O serviço à liturgia no canto das avós

O serviço à liturgia no canto das avós

 

Anderson Cata Prêta

andersoncatapreta@yahoo.com.br

 

Introdução

Após percorrer a reflexão sobre a musicalidade maternal (Cata Prêta, 2024) com base nas ciências da psicologia aplicada, da musicoterapia e neurociência, lançar-se motivado pela memória de Sant’Ana e São Joaquim é um estímulo interessante, para nos espelharmos em exemplos saudáveis, o que se apresentam como ferramentas pedagógicas para o desenvolvimento litúrgico: “é uma bênção, e os idosos não são proscritos de quem se deve estar à larga, mas sinais vivos da benevolência de Deus que efunde a vida em abundância. Bendita a casa que guarda um ancião! Bendita a família que honra os seus avós!” (Francisco, 2022).

Embora a celebração litúrgica no final do mês de julho faça memória tanto do avô quanto da avó de Jesus, me atentarei ao exemplo e conduta própria das avós e verificarei, na ação litúrgica, o quão existem semelhanças.  Atrelado às motivações científicas e pastorais, recordar as virtudes de uma avó é uma dádiva que pude contemplar, de forma especial, em duas mulheres que me  transbordam os olhos com lágrimas, e que me faz, obrigatoriamente, dar uma pausa nesse texto para uma prece silenciosa... 

O texto elenca virtudes próprias de uma matriarca e compara ao serviço litúrgico no aspecto específico da preparação, da alegria em servir e no doar-se, sem a espera de um resultado fechado, mas a abertura para a naturalidade de uma participação consciente, tanto no que podemos observar em ambiente doméstico quanto celebrativo.

 

O silêncio enquanto musicalidade própria da liturgia

Antes de adentrar no confrontamento dos aspectos, é preciso observar características do silêncio enquanto musicalidade e tal prática como algo próprio da liturgia católica. Encontramos nos estudos litúrgicos diversos elogios ao silêncio, destacando-o como preparação, expressão e como desenvolvimento humano: “é mediante ao silêncio que poderemos aclamar melhor [...] o sagrado exige silêncio. Um silêncio terapêutico e revitalizador que dispõe todo nosso ser ao mistério de Deus.” (Marques, 2023, p.39). Essas características também são encontradas no silêncio enquanto música e, consequentemente, musicalidade. 

O silêncio não é uma ação de espectadores na liturgia, destacando se dois argumentos, o primeiro a partir da interpretação tipológica textual da instrução geral do Missal romano: “no final do número quarenta e cinco, indica o silêncio antes da celebração com a flexão do verbo convir na segunda pessoa do singular, no modo imperativo afirmativo, e a sua relação com a ritualidade: ordem, convite e súplica.” (Cata Prêta, 2023). Por conseguinte, na vida do cristão e na liturgia que se estimula como ação terapêutica (Marques, 2023, p.39) e necessária para essa faixa etária da vida:

“Tudo isto ajudará a não nos sentirmos meros espetadores no teatro do mundo, não nos limitarmos a olhar da sacada, a ficar à janela. Ao contrário, apurando os nossos sentidos para reconhecerem a presença do Senhor [...] poderemos ser uma bênção para quem vive junto de nós.” (Francisco, 2022).

 

O serviço: preparar

Conceituado a expressão principal da reflexão, partimos para a adjetivação do termo. A musicalidade do silêncio na liturgia inicia-se com o ato de preparar a liturgia, uma vez que “toda boa liturgia começa do silêncio e no silêncio” (Marques, 2023, p.39).

A celebração não é um movimento do acaso, ou desordenada. Uma vez constituída de ritos, tanto quanto a repetição, a preparação se faz necessária. Observemos a conduta de Ana, enquanto mãe, no protoevangelho de Tiago: ela exultou e glorificou ao Senhor pela graça de não estar viúva e de poder gerar, dá a luz, deitou a menina no berço, purificou-se, deu de mamar, e lhe deu nome. Também a colocou para andar, fez oratório, cuidou procurando impedir que nada impuro toca-se as mãos e em tudo louva a Deus: “Glória ao Senhor! Não andarás mais nesse chão até que eu te apresente ao Templo do Senhor”. (Protoevangelho, 2015) Ou seja, a visão de preparação vem atrelada ao cuidado, que não se resume a próxima geração mas, sobretudo, ensina e realiza atividades processuais a serem cultivadas para gerações futuras. No contexto do texto de Tiago, tudo está interligado e é regido pela mesma temática: louvor a Deus. As atitudes convergem para o mesmo intuito e não estão focadas na fala, mas na construção não verbal que comunica o objetivo.

Na sagrada escritura encontramos por diversos textos a questão do cuidado da preparação para os rituais. O evangelista faz questão de mencionar o ato preparatório da ceia, solicitado por Jesus. A IGMR em seu primeiro parágrafo também faz questão de recordar o texto, e qualifica a ação como ordem do Senhor que a Igreja reconhece como dada à ela. 

Porém, o que esses detalhes possuem de atitude familiar proposta neste texto? Recorremos ao hino das laudes da liturgia das horas, próprio da memória: “Cristo é o sol da justiça, Maria, aurora radiante. Da lei a treva expulsando, ó Ana, vais adiante” (Liturgia das Horas, p.1301). Embora o texto tenha um contexto objetivo e cronológico que ilustra a relação familiar, podemos aferir características litúrgicas: o Sol, sendo uma alegoria da centralidade e fonte, a aurora que reflete e ressoa e o cuidado da preparação que,  como ato humano, deve ser a primeira ação para uma resposta à sua proposta divina. O texto nos permite qualificar a função de estar à frente para a avó e associarmos as práticas próprias da matriarca. É a avó a primeira a se levantar, como a última a se deitar. Sempre de forma silenciosa, procura de forma solícita deixar a mesa preparada com todos os detalhes. Serve a todos primeiro e só se senta depois da insistência dos filhos e ter aferido que todos estão devidamente acomodados.

 

A alegria em servir

O serviço na liturgia, devido a uma necessidade de corresponder ao cumprimento de atividades, corre o perigo de caminhar em linha tênue ao funcionalismo. Perde-se então a espiritualidade litúrgica em vista de uma liturgia mecânica e protocolar. Para tal saída dessa mixórdia, encontramos o exemplo da expressão silenciosa do servir, claramente percebido nas relações familiares, praticado pelas vovós, que o sumo pontífice faz questão de relembrar e incentivar como importantes para a vida dos idosos: 

Por isso, devemos vigiar sobre nós mesmos e aprender a viver uma velhice ativa, inclusive do ponto de vista espiritual, cultivando a nossa vida interior através da leitura assídua da Palavra de Deus, da oração diária, do recurso habitual aos Sacramentos e da participação na Liturgia. E, a par da relação com Deus, cultivemos as relações com os outros: antes de mais nada, com a família, os filhos, os netos, a quem havemos de oferecer o nosso afeto cheio de solicitude (Francisco, 2022)  

Ações que se complementam e devem ser revisitadas e alertadas para a sociedade contemporânea, em vista dos frutos que se dá mesmo na velhice (cf. Sl 92,15).

Para a psicologia aplicada a plenitude da pessoa é justamente o alcance do amor, nas palavras do autor, a descrição do que se entende na ação que encontramos também o testemunho das avós:

“O amor é o máximo sentimento de bem-estar e de dilatação sobre tudo que nos cerca [...] o bem-estar, surge da realização de uma tendência; se é máximo, é que a tendência é máxima; por nossa natureza, nossa máxima tendência só pode ser satisfeita em ordem amplíssima, universal, nunca particularmente.” (Xavier Jr, p.173)

Ao preparar a mesa, sempre haverá talheres, pratos e copos de mesas em maior quantidade. Comida e bebida em fartura, seja pela variedade ou pela quantidade na finalidade de reunir e de partilha, pois “a felicidade é um pão que se come juntos” (Francisco, 2022). Não há cobrança para que se esgote. Tudo é em abundância.

 

Doar-se sem abrir a boca

Doar-se possui uma conduta não verbal (cf. Mt 6,3-4). Quando verbal, possui uma significante ação paraverbal. Dentro da expressão se percebem processos ativos: Esperançar, o ensinar e a comunicar. A primeira linguagem é a de esperançar silenciosamente, que na doação não se trata de acomodar ou de uma lamentação vazia. Vejamos o exemplo apontado no protoevangelho de Tiago, em que as preces de Ana são ouvidas e a sua ação é dedicação de doação:

“Eis que apareceu-lhe um anjo do Senhor e disse-lhe: ¨Ana, Ana! O Senhor ouviu as tuas preces. Eis que conceberás e darás à luz. Da tua família se falará por todo o mundo. Ana respondeu: ¨Glória ao Senhor, meu Deus! Se for-me dado menino ou menina, fruto de Sua bênção, ofertá-lo-ei ao Senhor e a Seu serviço estará por todos os dias de sua vida” (Protoevagelho de Tiago, 2015)

O processo do viver em doação é atrelado à gratidão, não como uma mixórdia, mas como decisão cotidiana e organizada, continua e duradoura: todos os dias.

Observemos o segundo processo ativo da doação: ensinar pelo testemunho. A vocação dos idosos é apontada como algo primordial e necessário: “a nossa vocação é salvaguardar as raízes, transmitir a fé aos jovens e cuidar dos pequeninos. Atenção! Qual é a nossa vocação hoje, na nossa idade? Salvaguardar as raízes, transmitir a fé aos jovens e cuidar dos pequeninos. Não vos esqueçais disto.” (Papa Francisco, 2021). O ensinar é um processo tal qual transmitir valores, bem como cuidar, assim como estimular o desenvolvimento para quem se doa.

Sem demoras, olhamos para mais um passo do processo do doar-se. A musicalidade silenciosa é o aspecto característico mais próprio da feminilidade, pois está se trata do que é próprio da mulher, a comunicação (Xavier Jr). No auge da experiência da vida, a mulher já lapidou essa virtude, sendo capaz de naturalidade, consciente, ativo e frutuosa tal relação. A comunicação não se resume em informações transmitidas, mas sobretudo no desenvolvimento relacional existente e na condição natural que se manifesta. Isso se dá pela referência que a governança matriarcal exprime. Tal referência quanto ordem está intrínseca no que podemos chamar de harmonia do mundo e dinâmica da vida e “faz parte de uma imensa harmonia criada por Deus”. (Xavier Júnior, p.17-26). Tal dinâmica silenciosa, também está presente na história da salvação, que nós celebramos na liturgia da memória do dia 26 de julho: “Ó Deus, quisestes que vosso Filho nascesse de uma família humana, para que, por desígnio admirável, recebêssemos de vós nova vida; santificai benigno, pelo espírito de adoção, os que alimentastes com o pão dos filhos” (Missal Romano, p.759). Ou seja, a referência humana se preserva e não contradiz, mas aponta a conduta estupenda de doação e serviço que é própria do processo da salvação.

 

Considerações finais

O texto se conclui com uma afirmação: Deus é Pai, mais ainda, se relaciona como mãe (Cata Preta, 2024) e serve como avó! Todavia, cabe considerações importantes a fim de não o desqualificar como artigo científico. A saber: as menções e observações não são absolutas, nem no aspecto litúrgico, quanto menos nas ações comportamentais das avós. Uma vez que envolve participação ativa do ser humano, existem variáveis que impedem a observação por parte de alguns leitores. Todavia, não podemos negar que os argumentos apresentados culminam para a afirmação inicial deste parágrafo.

Rogo, juntamente ao pedido do santo padre, que possamos aprender e relacionar com os virtuosos avós, na expressão dessa musicalidade que se manifesta na incansável forma de oração: “Podemos ser o “grupo coral” permanente dum grande santuário espiritual, onde a oração de súplica e o canto de louvor sustentam a comunidade que trabalha e luta no campo da vida” (Francisco, 2022).

Por fim, agradecimento pelo testemunho de vida da Sra. Maria da Luz Marquesine e de minha vovó Rita Martins Cata Prêta (in memoriam), que me proporcionaram o conhecimento, pelas experiências de vida, capaz de redigir esses parágrafos.

E a nós que podemos contemplar o testemunho de musicalidade e vivenciar, possamos festejar “São Joaquim e Sant’Ana, pais da Virgem Maria, pois Deus lhes concedeu a benção de todas as nações” (Missal Romano, 2023, p.758). Sobretudo, valorizando nossas avós, aprendendo com suas atitudes, sobretudo a expressão silenciosa do louvor a Deus.

 

Referência Bibliográfica

 

BÍBLIA- Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2003.

CATA PRÊTA, Anderson. Asli. Musicalidade maternal como relação não verbal na liturgia, mai 2024. Disponível em: < https://www.asli.com.br/artigos/musicalidade-maternal-como-relacao-nao-verbal-na-liturgia> Acesso em 15 jul 2024.

______. Asli. O silêncio antes do início da missa: ação motriz da participação consciente e saudável, ago 2023. Disponível em: < https://www.asli.com.br/artigos/o-silencio-antes-do-inicio-da-missa--acao-motriz-da-participacao-consciente-e-saudavel> Acesso em 17 jul 2024.

FRANCISCO, Papa. Vatican. Dão fruto mesmo na velhice: Mensagem para o II dia mundial dos avós e dos idosos, jul 2022. Disponível em: < https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/nonni/documents/20220503-messaggio-nonni-anziani.html> Acesso em 16 jul 2024.

_____.  Vatican. Eu estou contigo todos os dias: Mensagem para o I dia mundial dos avós e dos idosos, jul 2021. Disponível em: < https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/nonni/documents/20210531-messaggio-nonni-anziani.html#_ftn1> Acesso em 16 jul 2024.

 

LITURGIA das horas. Petrópolis: Vozes, 2004.

MARQUES, Luis Felipe C. A mistagogia da missa: nos ritos e nas preces. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023.

Proto Evangelho de Tiago. Confederação Nacional das Congregações Marianas do Brasil. 2015. Disponível em: <https://cncmb.org.br/proto-evangelho-de-tiago.html?cn-reloaded=1&cn-reloaded=1>. Acesso em: 16 jul. 2024.

XAVIER JUNIOR, Joaquim Ferreira. As profundezas do homem. Catanduva, SP; Edições IBEL. [s.d]

 

 
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