Os instintos musicais: natural é participar

Os instintos musicais: natural é participar

 

Juliana Mara da Silva Matos*

Anteriormente, no artigo “A Musicalidade do indivíduo: Construtora na expressão no culto” (CATA PRÊTA, 2023), estudamos a respeito da musicalidade do indivíduo e como ela influi nas escolhas musicais. Nesse texto trataremos sobre a natureza participativa da música. Iniciaremos buscando compreender que existem traços de ancestralidade, gravados geneticamente, que podem ser os responsáveis por motivar comportamentos e atitudes musical-comunicativas, conforme proposta de que, um dos papéis da música, como adaptação biológica, é a coesão social. Em seguida, veremos que o formato de apresentações, espetáculos ou shows, em que especialistas da música performam para um público de espectadores, é uma prática bastante recente, que, lamentavelmente, adentrou os espaços litúrgicos, usurpando a dinâmica dialogal da celebração Eucarística, tornando muito comum encontrarmos uma assembleia inerte, com uma espécie de “glossofobia” coletiva. Por fim, estabeleceremos as relações entre a natureza humana musical e a participação dos fiéis na assembleia. Cabe salientar que não será objeto de discussão desse texto o desenvolvimento da música na liturgia e alterações através das épocas. 

1.             MÚSICA E GENOMA

 

A origem da música na humanidade é incerta. Uma das teorias é que os primeiros sons organizados surgiram como resultado da imitação daqueles produzidos pela natureza, utilizando-se o próprio corpo (assobios, estalos, batidas de pés e mãos). Os objetivos seriam estabelecer comunicação, “vinculação e coesão sociais” (LEVITIN, 2021, p. 248). Essa premissa afasta da música a função de simples entretenimento e a característica de invenção exclusivamente cultural.

            Atualmente, é prática comportamental quase que unânime, independentemente da idade da pessoa, algum tipo de ação resultando de um impulso motivado por uma música em um ambiente. Seja em uma sala de espera, elevador, metrô, praça: balançar a cabeça, estalar os dedos, bater os pés, cantarolar, murmurar, assobiar ou mesmo acompanhar mentalmente uma melodia, ainda que, por vezes, tais atitudes apareçam inconscientemente. Não seria esse também um dos prováveis motivos do sucesso sem precedentes de músicas que recentemente invadiram muitos espaços religiosos, nas quais a semântica (linguisticamente e musicalmente) pouco importa, desde que inspire movimentos (gestos, dancinhas) sincronizados? Tal assunto, entretanto, não é foco desse texto, mas pode vir a ser tratado em futuros escritos.

Conforme algumas pesquisas, esse conjunto de ações é resultado de um patrimônio recebido como herança: o genoma. Ainda que não seja utilizado o tempo todo, conforme a motivação externa, exposição desde a infância, predisposição individual, treinamento a que o sujeito foi exposto, a apreciação musical pode vir, em maiores ou menores níveis, a manifestar-se como expressão (XAVIER, 2009, p.69). Isso quer dizer que “todos os seres humanos são dotados de uma forma intrínseca de musicalidade e que fatores genéticos podem desempenhar um papel em sua manifestação” (TAN et al, 2014, tradução nossa).

Logo, é natural que, em grupos, a interação e a coesão social sejam facilitadas pelo uso da música. Ela favorece a produção de neurotransmissores, principalmente a dopamina (conhecida como o hormônio da felicidade). Assim, em atividades interativas, a expressão de emoções e o envolvimento serão mais frequentes. Ainda que seja um ambiente novo, a aprendizagem e o treinamento, papéis desempenhados pelos neurônios-espelho, já começam a acontecer, de maneira que a disposição natural pela música se manifeste resultando em participação espontânea.

            

2.             PLATEIA? POR QUÊ?

O papel social da música, para coesão e expressão, passa a ser subvertido a partir do momento que a música se torna uma atividade de espectadores: “a ideia de um concerto musical em que uma classe de ‘especialistas’ se apresentasse para um público de apreciadores era praticamente desconhecida ao longo de nossa história como espécie”. (LEVITIN, 2021, p. 247). A depreciação da música ao status de mera mercadoria teve o quadro ainda mais agravado a partir de 1935 – no Brasil, importante citar –, com o surgimento de programas que ficaram popularmente conhecidos como “programas de calouros”.

Nesses concursos, artistas desconhecidos, atraídos por promessa de sucesso buscavam apresentar seus talentos, na tentativa de adquirir um status social e, ainda mais que isso, garantir a própria subsistência, alcançando condições financeiras minimamente adequadas à sobrevivência. Sujeitar-se a participar desses eventos significava aceitar o risco de expor-se ao ridículo e a sofrer humilhações. Após uma seleção inicial, aconteciam apresentações ao vivo. 

Outro acontecimento significativo foi, em 1940, a inserção de plateia nos programas de rádio. A partir de então, os programas ao vivo, no formato palcos-auditório, caíram em gosto popular. Assim, o mistério que cercava os rostos por trás das vozes ouvidas através dos rádios começaram a ser revelados. Cada vez mais eram necessárias, além de boas vozes, boa aparência.

A partir daí surgiu o animador, pessoa responsável por qualquer coisa capaz de “provocar gritos e palmas” (TINHORÃO, 2014, p. 100) em seu público. Migrando para a TV, durante a década de 60, talvez apenas o que mudou tenha sido a classe social da plateia, enquanto o foco continuava em julgar vozes, aparência, música e performance. De qualquer maneira, o público não estava ali para participar, apenas para esboçar alguma reação quando assim solicitado pelo animador. 

Além do fato de ter-se música apresentada por especialistas, a reprodução maciça na mídia não é apenas um divertimento mundano, mas é artifício capaz de

veicular ideias, experiências vividas, ideologias [...] controlar a receptividade dos ouvintes, modificar seu humor, sua sensibilidade, ‘condicionar’ alguns dos seus reflexos, e até mesmo alterar sua personalidade por meio de outros elementos da música, dentre os quais o ritmo, a melodia, a instrumentação, a massa orquestral e, sobretudo, a repetição da escuta (NGHIEM, 2019, p. 58).

Ainda, a repetição reduz a capacidade de atenção: “repetição leva à automatização, permitindo que a atenção se concentre em outro lugar” (TAHER, RUSCH E MCADAMS, 2016, tradução nossa). É como ligar o piloto automático. Já a imprevisibilidade exige atenção, consciência e doação: “Em música, a novidade atrai a atenção e neutraliza o tédio, aumentando a memorabilidade” (LEVITIN, 2021, p. 256). Tais elementos, atenção e memorabilidade, são necessários para a produção de uma resposta, que seja orientada, consciente, ativa e frutuosa (cf. SC 11).

 

3.             A NATUREZA PARTICIPATIVA

 

Desde a Idade da Pedra, durante uma prática ancestral que buscava criar um elo entre a humanidade e o sagrado, já era comum a participação do povo nos momentos musicais. Ainda que existisse um especialista, com músicas próprias e que apenas ele podia utilizar, “não faltavam momentos em que as outras pessoas podiam fazer música, individual ou coletivamente” (KINDERSLEY, 2014, p. 15).

A música era tão importante em algumas sociedades que, como habilidade social, esperava-se a criação de canções improvisadas, similar a maneira como, rotineiramente, se participaria de uma conversa. Considerando a música uma ferramenta para a comunicação, podemos entender que, assim como a linguagem, há diversos elementos a nosso dispor, os quais temos capacidade de usar e rearranjar de maneira a atingir com maior eficácia nosso objetivo. Isso significa que, assim como na linguagem, não precisamos aprender todas as frases, como um roteiro pronto e rígido, que utilizaremos durante toda a vida. As palavras e expressões que aprendemos desde a infância nos fornecem provimento para construir e estruturar um raciocínio em qualquer situação, de mais de uma maneira diferente. O mesmo ocorre com o canto. Desde a infância, se estimulados com música, em seus mais que diversos ritmos e estilos, reunimos um conjunto de elementos aos quais recorremos em momentos também diversos.

Celebrar Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, centro de nossa reunião, exige sintonia. A decisão de participar deveria vir acompanhada do total entendimento da ação: tomar parte, ou seja, apossar-se daquilo o que compete, ou seja, estar consciente, o que envolve o oposto de estar dormindo. Isso significa que ocorrerão (ou deveriam ocorrer) atos cognoscitivos correspondentes a um estímulo. Logo, se não há resposta a determinado ato, quando naturalmente deveria acontecer, fica compreendido que houve um treinamento coercitivo de encontro a natureza participativa humana. Para ficar ainda mais claro, basta pensarmos na ação executada ao assistir: Assistir à TV, assistir ao show, assistir à missa. Entende-se, nesse caso, assistir como pura e simplesmente estar presente enquanto algo acontece.

A música ou, mais especificamente, o canto deve ser facilitador e forma de expressão, enquanto ação, do povo reunido, em consonância com o texto, buscando a prática da obediência aos ensinamentos de nosso Senhor Jesus Cristo e não usar de vãs repetições (Mt 6,7): “Deus atua no ser humano com a Palavra que ele lhe confia, se o ser humano se deixa interpelar, trabalhar e transformar por essa ação, é muito natural que reaja e responda com a oração, mesmo na forma de canto” (RAMPAZZO; CANOVA; DURIGHELLO, 2022, p. 77). 

A natureza participativa humana une-se à “natureza comunitária da estrutura litúrgica essencial da missa” (VAGAGGINI, 2009, p. 257). Assim, percebe-se que, em uma natureza participativa, não cabe individualismo ou subjetivismo. Trata-se, sim, de uma natureza que conduz à ação unitária de um só corpo, o que torna anômalo o fato de ser presente na missa como simples espectador ou ouvinte.

CONCLUSÃO

            Lamentavelmente frequente é encontrar uma assembleia inerte, perdida em movimentos introspectivos individuais, cativa em um torpor induzido por ausência de (in)formação adequada sobre a natureza da expressão litúrgica no canto: participativa e comunitária. Aparentemente, consolidou-se uma fobia coletiva no que tange ao canto na missa, corrompendo-se o papel do coro/solista, para destacá-los como protagonistas.

            Sabe-se que funções cognoscitivas podem ser treinadas e aprimoradas. Entretanto, esse treinamento é tanto capaz de preparar para a ação quanto para a inanição. Usufruindo-se do surgimento da prática popular do canto por especialistas, em apresentações para plateias que, por afinidade ou por indução massificada, se reúne para prestigiar a performance de determinado artista, observamos uma prática bastante similar, propagando-se nas Igrejas, durante a ação sagrada da missa.

            Contrariando a natureza musical inerente aos instintos humanos, surge uma infeliz apatia gerada por insciência em relação à dinâmica dialogal que de fato ocorre na celebração Eucarística. Dinâmica que exige a participação atenta a cada acontecimento, consciência da necessidade da participação ativa nos momentos adequados, compreensão de que, uma vez decididos a estar presentes, a inercia não é uma opção.

            Bem celebrar exige a união além da presença física. Envolve estar imerso, concentrado, plenamente parte da Igreja Corpo. Ações, palavras, canto e silêncio em plena reciprocidade, admitindo e permitindo a expressão musical instintiva e natural: participar.

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BECCACECE, Livia et al. Human Genomics and the Biocultural Origin of Music. International jornal of molecular sciences, 2021. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8160972/#B11-ijms-22-05397>. Acesso em: 09 de jun. 2023

 

BÍBLIA – Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2003.

 

CATA PRÊTA, Anderson. A musicalidade do indivíduo: Construtora da Expressão no culto. ASLI, 2023. Disponível em: < https://www.asli.com.br/artigos/a-musicalidade-do-individuo--construtora-da-expressao-no-culto>. Acesso em 09 de jun. 2023.

 

KINDERSLEY, Dorling. Música: O Guia Visual Definitivo da Música: da Pré-História ao Século XXI. São Paulo: PubliFolha, 2014.

 

LEVITIN, Daniel J. A música no seu cérebro: A ciência de uma obsessão humana. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2021.

 

NGHIEM, Dr. Minh Dung. Música, inteligência e personalidade: O comportamento do homem em função da manipulação cerebral. Campinas, SP: Vide Editorial, 2018.

 

Constituição SACROSANCTUM CONCILIUM sobre a liturgia. São Paulo: Paulinas, 2002.

 

OESCH, Nathan. Music and Language in Social Interaction: Synchrony, Antiphony, and Functional Origins. Frontiers in psychology, 2019. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6614337/>. Acesso em: 09 de jun. 2023.

 

RAMPAZZO, Fulvio; CANOVA, Massimo; DURIGHELLO, Gianmartino. Cantar a Liturgia: Perfil Histórico-Teológico e Indicações Pastorais. São Paulo: Edições Loyola, 2022.

 

RENTFROW, Peter J; GOSLING, Samuel D. The do re mi’s of everyday life: the structure and personality correlats of music preferences. Journal of personality and social psychology, 2003. Disponível em: < https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12793587/>. Acesso em: 09 de jun. 2023.

 

TAN, Yi Ting et al. The genetic basis of music ability. frontiersin.org, 2014. Disponível em: <https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpsyg.2014.00658/full>. Acesso em: 06 de jun. de 2023.

 

TAHER, Cecilia; RUSCH, René; MCADAMS, Stephen. Effects os Repetition on Attention in Two-part Counterpoint. mcgill.ca, 2016. Disponível em: < https://www.mcgill.ca/mpcl/files/mpcl/taher_2016_muspercept.pdf>. Acesso em: 09 de jun. de 2023.

 

TINHORÃO, José Ramos. Música Popular: Do gramofone ao Rádio e TV. 2. Ed. São Paulo: Editora 34, 2014.

 

VAGAGGINI, Cipriano. O Sentido Teológico da Liturgia. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

 

XAVIER JUNIOR, Joaquim Ferreira. A Psicogenética: Demarcando os processos da vida. Tremembé: Vésper Editora, 2004

 

*Mestranda em Economia, Políticas Culturais e Indústrias Criativas. Musicoterapeuta. Especialista em Arranjo Musical e Especialista em Gestão de Pessoas, Licenciada em Música e Licenciada em Letras. julianamaramatos@gmail.com


 
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