O SILÊNCIO QUE NOS INTRODUZ NA CELEBRAÇÃO DO MISTÉRIO PASCAL
Pe. Rodrigo Arnoso, C.Ss.R
Entres as muitas riquezas da reforma e renovação da liturgia, engendradas pelo Concílio Vaticano II, encontra-se o regaste do gesto litúrgico do silêncio. Da Sacrosanctum Concilium, passando pela Instrução Geral do Missal Romano e as outras Introduções aos livros litúrgicos o gesto de silenciar-se, será evidenciado, como uma salutar forma de participação ativa, consciente, plena e frutuosa nas ações litúrgicas. Os ritos reformados e renovados testemunham através da sua ars celebrandi a valiosa importância da vivência do silêncio, durante a celebração dos sacramentos e sacramentais. Tal indicação deve despertar na comunidade que se congrega para celebrar e atualizar o Mistério Pascal, a consciência de que este gesto é parte integrante dos ritos. Por isso, com o intuito de entendermos a função mistagógica deste gesto na liturgia, num conjunto de quatro textos, trataremos desta temática, buscando observar de modo particular, a sua vivência durante a celebração eucarítica. Se é o silêncio uma ação ritual, com Grillo podemos afirmar: “Pelo rito, a Igreja e o cristão recebem a si mesmos, e nele encontram, no modo mais íntimo, o Senhor Jesus” (Grillo, 2017, p. 47)
Nesta nossa primeira abordagem sobre o gesto do silêncio, vamos nos ater a observar a sua vivência durante os ritos iniciais. Estes ritos têm por escopo congregar os membros da comunidade eclesial, que convocados por Deus, em Cristo e no Espírito são exortados a celebrar e atualizar, per ritus et preces o mistério da nossa salvação. Nesta primeira parte da celebração podemos evidenciar três momentos de silêncio a saber: O silêncio que congrega, o silêncio penitencial e o silêncio que nos prepara para a recitação da oração coleta.
De muitos lugares chegamos para celebrar o mistério da nossa fé. Mesmo pertencendo a uma mesma comunidade temos histórias de vida diferentes. Por isso, trazemos na mente e no coração alegrias e tristezas, súplicas e agradecimentos, vitórias e derrotas entre outras situações, a serem celebradas. Ao nos dirigirmos a igreja, nos colocamos a caminho e à disposição para formamos um corpo celebrante. Desse modo, a reunião da assembleia é expressão visível do corpo de Cristo, que no Espírito faz chegar ao Pai o seu louvor. Antes de chegarmos ao lugar da celebração, somos um povo disperso. Pessoas envolvidas em muitas atividades, que não nos permitem silenciar e consequentemente a nos encontrarmos verdadeiramente com Deus. Assim sendo, o primeiro gesto de silêncio que vivemos na liturgia é aquele que nos congrega. Neste ponto já podemos afirmar: “A eucaristia, coração e centro de toda a vida litúrgica da Igreja, é um autêntico acontecimento relacional: o dom de Deus e a ação do homem se entrelaçam para que se realize um encontro autêntico” (Conferência Episcopal Italiana, 2024, p. 12).
A renovação e a reforma dos ritos para a celebração da eucaristia, vem contribuindo para ampliar entre os cristãos, a consciência de que um ato celebrativo é sempre comunitário, mesmo que forças contrárias procurem negar tal princípio. Os primeiros testemunhos sobre os encontros semanais da comunidade no oitavo dia da semana, para a celebração do memorial da Páscoa do Senhor, já nos aponta a reunião de um grupo de pessoas iniciadas que escutam, meditam, rezam a Palavra de Deus e que partilham do pão e do vinho sobre o qual se rezou a oração de ação de graças. Os textos não nos falam diretamente sobre o silêncio na ação litúrgica, mas certamente os primeiros discípulos o viviam, e conseguiam entrever nele um caminho de encontro com o Ressuscitado.
Em tempos hodiernos, a importante preocupação com a formação do povo de Deus na e pela liturgia, coloca em evidência à necessidade do silêncio, ao nos congregarmos para oração comum dos cristãos, que é a eucaristia, “fonte e cume de toda a vida cristã” (SC. 10). Este gesto inicial de silêncio, nos conduz ao espaço sagrado. Nos auxilia na experiência da passagem do mundo dos rumores, para o espaço do encontro com o Senhor, a fim de compreendermos que, o que estamos para viver e celebrar não nos faz cegos a nossa realidade, pelo contrário nos exorta a contemplá-la, com os olhos do Mistério Pascal, que celebraremos por meio dos sinais, palavras, gestos e símbolos próprios da liturgia.
A vivência deste silêncio que antecede a celebração deve despertar em nós o desejo de uma participação ativa, que nasce da consciência de que somos um povo sacerdotal. Como membros deste povo que celebra, não podemos viver a ação litúrgica de qualquer forma. É preciso se colocar à disposição, e no Espírito viver a ritualidade própria da celebração, como caminho que nos leva ao coração do Mistério. Todo este caminho preparatório é vivido a partir do silêncio, que nos lança na oração. Esta oração propícia um encontro entre Deus e os irmãos. Por isso, aqui podemos asseverar: “Neste encontro são reunidos e envolvidos todos os sentidos do crente, em uma progressão que vai do ver à escuta, até ao contato mais íntimo que se dá na experiência do comer e beber” (Conferência Episcopal Italiana, 2024, p. 42).
Este silêncio que congrega é rompido pela primeira ação ritual da celebração eucarística, que é o canto inicial. Este nos faz cônscios de que não nos reunimos por nós mesmos, mas é o Pai que nos convoca, através do Filho, no Espírito, a formarmos uma assembleia celebrante (IGMR 47). A uma só voz, como corpo eclesial cantamos o Mistério, que somos exortados a celebrar no tempo, com o escopo de vivermos a passagem do cronos para o kairós.
O canto inicial nos faz tomar consciência de que precisamos tirar as nossas sandálias, pois o lugar que estamos é santo, e nele somos também motivados a sermos santos. Acolhidos pela Trindade, por meio da voz daquele que nos preside em Cristo, revestido do Espírito recebemos o convite para vivermos o ato penitencial, após breve monição que nos contextualiza no significado da celebração, que apenas começou (IGMR 50).
Estamos para celebrar um grande Mistério. Nele está a síntese de toda a fé cristã. Desse modo, é preciso rever a vida, e sobretudo, tomar consciência daquilo que ainda precisa ser superado, com o escopo de nos tornarmos santos, como o nosso Pai é Santo. Logo após a exortação para o momento do ato penitencial, somos convocados a um breve momento de silêncio, que nos convida a revisitar o coração misericordioso de um Deus que vê, senti, desce e socorre o seu povo. “O silêncio do ato penitencial é um silêncio intenso, austero, severo” (Boselli, 2017, p. 46). É um silêncio que nos lança num encontro real com o Pai das Misericórdias.
O silêncio no momento do ato penitencial nos faz cônscios de que necessitamos da misericórdia de Deus. Pois exercitados nela, nos tornamos verdadeiros discípulos-missionários de um amor que não se esgota, mas que nos chama sempre a urgência da prática do mandamento do amor, como caminho seguro para a conquista do Reino. Mesmo que breve, o silêncio neste momento, nos desperta para uma vida segundo a vida de Cristo. Estamos quase para nos alimentar da Palavra do Senhor, do seu corpo e sangue, mas antes de participarmos deste banquete é preciso abandonar o coração de pedra e acolher o de carne, que o Pai deseja fazer pulsar em nosso peito. Aqui o silêncio é rompido pela oração recitada ou cantada, que nos lança nas mãos de Deus, para que Ele nos modele, como o oleiro modela o barro, as nossas vidas. “Antes de ver alguém ou alguma coisa, olhamo-nos juntos com nossos irmãos e irmãs na fé; reaviva-se a memória de que a fé – como a vida – nasce da comunhão e tende à comunhão; colocamo-nos diante do olhar do Senhor misericordioso” (Conferência Episcopal Italiana, 2024, p. 42).
Ainda nos ritos iniciais recordamos do silêncio que somos chamados a viver com a motivação por parte do presidente da assembleia, para a recitação da oração coleta, que será feita por ele, em nome de todo o corpo celebrante. Em muitas celebrações, vemos que este gesto quase que passa desapercebido, pois muitas vezes ele é ocupado pela leitura de uma lista infindável de intenções. O silêncio prescrito neste momento nos ajuda a fazer memória de tudo aquilo que queremos celebrar, como parte de um corpo eclesial (IGMR 54).
Este momento memorial cada um o vive no recolhimento pessoal, mas ao mesmo tempo comunitária. O mistério que estamos celebrando é grandioso. Não adentramos nele de qualquer forma. De tempo em tempo deixamos calar a nossa voz, para que a voz do Senhor ecoe profundamente em todo o nosso ser, já que somos chamados a celebrar com todos os nossos sentidos e o corpo.
O silêncio nos ritos iniciais é como um fio de ouro que vai costurando todas as partes que o compõem. Através dele superamos o mundo dos rumores, entramos no espaço sagrado e nos dispomos a celebrar a Mistério da nossa fé. Ele nos introduz na ritualidade própria a celebração eucarística e nos ajuda a viver a ação celebrativa como escola primeira de espiritualidade, que nos ajuda a entrar, sentir e viver o Mistério, que deve alimentar toda a nossa vida de comunicadores da Palavra do Senhor.
Referências Bibliográficas
BOSELLI, G. O sentido espiritual da liturgia. Brasília: Edições CNBB, 2017.
CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA. Um missal para as nossas assembleias: a Terceira Edição do Missal Romano. Brasília: Edições CNBB, 2024.
DOCUMENTOS DO CONCÍLIO VATICANO II. São Paulo: Paulus, 2007.
GRILLO, A. Ritos que educam. Os sete sacramentos. Brasília: Edições CNBB, 2017.
Instrução Geral do Missal Romano e Introdução ao Lecionário. Brasília: Edições CNBB, 2023.
* Secretário Geral da Associação dos Liturgistas do Brasil, possui Mestrado em Sagrada Liturgia, pelo Pontifício Instituto Litúrgico de Roma, Ateneu Sant'Anselmo (2014) e Doutorado em Teologia Cristã, com concentração em Liturgia, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.