liturgia não aconteceria, podemos até dizer, que junto a Cristo Jesus o Espírito Santo é o protagonista de toda ação litúrgica, pois ela é sempre a presentificação e atuação do evento salvífico de Cristo que se oferece por nós ao Pai, pelo Espírito Santo. Deste modo o Espírito Santo possui “importância capital na assembleia Litúrgica, na celebração, na Palavra de Deus, no Ano Litúrgico e, até mesmo, nas missões, na Igreja, na história, no cosmos e na vida” (MAQUEDA, 2020, p. 13). Sem o Espírito Santo celebraríamos um culto morno, pois, sem ele nossas liturgias não seriam a Páscoa de Cristo em nossa páscoa (S. Marsili).
Devemos levar em conta que o caminho segundo o Espírito Santo é sempre de descoberta, na medida em que nos abrimos. O Espírito não se deixa amarrar e nem se prende por uma agenda cheia de atividades que não se abre à sua ação. Por isso que tal caminho deve ser de uma abertura interior a graça, que acontece a partir das coisas mais simples do dia a dia.
Quando Próspero de Aquitânia, cunha a axioma lex orandi, lex credendi e lex agendi ou vivendi, talvez a lei do viver só encontre vida a partir do caminho com o Espírito que nasce da lex orandi, ponto para o qual convergem a lex credendi e lex agendi ou vivendi (L. Marques), pois, como vimos anteriormente, é ele quem dá vida a vida, e inspira nossas vivências. Sem o Espírito Santo não conseguimos perceber no outro a presença de Jesus, e é ele quem nos ajuda a reconhecer no próximo, seja quem for, o próprio Cristo.
O Movimento Litúrgico, suscitado e inspirado pelo próprio Espírito, propõem um caminho com a liturgia, em outras palavras, com o próprio Espírito uma vez ambos são inseparáveis. Diante do cenário em que se encontrava o Movimento estimulou as pessoas para que, a partir dos mistérios da vida de Cristo (O. Casel), configurassem suas vidas à forma de celebrar, isto é, que rezassem a vida e vivessem a oração, contradizendo assim a ideia de que liturgia e vida não estão juntas, pois, “a Liturgia não pode representar ameaça alguma à piedade pessoal, que não pode existir sem ela” (GOPEGUI, 2008, p. 22). Assim como todo rio tem uma fonte, donde emana, também a vida cristã, que é caminho com o Espírito, só pode existir a partir da nascente que emana da ação sacerdotal de Cristo, que é a liturgia (SC 7).
O Espírito Santo e a Liturgia
A liturgia aponta para vida espiritual objetiva da Igreja que nela encontra tudo aquilo de que necessita. Na liturgia não realizamos um simples encontro religioso ou algo puramente teatral, pois ela é o encontro entre dois abismos, um infinito e outro finito, que desejam a união mútua, e para que essa venha a acontecer é necessária a ação do Espírito Santo. É ele quem, na liturgia, sacraliza nossos gestos: santifica a água do batismo, consagra o crisma, abençoa os óleos dos catecúmenos e dos enfermos, transforma no Corpo do Senhor nossas oferendas do pão e do vinho.
Por isso, toda liturgia na Igreja começa com a saudação Trinitária, “Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. A preposição “em” significa, em grego, dentro. Deste modo, ao começar a liturgia, usando esta preposição indicamos que estamos dentro da Trindade, mergulhando nela e partir daí celebramos, uma vez que a liturgia é um contínuo movimento Trinitário. Na liturgia o Espírito Santo está de modo sutil e presente em tudo: naquele que preside, na assembleia reunida para celebrar, na Palavra proclamada, e por meio da epiclese, as oferendas apresentas pão e vinho (SC 7), e a própria Oração Eucarística se torna uma contínua prece ao Espírito, pois a linguagem de toda liturgia é fundamentalmente pneumatológica (A. Maqueda).
Devemos cuidar ainda da arte de celebrar, não apenas para quem preside, mas, também para todo o corpo místico que celebra. “É necessário, portanto, saber de que modo o Espírito Santo atua em cada celebração: a arte de celebrar deve estar em sintonia com a ação do Espírito” (DD, n. 49). Por isso, não se deve improvisar a celebração eucarística. Da mesma forma que um artista cresce a cada dia e aperfeiçoa-se em cada obra a arte que faz, também na liturgia devemos crescer na arte de celebrar, desde as músicas, a preparação do templo, os paramentos e até mesmo rezando com a Palavra antes da celebração, porque, “a liturgia é vida tornada arte” (Guardini, 2018, p. 71).
O cuidado com o silêncio constitui também, uma forma de zelar pela arte de celebrar, sem o silêncio orante torna-se quase impossível a interiorização, sendo ambos meios para se celebrar melhor. A arte da celebração passa também pelo cuidado e atenção com a Palavra que, durante o ano litúrgico, oferece um itinerário de crescimento espiritual A liturgia busca sua fonte originária na Sagrada Escritura e ignorar a Sagrada Escritura.
Toda riqueza espiritual da liturgia não se encontra distante de nós, temos acesso a ela de muitos modos, entre eles, o Domingo, dia do Senhor, e os sacramentos que celebramos e que acontecem em plena união com o Espírito Santo; por isso, “é necessária uma diligente dedicação às celebrações, deixando que a própria celebração nos transmita a sua arte” (DD, n. 50), pois ela, é a fonte da vida e da espiritualidade cristã, que encontra sua origem na ação pneumatológica do Espírito, por que, “a Liturgia é o mistério do rio de vida que brota do Pai e do Cordeiro e se chega até nós e nos arrasta quando a celebramos, é para que toda nossa vida seja irrigada e fecundada por ela” (Corbon, 2017, p. 151).
O Espírito Santo, educador da vida Litúrgica
Prometido pelo próprio Senhor, o envio do Espírito Santo constitui não apenas o início da atividade missionária, uma vez que ele é alma da missão, mas também aquele que nos forma interiormente em Cristo e forma Cristo em nós. É o Espírito aquele que nos relembrará tudo o que fez o Senhor em sua vida terrena e faz arder nossos corações, em especial, pela escuta da Palavra, e por isso podemos chama-lo de divino educador da vida espiritual.
A vida litúrgica segundo o Espírito constitui para os fiéis não um espaço que se limita ao tempo cronológico e a um lugar físico e até mesmo a pessoas. Em tudo o Espírito nos educar e forma Cristo em nós. Clemente Romano, nos diz que, “o Espírito Santo é como uma lâmpada que perscruta os mais íntimos segredos do coração” (EDREL, n. 164), e assim tudo ele conhece e habita, não apenas formando, mas também trazendo a vida Trinitária.
Dionísio areopagita, escreveu uma carta orante em que, nas entrelinhas, podemos contemplar o Espírito Santo como aquela Pessoa discreta que tudo conhece e de quem nada pode ser ocultado, que nos deifica e que nos torna bons. Numa perspectiva litúrgica, podemos dizer que, segundo Dionísio, o Espírito é aquele que, transcendendo tudo,
Além de Tudo pode transcender a tearquia e o próprio principio de todo bem? É preciso compreender que a Deidade e a Bondade são a própria essência do Bom que produz a bondade e a divindade. Imitar o inimitável, participar do imparticipável, é descobrir que ele é mais do que divino, mais do que bom, aquele que nos deifica e nos torna bons. Se este é o princípio de toda deificação e de toda participação à bondade, é necessário dizer que Aquele que está além de todo princípio, transcende a divindade e a Bondade (LELOUP, 2014, p. 30).
Para Basílio de Cesareia, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa, o Espírito Santo é aquele eleva nossos corações, conduz os fracos pela mão, e nos purificando de toda mancha do pecado nos torna aptos a comunhão com ele. Diz Basílio de Cesareia:
Assim também o Espírito Santo está presente em cada um dos que são capazes de O receber, como se estivesse nele só, e, não obstante, dá a todos a totalidade da graça que necessitam. Os que participam do Espírito recebem os seus dons na medida em que o permite a disposição de cada um, mas não na medida do poder do mesmo Espírito (Basílio de Cesareia, IN: EDREL, n. 1510)
Gregório de Nazianzo, evidencia que o Espírito não mancha a pureza e a virgindade de Maria, sendo a sua virgindade sinal de sua maternidade. Pela maternidade da Bem-aventurada Virgem Maria podem ser explicados os outros dogmas, sem a maternidade divina não teria sentido nenhum a virgindade perpétua, nem assunção e nem a concepção sem pecado. Diz-nos Gregório,
Para purificar aqueles a quem se tornou semelhante, fez-se homem em tudo, exceto no pecado. Foi concebido no seio de uma Virgem, já santificada pelo Espírito no corpo e na alma, para honrar a maternidade e ao mesmo tempo exaltar a excelência da virgindade (GREGÓRIO DE NAZIANZO, IN: EDREL, n. 1961)
Para Gregório de Nissa, o vínculo da paz do qual fala o Senhor no evangelho, é a união com o Espírito Santo e o vínculo desta unidade é a glória, que Gregório chama também por Espírito Santo. Ele é o divino educador do fiel e a medida em que este se abre a sua ação, é-lhe dada a glória, isto é, o Espírito Santo, pois
Nenhum homem inteligente poderá negar que este nome glória se atribui ao Espírito Santo, se recordar as palavras do Senhor: dei-lhes a glória que Tu me deste. Foi esta glória que o Senhor deu aos discípulos, quando lhes disse: Recebei o Espírito Santo. Ele possui sempre esta glória, ainda antes da existência do mundo; mas recebeu-a também ao assumir a natureza humana. E uma vez que a natureza humana de Cristo foi glorificada pelo Espírito Santo, a glória do Espírito foi comunicada a todos os que participam desta natureza, a começar pelos Apóstolos (GREGÓRIO DE NISSA, IN: EDREL, n. 1984a)
O Espírito é o educador na liturgia porque sem sua ação divina, não seria possível que a liturgia fosse Páscoa e nem que a Palavra proclamada encontrasse eco em nossos corações como encontrou no coração da Virgem Maria. É o Espírito que na liturgia nos educa e forma em Cristo, tornando-nos capazes de acolher e ouvir o Pai pela Palavra e deixar que esta frutifique em nossos atos e, ao mesmo tempo, louvá-lo com as palavras que ele mesmo nos inspira.
Iniciação Cristã, ação sagrada do Espírito
Os sacramentos constituem um sinal visível da graça de Deus invisível, dom do seu amor e caminho de salvação para o seu corpo místico. A vivência dos sacramentos leva a nossa vida a uma “cristificação”, a vivermos uma certa ética litúrgica a partir daquilo que acreditamos e confessamos, de tal modo que nosso interior e exterior sejam moldados a partir d’Ele, pois, Cristo Jesus é o sacramento do encontro com o Pai (Schillebeeckx).
O Espírito age na vida sacramental da Igreja, sem, contudo, fazer barulho. Por meio do silêncio o Espírito age antes e depois de cada ação sacramental. Antes, ele nos prepara para recebermos o amor do Pai, em seu Filho Jesus, incitando-nos interiormente a proclamarmos a Jesus como o Senhor de nossas vidas e depois, iluminados por sua ação divina, somos tomados por ele e guiados segundo sua vontade para “incendiarmos” o mundo com seu amor e sua presença, pois, pela recepção dos sacramentos somos tomados também pela presença e atuação do Espírito Santo.
Depois de cada sacramento recebido, em especial da Eucaristia e da Reconciliação reconhecemos a Deus como nosso Senhor e o glorificamos por sua infinita misericórdia (C. Giraudo). Pela ação do Espírito nós nos tornamos corpo místico, e assim como que uma “epifania” do Senhor, isto é, uma manifestação do Senhor pois,
O Espírito de Deus continua agindo através da celebração litúrgica, concretamente, na celebração dos sacramentos. Estes constituem acontecimentos de salvação da mesma ordem que os acontecimentos da história da salvação, e da mesma ordem que o acontecimento único de Cristo. Os sacramentos prolongam a obra salvadora de Cristo na Igreja (MAQUEDA, 2020, p. 14).
Na ação do Espírito Santo na água do batismo somos renascidos. No sacramental batismal Deus estabelece diálogo conosco, mergulhando-nos nas águas que nos farão novas criaturas, povo de Deus e filhos adotivos. Ao se deter sobre o valor e a profundidade batismal, Santo Ambrósio, afirma que, o batismo é o plano salvífico e que este não se realiza sem o Espírito Santo. O Espírito Santo, para o bispo de Milão, é o árbitro da graça batismal e consequentemente do desígnio divino da salvação realizado em Cristo. Santo Ambrósio, fazendo o uso do método tipológico, compara a pia batismal ao sepulcro, e a água com a vida nova que recebemos pelo sacramento, para ele, na água se encontra a imagem da morte, já no Espírito nos é garantida a vida nova em Cristo.
Segundo o Ritual de Iniciação Cristã de Adultos, o Batismo é o próprio Mistério Pascal celebrado e atualizado. Sendo assim, fica claro porque o Missal Gótico definia a pia batismal como um lugar cheio de graça, organizado pelo Espírito Santo (A. Maqueda).
Pelo batismo somos ainda enxertados no corpo místico, que é a Igreja, a imersão em Cristo é também imersão na Igreja, pois este sacramento é a porta de entrada para a vida eclesial. É curioso que alguém possa se perguntar porque não é a eucaristia não é a porta de entrada na Igreja. A resposta é simples: a eucaristia é alimento do corpo místico; o batismo é o banho sagrado para se renascer para a vida da graça, após o banho do renascimento, o fiel é perfumado pelo Espírito na crisma e assim poderá se aproximar “limpo e perfumado” da mesa do Cordeiro. Por isso é que a iniciação cristã é um tempo mistagógico no qual o Espírito Santo conduz e introduz o batizado num dinamismo crescente e progressivo que o levará ao encontro com o Senhor por meio dos outros sacramentos, um tempo de Deus para que sua graça seja despertada no coração do homem.
Todos os que são batizados, enxertados nele por morte semelhante à de Cristo, juntamente com ele sepultados na morte, são convivificados e conressuscitados com ele. O Batismo recorda e realiza o mistério Pascal, uma vez que por ele as pessoas passam da morte do pecado para a vida. Razão pela qual em sua celebração, sobretudo na Vigília Pascal e nos domingos, convém que transpareça a alegria da ressurreição. (RICA, n. 6)
Banhados pelo Espírito e enxertados no Mistério Trinitário do corpo místico do Senhor, pelo sacramento da confirmação, somos perfumados pelo próprio Espírito, uma vez que a Crisma é o sacramento do Dom do Espírito, pelo qual somos marcados e assinalados para sempre; em nós, é reavivado o dom do Espírito Santo que já nos habita desde o primeiro instante de nossa existência e de maneira sacramental com uma primeira unção no sacramento do batismo.
No entanto, quando falamos da confirmação como sacramento do Espírito deve-se ter sempre em mente que todos os sacramentos, são ações do Espírito Santo por meio da Igreja, senão os outros sacramentos seriam considerados como apneumatóforos, isto é, não teriam o Espírito Santo, e para nossa vida de fé, isso seria impossível, primeiro porque na Trindade não se separa as Três Pessoas, segundo porque os sacramentos são realizados pela invocação e descida do Espírito Santo sobre as oferendas materiais, como água para o batismo, o pão e o vinho para a eucaristia, ou sobre os sujeitos no sacramento da ordem e do matrimônio.
O batismo e a crisma constituem a iniciação na experiência Trinitária, que apontam a para mesa da eucaristia. Ela é o centro da vida cristã, porque nela temos a memorização do evento salvífico, a presentificação da Páscoa do Senhor, e é por isso que no plano da iniciação cristã, devem se aproximar da mesa aqueles que estando maduros e conscientes de sua fé e dos deveres implícitos da sua vida espiritual agora podem dizer que querem participar da mesa do corpo místico e ser um só corpo com a Igreja, pois, “no Espírito temos acesso ao Pai para chamar ‘Abbá’. Sem ele, não é possível conhecer o Pai nem confessar o Filho. Em outras palavras: pela ação do Espírito Santo o cristão é iniciado, introduzido no mistério de Deus” (TABORDA, 2009, p. 111).
Cada sacramento, e toda a liturgia da Igreja, é um duplo kairós, isto é, um momento da manifestação da graça de Deus na Igreja para que possamos experienciar o amor do Pai e, em segundo lugar, no mundo para que sejamos suas testemunhas conforme nos diz o Senhor quando nos envia missão. Os sacramentos do batismo e da crisma possibilitam ao fiel a graça da conversão, que acontece de forma gradativa, sem invadir a particularidade de ninguém, pois, o Senhor sabe esperar o momento certo. A crisma permite o acesso a eucaristia, pois, “quem, a partir do sacramento, possui a capacidade da plenitude do Espírito pode participar da Eucaristia com todo direito e de modo pleno. Com efeito, a Eucaristia é a plenitude do dom do Espírito” (MAQUEDA, 2020, p. 103).
É o Espírito Santo que nos torna “adultos” na fé. O Espírito nos lava, nos marca, nos revigora e cristifica nossa personalidade à medida que nos abrimos a sua ação divina. Para os mistagogos dos primeiros séculos, entre eles, Cirilo de Alexandria e Gennadio Constantinopolitano, a confirmação é a comunicação e participação do Espírito. Sem uma compreensão exata e precisa da graça da confirmação a participação à mesa da eucaristia será algo meramente conveniente e piedoso, se esquecendo de que na vida cristã os sacramentos devem estar integrados na vida.
Liturgia e vida não se separam, não estão em dicotomia, antes em união, pois, somos assinalados com o Espírito Santo para sermos luz no mundo, como os primeiros cristãos que não guardaram a Boa Nova entre eles, antes, anunciaram e acolheram a outros para que pudessem, sendo batizados e fazendo a experiência do Espírito se aproximar da mesa do Senhor. Pois, deste modo,
O fiel configura-se progressivamente a Cristo e se introduz em seu Corpo Místico. A Confirmação, então, deixaria de ser o sacramento instrumentalizado dos experimentos catequéticos para converter-se em um evento que tem como fim a Eucaristia e, portanto, a vida do fiel. Sendo assim, precisamente, a vida do fiel encontra seu cume e fonte na Eucaristia (MAQUEDA, 2020, p. 103).
O dinamismo sacramentário encaminha-se para a eucaristia, porque a mesma é a grande ação de graças ao Pai que se pode dar. É na mesa eucarística que se encontram todos os povos da terra para num kairós de louvor ao Pai que é um dom de seu amor em nossas vidas.
O sacramento da confirmação é caminho para a eucaristia, porque prepara-nos interiormente para este grande Dom do Pai, que é seu Filho Jesus nas espécies eucarísticas. A confirmação e a eucaristia não estão separadas em momento algum; para os católicos orientais a Oração Eucarística é a maior prece e invocação da Igreja, pois por ela e nela, é derramado em todos os fiéis o dom de Espírito Santo. A Oração Eucarística constitui uma perfeita prece, por meio dela o Espírito age e forma Cristo em nosso meio e o Senhor nos comunica o Espírito do Pai, e ambos, Filho e Espírito glorificam ao Pai. Com esse movimento trinitário, percebemos a relação pericorética que acontece no corpo eclesial por meio da eucaristia, como também nos demais sacramentos. No Ocidente a importância maior se encontra nas palavras da instituição da eucaristia, que são as palavras do Senhor; deste modo, para os ocidentais fica claro o cristocentrismo da liturgia, mesmo que com isso não se negue a importância da Oração Eucarística.
Há um pouco de verdade em ambas as opiniões. Hoje é doutrina comum que toda a Oração Eucarística é consecratória e que sua força não está nas mãos de um homem ou na eficácia de uma fórmula, mas no poder da oração. A transformação do pão e do vinho não pode ser efeito de palavras humanas, mas graça, fruto do Espírito (GOPEGUI, 2008, p. 119).
Tanto para os ritos orientais quanto para os ritos ocidentais - romanos e não romanos ¬-, a Oração Eucarística só acontece porque o Espírito, invocado pela Igreja, vem e transubstancia nossas oferendas no corpo sacramental do Senhor e toda a assembleia no corpo místico de Cristo. Cesare Giraudo, citando Tomás Valdense, afirma, “a Igreja é o corpo de Cristo no qual cada cristão se transubstancia pela recepção do Batismo e da Sagrada Eucaristia” (GIRAUDO, 2014, p. 310), pois, ali é invocado a força do Espírito.
Na liturgia eucarística, temos duas epicleses, uma seguida ao Sanctus, que prepara a transubstanciação e outra pós transubstanciação; na primeira a Igreja, por meio de quem preside pede ao Pai que envie o Espírito Santo com a finalidade de que aquelas oferendas se tornem Corpo e Sangue do Senhor, seguido da anamnese, usando as mesmas palavras do Senhor, a outra epiclese depois da transubstanciação pede que os fiéis se transformem no corpo místico de Cristo.
A primeira epiclese é pedida sobre oferendas, para que sendo transformadas possam alimentar a Igreja; temos aqui a primeira parte do axioma, “a Eucaristia faz a Igreja”. Na segunda epliclese é pedido ao Pai que sejamos um só corpo e um só espírito, isto é, que unidos no Corpo e no Sangue do Senhor, sendo alimentados e santificados por ele, agora a Igreja reunida faça a eucaristia, pois da mesma forma que não existiria Igreja sem eucaristia, também não existiria eucaristia sem Igreja. Uma só faz sentido com a outra.
No Missal Gótico encontramos a afirmação de que o efeito da “eucaristia era a eternidade do Espírito Santo” (Maqueda, 2020, p. 104), nos relembrando mais uma vez que na mesa sagrada do Corpo do Senhor, o Espírito age sempre em todos os momentos e não apenas nela, mas, também, naqueles que dela se aproximam, santificando-os.
Por uma reeducação Litúrgica
Faz-se necessário em nossos dias uma educação ou reeducação ao rito como um conjunto de normas e rubricas que devem ser seguidos de forma ortodoxa e espiritual, isso porque é a forma ritual que assegura uma melhor participação na eucaristia (L. Marques). Não negamos importância que as rubricas possuem, estas, quando seguidas segundo o espírito verdadeiro da liturgia e conforme determina a Igreja, tornam-se vida e por meio delas podemos contemplar o Senhor. É preciso, no entanto, que deixemos que a liturgia fale por seu rito, pela Palavra de Deus, pelos gestos, pela arquitetura, pelas orações, pelo corpo místico e claro, pelos sacramentos.
Quem age na liturgia é o Espírito Santo, é ele quem faz a Páscoa acontecer, é o Espírito que nos reúne em comunidade e nos faz ser comunidade. Na regra dos carmelitas, tanto da antiga observância, como descalços, encontramos no capítulo 14 que entre as celas seja construída a capela significando que para Cristo estejam orientadas as vidas daqueles que ali residem, pois se na celebração eucarística temos o Corpo do Senhor, e nós, corpo místico nos tornamos um só corpo com Ele pela ação do Espírito, como pedimos na segunda epiclese, então é possível também ser eucaristia e comungar a eucaristia na vida do próximo, por isso a necessidade de uma reeducação a Eucaristia, que amplie nosso olhar espiritual.
Os símbolos existem na liturgia para nos fazer adentrar na graça do mistério que no qual o Espírito nos conduz. Não temos dúvida que nossas liturgias são simbólicas devendo o símbolo servir para aquilo a que veio, apontando para algo maior; por isso a reeducação litúrgica deverá passar por nossa inteligência e sensibilidade, para percebermos nos sinais que o Espírito nos conduz a uma realidade que ultrapassa nossa existência, e que não sabendo como expressar, guardamos o silêncio diante do mistério para adorar o Senhor.
Toda a liturgia da Igreja é uma grande ação pneumatológica, é o Espírito que prescruta tudo e que muitas vezes em silêncio nos fala ao coração, dilata nossos olhos, faz arder nossos sentimentos e concede-nos um novo ardor. O Espírito Santo é a “alma” de todo sacramento, neles ele atua formando Cristo Jesus em nosso ser sempre que permitimos que ele nos forme, pois, na vida espiritual, a formação ou reeducação passa necessariamente pela abertura interior de nossa liberdade.
Referências bibliográficas
ANTOLOGIA LITÚRGICA. Textos Litúrgicos, Patrísticos e Canónicos do primeiro milénio. 2°ed. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2015.
CORBON, Jean. A FONTE DA LITURGIA. Prior Velho – Portugal: Paulinas, 2017.
Carta Apostólica DESIDERIO DESIDERAVI. Vaticano: Paulinas, 2022.
GIRAUDO, Cesare. NUM SÓ CORPO. Tratado mistagógico sobre a eucaristia. São Paulo, Edições Loyola, 2014.
GOPEGUI, Juan A. Ruiz de. EUKHARISTIA. Verdade e caminho da Igreja. São Paulo: Loyola, 2008.
LADARIA, Luis F. O DEUS VIVO E VERDADEIRO. O Mistério da Trindade. 4° ed. São Paulo: Loyola, 2015.
LELOUP, Jean-Yves. A TEOLOGIA MÍSTICA DE DIONÍSIO, O AREOPAGITA. Um obscuro e luminoso silêncio. Petrópolis: Vozes, 2014.
MAQUEDA, Adolfo Lucas. ESPÍRITO SANTO E LITURGIA. São Paulo: Paulinas, 2020.
RITUAL DE INICIAÇÃO CRISTÃ DE ADULTOS. 2°ed. São Paulo: Paulus, 2010.
TABORDA, Francisco. NAS FONTES DA VIDA CRISTÃ. Uma Teologia do batismo-crisma. São Paulo: Loyola, 2009.
*Frade carmelita da Província Carmelitana Pernambucana. Formado em Filosofia e estudante de Teologia, na Universidade Católica de Pernambuco - Unicap.