O EXTRAORDINÁRIO VIROU ORDINÁRIO

*O EXTRAORDINÁRIO VIROU ORDINÁRIO*
Dois pensamentos hoje chegam ao meu coração. Um litúrgico e outro teológico.

*Inquietação*
1. O drama de covid-19 também tornou-se um drama litúrgico. Sei também que questionar a sacramentalidade da liturgia virtual, neste momento, não vem ao caso. Mas, ter optado por ela, colocou a reforma litúrgica e muitos trabalhos dos últimos anos no bolso, pois a opção questiona seriamente o modelo eclesial que foi construído e resgatado até hoje. 

Muitas vezes, ainda é o mínimo necessário que ocupa nossas liturgias. Talvez, seja este o problema central. Os fiéis se tornam apenas destinatários do nosso rito privado. Parece que o padre é o centro de tudo, sem ele nada pode ser feito. A crise do momento deve nos fazer voltar a refletir sobre quem é o padre e quem é a comunidade cristã. 

Observemos uma questão simbólica. A balaustra da Igreja de construção moderna é na Igreja de hoje a tela do celular/TV. Um limite. Um meio de segurança para não perder. Mas, com isso, poderemos perder muito mais. Se é que já não perdemos. Não podemos negar, a distância existe e continuará a existir, mesmo que tenhamos procurado adaptar os meios mais contemporâneos.

A primeira obrigação para que a Eucaristia aconteça é “assembleia reunida”. Essa é a natureza específica do rito. Por isso, em geral, é bem preocupante, quando estamos mais preocupados e interessados em enviar ‘streaming’ do que em ensinar a orar na família, com uma liturgia mais rica e vital, ou intensificar a celebração da Palavra. Ensina-nos a rezar! 

Existe uma sacramentalidade que não depende dos sacramentos. É preciso descobri-la enquanto as nossas Igrejas permanecem fechadas. Existe uma vida litúrgica que "incorpora" Deus nos gestos e nos olhares do acontecer quotidiano. A falta, o desejo, a nostalgia e a criatividade devem se abraçar. Que tal uma mistagogia de vida que permita reconhecer a presença orante do Espírito Santo dentro do agir humano? 

*Incompletude*
2. Além de um problema litúrgico-sacramental, deixemos esse passar, porque depois teremos que voltar nele e muito questionar. sobre a forma da nossa celebração, parece que teremos muito trabalho para revisitar e reinterrogar.

Ao ter a possibilidade de acompanhar inúmeras celebrações e homilias pude ver e escutar o quanto muitas “teologias” parecem doentes e incompletas. Passei a me perguntar: onde aprenderam tais coisas? Quem foram seus professores? Que livros leram? Em qual tempo estão? Conheceram a Jesus? Sabem que a Igreja tem um magistério? 

Tantas imagens erradas de Deus e da liturgia. Interpretações religiosas que causam calafrios e medo. Nem o mais antigo manual medieval-moderno talvez tenha sido capaz de fazer. A pandemia não tem nada a ver com Deus. Não é uma vingança sua. Não foi ele quem mandou, nem foi que ele que permitiu para a nossa conversão. 

A culpa não é de Deus. Que imagem perversa e medíocre. Deus não pode negar a si mesmo. Ele é o mesmo sempre. Não poderia usar coisa mais baixa do ele para tocar o homem. O que seria maior do que Deus? Como li: “Deus não provoca, nem permite, nem pode parar a epidemia com um passe de mágica” (MS). 

Para parar a epidemia precisamos de empatia, de responsabilidade sempre maior consigo e com os outros, com o tempo e com o espaço. Deus pode nos ajudar nessa completude de responsabilidade.  

*Imaginação*
Imaginemos o tempo depois de covid-19. Acho que muitas mudanças podem acontecer. Penso que seremos menos distraídos e mais comprometidos com o que temos de melhor, a celebração da Eucaristia nas nossas comunidades. Não um simples preceito, mas uma necessidade de vida. 

Nesse momento, o que temos que fazer é silenciar para escutar e reconhecer a "presença real" e ativa de Cristo no meio de nós. Sim, porque a presença só pode ser real quando for capaz de contemplar a obra da ação misericordiosa de Deus. Até mesmo, silenciosa. Fora disso, nenhuma presença pode ser real ou é, somente, habitual. 

Além de questionarmos o modo de fazer liturgia, também temos que questionar o modo de entender e apresentar a Deus. Pois, Deus nesse momento sofre conosco, sobretudo, com os mais frágeis e impotentes. 

Quando tudo passar, um novo caminho penitencial precisará ser proposto e reaberto. Precisamos viver a quaresma, porque agora é só quarentena. A quaresma desse ano está muito estranha. Parece também incompleta. Mas, sobretudo, a quaresma que precisaremos retornar nos levará a um itinerário que reconcilia a imagem de Deus e reconcilia a forma de celebrá-lo e de fazer memória da sua ação no mundo. 

Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.

 
Indique a um amigo