O SILÊNCIO NA TEMPORALIDADE LITÚRGICA

O SILÊNCIO NA TEMPORALIDADE LITÚRGICA

 

O silêncio é uma ação em que calamos as vozes, os pensamentos e vai além disso, sendo possível, muitas vezes através dele, nos conectarmos com nossa consciência. 

Como estudante de Filosofia e um amante da Sagrada Liturgia, inquietações estão sempre surgindo e, ao me deparar com algumas situações, dúvidas, questionamentos, vivo algo que para muitos é assustador e doloroso. 

 

Questionando algumas pessoas, pude constatar algumas experiências do silêncio. Para um, “o silêncio gera paz, ajuda na redução do contato com os objetos em volta”. Para outro, como um bom professor, disse que “fazia silêncio na sala de aula para que os alunos percebessem que algo estava errado”. Uma terceira pessoa disse que “queria ser capaz de silenciar” e por fim, a quarta pessoa, disse “gostar do silêncio, pois ajuda na organização”. 

 

Observamos então, que na experiência pessoal, o silêncio é multiforme e assume várias condições no dia a dia.

 

No contexto filosófico, para Plotino, o silêncio é a forma em que o ser humano cria “comunhão” com o Uno, experiência da unidade, e essa experiência se dá na contemplação silenciosa. Para o filósofo o Um, é o que dá origem a todas as coisas, abaixo dele vem o intelecto e depois a alma. O silêncio para Plotino é uma forma de ser. 

 

No contexto bíblico, o ser humano e até mesmo Deus faz silêncio. Na origem do mundo, quando Deus criou o céu e a terra, “ora, a terra estava vazia e vaga” (cf. Gn 1,2). Deus estava em silêncio, foi necessário até mesmo o próprio Criador, estar em estado de silêncio para dar continuidade a sua criação. Ainda no Antigo Testamento, o Salmo 4 nos orienta a silenciar em nosso próprio leito. O profeta Zacarias adverte em uma de suas visões, “silêncio! Toda carne diante de Iahwe!” (cf. Zc 2,17).

 

Já no Novo Testamento, no primeiro capítulo do livro de Lucas, Zacarias, pai de João Batista, fez silêncio diante da revelação da boa nova recebida do anjo Gabriel (cf. Lc 1, 19-20). O próprio Cristo, esteve em silêncio quando se retirava para orar e por outro lado promovia o silêncio a outros.

 

É notório que o silêncio perpassa nossas realidades seja no passado, presente e ainda para respostas futuras, ou seja, pertence à temporalidade. Na celebração litúrgica o silêncio não é menos importante. A importância do silêncio foi recuperada no Concílio Vaticano II na Constituição Sacrosanctum Concilium. A Instrução Geral do Missal Romano (IGMR) no número 45, apresenta-o como parte da celebração chamando de silêncio sagrado. Em comparação à temporalidade que citei anteriormente, faço uma analogia com os momentos, antes, durante e depois das celebrações, uma temporalidade litúrgica

 

Diversas são as vezes que, em nossas comunidades, o ruído atrapalha nossa oração. Essas inquietações se dão nas conversas como também está desempenhando alguma função do ministerial. O silêncio “bem-feito”, de forma consciente, garante de certa forma, a ação comunicativa do sinal, o anúncio, suscitando uma resposta de fé, fazendo um paralelo com a ideia apresentada por Ione Buyst. 

 

Entretanto, esse silêncio sagrado não significa a ausência de participação ou a falta de algum movimento. Ao contrário, se colocar em estado de silêncio é como ilustra a ideia do filósofo Plotino, entrar no “modo” de contemplação. 

 

Antes que se inicie a celebração, somos convidados a nos silenciar (IGMR 45), silenciar a agitação diária, os problemas e se for possível os pensamentos. Entrar nesta realidade, transportar-nos para o mistério. O corpo físico se cala, para que alma possa “escutar”. O calar não anula os sentidos humanos, calar é deixar os sentidos agirem de forma mais inteira, podendo escutar, sentir e enxergar melhor e finalmente a boca se abrir para louvar e bendizer a Deus (Lc 1,64). 

 

O silêncio durante a celebração se dá entre momentos que promovem nossa interiorização por isso a IGMR dispõe de 16 parágrafos que mencionam o silêncio com parte da ação ritual (45, 54, 56, 66, 71, 78, 84, 88, 127, 128, 130, 136, 164, 165, 259 e 271). 

 

Já na oração coleta, o povo é convidado a orar em silêncio, para que, estando reunido diante de Deus, apresente as suas intenções. 

 

A liturgista Ione Buyst em uma de suas obras diz: “A palavra (é) dinâmica, criadora e renovadora [...] Isso requer de nossa parte uma atitude de fé, de acolhida, de profunda escuta.” Desde pequenos aprendemos a escutar em silêncio nossos pais e pessoas mais velhas e na celebração litúrgica não é diferente. Estar em silêncio na Liturgia da Palavra é entrarmos em comunhão, escutando o próprio Cristo que ensina. Na homilia, o presidente atualiza a palavra proclamada, e ainda em posição de escuta, atualizamos o mistério divino em nossa própria vida. E por fim, o silêncio se estende após a homilia. 

 

Um pouco mais adiante, encontramos o grande ápice, a ação de graças e de santificação (IGMR 79), que é a Oração Eucarística. Em nome de todo povo reunido o presbítero eleva a Deus Pai le agradecimentos pelo que foi realizado na história. Nesta oração nosso coração está junto de Deus, e no mesmo silêncio ouvimos com respeito e atenção (IGMR 78). 

 

Ainda da Liturgia Eucarística, através dos gestos e palavras, se dá a presença de Jesus Cristo nas espécies eucarísticas, onde todos participam do banquete do Cordeiro a fim de que sejam reunidos pelo Espírito Santo num só corpo (Oração Eucarística II). Depois de comungar, somos “transformados em louvor, benção, ação de graças. Toda a nossa vida se torna ‘eucaristia.” (BUYST, 2008, p. 132). Deste modo, o povo é convidado (se houver) a unir as vozes para cantar o canto de comunhão e no seu findar somos novamente interpelados pelo silêncio. Este silêncio agora cumpre a função da união perfeita de “Cristo-cabeça” com seu corpo nos levando à recordação daquilo que ouvimos nos textos bíblicos proclamados para que se confirme “os frutos dos mistérios celebrados” (IGMR 89).

 

No que se diz no momento depois da celebração, ou seja, no seu findar, encontramos no Sagrado Tríduo Pacal na Missa Vespertina da Ceia do Senhor, o presbítero e os ministros realizando uma adoração silenciosa e retornando à sacristia sem nada dizer. A Celebração da Paixão do Senhor tem sua continuidade no silêncio da noite anterior e depois da oração sobre o povo, retiram-se em silêncio novamente. Por fim, o Sagrado Tríduo conclui-se com o Sábado Santo, com o vazio silencioso, pois “Igreja permanece junto do sepulcro do Senhor, meditando na sua Paixão e Morte [...] esperando a sua ressurreição” (MR, p. 272). 

 

Ainda há outros momentos em que o silêncio se torna ação essencial e que poderíamos futuramente aprofundar em seus significados. 

 

Como apresentado, o silêncio é ação ritual, sinal sensível que nos leva a orar. Antes, durante e depois, devemos tomar consciência de que o silêncio é necessário, seja na liturgia ou em algumas situações cotidianas. Mesmo o ser humano tendo a necessidade de falar e produzir sons, o estado silencioso nos leva a um autoconhecimento, a uma descoberta que estava oculta no emaranhado de ruídos. Mesmo sem nada dizer, a ação silenciosa irá expressar sentido à realidade. Concluo com um trecho de Plotino que diz: “O silêncio é o estágio mais elevado do conhecimento, ou seja, do UM, da unidade que tudo abraça sem sair de si. Aquele que aspira pela verdade, silencia.  

 

Se até mesmo nosso Criador fez um instante de silêncio para dar continuidade a sua grande obra, façamos como Ele, para que seja gerada uma nova criação em nossos corações, sendo “novos Cristos” na atual sociedade.  

 
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