O SILÊNCIO PÓS COMUNHÃO: UMA AÇÃO RITUAL QUE PROMOVE A SAÚDE MENTAL DOS PRESENTES.
Anderson Cata Prêta[1]
andersoncatapreta@yahoo.com.br
Introdução
Recentemente tivemos a oportunidade de refletir, dentro dos artigos publicados por essa associação, “Os instintos musicais: natural é participar” (MATOS, 2023), que nos evidenciou a naturalidade de relação, participação e coesão social. Campo propício para promoção de bem-estar e de outros benefícios. Todavia, a reflexão que desejo propor reflete de que forma está sendo estimulado, exposto ou potencializado um neurotransmissor citado no artigo anterior e que é gerado pelo contato com a música: a dopamina e suas consequências. Atrelado ao cuidado e consciência do cristão que percebe em si (no corpo) a beleza da alma (GUARDINI, p.65).
A partir do contexto, verificaremos os resultados já considerados pela ciência quanto o excesso do neurotransmissor, e investigaremos um recurso para equalizar e propor objetividade e atitude saudável. Que o silêncio deve ser observado na liturgia e possui significado mistagógico, teológico e ritual é algo bem claro para o leitor de assuntos litúrgicos e não há necessidade de descortinar sobre, nesta reflexão. Por isso, o texto percorre a evidenciar a ação do silêncio como música e o que resulta isso, verificando e apontando cuidados necessários para os que congregam.
O corpo na liturgia e a exposição à música.
Que o Senhor abençoe nosso espírito, alma e corpo (1 Ts 5,23) e nós devemos cuidar como templo do Espírito Santo que somos (1 Cor 6,19). Pois bem, esse corpo também precisa ser cuidado na celebração, embora seja até deixado de lado, ou até mesmo confundido com reflexões gnosticistas ou maniqueístas. É esse corpo que fica em pé, ora, oferta e atua no comportamento litúrgico (GUARDINI, p.58). Mas, não só!
Presente na liturgia e, portanto, não só no culto, mas também na vida cristã, deve ser exigido “empenho total na cotidianidade da vida. Pretende-se dele que se torne capaz de Ressurreição, que se oriente para a Ressurreição, para o reino de Deus” (RATZINGER, p.149). É “no ato litúrgico, [que] sua corporalidade se internaliza, se espiritualiza cada vez mais; e que sua alma se expressa sempre mais plenamente, se encarna.” (GUARDINI, p.70). E a música que ativa as estruturas no cérebro e responde também no corpo (CATA PRÊTA, 2023) é uma ferramenta indispensável na liturgia solene (SC §8).
No decorrer da celebração, habitualmente, as pessoas são expostas (muitas vezes como expectadoras) a dez ou doze músicas, em média. E não é simplesmente uma quantidade grande de músicas, são repetições intermináveis de textos e palavras sem sentido, com clichês harmônicos que provocam looping na região frontal cerebral. Tais músicas sempre acompanhadas pelo uso do microfone que abafa a voz da assembleia e, em grande maioria, apenas o mesmo timbre sonoro pela associação de voz e instrumentos tocados sempre do mesmo jeito. Para soluções dos apontamentos acima será preciso um novo texto para indicar saídas, pois essa conduta claramente não poderia ser existente em nossas liturgias. Seguindo em nossa reflexão, essas ações provocam menor quantidade de sinapses cerebrais, todavia, liberam de forma incessante neurotransmissores. Em primeiro olhar e grosseiramente desconsiderando a relação e o participar na liturgia, poderia dizer que essa exposição faz bem. Mas não é bem isso que pode acontecer pelo acúmulo dessa exposição por períodos e eventos constantes.
Consideraremos apenas um dos neurotransmissores nesse diálogo, um dos principais estimulados por música: a dopamina. Essa substância química regula ânimo, motivação, humor, vícios entre outros (NEUROTRANSMISSORES, 2023). Sobretudo é responsável pela sensação de prazer. Semelhante ao uso de uma droga, que tem seu efeito de forma instantânea.
Além de ao ouvirmos música, nós podemos aumentar a produção de dopamina nos alimentando com proteína, evitando gordura saturada, consumindo probióticos e vitamina D (EUREKKA, 2022).
Todavia, o excesso de dopamina gera alguns problemas a longo prazo: desenvolvimento de vício atrelado a prazer conquistado com menor esforço, e níveis elevados de produção de dopamina, levam a esquizofrenia. (CHAVES, et al, 2023). Vale a pena ressaltar que quanto mais dopamina o nosso corpo exigir o ciclo vicioso aumenta, e pode gerar uma necessidade maior resultando em situações de desanimo, cansaço e indisposição em determinados períodos, ou seja, visível descontrole das substâncias e do estado físico e emocional.
Pesquisas recentes também se preocupam em regular ou nos salvar de possíveis vícios estimulados pelo neurotransmissor. Por enquanto as medidas são desintoxicação do vício e estar proposto a novos desafios (VITAT, 2019). Para tal, é preciso ter a consciência das necessidades de ajuda e de modificar atitudes. E nesse contexto que entra o remédio do silêncio.
Silêncio como ação musical na liturgia e intervenção propícia para o equilíbrio.
Como já posto, nas realidades musicais (independente de localidade, ou utilização de texto das músicas) quanto a dinâmica melódica e relacional propostas, o silêncio é justamente a desintoxicação oportuna que em um primeiro momento desloca a continuidade hipnótica da música. Quando consideramos que, muitas vezes, o argumento para escolha de músicas é uma escolha ditatorial por parte das lideranças, por seu gosto musical, atitudes que ferem a indicação do Concílio Vaticano II (PARO, p.218), ou “as canções que o povo conhece” ou que “o povo gosta” ou as músicas que são sucessos nas mídias e plataformas digitais, estimulamos ainda mais ação agressiva da música nos indivíduos. Isso pode provocar o efeito como o de drogas que estimulam ainda mais o vício, mascarado pela sensação de arrepios e satisfação a curto prazo (GRAEFF, 2020). Sem considerar outra perspectiva possível que é o efeito da música que, sem perceber, começamos a cantar, considerada como verme de ouvido, que merecerá uma nova reflexão.
Para Ratzinger, a música é a expressão comunicativa que nos aproxima do sagrado, e se associarmos que a música é a expressão melodiosa e harmoniosa no espaço de duas pausas de silêncio, concordaremos que o silêncio é uma ação musical: “um momento para o necessário comunicar-se, para entrar naquele processo de comunicação, sem o qual o receber exteriormente o Sacramento se tornaria um puro rito e permaneceria então sem nenhum fruto”. (RATZINGER, p.175).
Olhando para as orientações, perceba o que diz a IGMR: “Oportunamente, como parte da celebração deve-se observar o silêncio sagrado” (§ 45) e “terminada a distribuição da Comunhão, se for oportuno, o sacerdote e os fiéis oram por algum tempo em silêncio” (§88) a princípio não determina a quantidade, mas podemos verificar que não se trata de um período longo que se estenda sem controle. Até porque um silêncio excessivo e centrado no indivíduo também é uma ação deliberada de neurotransmissores no estado mental semelhante ao mindfulness (BALDISSERA, 2023). Nós “não temos uma religião de mera interioridade, mesmo a palavra silenciosa, interior, em que toma forma o primeiro pensamento, já significa encarnação e, se puder se desdobrar plenamente, torna-se também palavra externa, torna-se gesto, ação, algo de físico” (GUARDINI p.69). Ou seja, o equilíbrio neurotransmissor, promovido pelo silêncio devidamente colocado, provocará essa unidade citada entre corpo e alma, mistagogia e vida.
Considerações finais
Considerando que o equilíbrio é o sucesso obtido pela constância provocação do desequilíbrio, mais uma vez concluo que o método da diatipolgospraxia é eficiente, principalmente como desafios propostos na dinâmica celebrativa, que exigirá uma relação consciente e contínua, sempre provocativa entre os presentes. Logo, o silêncio, após o momento de ápice celebrativo, estimula o sistema parassimpático, consolidando corporalmente o que espiritualmente foi realizado. Além de evitar ou fomentar uma deliberação de neurotransmissores que podem ser bem trabalhados com uma dinâmica em doses qualitativas.
O silêncio proposto não é algo contínuo ou interminável, quanto menos desgastante ou inconveniente, mas uma ação intermitente que exige sinapses cerebrais e um equilíbrio neurotransmissor constante. Além disso, é uma comunicação profunda com o sagrado. Descobrimos, então, a décima DTPL que, imprescindível ao culto, desenvolve uma participação consciente, ativa e plena de todos.
Referência Bibliográfica
9 maneiras de aumentar a dopamina e se sentir melhor. Blog Eurekka. Porto Alegre, 2022. Disponível em: <https://blog.eurekka.me/como-aumentar-a-dopamina/>. Acesso em: 29 de jul. 2023.
BALDISSERA, Olívia. O poder do mindfulness explicado pela neurociência. Pós PUC PR Digital, Paraná, 26 de jul. 2021. Disponível em: <https://posdigital.pucpr.br/blog/mindfulness-neurociencia>. Acesso em: 29 de jul. 2023.
CATA PRÊTA, Anderson. A musicalidade do indivíduo: Construtora da Expressão no culto. ASLI, 2023. Disponível em: < https://www.asli.com.br/artigos/a-musicalidade-do-individuo--construtora-da-expressao-no-culto>. Acesso em 09 de jun. 2023.
CHAVES, Claudia; KASABKOJIIAN, Sthepanie Toscano. O que são a serotonina e a dopamina? Qual a função delas no cérebro? Cuidados pela Vida, 2023. Disponível em: https://cuidadospelavida.com.br/saude-e-tratamento/depressao/serotonina-dopamina-cerebro#:~:text=Excesso%20de%20dopamina%20est%C3%A1%20ligado,alterar%20o%20funcionamento%20do%20c%C3%A9rebro.>. Acesso em: 29 de jul. 2023.
CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Instrução Geral do Missal Romano e Introdução ao Lecionário. 7a. ed. Brasília: Edições CNBB, 2021.
Constituição SACROSSACTUM CONCILIUM sobre a liturgia. São Paulo: Paulinas, 2002.
GRAEFF, Deise. Música "viciantes" ativam seu cérebro como as drogas. Andrei Mayer, 2020. Disponível em: <https://andreimayer.paginas.ufsc.br/2020/06/29/musica-viciantesativam-seu-cerebro-como-as-drogas/>. Acesso em: 29 de julho. 2023.
GUARDINI, Romano. Formação Litúrgica. 1. ed. Curitiba, Carpintaria, 2023.
JEJUM de dopamina: O que é e como age no corpo. Vitat, 2019. Disponível em: <https://vitat.com.br/jejum-de-dopamina/>. Acesso em: 29 de jul. 2023.
MATOS, Juliana Mara da Silva. Os instintos musicais: natural é participar . ASLI, 2023. Disponível em: < https://www.asli.com.br/artigos/ os-instintos-musicais--natural-e-participar >. Acesso em 29 de jul. 2023.
NEUROTRANSMISSORES: o que são? Quais são os principais? Instituto de Psiquiatria do Paraná, 2023. Disponível em <https://institutodepsiquiatriapr.com.br/blog/neurotransmissores-o-que-sao-quais-sao-os-principais/>. Acesso em: 29 de jul. 2023.
PARO, Thiago Faccini. Atualização Litúrgica 4. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2021.
RATZINGER, Joseph. Teologia da Liturgia: O fundamento Sacramental da Existência Cristã. 2.ed. Brasília: Edições CNBB, 2019.
[1]Pós graduando em Neurociência, Música e Educação. Musicoterapeuta, Psicopedagogo e Especialista em práticas músicas para espaços religiosos brasileiros.