OS DISCÍPULOS DE EMAÚS E A RELAÇÃO LINGUÍSTICA-LITÚRGICA
Ao chegar perto da aldeia Jesus fez que continuava.
Mas nada dentro os refreia, A dizer o que faltava.
“Fica conosco, Senhor!”Os discípulos falaram.
“É tarde, o sol vai se pôr!”E os três na aldeia chegaram
(Oliveira, 2014, p.189).
Camila Souza Neris*
INTRODUÇÃO:
A linguagem é fator primordial para a comunicação humana e, é usada em todos os âmbitos da vida de um indivíduo para exprimir significado. Sendo assim, estudar a linguagem é estudar a forma como o homem atribui sentido ao mundo que o cerca, bem como também é uma forma de estudar como esse homem se (res) significa e estabelece interações em um dado contexto. Nessa linha de raciocínio, para Marcuschi (2008, p. 64), “a língua é uma atividade social, histórica e cognitiva desenvolvida de acordo com as práticas socioculturais”. Assim sendo, é nesse cenário que surgem os tipos e os gêneros textuais nos dando suporte para o estudo da língua e da linguagem.
Dessa forma, na conjuntura bíblica, nos tipos e nos gêneros textuais usados há uma linguagem carregada de sentidos para dar conta da história de um povo, suas lutas, sua trajetória e suas relações em um dado período. O referido povo teve suas vidas transformadas pela ação salvífica do Cristo. Vale ressaltar que, esse Cristo se utilizou de parábolas e outras figuras de linguagem como metáforas e metonímias para transmitir aos seus interlocutores seus ensinamentos e sua mensagem de vida, tendo em vista, que a sua vida é a própria mensagem.
Nesse sentido, o presente artigo, faz um recorte do livro de Lucas, a fim de estudar a estrutura linguística, os tipos e os gêneros textuais utilizados em sua escrita, entre outros recursos da língua que ajudam a redigir a obra. Outrossim, ainda na seara do livro de Lucas, faz-se também um recorte da passagem contida em Lucas 24, 13-35, que nos elucida o episódio dos discípulos de Emaús com o objetivo de analisar a construção de texto contido em tal episódio.
1 – A ESTRUTURA LINGUÍSTICA DO LIVRO DE LUCAS
Lucas, a partir de estudos minuciosos escreve a Teófilo uma narrativa bem ordenada sobre os acontecimentos da época para que ele pudesse verificar a solidez dos ensinamentos recebidos:
Assim sendo, após fazer um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio, também eu decidi escrever para você uma narração bem ordenada, excelentíssimo Teófilo. Desse modo, você poderá verificar a solidez dos ensinamentos que recebeu. (Lc 1,3-4)
Isso posto, verifica-se, que o tipo textual narrativo apontado no prólogo e o tipo textual descritivo dão conta na passagem de Lucas 1, 5-25 de nos fazer conhecer a história de Zacarias e o anúncio do nascimento de João Batista. Assim, constatamos, por exemplo, que nos versículos 8 e 9 da referida passagem há ao mesmo tempo uma narração e uma descrição do serviço de Zacarias no templo: “Certa ocasião, Zacarias fazia o serviço religioso no Templo, pois era a vez do seu grupo realizar as cerimônias. Conforme o costume do serviço sacerdotal, ele foi sorteado para entrar no santuário, e fazer a oferta do incenso”.
Nesse movimento de análise textual, é de extrema importância destacar a narrativa do nascimento de Jesus discorrida em Lucas 2, 1-20. A contação ordenada dessa história, além de nos reportar àquele período de dominação romana e ao recenseamento, outrossim, nos reporta a Belém e nos faz cantar: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados”.
Ademais, é válido mencionar os diálogos recorrentes ao longo da escrita de Lucas, uma vez que, essa estrutura textual é característica do autor e nos aponta as relações existentes entre os participantes de uma comunicação.
Por conseguinte, outro recurso linguístico que merece referenciação são as parábolas: histórias breves, cheias de metáforas e metonímias, entre outras figuras de linguagem empregadas por Jesus para transmitir seus ensinamentos. Desse modo, está contida em Lucas 8, 5-15, uma dessas parábolas: a parábola do semeador, na qual, Cristo comparou a semente à Palavra de Deus e descreveu quem são aqueles que receberam a tal semente da Palavra. Além da parábola citada acima, encontramos na composição do terceiro evangelho outras parábolas. O que cabe dizer é que, nessas comparações, Jesus usa um linguajar acessível e peculiar para atingir àqueles que o ouve.
Todavia, outro gênero textual que ocorre no evangelho em estudo é o cântico: uma forma de poema, de hino, que nesse contexto em análise expressa os sentimentos mais profundos do “eu – lírico” que o recita/canta.
Dessa maneira, Lucas que pode ser considerado um evangelista erudito devido à sua cultura vocabular: escolheu, selecionou e organizou sabiamente a forma de anunciar o caminho-vida de Jesus, por meio de uma linguagem singular, bem elaborada, rica, clara, objetiva, pertencente ao mundo grego e que deixa-nos entrever o olhar diferenciado e atento do escritor sobre o salvador na obra explorada (BORING, 2015, p.1002-1053).
À vista disso, galguemos, pois, à análise de um texto específico dentro do cenário de Lucas para verificar cuidadosamente sua linguagem e estrutura de texto.
2 – OS INTERLOCUTORES EM LUCAS
Os interlocutores de um discurso são aqueles que interagem em uma dada situação comunicativa, que percebemos também quando estamos celebrando. Sendo assim, o campo discursivo do evangelho em verificação é perpassado por algumas vozes que se fazem necessárias para o entendimento do contexto do livro bíblico em análise. Então, vejamos alguns exemplos de tal interlocução:
Uma primeira pronunciação importantíssima, que se faz ouvir no texto de Lucas 1 é a do anjo Gabriel: esse foi o responsável por anunciar a Maria o nascimento do salvador da humanidade:
O anjo disse: “Não tenha medo, Maria, porque você encontrou graça diante de Deus. Eis que você vai ficar grávida, terá um filho, e dará a ele o nome de Jesus. Ele será grande, e será chamado Filho do Altíssimo. E o Senhor dará a ele o trono de seu pai Davi... (Lc 1, 30-32)
Nessa linha de análise, uma segunda voz e não menos importante é voz que grita no deserto: “Preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão aplainadas, as estradas curvas ficarão retas, e os caminhos esburacados serão nivelados. E todo homem verá a salvação de Deus”.
Em seguimento, podemos fazer uma análise do seguinte clamor contido na passagem de Lucas 16, 19-31: “Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua porque este fogo me atormenta”.
Nesse âmbito de interlocução, de um lado, ouve-se a petição de um sujeito, que não tem nome, mas é identificado por sua condição financeira: em vida teve abundância e, em morte suplica que seu tormento seja aliviado e que sua família não tenha o mesmo destino dele devido ao apego à bens materiais. Por outro lado, o pobre Lázaro tem um nome, mas não tem voz: representado todos aqueles que são silenciados pelas injustiças, mazelas e desigualdades sociais e econômicas.
Nesse contexto, valem destaque duas manifestações implícitas: 1ª) a daquele leproso do trecho de Lucas 17, 15-16, que dos dez homens curados foi o único que voltou para agradecer a cura recebida. 2ª) a daquelas mulheres que anunciaram a ressurreição de Jesus, de acordo com o que é relatado em Lucas 24, 1-25: elas contaram a todos que Jesus estava vivo.
Desse jeito, é interessante observar que a primeira enunciação indireta representa alguém que existia, mas não tinha voz e nem era reconhecido pela coletividade e na segunda enunciação, veladamente temos a fala de personagens que não tinham liberdade de expressão em sua era, tendo em vista, que as mulheres não possuíam participação na vida pública naqueles idos do Cristo: andavam de véu, eram submissas.
Nessa linha de pensamento, muitas outras vozes poderiam ser inseridas na análise. Porém, para fim desse estudo: as vozes apontadas são capazes de nos fazer perceber que, o evangelista Lucas construiu sua interlocução com a participação de figuras, que eram extraordinárias, mas, ao mesmo tempo comuns - figuras essas que eram até mesmo jogadas à margem da sociedade e sem nenhum privilégio, contudo, faziam parte da Boa Novo do reino de Cristo.
3 - A ESTRUTURA DO TEXTO DOS DISCÍPULOS DE EMAÚS E SUA LINGUAGEM:
A passagem bíblica de Lucas 24, 13-35 narra o roteiro de dois discípulos, que caminhavam tristes de Jerusalém até Emaús pensando em todo o acontecimento sobre a morte de Cristo. Então, nessa perspectiva de análise, é na súplica inserida no versículo 29, que está o cerne do capítulo: “Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando”.
Nesse momento, o pedido carregado de insegurança revela o medo dos discípulos de ficarem sozinhos, após a morte de Jesus, tendo em vista, que sua ressurreição ainda não fazia um sentido para eles. Portanto, Cristo ouviu o pedido dos dois viandantes - sentou-se com eles à mesa, tomou o pão, abençoou e o partiu. Logo, nesse instante, eles reconheceram Jesus por esse gesto da partilha. Nessa conjuntura, hoje, Jesus é o alimento que se dá por nós na Eucaristia e, ademais, nos instrui a viver na fraternidade com todos os irmãos sem deixar ninguém fora da mesa dessa partilha.
O tipo textual narrativo é responsável por contar um itinerário vivenciado por Jesus. Da mesma forma, o diálogo que se travou entre o mestre e os dois caminhantes é salutar na compreensão dos fatos ocorridos com os personagens da passagem bíblica em estudo. Logo, pode-se inferir, que o episódio de Emaús é explicitado, por meio, de uma linguagem singela, original, extraordinária e reveladora de um texto pascal imbuído dos mistérios de um Cristo, que viveu, morreu e ressuscitou para nos garantir a salvação e que, do mesmo modo que caminhou com os discípulos de Emaús, quer caminhar conosco todos os dias.
CONCLUSÃO:
Após, esse valoroso estudo, conclui-se que o evangelho estudado é inspirado pelo Espírito Santo e, embora sendo considerado um evangelho sinótico, é visível no evangelho de Lucas uma visão particular do evangelista, que é médico, conforme nos aponta Colossenses 4-14.
Conclui-se ainda, que os tipos e os gêneros textuais, iguais a outros recursos linguísticos usados desnudam a obra e a pessoa de Jesus Cristo. Logo, o livro é estruturado, por meio de narrativas, descrições, diálogos, cânticos e hinos que nos levam a ler e a compreender as histórias da vida de Jesus, dos sujeitos bíblicos e do contexto temporal de um dado período.
Conclui-se também, que o episódio de Emaús aponta a retificação do caminho daqueles discípulos, que ainda não haviam se dado conta da ressurreição do Cristo. Então, assim, semelhante a tais discípulos cantemos/supliquemos: “Fica conosco, Senhor”, pois temos medo da solidão e das noites escuras da vida!
Destarte, conclui-se, que as vozes dos interlocutores presentes no evangelho de Lucas dão vida a personagens que ajudam compor a história dos acontecimentos que se realizaram naquela época e que, ainda hoje permanecem “vivos” entre nós.
Por fim, conclui-se que, num estudo mais profícuo, verificaremos que toda essa narrativa da vivência de Jesus tem uma sequência no livro dos Atos dos Apóstolos. Dessa forma, nossa vida deve ser uma continuidade da vida e da obra do Redentor e devemos para isso lograr nosso próprio testemunho.
REFERÊNCIAS:
BÍBLIA - Bíblia de Jerusalém; São Paulo: Paulus, 2023
BORING, M. Eugene. Introdução ao Novo Testamento: história, literatura, teologia. São Paulo: Paulus, 2015.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. Parábola Editorial, 2008.
OLIVEIRA, Judite. Jesus em versos e rimas: o Evangelho em trovas. Aparecida: Editora Santuário, 2014.
*Professora na área de Letras e Literatura, mestra em Linguística pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) área de pesquisa: análise do discurso, pós-graduada em Língua Portuguesa e em Língua Inglesa, graduada em Letras – Português/Português.